segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O Leitor

Um aviso ao leitor: é praticamente impossível comentar sobre o filme sem revelar alguns pontos importantes da trama. Assim, deixo avisado: caso não tenha visto o filme ainda, evite ler o texto. Há dois ou três "filmes" dentro de "O Leitor". A primeira parte se passa alguns anos depois do final da II Guerra Mundial, na Alemanha, e acompanha um romance entre um rapaz de 15 anos e uma mulher mais velha. Ele é Michael Berg (David Kross), um rapaz que passa mal dentro de um ônibus e é ajudado pela cobradora, Hanna Schmitz (Kate Winslet), que cuida dele e o leva para casa. Após passar três meses de cama, o rapaz volta para a casa de Hanna e os dois começam um romance que, no início, parece ser apenas carnal. Kate Winslet, além de ter se tornado uma grande atriz com o passar dos anos, é sem dúvida uma das atrizes mais corajosas e naturais quando se trata de cenas de nudez e sexo no "púdico" cinema americano atual. Seu retrato de Hanna é interessante e misterioso. Hanna é uma mulher aparentemente fria e prática, mas há algo de maternal e amoroso em seu interesse por Michael. Os dois se relacionam sexualmente praticamente todos os dias, mas um outro "ritual" se cria: Hanna gosta que Michael leia para ela os livros que estuda na escola. É interessante ver, no mundo de hoje, um filme que se preste a homenagear os livros desta forma. Hanna e Michael formam um laço que mistura literatura com sexualidade, um dando ao outro novos horizontes com o passar dos dias. Há uma cena muito boa entre David Kross e Kate Winslet quando, após uma briga, o rapaz faz a ela uma série de perguntas simples, mas importantes. Winslet não fala nada, mas vejam com que sutileza ela responde com pequenos movimentos da cabeça fazendo "sim" e "não".

Esta primeira parte, ensolarada e romântica, dá lugar à uma segunda passada quase toda em um tribunal. Michael, mais velho, é um estudante de Direito que vai acompanhar o julgamento de algumas mulheres acusadas de cumplicidade em assassinatos praticados pelo nazismo. Para sua grande surpresa, uma delas é Hanna, que ele não via há anos. Durante o julgamento, a culpa dela vai se tornando cada vez mais evidente. Só que um "segredo" dela também começa a se revelar para Michael, e ele se vê na oportunidade de ajudá-la, mas ele hesita. Há nesta hesitação algo do comportamento alemão durante a guerra, e da culpa de um povo que, mesmo sabendo das barbáries cometidas pelos nazistas, geralmente se mantinha calado e conivente. Hanna sem dúvida é culpada de muitas coisas das quais é acusada, mas o que a teria levado a fazer o que fez? O professor de Direito de Michael diz que os ser humano acha que o mundo é governado pela moral quando, na verdade, ele é governado pelas leis. É perfeitamente possível fazer algo legal que seja imoral, e vice-versa. Todas estas questões são levantadas nesta segunda parte do filme pelo diretor Stephen Daldry (de Billy Elliot e As Horas).

E há a parte do filme dedicada ao Michael de meia idade, interpretado por Ralph Fiennes. Estes segmentos passados em um tempo mais recente são irregulares, variando de fracos a ótimos. Por vários momentos se tem a impressão que o filme vai terminar, mas ele se estende um pouco além da conta. "O Leitor" está entre os concorrentes a Melhor Filme no próximo Oscar, e sem dúvida é um candidato de respeito. É uma produção caprichada, com destaque para a reconstituição de época e pela bela fotografia de Chris Menges e o incansável Roger Deakins (que também fotografou "Foi apenas um sonho" e "Dúvida").


3 comentários:

Victor Afonso disse...

Boa crítica!

João Solimeo disse...

Valeu, obrigado!

Kekinha disse...

nao acredito que vou ter que esperar para ler!!!!hunffff, assim nao vale!rsrsrsrss

Pensei que ja tivesse te linkado... bom, agora ta!

bjins