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sábado, 4 de setembro de 2010

Coco Chanel & Igor Stravinsky

Paris, 1913. O compositor russo Igor Stravinsky (Mads Mikkelsen) estréia sua mais nova obra, "A Sagração da Primavera". O clima é de tensão antes mesmo da música começar. Os dançarinos estão ensaiando atrás da cortina. Os músicos estão confusos com a partitura. "Esqueça a melodia e siga o ritmo", diz o maestro ao primeiro violinista. "Isso não é Tchaikovsky, Strauss ou mesmo Wagner". Quando a música começa, consternação na platéia. O ritmo forte e as notas dissonantes soam como ruídos para os franceses do início do século XX, que vaiam aquela que viria a ser uma das obras mais conhecidas da música erudita.

No teatro estava Coco Chanel (Anna Mouglalis), a estilista mais famosa da história, feminista pioneira e independente. Ela é das poucas que gostou do que ouviu e fica intrigada com o compositor. Os dois são apresentados somente sete anos depois, em 1920. Stravinsky está exilado na França por causa da Revolução Russa de 1917, e mora em um quarto de hotel com a esposa Katarina (Elena Morozova) e vários filhos. Chanel, mais bem-sudedida do que nunca, está de luto pela morte do amante, o inglês Boy Capel, e oferece a Stravinsky sua casa no campo, onde ele poderia trabalhar em paz e se instalar com a família. O que mais ela estaria oferecendo? Dois artistas geniais e polêmicos, não demora muito para que a convivência na mesma casa acabe em um tórrido romance.

O filme do holandês Jan Kounen foi produzido e lançado praticamente ao mesmo tempo que outro sobre a estilista francesa, "Coco antes de Chanel", produzido com mais recursos e estrelado por Audrey Tautou. "Chanel & Stravinsky" é um filme menos interessado na biografia e mais profundo na relação entre os personagens. A Chanel de Anna Mouglalis é mais "mulher", mais senhora de si e menos atrapalhada que a personagem criada por Tautou. É verdade que as épocas são diferentes. É como se "Chanel & Stravinsky" fosse uma continuação mais séria de "Coco antes de Chanel", tendo a morte de Boy Capel como ponto de ligação.

O ator dinamarquês Mads Mikkelsen faz de Stravinsky um homem emocional, apaixonado por sua música e talvez um pouco inseguro com as mudanças que está criando. É bom pai e tem na esposa não só uma companheira de infância como sua principal crítica. É ela quem transcreve seus rabiscos para a partitura. A estilista Chanel se identifica com o processo criativo de Stravinsky e ela tem o modo seguro de quem sempre consegue o que quer. O processo de aproximação física entre os dois artistas é muito bem conduzido pelo diretor. A câmera está sempre em movimento, circulando os personagens e revelando humores e cenários. Observe a elegância do plano que mostra Stravinsky invadindo o quarto particular de Chanel, vazio, para explorá-lo. A própria cor do filme muda sutilmente, ficando mais quente, contrastando com os tons pretos e brancos característicos da moda de Chanel. Há várias cenas de sexo que sugerem uma paixão mais carnal do que própriamente amor. Enquanto isso, pelo resto da casa, vemos a tensão aumentando entre criados, esposa e filhos. A música do próprio Stravinsky é bem usada nos momentos de suspense.

O final revela, em algumas cenas intercaladas com o presente, o final aparentemente solitário dos dois artistas, cuja obra é influente até hoje. (filme visto como cortesia no Topázio Cinemas, Campinas).


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Coco antes de Chanel

O visual de "Coco antes de Chanel", a biografia dos primeiros anos da famosa estilista francesa, é impecável. A direção de fotografia de Christophe Beaucarne compõe planos que mais parecem tirados de quadros de Monet ou Renoir. Igualmente notáveis são o trabalho de figurino e direção de arte, nos transportando para a França no começo do século XX, na mudança das carruagens para os carros a motor, dos lampiões para as lâmpadas elétricas. É uma produção extremamente caprichada, sem dúvida.

Já o roteiro, infelizmente, deixa a desejar. A intenção é mostrar os anos anteriores ao sucesso alcançado pela estilista Gabrielle "Coco" Chanel (interpretada por Audrey Tautou), de origem pobre, uma órfã abandonada pelo pai em um orfanato católico. Coco e sua irmã se tornam cantoras em uma casa de shows em que convivem com prostitutas e tentam evitar ser confundidas com elas. Coco é uma moça inteligente mas, aparentemente, "sem sal". Vê o mundo com os olhos práticos e cínicos de quem não espera ajuda de ninguém. Ela atrai a atenção de um nobre rico chamado Étienne Balsan (Benoit Poelvoorde) e, em uma relação prática de troca, ela passa a viver sob seu teto como sua amante e "divertimento" particular. Diferente das mulheres da época, Coco não gostava de usar as roupas apertadas e cheias de enfeites da moda e nem cavalgava sentada de lado, como "apropriado" para uma mulher. Na enorme casa de Balsan a vida é uma sucessão de festas e atividades fúteis, com amigos e parasitas convivendo com jockeys e suas amantes. Coco trava amizade com Emilienne (Emmanuelle Devos), uma atriz que adora as roupas de Coco e seus chapéus, feitos por ela mesma. Coco também se apaixona por um inglês chamado Arthur Capel (Alessandro Nívola), que está com um casamento de conveniência marcado (o que faz com que Chanel prometa que nunca irá se casar com ninguém).

Dirigido por Anne Fontaine, o filme é extremamente "agradável", mas nunca chega a decolar. Tautou (que me lembrou Audrey Hepburn), tenta dar um pouco de humanidade à fria Coco Chanel, mas creio que o roteiro não faça justiça à vida da estilista. Para uma mulher aparentemente tão à frente do seu tempo, ela parece depender demais da ajuda de um homem para sobreviver, seja como amante de Balsan ou, mais tarde, de Arthur Capel. Seu lado estilista é visto de forma superficial, como mera criadora de chapéus para as amantes e frequentadoras do castelo de Balsan. Mais para o final ela subitamente já é vista como a que viria ser uma das estilistas mais influentes do mundo da moda e o filme termina. Mas, repito, os méritos técnicos e o elenco do filme o fazem parecer melhor do que realmente é. Vale mais como um retrato de uma época do que como a biografia de uma pessoa.