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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O lado bom da vida

Há uma generosa dose de clichês em "O lado bom da vida". É daqueles filmes feitos para casais modernos, cheios de problemas (como todos os casais), em que as dificuldades serão superadas e tudo vai terminar no beijo final. Acrescenta-se uma dose de remédio tarja preta (também "na moda"), menções (mas não imagens) de sexo, cenas chorosas entre pais e filhos e, claro, uma competição a ser vencida. Ou melhor: duas. É de se admirar que o filme tenha sido feito pelo mesmo diretor de "Três Reis" (1999) e "O Vencedor" (2010), David O. Russell.

O roteiro (de Russell, baseado no livro de Matthew Quick) conta a história de Pat (Bradley Cooper), um cara que foi condenado a passar 8 meses em uma instituição psiquiátrica após ter surrado o amante da esposa. Ele sofre da versão hollywoodiana de "transtorno bipolar" e acredita piamente que a ex-esposa, Nikki (Brea Bee) vai voltar para ele. Ao sair da instituição ele vai morar com os pais, interpretados por Robert DeNiro e Jacki Weaver. DeNiro está um pouco melhor do que nos papéis fracos que tem feito ultimamente, embora ainda seja apenas uma sombra do talento do passado. Ele também tem problemas como transtorno obsessivo compulsivo e vício em apostas. Pat não perde tempo e, apesar de uma ordem judicial que o obriga a ficar longe da ex-esposa, tenta o tempo todo retomar o contato. Seria trágico se, neste filme, não fosse cômico. O roteiro arruma um par para Pat na figura também conturbada de Tiffany (Jennifer Lawrence, de "Inverno da Alma" e "Jogos Vorazes", mais adulta e bonita). O marido policial morreu recentemente e ela compensou a solidão transando com todos os homens (e mulheres) que encontrou pela frente, e tenta fazer sexo com Pat assim que o conhece. Ele, convicto, aponta para a aliança no dedo e diz que é casado. "Eu também sou", diz ela.

O roteiro de Russell perde oportunidades mas não perde a piada, e várias situações que poderiam render melhor dramaticamente são desperdiçadas. Não fica muito claro porque Tiffany deseja passar tanto tempo com Pat, a não ser pelo fato dele ser Bradley Cooper. O caso é que surge uma competição de dança que Tiffany quer participar e ela usa de chantagem emocional para transformar Pat, que nunca dançou na vida, em seu parceiro no torneio. Segue-se então aquelas montagens musicais em que vemos os dois ensaiando passos de dança no estúdio de Tiffany e, claro, os dois começam a se apaixonar. Só que ao invés de partir logo para um final "bonitinho" de comédia romântica, o filme estica mais meia hora misturando a trama do torneio de dança com uma aposta absurda feita pelo pai de Pat, que pode levar todos à ruína financeira. O lado sério do problema de jogo do personagem de DeNiro é esquecido em favor da piada fácil, e uma cena que deveria ser emocionante, em que DeNiro chora ao pedir para que o filho assista a um jogo com ele, perde o significado. Assim, "O lado bom da vida" é filme fácil para se assistir a dois em um sábado à noite, no DVD e comendo uma pizza. Apesar disso, ele foi indicado a oito Oscars: filme, direção, ator (Bradley Cooper), atriz (Jennifer Lawrence), ator coadjuvante (DeNiro), atriz coadjuvante (Jacki Weaver), edição e roteiro adaptado.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Inverno da Alma

Este é um lado dos Estados Unidos que raramente é visto no circuito comercial. "Inverno da Alma" venceu o Festival de Sundance, tradicional reduto de filmes independentes, e teve fôlego para chegar a quatro indicações ao Oscar (melhor roteiro adaptado, atriz, ator coadjuvante e melhor filme). Escrito e dirigido por Debra Granik e rodado no estado do Missouri, "Inverno da Alma" é um retrato de uma região onde, aparentemente, o "sonho americano" nunca chegou.

A jovem Ree Dolly (Jennifer Lawrence), de 17 anos, carrega a responsabilidade de cuidar de dois irmãos mais novos e da mãe com problemas psicológicos. O pai era um fabricante de "crack" que foi solto sob fiança, mas seu paradeiro é desconhecido. O xerife visita a casa de Ree e lhe avisa que o pai havia colocado o imóvel como garantia da fiança; se ele não se apresentar para sua audiência, Ree, a mãe e as crianças vão perder a propriedade. "Eu vou achar meu pai", diz a garota. Jennifer Lawrence faz um trabalho sério e convincente e a indicação ao Oscar foi merecida. A garota começa então a procurar pelo pai foragido mas, aos poucos, percebemos que ninguém está disposto a ajudá-la. Teria o pai fugido? Estaria escondido na casa de algum parceiro? Ou, o que se torna cada vez mais provável, estaria morto? Quem se incomodaria com um traficante a mais naquela região pobre e miserável?

A maioria dos personagens têm dificuldades financeiras ou com a lei. Suas casas não passam de cabanas ou trailers caindo aos pedaços. A família de Ree depende da ajuda de uma vizinha para não passar fome, ou então tem que comer esquilos que caçam na floresta. Granik faz um filme bastante feminino, mas não no sentido "frágil" ou "delicado", pelo contrário. As marcas da vida estão nos rostos de todas as mulheres de "Inverno da Alma". Os poucos homens mostrados na tela também parecem sobreviventes. O tio de Ree, chamado de Teardrop ("Lágrima"), é um sujeito assustador interpretado por John Hawkes, que me lembrou um jovem Dennis Hopper.

Há uma passagem que mostra como o exército americano consegue membros vindos da camada pobre da população. Ree tenta se alistar por causa dos 40 mil dólares prometidos aos novos recrutas, e só não consegue por ainda não ter os 18 anos exigidos. Mas não é difícil imaginar um exército de miseráveis indo perder suas vidas no Iraque em troca de 40 mil dólares. "Inverno da Alma" é baseado no livro de Daniel Woodrell, com roteiro adaptado por Debra Granik e Anne Rosellini. Um filme sério e honesto, cuja indicação ao Oscar tornou possível sua divulgação mundo afora.