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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

25th Hour (A Última Noite) - Netflix

Se a vida como você a conhece fosse acabar amanhã, o que você faria? Monty Brogan (Edward Norton, de "O Grande Hotel Budapeste", sempre excelente) tem uma bela namorada, com o nome exótico de Naturelle Riviera (Rosario Dawson, "Sete Vidas"), tem dois amigos fiéis de longa data, Jake (Philip Seymour Hoffman) e Frank (Barry Pepper) e um pai amoroso (Brian Cox).

O problema é que Monty, um ex-traficante que tinha guardado no apartamento grande quantidade de dinheiro e entorpecentes, é visitado pela polícia uma noite. Eles encontram o material e Monty é condenado a sete anos de prisão. Ele ainda é jovem e, se sobreviver à prisão, ainda tem a vida pela frente, mas todos sabem que nada será como antes. Monty resolve passar sua última noite de liberdade farreando por Nova York com os amigos e com a namorada.

"25th Hour" (chamado no Brasil de "A Última Noite) é um filme feito pelo diretor americano Spike Lee em 2002 e está disponível agora no Brasil pela Netflix. O roteiro é baseado em um livro de David Benioff (um dos produtores de "Game of Thrones") e trata de amor, amizade, arrependimento e desconfiança. O filme foi feito pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas de Nova York e Spike Lee usa a tragédia da cidade como pano de fundo para a tragédia pessoal de Monty. Os créditos iniciais se desenrolam sobre cenas dos destroços do World Trade Center, representado por fachos de luz. (leia mais abaixo)


Quem teria delatado Monty para a polícia? A culpa, muito provavelmente, é da namorada dele, mas por que ela teria feito isso? Seria ela uma simples interesseira? Como seus amigos estão lidando com a prisão dele? Barry Pepper, interpretando um corretor de Wall Street, mal consegue esconder a frustração com o amigo. Há uma longa cena, feita em um único plano, em que Pepper e Seymour Hoffman falam sobre a vida criminosa de Monty diante de uma janela que dá para os destroços do World Trade Center. "Eu o amo como amigo, mas ele é um traficante e merece ir para a cadeia", diz Frank. Hoffman interpreta um professor de literatura que é o protótipo do "virgem de 40 anos". Ele é incapaz de olhar diretamente nos olhos de outra pessoa e está fascinado com uma aluna de 16 anos que frequenta suas aulas (interpretada por Anna Paquin, da série "X-Men").

O filme tem belíssima direção de fotografia de Rodrigo Pietro ("O Lobo de Wall Street", "Argo") e ótima edição de Barry Alexander Brown, colaborador habitual de Spike Lee. Há cortes muito interessantes no filme, que repetem a ação dos personagens de um plano para outro ou quebram propositalmente o eixo de ação, desorientando o espectador. A trilha sonora de Terence Blanchard, apesar de muito boa, poderia ser menos presente, sendo exagerada em alguns momentos.

Há uma sensação palpável de tensão que cresce conforme vai chegando a hora de Monty ir para a prisão. Será que ele vai suportar sete anos atrás das grades? A namorada deve esperar por ele? Os amigos voltarão a vê-lo? Seria melhor, talvez, dar um tiro na cabeça e terminar com tudo antes?

Brilhante trabalho de direção e interpretação, "25th Hour" não deve ser perdido.

João Solimeo

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Django Livre

Quentin Tarantino continua fazendo seu tipo característico de cinema, parte paródia, parte homenagem. Desde "Cães de Aluguel" (1992), passando por "Pulp Fiction" (1994), "Jackie Brown" (1997), "Kill Bill" (2003 e 2004), "À prova de  morte" (2007) a "Bastardos Inglórios" (2009), Tarantino recriou e reciclou filmes de guerra, artes marciais, "blacksploitation", etc. Com "Django Livre", a coisa fica ainda mais complicada. É um "faroeste", mas não do tipo feito por mestres como John Ford. "Django Livre" é a paródia da paródia, um filme americano ao estilo dos "faroestes spaghetti" feitos pelos italianos nas décadas de 1960 e 1970. Tarantino inclusive "empresta" o título, os letreiros iniciais e até a trilha sonora de "Django" (1966), filme de Sergio Corbucci com Franco Nero (assista aqui). Nero, aliás, aparece em uma ponta rápida.

Django (Jamie Foxx) é um escravo que é liberto por um caçador de recompensas alemão chamado Dr. King Schultz (o ótimo Christoph Waltz, de "Bastardos Inglórios" e "Deus da Carnificina"). A princípio, Schultz precisa que Django reconheça um trio que ele está procurando, mas os dois acabam formando uma parceria. Schultz fica comovido com a história de Django, que quer encontrar a esposa e libertá-la. O alemão também fica impressionado pelo fato dela se chamar Broonhilda, assim como em um mito germânico. Schultz e Django matam uma série de criminosos na primeira parte do filme e então, após o inverno, partem para a fazenda de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), onde a esposa de Django supostamente está servindo como escrava. O filme tem ótimas cenas, como uma em que Schultz mata o xerife de uma cidadezinha e sai ileso após um discurso que faz ao delegado. Longos diálogos, aliás, são outra marca registrada de Tarantino, e podem ser tanto um deleite quanto um problema. Este é um filme com quase três horas de duração e parte se deve a cenas esticadas demais pelos diálogos. É de se estranhar, também, algumas repetições escritas por Tarantino; logo no início, quando é liberto por Schultz, Django monta em um cavalo e acompanha o alemão através de uma cidade, e a frase "nunca vi um negro montando a cavalo" é repetida diversas vezes. Outra frase usada por Django, quando se refere ao prazer de ganhar dinheiro por matar brancos, também é repetida algumas vezes. O filme também tem um sério problema de ritmo e montagem. Quando um grupo da Ku Klux Klan (a organização racista do sul dos Estados Unidos) ataca o acampamento em que o Dr. Schultz e Django estariam dormindo, por exemplo, a cena é cortada por um momento engraçado em que os homens encapuzados reclamam que não conseguem ver nada através das máscaras. Apesar de ser o momento mais cômico do filme, a cena não faz sentido como está montada. O final também sofre quando um banho de sangue, que deveria ser a conclusão da história, é interrompido desnecessariamente (para continuar uns 15 minutos depois). Vale citar que a editora de todos os filmes de Tarantino, Sally Menke, morreu em 2010 e foi substituída neste filme por Fred Raskin, que era assistente dela, o que pode explicar alguns dos problemas.

Fãs do diretor, no entanto, vão se deleitar. "Django Livre" é bastante violento, divertido, bem interpretado e tem ótimos momentos. O fato de Tarantino ter tratado de um tema delicado como a escravidão causou controvérsia; o diretor Spike Lee declarou que o filme é desrespeitoso com seus ancestrais e que a escravidão não era um faroeste italiano, mas um Holocausto. Deve-se levar em conta que o mundo retratado nos filmes de Tarantino não é o real, mas sim uma realidade alternativa criada por sua imaginação. Interessante também o fato de que nada menos que três grandes produções de Hollywood neste ano ("Django", "Lincoln" e "A Viagem") tenham usado o tema da escravidão. "Django Livre" está indicado aos Oscar de Melhor Filme, Melhor Fotografia (Robert Richardson), Melhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz), Melhor Roteiro Original (Quentin Tarantino) e Melhor Edição de Som (Wylie Stateman).

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Milagre em Santa Anna

O pelotão “Búfalo” (um grupo de soldados negros combatentes na 2ª. Guerra Mundial), trava uma feroz batalha com os nazistas em um rio na região da Toscana, Itália. Eles estão enfrentando dois inimigos. Na frente, as metralhadoras nazistas fazem os soldados atingidos em pedaços; atrás, sofrem com o “fogo amigo” da própria artilharia americana. Quatro deles conseguem atravessar o rio e vão se refugiar perto de um celeiro. O recruta Sam Train (Omar Miller), um negro de físico enorme, mas com uma personalidade infantil, acaba resgatando um garoto italiano que está preso nos destroços provocados pelo bombardeio. O garoto está ferido e falando de forma incoerente, e Train acha que ele é uma espécie de “santo”. Os quatro soldados acabam se refugiando em uma vila por perto, na casa de um velho fascista e sua família.

O filme é dirigido por Spike Lee que, obviamente, ficou interessado em contar a história deste pelotão de soldados negros lutando em uma “guerra de brancos”, como declara um deles. O filme tem co-produção italiana e é falado em três línguas, inglês, italiano e alemão, conforme a trama acompanha cada lado envolvido na guerra. Baseado no livro de James McBride (que assina o roteiro), “Milagre em Santa Anna” é muito bem feito tecnicamente e tem o foco voltado para os personagens. O problema é que, por vezes, o tom “panfletário” de Spike Lee acaba atrapalhando. É fato que os negros que lutaram na 2ª. Guerra Mundial raramente são lembrados; os filmes dedicados ao gênero, em sua grande maioria, são estrelados apenas por atores brancos e pouco se fala da participação negra no conflito. Mas há alguns “discursos” no filme fora de lugar, fora o fato de que os poucos brancos retratados geralmente são apenas idiotas estereotipados.

O lado lúdico do filme, justamente o tal “milagre” do título, acaba sofrendo em um filme que mistura cenas panfletárias com outras extremamente violentas e realistas. As cenas de batalha são muito bem feitas e mostram todo horror da guerra. Os italianos se encontravam entre o fogo cruzado dos americanos, dos nazistas e dos próprios compatriotas, que se dividiam entre os dois grupos. Quando tudo isso se junta em cena é um verdadeiro massacre, mostrado com detalhes pela câmera de Lee. Em meio a isso tudo (é um filme longo, 166 minutos) há cenas muito interessantes e calmas entre o garoto, que se chama Ângelo (Matteo Sciabordi) e o recruta Train. Os dois não entendem a língua um do outro, mas conseguem se comunicar por gestos e expressões. A atriz italiana Valentina Cervi interpreta Renata, uma mulher que não sabe se o marido está vivo ou não e que se torna o motivo de atração (e discórdia) entre o Sargento Bishop (Michael Ealy) e o Sangento Stamp (Derek Luke). Há também um líder dos partisans (a resistência italiana) que chega à vila com um prisioneiro nazista. Em seu grupo está um traidor, responsável por uma tragédia revelada no final do filme.

Como se não bastassem todos estes personagens e tramas, o filme infelizmente ainda tenta fazer uma ponte com uma época 40 anos depois, quando um dos soldados apresentados no filme, agora já velho, mata a queima-roupa uma pessoa em uma agência dos correios. Estas cenas, passadas na década de 80, começam e terminam o filme de forma irregular e desnecessária. Spike Lee poderia ter se concentrado em fazer apenas um filme na 2ª. Guerra Mundial, com uma duração menor, menos panfletagem e mais atenção ao lado lúdico da trama.