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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A Mão de Deus (È stata la mano di Dio, 2021)

A Mão de Deus (È stata la mano di Dio, 2021). Dir: Paolo Sorrentino. Netflix. Belo filme italiano de Sorrentino lançado pela Netflix. É um filme sobre a vida, então nem dá para fazer uma sinopse, mas o roteiro gira ao redor de um rapaz chamado Fabio (Filippo Scotti), que vive em Nápoles nos anos 80. Ele é apaixonado por futebol, especificamente pelo jogador argentino Maradona, que está de mudança para Nápoles. Fabio tem pais amorosos, um irmão mais velho que quer ser ator e uma irmã que está sempre no banheiro (é uma das piadas recorrentes do filme). Sorrentino mostra um monte de personagens de várias famílias e posições sociais. Todos são bem italianos, com as paixões à flor da pele.

O roteiro é formado por uma série de episódios interessantes, como quando a família conhece o noivo de uma tia "encalhada". Falando em tias, Fabio tem uma "musa", a tia Patrizia (Luisa Ranieri), uma mulher corpulenta que gosta de tomar banhos de Sol nua e deixar o marido emputecido. Tenho a impressão que um filme poderia ser feito sobre cada um dos personagens que aparecem na tela. Há momentos tristes, bizarros, felizes, sublimes. A direção de fotografia de Daria D'Antonio é maravilhosa. Há citações a Fellini, Franco Zeffirelli e Sergio Leone, entre outros. O ritmo é bem europeu, ou seja, lento, então não é um filme para ser visto correndo. Tá na Netflix.

sábado, 21 de abril de 2012

Habemus Papam

Este não é o filme leve e edificante que se poderia esperar. "Habemus Papam", de Nanni Moretti, é irônico e tremendamente ácido com a Igreja Católica e com seu chefe mais alto, o Papa. Quando nos lembramos de que "Caos Calmo", filme estrelado por Moretti em 2008, foi condenado pelo próprio Vaticano por causa de uma cena de sexo considerada forte demais, não nos surpreende tanto este olhar cínico do diretor para com a Igreja. Moretti brinca com as espectativas do público. As cenas envolvendo o conclave, a eleição realizada pelos cardeais para eleger um novo Papa, são realizadas com um olhar humano e quase carinhoso. Sem falar no apuro técnico. Figurino, cenografia e interpretação reconstroem fielmente o ritual da escolha do novo Papa. A ironia fica por conta de Moretti, que deixa os espectadores escutar os pensamentos dos cardeais enquanto meditam. "Por favor, Senhor, não me escolha", é o que se escuta de praticamente todos eles.

Quando a fumaça branca é vista saindo da Capela Sistina, é o sinal de que um novo Papa foi escolhido. No caso, o Cardeal Melville (o grande ator Michel Piccoli), que aparenta ter todas a qualidades de um bom Papa; olhar inteligente, boa presença e humildade. Talvez humildade demais. Quando é chegada a hora do anúncio oficial diante da multidão que o aguarda na Praça São Pedro, no Vaticano, o novo Papa sofre um ataque de pânico e foge da cerimônia, criando tanto espanto quanto um embaraço protocolar. Ele já havia aceito o cargo e, pelas leis da igreja, fora escolhido pelo próprio Deus para a posição. Como ele poderia ter dúvidas? Cabe então ao porta-voz do Vaticano (o ótimo ator polonês Jerzy Stuhr) manter as aparências para a imprensa, fiéis e aos outros cardeais. Após um médico atestar que não há nada de errado fisicamente com o novo pontífice, um psiquiatra (interpretado por Moretti) é chamado para conversar com ele. A situação, obviamente aburda do ponto de vista da igreja, lembra filmes como "Máfia no Divã" ou a série de TV "Os Sopranos". Pena que as cenas envolvendo Moretti e o novo Papa sejam tão breves, mas sobram ironias por todos os lados. O psiquiatra de Moretti é egocêntrico e, obviamente, ateu. Quando não consegue resolver a crise do Papa, indica sua ex-mulher, também psiquiatra, que seria "a segunda melhor" da Itália. O Papa aproveita a saída do Vaticano (de onde oficialmente ninguém pode sair até o impasse ser resolvido) para fugir e fica perambulando pelas ruas de Roma, procurando iluminação.

As cenas de Michel Piccoli vagando pela cidade são muito interessantes, mas o filme perde a oportunidade de construir situações mais realistas. Ele anda de ônibus, assiste a artistas de rua e se envolve com um grupo de teatro, tudo sem ser reconhecido e sem dinheiro. Moretti fica no Vaticano e é puro sarcasmo ao criar uma série de jogos para distrair os cardeais, de disputas de carteado a um bizarro campeonato de vôlei em que os times são divididos pela origem dos religiosos. O final, inesperado, mostra a situação atual da igreja e seu distanciamento do mundo. "Habemus Papam" está em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.


domingo, 24 de julho de 2011

Que mais posso querer

É ela quem dá o primeiro passo. Anna (Alba Rohrwacher) trabalha em uma corretora de seguros e mora com Alessio (Giuseppe Battiston). Aparentemente eles não são casados, mas estão juntos tempo o suficiente para conversarem sobre ter filhos. A irmã de Anna acabou de ter um bebê e Alessio, vendo Anna com a criança, pergunta se ela não gostaria de ter um também. Ela lhe diz que vai parar de tomar a pílula. Ao invés disso, ela envia um SMS para Domenico, um homem casado que ela conheceu quando este prestou um serviço de buffet na empresa dela. E é desta forma que eles começam um tórrido caso extra-conjugal.

"Que mais posso querer" mostra como um caso pode servir, a princípio, como uma válvula de escape não só para as pressões do cotidiano mas da própria realidade. É curioso como o diretor Silvio Soldini mostra a inversão de papéis da sociedade contemporânea. Não só é Anna quem dá início ao caso mas, quando ela deixa de ligar no dia seguinte, é Domenico quem fica chateado. Ele trabalha com um serviço de buffet, tem uma filha de cinco anos e um bebê pequeno. A relação com a esposa é atrapalhada pelas obrigações do dia-a-dia como pagar contas e cuidar das crianças. Já Anna tem em Alessio um companheiro dedicado mas cego aos desejos da esposa. O pobre coitado acha que basta amar e tratar bem a mulher que está tudo certo. Ele vive de bom humor, gosta de livros e filmes e está sempre consertando alguma coisa na casa. Anna e Domenico, ao procurarem algo fora do lar, estão "errados"? Claro que sim, mas não é exatamente por isso que um caso é atraente?

Soldini mostra, passo a passo, como ter um caso requer planejamento dos envolvidos. É necessário arrumar um tempo livre em comum (Domenico faz aulas de mergulho às quartas à noite e Anna diz que precisa fazer hora extra). É necessário arrumar um lugar. É preciso se encontrar, ir até o motel, apresentar os documentos, pagar para entrar e, finalmente, até tirar as roupas se torna um empecilho, na pressa criada pelo desejo e pela pressão do relógio ("são 55 euros por quatro horas", diz o atendente do motel). O sexo, quando finalmente acontece, é rápido e intenso. E agora? Ato consumado, como lidar com a situação dali em diante? Como não confundir o prazer sexual e a idealização com o novo parceiro com amor? Um caso é como um mundo à parte, uma fantasia infantil criada por duas pessoas que brincam que amar é simples, não envolvendo obrigações, cobranças ou preocupações com dinheiro para honrar no final do mês. Claro que a relação está fadada a terminar no momento em que a realidade abrir brechas neste mundo idealizado.

"Que mais posso querer" não apresenta nada de novo em termos de filmes sobre adultério. Mas trata do assunto com honestidade e realismo. Anna e Domenico não são interpretados por Brad Pitt e Jennifer Aniston, mas por atores comuns. A força do filme está no fato que de são homens e mulheres comuns, mas incapazes de lidar com as pressões da vida adulta. Em cartaz no Topázio Cinemas.