Mostrando postagens com marcador darren aronofsky. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador darren aronofsky. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de abril de 2014

Noé

Atenção, esta resenha contém SPOILERS. E se você acha estranho um aviso destes precedendo um texto sobre um filme bíblico, você tem razão, mas  isto só serve para mostrar o quanto o novo filme de Darren Aronofsky é...singular. Todo mundo conhece, em linhas gerais, a "trama" de Noé.  Desconsolado com a própria criação, Deus resolve matar todos os seus filhos em uma grande inundação que assolou a Terra do Velho Testamento. Apenas a família de Noé e um casal de cada animal do planeta seriam salvos pela construção de um gigantesco navio, ou Arca, que sobreviveria à tempestade. Após o dilúvio, Noé e família seriam responsáveis pelo repovoamento do planeta. Tudo muito bem.

Como contar esta história para espectadores de cinema do século 21? "Noé" poderia ter sido um filme bíblico tradicional, heterodoxo e (provavelmente), muito rentável financeiramente. Ao invés disso, os produtores resolveram ousar já na contratação do diretor Darren Aronofsky, que tem uma das carreiras mais estranhas de Hollywood. Ele começou com filmes independentes como "Pi" (1998), fez um pesado filme sobre drogas, "Réquiem para um Sonho" (2000), afundou nas bilheterias com "Fonte da Vida" (2006), realizou um "filme de luta" tradicional, "O Lutador" (2008) e alcançou Hollywood e o povão em "Cisne Negro" (2010).

Aronofsky tem um sentido visual apurado e "Noé", sem dúvida, é interessante de se ver. O planeta habitado por Noé (Russell Crowe, de "Os Miseráveis") e sua família existe em um tempo dão distante que o Universo ainda era novo, e estrelas podiam ser vistas durante o dia. Uma narração conta a história da queda do Homem após comer o "fruto proibido" no Jardim do Éden, seguida da expulsão do paraíso e o assassinato de Abel por Caim (filhos de Adão e Eva). Este então teria se separado da família e criado uma legião de seguidores frutos do pecado e da ambição. Como é que Caim conseguiu procriar sem que houvesse nenhuma outra mulher no planeta além da mãe, Eva, é algo que o filme (e a Bíblia), deixam de explicar. Mas esta é uma daquelas "falhas de roteiro" que já duram milênios e não sou eu que vou conseguir explicar. Mas Aronofsky parece querer fazer um filme "plausível", então a pergunta é válida. Noé sonha com o dilúvio e adivinha as intenções do "Criador" em destruir o planeta. Após consultar o avô, Matusalém (Anthony Hopkins, risivelmente parecido com o "Mestre dos Magos", da "Caverna do Dragão"), Noé começa a construção da Arca que salvaria os animais durante o "reboot" promovido pelo "Criador". (leia mais abaixo)


Há um detalhe que deixei para o final por ser, em minha opinião, a decisão criativa mais estranha (e errada) do filme. Noé é auxiliado tanto na construção da Arca quanto na sua proteção por criaturas chamadas de "Guardiões", que seriam anjos caídos na Terra e transformados em gigantes de pedra. Por mais fantasioso que o filme seja, fica difícil levá-lo a sério quando estes "Transformers de pedra" aparecem. Até a voz deles lembra os robôs dos (péssimos) filmes de Michael Bay. O que Aronofsky estava pensando? Ok, os "Guardiões" podem "explicar" como a Arca poderia ser construído; da mesma forma, quando os milhares de "filhos de Caim" (liderados por Ray Winstone) tentam invadir a Arca, os "Guardiões" têm a função de impedi-los. Tudo isso, no entanto, poderia ser explicado de outra forma, como o "poder de Deus", raios caindo do céu ou coisa parecida. Mas fica difícil segurar o riso ao ver "Samyasa" (até o nome parece de um robô japonês), um dos "Guardiões", pisando e despedaçando centenas de pobres coitados tentando chegar à Arca durante o dilúvio.

Há vários bons momentos (principalmente quando os "Guardiões" não estão visíveis), o elenco é sólido e Russell Crowe é imponente o suficiente para personificar um dos ancestrais míticos da Humanidade. As cenas que mostram os animais chegando à Arca são muito bem feitas (apesar do exagero nos efeitos digitais). E há uma maravilhosa sequência em que Russell Crowe conta aos filhos a história do "Genesis", ilustrada com visual deslumbrante, que merecia estar em um filme melhor.

Câmera Escura

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Cisne Negro

Nina (Natalie Portman) é uma boa moça. Ela mora com a mãe amorosa (Barbara Hershey) e dorme em um quarto que ainda parece o de uma menina, com bichos de estimação e caixinhas de música. Ela é uma bailarina dedicada que através de muito esforço chegou onde queria, ao papel principal de um dos balés mais famosos da música, "O Lago dos Cisnes".

Nina (Natalie Portman) é uma moça problemática. Aos 28 anos, ainda mora com a mãe superprotetora, que trata a filha como se fosse uma criança. Os anos de dedicação e obsessão com o balé estão cobrando seu preço e Nina tem pesadelos constantes, vomita o pouco que come e tem marcas estranhas pelo corpo, como arranhões e sangramentos inexplicados. O papel principal em "O Lago dos Cisnes" a está enlouquecendo; o diretor do balé (Vincent Cassel) quer que ela faça igualmente bem o Cisne Branco e o Cisne Negro, lados opostos em comportamento, modo de agir e personalidade. Qual das duas Ninas é a real?

O novo filme de Darren Aronofsky (de "Requiem para um Sonho" e "O Lutador") é uma viagem alucinógena ao mundo competitivo e perfeccionista da dança. O balé clássico, com suas sapatilhas apertadas e horas exaustivas de ensaios e treinamentos, envolve também muito ego e os sonhos e a sensibilidade de mulheres que ainda tem o corpo (e talvez a mente) de uma criança. Aronofsky aproxima a câmera dos dançarinos e nos leva para dentro de ensaios e apresentações. Não só isso, ele nos leva para dentro da mente conturbada de Nina, que não sabe mais se pode confiar nos próprios olhos. Para complicar, a chegada de uma nova e sensual bailarina, Lily (Mila Kunis), afeta ainda mais Nina; ela sente atração ou repulsa? O trabalho de maquiagem e iluminação iludem o espectador fazendo com que Nina e Lily se confundam em cena, como reflexos em um espelho distorcido. Lily parece mais do que interessada em Nina, e algumas cenas entre Natalie Portman e Mila Kunis causaram alvoroço no público americano, mas diria que elas são mais bizarras do que sexy. Estaria Lily planejando tomar o papel de Nina no balé? Ou, como diz o diretor a Nina, seu maior obstáculo é ela mesma?

Tecnicamente falando, atente para o ótimo uso de espelhos e de falsos espelhos criados pela fotografia do filme. A câmera é literalmente invisível em alguns planos em que, pela lógica, ela deveria estar sendo refletida no espelho mostrado em cena, mas engenhosos truques óticos (usando dublês e um cenário maior do que o real) enganam os olhos. Inteligente também o uso dos reflexos para representar idéias e sensações. Quando Nina está no metrô, por exemplo, seu reflexo no vidro está sempre com um fundo sombrio atrás, mostrando sua insegurança. Há uma ótima cena em que vemos Nina, jovem e esguia, em primeiro plano, e o reflexo de uma velha bailarina em segundo plano, como que representando a inevitável decadência do corpo humano.

Pelo lado humano, "Cisne Negro" pode ser descrito como a história triste e trágica de uma garota dominada pela mãe e presa em uma cela sem grades. Curiosamente, é o mesmo tema encontrado no infantil "Enrolados", também lançado em 2010. Assim como a estranha relação espelhada entre Nina e Lily, o visual de Natalie Portman e Barbara Hershey também é semelhante. A relação aparentemente amorosa entre mãe e filha, na verdade, mascara uma simbiose doentia entre as duas. A mãe não quer que a filha cresça, e as tentativas de rebelião de Nina acabam se refletindo em seu próprio corpo, com feridas que surgem não se sabe de onde. São auto infligidas? São apenas ilusões? Natalie Portman está excelente e sua interpretação é aposta certa no próximo Oscar.

Certas sequências (e grande parte do final), a bem da verdade, não podem ser explicadas racionalmente. Mas Aronofsky envolve o espectador em uma espiral descendente em que, assim como a personagem principal, não sabemos se podemos ou não confiar em nossos sentidos, e muito menos na razão. "O Lago dos Cisnes" é uma das composições mais trágicas do grande compositor russo Tchaikovsky, e o tema principal é dos mais belos, e tristes, da sua obra. Ele é aproveitado pelo compositor da trilha, Clint Mansell (habitual colaborador de Aronofsky) durante a estonteante sequência final. Aronofsky não é um diretor habituado a sutilezas e, assim como a música de Tchaikovsky, "Cisne Negro" é por vezes exagerado, mas é forte, sublime e trágico.


domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Lutador

Um filme honesto, quase um documentário, "O Lutador" ainda traz como trunfo uma história cara à fábrica de sonhos hollywoodiana: o tema do retorno. Não há nada mais atraente no cinema americano do que a história de alguém que volta à cena depois de um tempo de obscuridade. O detalhe em "O Lutador", no entanto, é que o retorno se dá mais nos bastidores do que na tela. O filme não é só sobre os personagens, mas sobre a volta por cima do seu protagonista, o ex-galã "bad boy" dos anos 80, Mickey Rourke. Astro de filmes adultos como "9 1/2 Semanas de amor" (de Adrian Lyne), "Coração Satânico" (de Alan Parker) e de "O Selvagem da Motocicleta" (de Francis Ford Coppola), entre outros, Rourke provocou polêmica em cenas de sexo em "Orquídea Selvagem" (de Zalman King, rodado no Brasil), afundou nas drogas e até embarcou em uma carreira como boxeador profissional. E ninguém sabe direito, até agora, o que deu errado na cirurgia plástica que distorceu seu rosto completamente. Em 2005 fez bonito em "Sin City", coberto por maquiagem e efeitos especiais, mas a volta por cima, definitivamente, é mesmo neste "O Lutador".

Rourke é Randy "The Ram" Robinson, um praticante de luta-livre que estava no auge da fama nos anos 80. Vinte anos depois, ele ainda está nos ringues, mas está longe da forma física ideal e da glória do passado. Ele trabalha em um supermercado durante a semana e ganha uns trocados na luta-livre aos sábados. Vive sozinho em um trailer, que mal consegue pagar, tem paixão por uma "stripper" (Marisa Tomei) que visita frequentemente e uma filha, Stephanie (Evan Rachel-Wood), que não quer nada com ele. A vida de "Ram" é filmada pelo diretor Darren Aronofsky, diretor que tem uma relação de amor e ódio com a crítica e cujo último filme, "A Árvore da Vida", foi duramente criticado. Ele é autor dos cult "Pi" (1998) e "Requiém para um sonho" (2000), que eu acho brilhante, com Jenniffer Connelly, que mostra os efeitos devastadores do vício das drogas. Em "O Lutador" ele volta com um estilo despojado, com muita câmera na mão e sem efeitos, frequentemente seguindo o personagem como um cinegrafista de documentário. Esse tipo de visão serve ainda mais para humanizar os personagens, todos decadentes e o contrário do utópico "sonho americano". Algumas das melhores cenas são as dos bastidores das lutas. Elas mostram os lutadores como uma espécie de trupe de circo, homens orgulhosos, imensos, com músculos criados à base de muito exercício e de esteróides anabolizantes. Há admiração mútua entre os lutadores e é tragicômico vê-los combinando os golpes que vão fazer em seguida. As lutas são combinadas? Claro que sim, mas isso não significa que não sejam violentas ou mesmo brutais. O próprio "Ram" usa uma Gillete escondida nas ataduras para se cortar durante as lutas e dar ao público o que ele quer: muita pancadaria e sangue.

Mas tudo tem seu preço. Após uma luta particularmente pesada, "Ram" cai no vestiário, vítima de um ataque cardíaco. Um médico diz que ele sobreviveu por sorte e que deve parar de se drogar e, principalmente, de lutar. Para "Ram", seria preferível a morte. O filme conta também com o "retorno" de Marisa Tomei, indicada ao Oscar de "Melhor Atriz Cadjuvante". Até hoje há quem diga que o Oscar que ela ganhou em 1992 por "Meu primo Vinny" foi uma brincadeira do apresentador do prêmio, ou mesmo um erro. De fato, ela nunca foi grande atriz mas, de uns tempos para cá, sua participação em filmes como "Antes que o diabo saiba que você está morto" revelam uma nova mulher. Em "O Lutador" ela é uma mãe solteira que interpreta uma "stripper" que tem muito em comum com o personagem de Mickey Rourke. Ambos exploram (e abusam) do próprio corpo para viver e já passaram um pouco da idade para isso. A diferença é que enquanto ela não gosta da profissão, e está planejando largá-la, ele não consegue ser outra coisa a não ser um lutador. Há uma ótima cena que mostra "Ram" se preparando para seu primeiro dia atrás do balcão do açougue do supermercado e a câmera o segue pelos corredores até a entrada, como se estivesse indo para uma luta. Ele para na porta do açougue enquanto escutamos, em sua imaginação, o som raivoso da multidão de um ringue de luta-livre.

Não há como negar as semelhanças com o "Rocky" de Sylvester Stallone, principalmente no primeiro filme (que já era uma homenagem a todos os filmes de luta do cinema). "O Lutador" é mais realista e, por isso mesmo, mais cruel. Mas, ao mesmo tempo, chega a ser poético, principalmente em sua última cena. Premiação quase certa para Mickey Rourke, como ator, no Oscar desta noite. Falando em Oscar, o filme poderia perfeitamente estar indicado entre os cinco esta noite, assim como seu diretor. Em uma premiação "esquisita", que está tentando mais uma vez ser "diferente" para atrair audiência, a Academia provavelmente vai premiar "O curioso caso de Benjamin Button". Se o objetivo era atrair audiência, poderiam ter indicado o ótimo "Batman - O Cavaleiro das Trevas".