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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A Mão de Deus (È stata la mano di Dio, 2021)

A Mão de Deus (È stata la mano di Dio, 2021). Dir: Paolo Sorrentino. Netflix. Belo filme italiano de Sorrentino lançado pela Netflix. É um filme sobre a vida, então nem dá para fazer uma sinopse, mas o roteiro gira ao redor de um rapaz chamado Fabio (Filippo Scotti), que vive em Nápoles nos anos 80. Ele é apaixonado por futebol, especificamente pelo jogador argentino Maradona, que está de mudança para Nápoles. Fabio tem pais amorosos, um irmão mais velho que quer ser ator e uma irmã que está sempre no banheiro (é uma das piadas recorrentes do filme). Sorrentino mostra um monte de personagens de várias famílias e posições sociais. Todos são bem italianos, com as paixões à flor da pele.

O roteiro é formado por uma série de episódios interessantes, como quando a família conhece o noivo de uma tia "encalhada". Falando em tias, Fabio tem uma "musa", a tia Patrizia (Luisa Ranieri), uma mulher corpulenta que gosta de tomar banhos de Sol nua e deixar o marido emputecido. Tenho a impressão que um filme poderia ser feito sobre cada um dos personagens que aparecem na tela. Há momentos tristes, bizarros, felizes, sublimes. A direção de fotografia de Daria D'Antonio é maravilhosa. Há citações a Fellini, Franco Zeffirelli e Sergio Leone, entre outros. O ritmo é bem europeu, ou seja, lento, então não é um filme para ser visto correndo. Tá na Netflix.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Casamento Silencioso

Eis um daqueles filmes raros, inteligentes, bonitos, instigantes, bem feitos. "Casamento Silencioso" é uma produção da Romênia, com direção de Horatiu Malaele, que também assina o roteiro em parceria com Adrian Lustig.

Em 1953, um pequeno vilarejo romeno acompanha com misto de apreensão e diversão o relacionamento apaixonado de Iancu (Alexandro Potocean) e Mara (Meda Andreea Victor). Os dois fazem amor nos campos de milho, na floresta, no celeiro, em todos os lugares, e seus pais gostariam que eles se casassem de uma vez. No horizonte, tanques soviéticos podem ser vistos fazendo manobras e, na floresta, uma estranha moça lança uma maldição sobre o casal. Quando os dois finalmente decidem se casar, uma grande festa é preparada, com muita comida e bebida. Só que, no dia da festa, oficiais soviéticos aparecem para ordenar que tudo seja parado. Joseph Stalin, que comandou a União Soviética de 1922 até 1953, havia morrido e um luto oficial de sete dias foi decretado. A festa de casamento estava proibida, sob pena de morte. O que se segue é das cenas mais hilariantes do filme, quando todo o vilarejo resolve se reunir à noite para celebrar o casamento da única forma possível, ou seja, silenciosamente. O diretor leva a sequência ao nível do absurdo, com brindes feitos com copos embrulhados em panos e uma banda que, animadamente, apenas finge tocar.

A sequência do "casamento silencioso" do título é ótima, mas todo o filme é permeado de situações que variam entre o absurdo e o sublime. Quando o Partido Comunista exige que um filme seja exibido no vilarejo, a luz elétrica tem que ser improvisada com um dínamo de bicicleta, operada pelo "inventor maluco" da cidade. Enquanto o filme de propaganda comunista é exibido na tela, toda a platéia do vilarejo solta gargalhadas com outro espetáculo involuntário: o prefeito da cidade, simpatizante dos soviéticos, se atrapalha com um grupo de comandados que, em câmera rápida, parecem interpretar uma cena cômica de um filme mudo. O clima de pastelão muda para a entrada poética de um grupo de circo na cidade, à noite, com as tochas dos malabaristas iluminando a todos. Pode-se sentir a presença do italiano Federico Fellini em momentos como este. O romeno Horatiu Malaele mostra grande habilidade para criar situações que passam pela comédia, pelo romance, pelo drama e até mesmo pelo sobrenatural. De forma poética e metafórica, "Casamento Silencioso" mostra como a Romênia, por anos, foi silenciada pelo regime comunista. Belo filme.