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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Ghostbusters: Mais Além (Ghostbusters: Afterlife, 2021)

 

Ghostbusters: Mais Além (Ghostbusters: Afterlife, 2021). Dir: Jason Reitman. Claro que este filme está calcado na nostalgia. Isso pode ser encarado de forma cínica ("estamos aqui só para ganhar o dinheiro dos fãs") ou não. Jason Reitman, o diretor e co-roteirista, é filho do diretor do original, Ivan Reitman, e declarou que o filme era uma homenagem ao trabalho do pai. Acho que há um pouco dos dois. O fato é que eu me diverti mais do que estava esperando, o que é ótimo.


Primeira surpresa... Carrie Coon? Ok, se o filme original tinha Sigourney Weaver, este também tem uma atriz e tanto no elenco; Coon faz o papel de Callie, uma mãe divorciada com dois filhos adolescentes que tem que se mudar para uma fazenda no meio do nada porque ela está falida. O pai dela, aos poucos ficamos sabendo, era Egon Spengler (Harold Ramis), um dos "caça-fantasmas" originais. Um dos acertos desta versão foi mudar o cenário urbano de Nova York dos outros filmes para uma paisagem rural. Finn Wolfhard (de Stranger Things) e Mckenna Grace são os adolescentes. Grace interpreta Phoebe, uma precoce garota de 12 anos que é nerd e acha ciência o máximo. O elenco ainda tem o garotão (de 52 anos) Paul Rudd como um sismólogo que está estudando estranhos terremotos que acontecem por ali.

Acho que a nostalgia de Reitman tem mais a ver com os filmes de Spielberg do que com "Ghostbusters", na verdade. Os garotos investigando fenômenos paranormais pela cidadezinha me lembraram filmes como "Os Goonies" ou mesmo "E.T." (recentemente, "Stranger Things" surfou na mesma onda). De vez em quando a gente é lembrado que esta é uma continuação de "Ghostbusters" e alguma referência é jogada na tela... armadilhas para fantasmas, o carro original, "mochilas de protons", etc. Apesar de gostar bastante do filme original de 1984, é fato que o roteiro era uma bagunça e a parte final, que envolvia cães "demoníacos" enviados por um deus sumério e referências "bíblicas" ao fim do mundo, cá entre nós, era uma grande bobagem; isso acontece exatamente igual aqui.

O ato final é praticamente uma recriação do final de "Ghostbusters" e, estranhamente, é o mais fraco. O filme é melhor quando foca nas relações familiares. É até uma surpresa quando os atores originais finalmente dão as caras e até me pergunto se eles eram necessários (há, porém, uma boa homenagem a Harold Ramis, que morreu em 2014). Há duas cenas pós créditos que prometem continuações desnecessárias, mas que você sabe que vão acontecer. Nos cinemas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um Santo Vizinho

Bill Murray. Precisa dizer mais? Com 64 anos, poucos atores são tão desencanados com a própria imagem quanto Murray, que pode ser tão ranzinza e engraçado quanto seus personagens. 

Ele é Vincent, um cara que é o que os americanos gostam de chamar de "loser" (um fracassado). Tem mais que cinquenta anos, está desempregado, devendo para todo mundo e ainda age como um adolescente. Bate ponto em um bar todas as noites, gasta o que não tem nas corridas de cavalos e, uma vez por semana, transa com Daka, uma prostituta russa que está grávida; Daka é interpretada por uma irreconhecível Naomi Watts ("Birdman"), "feia", boca suja e com um sotaque carregado.

Um dia Vincent  ganha vizinhos novos, a mãe solteira Maggie (Melissa McCarthy) e o filho dela, Oliver (Jaeden Lieberher). Maggie trabalha até tarde em um hospital e não tem com quem deixar Oliver depois da escola. Precisando de dinheiro, Vincent se oferece para ser "babá" do garoto. É bastante duvidoso que uma mãe deixaria o filho nas mãos dele, mas a relação entre Vincent e o menino, principalmente por mérito de Bill Murray, é engraçada e frequentemente tocante. Escrito e dirigido por Theodore Melfi (em seu primeiro longa metragem), "St. Vincent" é um filme pequeno e despretensioso, o que é bem vindo.


Se ele pode ser acusado de alguma coisa (e realmente pode) é de sentimentalismo. Há uma subtrama envolvendo a esposa de Vincent (que tem Alzheimer) que poderia estar em outro filme. Vincent visita a mulher em uma casa de repouso e só consegue conversar com ela se fazendo passar por médico, já que ela não o reconhece. O homem mal humorado desaparece e surge um marido com o coração partido e completamente devotado à esposa. Ponto para Bill Murray por conseguir fazer com que as contradições do personagem pareçam plausíveis. O modo como ele olha para a mulher conta histórias inteiras.

Há várias semelhanças com "Gran Torino", em que Clint Eastwood também interpreta um velho turrão que não quer contato com ninguém. O final, bastante açucarado, também é bastante previsível, o que não é ruim, mas o filme funciona melhor quando mostra o mundo de forma irônica.

João Solimeo
Câmera Escura

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste

"O Grande Hotel Budapeste" é como uma daquelas bonecas russas, ricamente decoradas, que se abrem revelando outras bonecas dentro delas. A cada nova camada se descobre outra obra de arte ainda mais elaborada do que a anterior. É também uma declaração de amor à etiqueta, às boas maneiras, ao profissionalismo e uma Europa que, provavelmente, nunca existiu na verdade, a não ser como um ideal na cabeça de personagens como M. Gustave (Ralph Fiennes, extraordinário), concierge do "Grande Hotel Budapeste". Dizer que foi escrito e dirigido por Wes Anderson ("Moonrise Kingdom") se torna redundante a partir do primeiro frame do filme, que tem todas as características do estilo do diretor.

Anderson cria uma espécie de conto de fadas adulto, um roteiro francamente literário que começa com o busto de um "Autor" (interpretado por Tom Wilkinson quando velho e Jude Law quando mais moço). Ainda usando a imagem da boneca russa, a trama é contada em várias camadas, começando pelo Autor em 1985, passando por Jude Law na década de 1960 e finalmente retrocedendo até a década de 1930, no período entre guerras. Cada época é filmada em uma proporção diferente (2.35: 1, 1.85:1 e 1.37:1), em boa e velha película cinematográfica com ótima direção de fotografia de Robert Yeoman (habitual colaborador de Wes Anderson).


A parte principal da trama se passa nos anos 1930, quando o "Grande Hotel Budapeste" estava no auge do luxo e clientela. M. Gustave (Fiennes) é responsável não só por manter o hotel funcionando impecavelmente como também atende às hóspedes mais velhas com uma atenção especial; "Eu durmo com todas as minhas amigas", diz ele em dado momento. Uma das suas conquistas é a Madame D. (uma irreconhecível Tilda Swinton), que morre de forma misteriosa e deixa um quadro de valor inestimável a Gustave. Isso causa a ira do filho da Madame D., Dimitri (Adrien Brody), que conspira para enviar M. Gustave para uma prisão de segurança máxima, de onde ele vai tentar escapar com a ajuda de seu protegido, um mensageiro do hotel chamado Zero (o ótimo estreante Tony Revolori). É praticamente impossível falar muito sobre a trama, que envolve regras de etiqueta, o crescimento de uma nação fascista na Europa, honra entre ladrões, um elaborado plano de fuga e uma série incrível de personagens secundários. O elenco impressiona, com papéis coadjuvantes interpretados por nomes como F. Murray Abraham, Mathieu Almaric, Jeff Goldblum, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Edward Norton, Bill Murray, Bob Balaban, Saoirse Ronan, Léa Seydoux, Jason Swartzman, Owen Wilson e vários outros atores.

É um filme de Wes Anderson, o que significa qualidade técnica impecável, quase obsessiva. A direção de arte é brilhante, fazendo bom uso de locações reais (filmadas na Alemanha e Polônia), estúdio e cenas de efeitos especiais envolvendo miniaturas e animação. A trilha sonora de Alexandre Desplat vai mudando e se adaptando praticamente a cada plano, acompanhando a narração. Wes Anderson tem tanto admiradores quanto detratores, e com este filme não vai ser diferente. Para mim, "O Grande Hotel Budapeste" é seu melhor filme, impecavelmente bem feito, divertido e inventivo ao extremo.

Câmera Escura

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Caçadores de Obras-Primas

Adolf Hitler era um admirador de arte. Pintor rejeitado pela escola de Belas Artes da Áustria, o líder de um dos regimes mais sangrentos da História imaginava um museu em sua homenagem, onde ele guardaria todos os tesouros e obras-primas saqueadas durante a 2ª Guerra Mundial. Há quem diga que ele nunca bombardeou Paris por causa dos quadros e esculturas que lá havia. Nos Estados Unidos, um grupo de especialistas em arte se juntou e foi à Europa tentar resgatar as obras roubadas pelos nazistas. O grupo ficou conhecido como "The Monuments Men".

Esta história real ganhou versão cinematográfica nas mãos de George Clooney ("Tudo pelo Poder"), que escreveu o roteiro, produziu, dirigiu e atuou em "Caçadores de Obras-Primas", ao lado de um ótimo elenco. O filme é leve (até demais) e bastante descompromissado. Mostra aquela versão da 2ª Guerra Mundial pré "O Resgate do Soldado Ryan", em um mundo aparentemente mais simples em que havia um vilão bem definido, os nazistas, e os americanos eram os salvadores do mundo. Há ecos daqueles clássicos em que astros como Steve McQueen, Charles Bronson, James Garner, entre outros, se reuniam em filmes como "Sete Homens e um Destino" ou "Fugindo do Inferno" (a trilha "assobiada" de Alexandre Desplat lembra um pouco este último); sem falar na série "Onze Homens e um Segredo" estrelada por Clooney e Matt Damon. (leia mais abaixo)


O filme peca pela falta de ambição. Com um elenco contando com figuras engraçadas como Bill Murray ("Moonrise Kingdom") e John Goodman ("Argo"), poderia ter sido uma grande comédia. No entanto, é o tipo de filme em que os bastidores devem ter sido muito mais engraçados do que o que se vê na tela. Há bons momentos, como quando Bill Murray e Bob Balaban encontram um soldado nazista perdido na floresta. Há também duas cenas emocionantes bem conduzidas por Clooney, como o sacrifício de um dos membros do grupo para tentar salvar uma escultura valiosa, ou a cena em que Bill Murray escuta, emocionado, uma mensagem de natal enviada pela família. Há, porém, oportunidades perdidas. Matt Damon ("Elysium") e a grande Cate Blanchett ("Blue Jasmine") ficam em um empasse por grande parte da trama. Ele é o curador do Museu Metropolitan de Nova York e está tentando descobrir o que aconteceu com as obras de um museu de Paris em que Blanchett trabalhava. Ela não confia em ninguém e fica guardando as informações por muito tempo. Até mesmo a sugestão de romance entre os dois não dá em nada.

"Caçadores de Obras-Primas" tem ótima direção de fotografia de Phedon Papamichael, que trabalha muito bem com o contraste entre cenas escuras e as cores vivas dos quadros de mestres como Monet e Rembrandt. Um filme que se assiste com um sorriso nos lábios, mas que não é tão bom quanto poderia ser.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Moonrise Kingdom

Associar o adjetivo "estranho" ao diretor e roteirista americano Wes Anderson é uma redundância. "Genial" pode também ser usado, com mais parcimônia. O trabalho de Anderson sempre carrega uma preocupação com o ligeiramente bizarro, pela direção de arte precisa e por grandes atores em papéis normalmente não associados a eles (quem imaginaria George Clooney dublando uma raposa na animação "O Fantástico Sr. Raposo"?).

"Moonrise Kingdom" traz todas estas características em um filme que, na falta de uma melhor classificação, está sendo chamado de "infantil". Ele se passa em uma ilha habitada por poucas pessoas. O ano é 1965 e longos planos iniciais mostram crianças brincando antes da era da informática, escutando discos de música clássica, jogando pingue pongue, lendo ou acampando. É de um campo de escoteiros que foge o herói da trama, um órfão chamado Sam  (Jared Gilman) que parte em direção ao norte da ilha com uma canoa e grande quantidade de equipamento. Ele vai se encontrar com Suzy (Kara Hayward), uma menina igualmente precoce e inteligente que é filha dos advogados interpretados por Bill Murray e Frances MacDormand. Tanto Sam quanto Susy são infelizes, têm problemas em casa e querem escapar para um lugar melhor. Eles se apaixonaram à primeira vista durante uma apresentação de teatro infantil sobre a Arca de Noé, e haviam trocado cartas desde então, combinando a fuga. O roteiro (de Anderson e Roman Coppola, indicados ao Oscar) nunca os trata como crianças, pelo contrário, são os adultos que agem como tal. Bruce Willis é o Sr. Sharp, um policial solitário que tem um caso com a mãe de Susy. Edward Norton é o pobre líder do "Acampamento Ivanhoé" de escoteiros, de onde Sam foge; após se reunir com sua "tropa" e traçar os planos para tentar encontrar o garoto fujão, um garoto lhe pergunta se ele precisa de um "Phd" para fazer aquele trabalho. Há outros coadjuvantes famosos em pequenas pontas, como Harvey Keitel, Jason Schwartzman e Tilda Swinton (a "vilã" que quer enviar Sam para fazer um "tratamento" com choques elétricos).

Outro ponto notável é que não há nada de infantil no romance entre Sam e Susy. Os dois seguem uma antiga trilha indígena e vão parar em uma praia deserta onde montam acampamento e, em cenas que devem ter dado dor de cabeça aos censores americanos, começam a se aproximar de modo bastante físico (embora não vulgar). Anderson constrói planos extremamente precisos, auxiliado pela bela fotografia de Robert D. Yeoman e cenários de Adam Stockhausen. A duração enxuta (94 minutos) é bem-vinda, e "Moonrise Kingdom" nunca deixa de ser interessante.