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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Pai Nosso? (Our Father, 2022)

Pai Nosso? (Our Father, 2022). Dir: Lucie Jourdan. Netflix. Documentário com uma história tão bizarra que um dos produtores é Jason Blum, especializado em filmes de terror, "Pai Nosso?" começa com o depoimento de Jacoba Ballard. Loira de olhos azuis, ela desconfiou que não fosse filha biológica de seus pais e descobriu que a mãe havia passado por um tratamento de fertilidade com um especialista chamado Donald Cline. Até aí, tudo bem. A coisa começou a ficar estranha quando ela fez um teste de DNA que apontou que ela teria outros sete meio irmãos listados no banco de dados de um site especializado em árvores genealógicas. O especialista em fertilidade havia assegurado à mãe de Jacoba que os doadores de esperma eram usados em, no máximo, três fecundações. Investigando mais a fundo, Jacoba e seus meio irmãos chegaram à uma suspeita assustadora; tudo indicava que eles compartilhavam o mesmo DNA do Dr. Cline, o médico que havia feito o "tratamento" de fertilidade nas mães deles.

O documentário entrevista vários destes meio irmãos, todos bastante parecidos fisicamente, que descobriram que não eram filhos biológicos de quem chamavam de pais. As mães, horrorizadas, se deram conta de que foram inseminadas não com o esperma dos maridos, ou doadores anônimos, mas do próprio médico. Há um "contador" que aparece de tanto em tanto tempo na tela mostrando o número, cada vez maior, de pessoas que se descobriram filhos do médico. Para piorar, a comunidade em que eles viviam era relativamente pequena, o que aumentava a chance de que pessoas que nem sabiam serem irmãos haviam se conhecido, talvez até mesmo namorado ou tido filhos.

O áudio original das conversas do Dr. Cline com Jacoba, que o denunciou publicamente, é ouvido diversas vezes. Ela levou o caso às autoridades mas, bizarramente, os promotores não encontravam na lei uma forma de condenar o médico; o que ele fez foi estupro? Fraude? Ou as mães haviam apenas conseguido o que foram buscar, ou seja, uma gravidez bem sucedida? O documentário poderia ser mais aprofundado nos motivos que levaram o médico a fazer o que fez. Há menções a uma sociedade religiosa que prega que as pessoas tenham o maior número de filhos possível. O Dr. Cline era frequentador da igreja e benquisto na comunidade. Andava, também, com uma arma na cintura. Assustador. Tá na Netflix.
 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Four hours at the Capitol (2021)

Four hours at the Capitol (2021). Dir: Jamie Roberts. HBO Max. Bom documentário sobre a invasão ao Capitólio americano em 6 de janeiro de 2021. O filme é montado com entrevistas e muitas imagens reais do evento, tiradas de câmeras e celulares dos envolvidos, câmeras de segurança, câmeras de policiais, etc. É um passo a passo de um dos eventos mais bizarros (e potencialmente perigosos) da história americana. No dia 6 de janeiro de 2021, os congressistas americanos deveriam fazer a contagem oficial dos votos dos colégios eleitorais e chancelar a eleição, declarando a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump. Só que Trump já estava falando sobre fraude meses antes das eleições em si, então milhares de apoiadores, naquele dia, achavam que o congresso americano estava roubando as eleições. Para piorar, o próprio Trump fez um discurso naquela manhã incitando os apoiadores, pedindo que eles marchassem até o Capitólio e impedissem o "roubo".


No documentário, vemos tudo isso do ponto de vista de vários desses apoiadores, como imagens de um grupo de manifestantes de uma organização de direita chamada "Proud Boys" (só homens são permitidos). Eles marcharam até o Capitólio e encontraram bem pouca resistência na entrada (havia bloqueios e meia dúzia de seguranças). Aos poucos, porém, milhares de outros apoiadores foram chegando e tomando a frente do lugar, derrubando uma a uma as barreiras e chegando próximo ao prédio. Tudo culminou com um grupo que conseguiu entrar no prédio depois de quebrar janelas e portas, interrompendo a contagem dos votos e quase jogando os EUA em uma situação de "lei marcial".

A força (e fraqueza) do documentário está em não tomar partido. Escutamos depoimentos tanto do lado dos insurgentes quanto dos policiais e políticos. A falta de contexto, às vezes, prejudica o entendimento da situação. O que fala mais alto são as imagens impressionantes, principalmente de um embate entre uns 30 policiais e milhares de manifestantes que tentavam conquistar um túnel que dava acesso ao prédio. Os policiais fizeram uma barricada humana e tentaram segurar, com a força dos próprios corpos, milhares de manifestantes que empurravam do outro lado. É surpreendente que, diante de tudo isso, só uma pessoa foi baleada (uma manifestante) e um policial morreu por falta de ar. Fica meio sem explicação a morte de quatro policiais que teriam se matado dias depois do conflito, além de manifestantes que teriam morrido por questões "não relacionadas à invasão". O pior, no final, é a sensação de que essa situação não terminou. Milhares (talvez milhões) de americanos acham que a eleição foi roubada e estão dispostos a retomar o poder à força. Disponível na HBO Max.