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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Loving (2016)

Escrito e dirigido por Jeff Nichols ("Amor Bandido"), "Loving" conta a história real de Richard e Mildred Loving, um casal que, no final dos anos 1950, foi mandado para a prisão pelo simples fato de que ele era branco e ela, negra. Apesar do tenso conteúdo racial, o diretor/roteirista Jeff Nichols optou por ser bastante comedido ao relatar os acontecimentos históricos; "Loving" é um filme em que a violência e os conflitos são muito mais psicológicos do que físicos. Não espere, assim, por cenas em que membros da Ku Klux Klan aparecem no meio da noite, queimando cruzes e espancando pessoas. ou discursos inflamados e teatrais como (no divertido) "Estrelas Além do Tempo", também em cartaz.

É até por esse motivo, aliás, que "Loving" é tão eficiente. A premissa é simples mas tão revoltante que causa uma angústia crescente em quem assiste ao filme. Richard e Mildred simplesmente se amam e querem ficar juntos e pelos primeiros vinte, vinte e cinco minutos de projeção é isso que acontece. Richard Loving (Joel Edgerton, ótimo como sempre) é um pacato pedreiro que vive em uma região do estado da Virginia, EUA, que é bastante miscigenada. Ele está sempre acompanhado de amigos negros com quem prepara carros para lucrativas corridas de rua. Mildred (Ruth Negga, sublime, indicada ao Oscar de Melhor Atriz) é sua namorada. Ela está grávida de Richard e os dois resolvem se casar no estado vizinho. Richard enquadra a certidão de casamento e pendura ao lado da cama dos dois. O casamento serve de estopim para que a polícia invada a casa e leve os dois para a cadeia. Em plenos anos 1950, nos EUA, o casamento interracial ainda era proibido no estado da Virginia. O juiz lhes dá duas opções: passar um ano na cadeia ou serem banidos da Virginia por 25 anos. 

O casal passou uma década em batalhas judiciais para tentar reverter a decisão da Virginia, uma disputa que chegou até a Suprema Corte dos Estados Unidos em 1967. Enquanto isso, Richard e Mildred tentam levar a vida como podem, convivendo com sinais sutis (ou não tão sutis assim) de racismo o tempo todo. Um amigo de Richard chega a lhe dizer que ele poderia simplesmente se divorciar da esposa. A imprensa começa a enviar jornalistas e fotógrafos à casa dos dois, o que é uma faca de dois gumes; por um lado, a exposição pode ajudar na disputa judicial. Por outro, eles começam a se tornar conhecidos e a situação fica cada vez mais insuportável, principalmente para o volátil Richard. O filme erra, em minha opinião, na construção do personagem do advogado do casal, Bernie Cohen (Nick Kroll). Ele é mostrado como um rapaz sem nenhum carisma nem muitos conhecimentos legais e fica difícil acreditar que ele tivesse competência para reverter o caso dos Loving na Suprema Corte.

Filmes biográficos estão em alta nos últimos anos. Só entre os indicados ao próximo Oscar de melhor filme temos "Lion: A Jornada para Casa", "Até o Último Homem" e "Estrelas Além do Tempo" (além das outras categorias, como "Jackie", "Loving", etc). Geralmente eles terminam com fotos e/ou filmagens das pessoas reais em que o filme é baseado, para dar ainda mais legitimidade ao roteiro. Nem sempre isso resulta em um bom filme, mas "Loving", com sua direção segura, é bastante bom.

João Solimeo

terça-feira, 11 de março de 2014

Amor Bandido

O fugitivo Mud (lama, em inglês) é tão escorregadio quanto seu nome. Para os garotos Ellis (Tye Sheridan, de "Árvore da Vida") e Neckbone (Jacob Lofland) ele representa tanto uma fascinação quanto uma ameaça. A cena em que os dois garotos encontram Mud (Matthew McConaughey, de "Clube de Compras Dallas") pela primeira vez parece saída de algum sonho, ou pesadelo. Mud surge do nada na praia de uma pequena ilha do rio Mississippi. Os garotos haviam ido até lá ver um barco que fora carregado pela água até a copa de uma árvore. Mud já havia tomado posse do barco e o transformado em uma morada temporária. Quem é ele? Como foi parar sozinho naquela ilha? Por que ele carrega uma arma na cintura? Neckbone, o mais desconfiado, não quer ter nada a ver com ele, mas Ellis lhe promete voltar com comida e mantimentos. (leia mais abaixo)


"Amor Bandido" ("Mud", 2012) tem roteiro e direção de Jeff Nichols e lembra filmes como "Conta Comigo" ("Stand by me", de Rob Reiner, 1986), clássico juvenil com River Phoenix, Will Wheaton e Corey Feldman. Até o visual dos garotos lembram Phoenix (que morreu em 1993) e o filme também lida com pré-adolescentes de forma adulta e séria. Ellis e Neckbone têm 14 anos mas enfrentam problemas adultos no dia a dia. Ellis mora com os pais (Sarah Paulson, de "12 Anos de Escravidão" e Ray Mckinnon), que estão à beira do divórcio. Neckbone mora com um tio (Michael Shannon, de "Foi apenas um sonho" e "Homem de Aço") que vive de resgatar coisas do fundo do rio. O ambiente familiar fragmentado faz com que os garotos vejam em Mud uma espécie de figura paterna. Ellis, particularmente, é afetado pela história contada por Mud, que diz que está tentando encontrar uma namorada de infância, Juniper (Reese Whiterspoon) e fugir com ela. Ele é obcecado pela garota e está sendo procurado pela polícia pelo assassinato de um antigo namorado dela.

Ellis e Neckbone passam a ajudar Mud de diversas formas, inclusive se arriscando, pois um grupo de caçadores de recompensa chega à cidade (liderados pelo veterano Joe Don Baker). Estas sequências, aliás, são pouco verossímeis, e o filme se arrasta um pouco durante a segunda metade. Há um vai e vem entre a cidade e a ilha, com os meninos servindo ora como protagonistas, ora como garotos de recados. Há também um romance agridoce entre Ellis e uma garota mais velha que rende boas cenas, mas também desvia um pouco a trama. O grande Sam Shepard faz uma participação especial importante, particularmente nas sequências finais. Falando em final, "Amor Bandido" termina de forma um tanto aleatória, como se o diretor/roteirista não soubesse como finalizar a trama. É um bom filme, porém. Matthew McConaughey está muito bem e este é um dos exemplos recentes da sua escolha por filmes de qualidade.