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domingo, 12 de março de 2023

Entre mulheres (Women Talking, 2022)

Entre mulheres (Women Talking, 2022). Dir: Sarah Polley. O título original, "mulheres falando", pode parecer simples ou trivial. No contexto do filme, no entanto, significa muita coisa. "Entre mulheres" é um dos dez indicados a Melhor Filme no Oscar que acontece esta noite. Curiosamente, ele está indicado apenas a mais uma categoria, roteiro adaptado, da diretora canadense Sarah Polley (que adaptou o livro de 2018 escrito por Miriam Toews). Há duas formas de se ver este filme, como algo baseado em uma história real ocorrida na Bolívia em 2010 (como, de fato, foi), ou como uma alegoria para algo bem mais amplo. A trama: um grupo de mulheres mora em uma colônia religiosa à moda antiga; separadas do mundo, elas não têm acesso à educação, ao voto, a ter ideias próprias. Para piorar, elas são frequentemente assaltadas sexualmente pelos homens da colônia, que lhes dizem que é o ato de "fantasmas", de "Satanás", ou da imaginação fértil das moças. Um dia, porém, um dos homens é pego em flagrante. As mulheres, então, resolvem debater sobre o que devem fazer; há três opções: fazer nada, ficar e lutar ou deixar a colônia. O filme de uma hora e quarenta minutos mostra esta conversa.

Poderia ser tudo bastante teatral (e, em momentos, realmente é), mas a direção de Polley e a interpretação do elenco tornam o filme uma experiência fascinante e tensa. E que elenco; Claire Foy, Rooney Mara, Jessie Buckley, Frances McDormand, entre outras, estão excelentes (nenhuma delas foi indicada ao Oscar, lamentavelmente). Apenas um homem tem um papel de destaque, August, interpretado por Ben Whishaw, que é o professor dos meninos da colônia. Os homens, no entanto, estão na pauta por todo o filme. Os homens ou a própria masculinidade. São simplesmente inimigos a serem derrotados? Monstros? Vítimas de um sistema que pune tanto homens quanto mulheres? Possíveis parceiros? O que as mulheres devem fazer? Deixar para lá? Lutar? Fugir? Curioso como a religião também é tratara no filme. As mulheres se refugiam em uma fé que as conforta, mas será que também não as oprime?

Não é um filme fácil, mas vale bastante pelas questões levantadas e pelas belas interpretações. Destaque também para a trilha sonora da islandesa Hildur Guðnadóttir (que ganhou o Oscar por "Coringa" em 2019). Nos cinemas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Moonrise Kingdom

Associar o adjetivo "estranho" ao diretor e roteirista americano Wes Anderson é uma redundância. "Genial" pode também ser usado, com mais parcimônia. O trabalho de Anderson sempre carrega uma preocupação com o ligeiramente bizarro, pela direção de arte precisa e por grandes atores em papéis normalmente não associados a eles (quem imaginaria George Clooney dublando uma raposa na animação "O Fantástico Sr. Raposo"?).

"Moonrise Kingdom" traz todas estas características em um filme que, na falta de uma melhor classificação, está sendo chamado de "infantil". Ele se passa em uma ilha habitada por poucas pessoas. O ano é 1965 e longos planos iniciais mostram crianças brincando antes da era da informática, escutando discos de música clássica, jogando pingue pongue, lendo ou acampando. É de um campo de escoteiros que foge o herói da trama, um órfão chamado Sam  (Jared Gilman) que parte em direção ao norte da ilha com uma canoa e grande quantidade de equipamento. Ele vai se encontrar com Suzy (Kara Hayward), uma menina igualmente precoce e inteligente que é filha dos advogados interpretados por Bill Murray e Frances MacDormand. Tanto Sam quanto Susy são infelizes, têm problemas em casa e querem escapar para um lugar melhor. Eles se apaixonaram à primeira vista durante uma apresentação de teatro infantil sobre a Arca de Noé, e haviam trocado cartas desde então, combinando a fuga. O roteiro (de Anderson e Roman Coppola, indicados ao Oscar) nunca os trata como crianças, pelo contrário, são os adultos que agem como tal. Bruce Willis é o Sr. Sharp, um policial solitário que tem um caso com a mãe de Susy. Edward Norton é o pobre líder do "Acampamento Ivanhoé" de escoteiros, de onde Sam foge; após se reunir com sua "tropa" e traçar os planos para tentar encontrar o garoto fujão, um garoto lhe pergunta se ele precisa de um "Phd" para fazer aquele trabalho. Há outros coadjuvantes famosos em pequenas pontas, como Harvey Keitel, Jason Schwartzman e Tilda Swinton (a "vilã" que quer enviar Sam para fazer um "tratamento" com choques elétricos).

Outro ponto notável é que não há nada de infantil no romance entre Sam e Susy. Os dois seguem uma antiga trilha indígena e vão parar em uma praia deserta onde montam acampamento e, em cenas que devem ter dado dor de cabeça aos censores americanos, começam a se aproximar de modo bastante físico (embora não vulgar). Anderson constrói planos extremamente precisos, auxiliado pela bela fotografia de Robert D. Yeoman e cenários de Adam Stockhausen. A duração enxuta (94 minutos) é bem-vinda, e "Moonrise Kingdom" nunca deixa de ser interessante.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Queime depois de ler

"Onde os fracos não têm vez", filme anterior dos irmãos Coen, foi muito elogiado pela crítica e até levou o Oscar de Melhor Filme mas, é fato, não foi nenhum sucesso de público. O estilo lento e principalmente o final em aberto deixou muita gente confusa (ou brava mesmo) com os dois irmãos mais criativos do cinema americano. Pois bem, eles agora retornam com um filme cheio de astros e um estilo bem mais leve e acessível. O que não significa que "Queime depois de ler" seja um filme "convencional". Joel e Etan Coen são famosos por seu estilo meticuloso, ritmo lento e diálogos bem escritos. Tudo está presente na nova produção da dupla, mas em doses menores. Adiciona-se uma boa dose de humor negro e temos esta comédia de erros que satiriza os filmes de espionagem e a paranóia americana.

John Malkovich é Osbourne Cox, um analista da CIA que, no início do filme, está sendo dispensado do trabalho. Um superior lhe diz que ele tem um problema com a bebida. "Vocè é mórmon! Para você todos têm problemas com a bebida!", retruca Cox. Ressentido e muito, muito bravo, Cox vai para casa e conta à eposa que se demitiu, e que pretende escrever um livro de "memórias". A esposa é Katie (Tilda Swinton... quem senão os irmãos Coen para imaginar um casal como John Malkovich e Tilda Swinton?), que está tendo um caso com Harry Pfarrer (George Clooney, se divertindo). Harry é supostamente um policial (nunca o vemos trabalhando) que, em 20 anos de serviço, nunca disparou uma arma. Ele é casado com uma escritora de livros infantis. Recapitulando: Cox (Malkovich) é casado com Katie (Swinton), que tem um caso com Harry (George Clooney), que é casado com uma escritora.

Em uma academia de ginástica, a instrutora Linda Litzke (Frances McDormand), está passando pela crise da meia idade. Ela quer se "reinventar" passando por uma série de cirurgia plásticas caras (que seu plano de saúde não cobre); ela tabém está tentando encontrar um companheiro em anúncios da internet. Ela trabalha com Chad (Brad Pitt), um personal trainer hiperativo que, um dia, está todo animado em frente ao computador: o faxineiro encontrou no vestiário um CD que, supostamente, contém informações sigilosas da CIA. Chad descobre que o dono do CD é um analista chamado Osbourne Cox (lembram-se?), e sugere a Linda que eles tentem trocar o CD por dinheiro.

Com esses personagens e ingredientes os Coen vão construindo um filme que, de início, nem é assim tão cômico mas que, aos poucos, vai se tornando cada vez mais absurdo e engraçado. Clooney e Tilda Swinton, vale notar, interpretaram juntos no drama "Conduta de Risco" (Michael Clayton, 2007), pelo qual Swinton ganhou o Oscar. Brad Pitt está muito engraçado, interpretando um rapaz não muito esperto e que acha que está dando um grande golpe ao chantagear um espião da CIA. E o que dizer de John Malkovich?

"Queime depois de ler" não é nenhuma obra prima, e está distante das tragicomédias anteriores dos Coen como "Barton Fink" e o estupendo "Fargo". Mas ainda é um filme acima da média.