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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

O Favorito (The Front Runner, 2018)

 
O Favorito (The Front Runner, 2018). Dir: Jason Reitman. Netflix. Filme político baseado na história real de um senador americano chamado Gary Hart (Hugh Jackman). Em 1988, Hart era o favorito para se tornar o próximo presidente dos Estados Unidos. Ele tinha 46 anos, era trabalhador, íntegro, carismático. Então, o desastre: um jornal de Miami publica uma matéria sobre um suposto caso extra-conjugal de Hart com uma bela modelo. Repórteres acamparam em frente à casa dele e tiraram fotos da suposta amante, que estampou a capa dos jornais e mudou o foco da campanha.

A tese do filme é que este foi o primeiro (ou, no mínimo, um dos primeiros) casos em que os jornais ditos sérios americanos (como o The Washington Post) se tornaram meros tabloides de fofocas. O roteiro (co escrito por Jason Reiman e o autor de um livro sobre o caso, Matt Bai) levanta uma série de questões interessantes sobre ética jornalística, curiosidade do público e os limites entre ambos. O problema é que, apesar de boas interpretações do elenco e uma execução competente, o filme parece não chegar a nenhuma conclusão a respeito. Uma figura pública tem direito à privacidade? Em um mundo em que todos expõem suas vidas o tempo todo, como o nosso, esse tipo de pergunta ainda tem razão de ser?

Reitman filma com franca influência de cineastas como Robert Altman, com takes longos em que a câmera passeia pelo rosto de um grande número de personagens; os diálogos se misturam e se entrelaçam de forma natural, mas confusa, por grande parte do tempo. O bom elenco conta com Vera Farmiga, J.K. Simmons, Kevin Pollack, Bill Burr, Kaitlyn Dever, Alfred Molina e mais um monte de gente boa. Para quem gosta de dramas políticos e boas interpretações. Tá na Netflix.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Juiz

"O Juiz" é um drama; é também um filme sobre família, sobre divórcio, sobre voltar para casa, sobre amores antigos e sobre o atrito entre pais e filhos. Como se não bastasse, é também um suspense e um filme de tribunal. Tudo isso se desenrola de forma nem sempre harmoniosa em longos 141 minutos, mas o elenco é bom, a parte técnica é competente e o filme tem tão boas intenções que, no fim das contas, o saldo é positivo.

Hank Palmer (Robert Downey Jr, excelente) é um advogado bem sucedido e antiético. Ele está defendendo um crápula qualquer na cidade grande quando recebe um telefonema. Sua mãe faleceu e ele tem que abandonar tudo e partir para a cidade natal. Antes dele partir, porém, ficamos sabendo que ele tem uma filha que o ama muito e uma esposa de quem está se divorciando.

Palmer volta então para Carlinville, Indiana, onde o funeral da sua mãe o espera. Mas ele parece mais preocupado com o fato de que vai reencontrar o pai, o venerável Juiz Palmer (Robert Duvall, em interpretação que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante) do que com a morte da mãe. Os dois não se falam há anos por causa de problemas no passado. Hank tem um irmão mais velho, Glenn (Vincent D´Onofrio) e outro mais novo, Dale (Jeremy Strong), que tem deficiência intelectual e está sempre com uma câmera de Super-8 nas mãos. (leia mais abaixo)


Até este ponto imaginamos que vamos ver um típico filme de reunião de família. Hank passeia pela cidade natal, encontra uma ex-namorada (Vera Farmiga, de "Amor sem Escalas") e, com o corpo da mãe ainda quente, entra em discussões com o pai. É então que, em uma reviravolta, o filme familiar se transforma em um filme policial. Um ciclista é encontrado morto atropelado na estrada. Ele havia sido julgado pelo Juiz Palmer há mais de vinte anos em um caso complicado que terminou em assassinato. A polícia vai investigar e encontra o carro do Juiz todo amassado e com manchas de sangue. Entra então o filme de tribunal, em que tanto Hank quanto o pai têm que engolir o orgulho e trabalhar juntos para convencer o juri de que o Juiz não é culpado.

"O Juiz" é dirigido por David Dobkin com roteiro de Nick Schenk e Bill Dubuke. O filme tem uma aparência incrível, cortesia da direção de fotografia de Janusz Kaminski, tradicional colaborador de Steven Spielberg. Kaminski adora raios de luz que criam sombras dentro do tribunal, iluminam o rosto dos atores ou são lançados pelo projetor de Super-8 de Dale. A interpretação de todo o elenco é impecável; é bom ver Robert Downey Jr fora do uniforme do "Homem de Ferro" de vez em quando. Billy Bob Thornton faz uma participação como o advogado de acusação e vários coadjuvantes são conhecidos por quem é fã de cinema.

Pena que o roteiro queira abraçar o mundo. Há subtramas demais (inclusive um caso de paternidade que pode significar um incesto por parte de Hank) e momentos claramente construídos para tirar uma lágrima do espectador. É um mau filme? Longe disso. Basta não ter pressa, apreciar as interpretações e não levar a trama criminal muito a sério.

João Solimeo
Câmera Escura