segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Caixa

Difícil saber qual idéia é mais estranha: a da trama de "A Caixa" ou a própria idéia de fazer um longa-metragem deste conto de Richard Matheson (originalmente chamado "Button, Button"), transformado em um ótimo episódio da série "Além da Imaginação", nos anos 1980 (que pode ser visto aqui). Como conto e curta-metragem, "O Botão" era uma intrigante fábula moral sobre até que ponto uma pessoa comum poderia ir em troca de dinheiro. A trama foi baseada em um experimento psicológico feito nos Estados Unidos (em que voluntários, achando que estavam testando o efeito das punições na memória humana, administravam choques elétricos em outras pessoas. Os choques, na verdade, não eram reais, mas muitos voluntários aplicaram choques que seriam fatais).

O casal Arthur e Norma Lewis (Cameron Dias e James Marsden) recebem uma estranha proposta. Um homem com o rosto deformado (Frank Langella) lhes entrega uma caixa com um botão vermelho no topo. Se eles apertarem o botão, duas coisas irão acontecer: uma pessoa que eles não conhecem morrerá, e eles vão receber um milhão de dólares. Simples assim. Eles não podem contar sobre a caixa para ninguém, e têm 24 horas para decidir o que fazer. Arthur é um cientista que trabalha para a NASA e tinha esperanças de se tornar astronauta. A trama se passa em 1976, logo após as sondas americanas pousarem em Marte, e Arthur foi o designer da câmera que tira fotos em 360 graus levada ao planeta vermelho. Para sua decepção, sua inscrição para astronauta é recusada porque ele não teria passado no teste psicológico. A esposa, Norma, é uma professora de literatura que gosta de Sartre e tem um dos pés defeituosos, por causa de um acidente na infância. Os dois são educados e estão longe de serem pobres, mas um milhão de dólares é muito dinheiro, certo? A proposta da caixa, claro, é uma outra forma de contar a história da queda do paraíso terrestre. O homem deformado é a serpente que chega para Eva e lhe pede que coma o fruto proibido, o que ela faz. Não aguentando a pressão, Norma acaba apertando o botão meia hora depois de começado o filme. O conto e o episódio de TV originais terminavam mais ou menos por aqui, e a moral da história é que o homem misterioso vinha buscar a caixa e dizia que a passaria para outra pessoa... que eles não conhecem.

Já o longa metragem parte para uma trama completamente absurda envolvendo pessoas que parecem zumbis, com sangue escorrendo pelo nariz, bases secretas em Langley, Virginia (a sede da CIA), gente agindo de forma estranha, pessoas que foram atingidas por raios e portais para outras dimensões. Tudo isso é produto da mente fértil do diretor Richard Kelly, diretor do "cult" Donnie Darko, amado por alguns e odiado por muitos. É fato que, apesar de absurdo, o filme é curiosamente atraente. Kelly atira para todos os lados, misturando suspense, terror e citações do mestre da ficção-científica, Arthur C. Clarke (que dizia que "toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia"). Há cenas de suspense muito bem dirigidas, principalmente uma que se passa em uma biblioteca. Mas a idéia origial, por melhor que seja, não tem fôlego para sustentar um longa-metragem. Ainda assim, "A Caixa" não deixa de ser um exercício interessante de suspense, com fotografia digital curiosamente fora de lugar em uma ótima recriação de época dos anos 70. Vale como curiosidade.


Um comentário:

Gui disse...

Confesso que saí revoltado do cinema quando acabou a sessão. Podia ter acabado lá pelos 30 minutos, quando ela aperta o botão. Por sorte paguei só R$3,50 pra assistir, senão exigiria meu dinheiro de volta! hahaha