segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Nevoeiro

O roteirista e diretor Frank Darabont é um caso de grande profissional com carreira irregular. Ele tem como espécie de marca particular um tipo de filme que, geralmente, prima pela classe, pelo ritmo lento e pelos bons atores. Darabont também se especializou em adaptar as obras de Stephen King que fogem dos filmes de terror mais rasos para obras em que o suspense é mais importante. "Um Sonho de Liberdade", de 1994, é um grande filme com Tim Robbins e Morgan Freeman que conta, de forma comovente, o dia a dia de um grupo de presos, um deles inocente, que planeja uma espetacular fuga. Já "À Espera de um Milagre", de 1999, não achei assim tão bom, nem tão sutil, mas ainda era um filme interessante. "Cine Majestic", de 2001, foi uma nostálgica homenagem ao cinema e aos filmes de Frank Capra e John Ford, com um roteiro que misturava a magia de Cinema Paradiso com os filmes sobre o período do Macartismo.

Agora ele retorna a Stephen King com a adaptação de "O Nevoeiro" (The Mist, 2007), filme que chega só agora às telas brasileiras. Infelizmente, é uma grande decepção. Em uma pequena cidade dos Estados Unidos, uma estranha névoa surge das montanhas após uma violenta tempestade. David Drayton (Thomas Jane), um desenhista de pôsteres de cinema, vai à cidade com seu filho comprar mantimentos quando a tal névoa chega e cobre tudo, trazendo junto uma ameaça desconhecida: um homem, desesperado e com sangue no rosto, diz que há "algo" dentro do nevoeiro, e que ninguém deve sair do supermercado. O cenário e a situação são típicos dos filmes "B" de ficção científica dos anos 1950, com seus personagens unidimensionais e seus monstros de borracha. Mas Darabont leva seu filme à sério, com um estilo que lembra os filmes de M. Night Shyamalan, que já fez filmes bons como "Sinais" (2002) ou equívocos como "Fim dos Tempos" (2008). O supermercado se torna uma espécie de radiografia dos Estados Unidos, com personagens que representam os diversos pontos de vista encontrados no país. Acuados, lá estão o advogado racionalista, Norton (Andre Braugher) que não acredita que haja monstros lá fora, o caipira ignorante (William Sadler), a loira de classe média (Laurie Holden), e assim por diante. O fanatismo religioso é representado pela Sra Carmody (Marcia Gay Harden, fazendo o que pode), que acredita que o fim do mundo chegou e que ela é a mensageira de Deus para salvar as almas da perdição.

Darabont põe tudo a perder na cena em que mostra as criaturas. Em um filme como este teria sido muito melhor deixar a imaginação do espectador funcionar e, junto com os personagens do filme, imaginar as ameaças que existem lá fora. Mas não. Darabont, na primeira oportunidade, mostra tentáculos gigantes (claramente feitos em computação gráfica) invadirem o estoque do supermercado e, em uma cena com muito sangue, fazer sua primeira vítima. Por que mostrar tanto, tão cedo no filme? E, para piorar, os tais tentáculos não têm relação com nada do que se vê depois. Há uma cena um pouco mais eficiente quando, ao cair da noite, insetos enormes começam a pousar no vidro do supermercado. Apesar de visualmente artificiais, os insetos ainda conseguem causar um temor natural que as pessoas têm de criaturas que elas podem reconhecer. Mesmo assim, logo a mão pesada dos efeitos especiais ataca novamente e criaturas inverossímeis começam a fazer vítimas. O estranho é que as ameaças, como em um videogame, chegam em fases. O desenhista David Drayton se torna uma espécie de líder da parte mais racional do grupo, enquanto os outros se juntam ao fanatismo da Sra Carmody. Mas o roteiro nem mesmo se decide com relação às ameaças lá fora. Em um momento sair do supermercado significa morte certa. Em outro, nada acontece. Tudo isso em longos 126 minutos, que terminam de forma artificial e afetada. Se for para ver um filme de monstros menos auto-importante e muito mais eficiente, veja "Cloverfield".

3 comentários:

Helvecio disse...

Sabe que heu gostei? Tá aqui o meu texto:
http://blogdoheu.wordpress.com/
Valheu!

Ricardo Melo disse...

O filme foi meio divisão de aguas mesmo. Criticas boas na Veja e no Antigravidade. Ruins, aqui, na Folha de S.Paulo e Estado de S.paulo. Vou esperar em video...

Unidade de Carbono no Palido ponto Azul disse...

Acabei de ver, achei longo, enrolado e final chato. Um filme pequeno do Darabount que já fez grandes filmes.