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terça-feira, 13 de abril de 2021

O Sócio (The Associate, 1996)

 

O Sócio (The Associate, 1996). Dir: Donald Petrie. Netflix. Nunca havia ouvido falar nesta comédia bobinha com Whoopi Goldberg. Feita nos anos 90, ela lembra mais o clima financeiro dos anos 80, que o cinema festejou em filmes sobre a bolsa de valores, pessoas ganhando muito dinheiro, etc. O filme tem até a obrigatória participação especial de Donald Trump interpretando ele mesmo.

Whoopi Goldberg é Laurel, uma inteligente mulher de negócios que é passada para trás em uma grande firma de Wall Street pelo fato de ser mulher. Ela resolve abrir a próprio firma mas não consegue marcar uma reunião com nenhuma empresa. Até que ela tem a ideia de dizer que ela tem um sócio misterioso chamado Robert Cutty, que seria um gênio nas finanças. O chefe estaria sempre viajando ou "preso em uma reunião em Bangkok", enquanto Whoopi vende suas ideias para grandes empresas. O mercado fica alvoroçado com o investidor misterioso e logo Whoopi Goldberg tem que lidar com um ex companheiro de trabalho (Tim Daly), uma jornalista inescrupulosa e um investidor poderoso (interpretado pelo grande Eli Wallach). Diane Wiest interpreta Sally, a esperta secretária de Whoopi, e Bebe Neuwirth é daquele tipo de executiva que usa o corpo para subir na empresa.

O filme é bem bobinho e é baseado em uma produção francesa. Para passar o tempo. Tá na Netflix.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Trabalho Interno

Ao subir ao palco do "Kodak Theater" para receber o Oscar de Melhor Documentário em 27 de fevereiro deste ano, o diretor Charles Ferguson salientou que nenhum executivo mostrado em seu filme havia sido preso por fraude finaceira. "E isso é errado", disse ele. Ferguson detalha, nas cinco partes de seu documentário, como é que a maior crise financeira da história americana se formou, implodiu e foi resgatada pelo governo americano, enquanto milhões de pessoas perderam suas casas e empregos mundo afora.

Não é uma história fácil de acompanhar; mas o roteiro de Ferguson, a narração de Matt Damon e o uso de vários gráficos ajudam o espectador a entender um mundo em que termos como "derivativos" e siglas como "DCOs" são usados normalmente. Basicamente a crise de 2008 foi causada pela exploração do mercado imobiliário. Antigamente, diz o documentário, um banco emprestava dinheiro para alguém esperando receber de volta. A hipoteca era paga ao longo de vários anos e o investimento era razoavelmente seguro para ambas as partes. Com o crescimento das instituições financeiras, as coisas mudaram. Hoje, os bancos vendem um conjunto de hipotecas para uma instituição financeira que, por sua vez, as agrupa em "pacotes" que são revendidos para outras instituições. Estes pacotes são avaliados por firmas especializadas em dar "notas" para pacotes de investimento; os melhores são classificados como "AAA" (triplo A).

Está acompanhando? O problema é que isso causa uma negociação ilusória, que aparentemente não depende mais do pagamento do dinheiro que foi emprestado no início da cadeia. As financeiras juntam estes grandes pacotes de hipotecas (que são, na verdade, dívidas) e usam este "dinheiro" para jogar na bolsa de valores ou nas companhias de seguros. Em vários casos, era mais lucrativo para uma empresa de seguros (como a gigante AIG, por exemplo) torcer contra seus investimentos. Muitos executivos financeiros apostavam milhões de dólares na falência dos mesmos papéis que eles passavam para frente como "rentáveis".

Quando o inevitável aconteceu e as pessoas não puderam pagar suas hipotecas (no início da cadeia), tudo desmoronou. Bancos como "Lehman Brothers" e seguradoras como a "AIG" não tinham dinheiro para honrar seus papéis e entraram em falência, mesmo tendo seus investimentos sido avaliados como "triplo A" poucos dias antes. O governo americano foi chamado para "resgatar" estas empresas e um pacote de 700 bilhões de dólares foi dividido entre as empresas "culpadas" pela crise, como Goldman Sachs, AIG, Merrill Lynch e outras. O mais assustador no documentário, no entanto, é o fato de que a maioria dos executivos destas empresas trabalharam ou trabalham em altos cargos do próprio governo americano, servindo como diretores do tesouro ou presidentes do "Federal Reserve" por décadas. Outro ponto preocupante levantado é que as escolas de economia como Harvard ou Columbia, formadoras dos executivos de amanhã, também são geridas por estas mesmas pessoas, que são contrárias a qualquer tipo de regulamentação e tem como objetivo proteger as instituições financeiras, e não o público.

Nem o presidente Barack Obama, que subiu à Casa Branca prometendo terminar com a "farra" em Wall Street, sai ileso; a resposta de Washington depois da crise foi quase nula e vários dos envolvidos ocupam agora postos chaves do governo. Enquanto milhares de pessoas perderam seus empregos e suas casas, os executivos continuam ganhando milhões de dólares em bônus todos os anos. Um retrato assustador de como funciona o mercado financeiro americano e como suas ações refletem em todo o mundo.


domingo, 30 de agosto de 2009

Confissões de uma garota de programa

Chelsea é bonita, elegante, arrumada. Tem fala mansa, é educada e escuta as pessoas falarem de seus problemas. Ela mora com Chris, seu namorado, que é um personal trainer. Chelsea é uma garota de programa.

O filme é dirigido por Steven Soderbergh, que tem uma carreira singular. Ele surgiu para o mundo com o "cult" "Sexo, Mentiras e Videotape", que ganhou o Festival de Cannes em 1989. De lá para cá, tem misturado filmes de puro entretenimento, como a série Onze, Doze e Treze "Homens e um Segredo", com filmes um pouco mais ambiciosos, como "Traffic" (2000, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Diretor), "Erin Brockovitch" (no mesmo ano, dando o Oscar de Melhor Atriz para Julia Roberts), e a refilmagem de "Solaris" (2002). Técnico competente, ele é também Diretor de Fotografia e operador de câmera de vários de seus filmes, além de editor e músico.

O título brasileiro, apesar de correto, é enganador. Sim, temos "confissões de uma garota de programa", mas o espectador não deve esperar algo "picante" ou no estilo "Bruna Surfistinha". O título original, "The Girlfriend Experience", é mais interessante. Em um mundo sexualmente liberal (e até libertino) como o nosso, em que algumas pessoas "ficam" com várias outras em curto espaço de tempo, se envolvendo não só amorosamente mas fisicamente, o que significa ter um namorado ou namorada? O filme de Soderbergh não é só sobre Chelsea, mas também sobre seu namorado e, sim, sobre seus clientes. Vários sequer fazem sexo com ela durante os encontros. Eles vão ao cinema, jantam em restaurantes caros, conversam sobre os problemas de uma economia em crise. Para adicionar um toque ainda mais realista ao ar documental da produção, Soderbergh escolheu a atriz de filmes pornô Sasha Grey para viver Chealsea. Não que isso signifique, novamente, cenas de sexo picantes (o filme é bem comportado, aliás). Mas a presença de Grey aumenta o contexto extrafilme para o espectador, que vê aquela garota elegante e imagina como, ou porque, ela faz aquele trabalho (e é simples ver, em sites especializados, Grey trabalhando em outros papéis).

Não linear, a história acompanha a vida da garota em Manhattan, Nova York. Muito bem paga, ela está sempre impecavelmente vestida (mesmo quando está pouco vestida) e em várias etapas de negociação. De fato, dá a impressão que todas as personagens do filme estão negociando alguma coisa. Há algo de irônico no fato de que as negociações da garota de programa parecem bem mais simples e melhor resolvidas que dos vários executivos mostrados no filme. Eles estão sempre reclamando da queda nos lucros e imaginando o pior, mesmo que não abram mão de viagens em jatinhos para Las Vegas ou dos caros serviços das garotas de programa. Há espaço para o amor nesse tipo de mundo? Christine (o nome verdadeiro de Chelsea) mora com o personal trainer Chris (Chris Santos) que aparentemente não se incomoda com a profissão da namorada. Mas há regras. Christine não quer que ele vá para Las Vegas sozinho em uma viagem de executivos. E ele fica muito incomodado quando ela diz que vai passar um final de semana com um cliente que pode significar "algo mais" para ela.

Com 78 minutos, é um filme curto, cujo formato de falso documentário e passo lento não agradou muito a platéia (houve várias desistências durante a projeção). Incautos, provavelmente esperavam cenas "quentes", quando o que vemos na tela é um curioso e sensível quadro do mundo moderno, frio e calculista.