segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Comentários Oscar 2011

A cerimônia de entrega do Oscar, ocorrida em Los Angeles na noite de ontem, foi previsível e entediante. Com o claro objetivo de atrair a audiência jovem, os atores James Franco e Anne Hathaway foram os mestres de cerimônia, substituindo os tradicionais comediantes. O resultado foi muito fraco. Hathaway e Franco podem ser bonitos e talentosos, mas não têm "timing" algum para levar uma cerimônia como esta. James Franco parecia estar drogado; fez toda a cerimônia com um sorriso travado no rosto e lia o teleprompter com dificuldade, de forma robótica.

Quanto aos vencedores, "O Discurso do Rei" confirmou as previsões e levou os prêmios de Melhor Filme, Diretor (Tom Hooper), Ator (Colin Firth) e Roteiro Original (David Seidler). O longa britânico tem a "cara" do Oscar e é sem dúvida um ótimo filme, mas "A Rede Social" é muito mais relevante e atual. Particularmente vergonhosa foi a decisão da "Academia de Artes e Ciências Cinematográficas" de votar em Tom Hooper como melhor diretor. Hooper fez um trabalho competente mas, novamente, o melhor diretor do ano foi David Fincher por "A Rede Social". Fincher pegou um roteiro basicamente falado (muito bem escrito por Aaron Sorkin, que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado) e conseguiu imprimir ritmo e suspense. "A Rede Social" venceu também os prêmios de Melhor Trilha Sonora (Trent Reznor and Atticus Ross) e Melhor Edição (Angus Wall e Kirk Baxter).

Outra injustiça da noite foi o prêmio de Melhor Fotografia para Wally Pfister em "A Origem". O vencedor deveria ter sido o mestre Roger Deakins por seu trabalho excepcional em "Bravura Indômita". O faroeste dos irmãos Coen, a propósito, foi o grande injustiçado da noite, com dez indicações e nenhuma vitória.

A categoria ator e atriz coadjuvantes surpreendeu favoravelmente. Christian Bale (excepcional em O Vencedor) repetiu o feito do Globo de Ouro e levou um Oscar merecido, assim como sua colega Melissa Leo (que deu uma gafe ao falar a palavra "fuck", proibida na televisão ao vivo americana, durante seu discurso de agradecimento).
Na categoria Melhor Documentário, "Inside Job" tirou o prêmio do divertido "Exit through the gift shop", do artista Banksy (que havia prometido receber o prêmio vestido de macaco, caso ganhasse). "Lixo Extraordinário", co-produção entre a Inglaterra e o Brasil, também ficou sem o prêmio.

No geral, os prêmios foram melhor distribuídos que em outros anos. Esperemos que no próximo ano escolham melhor o apresentador da cerimônia; Billy Crystal, antigo apresentador do Oscar, fez uma participação especial que serviu apenas para mostrar como Franco e Hataway estavam perdidos.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Vencedores OSCAR 2011

Melhor Direção de Arte
Alice no País das Maravilhas

Melhor Direção de Fotografia
Wally Pfister, por A Origem

Melhor Atriz Coadjuvante
Melissa Leo, por O Vencedor

Melhor Animação Curta-Metragem
The Lost Thing

Melhor Animação Longa-Metragem
Toy Story 3

Melhor Roteiro Adaptado
Aaron Sorkin, por A Rede Social

Melhor Roteiro Original
David Seidler, por O Discurso do Rei

Melhor Filme Estrangeiro
Em um mundo melhor

Melhor Ator Coadjuvante
Christian Bale, por O Vencedor

Melhor Trilha Sonora
Trent Reznor e Atticus Ross, por A Rede Social

Melhor Mixagem de Som
A Origem

Melhor Edição de Som
A Origem

Melhor Maquiagem
O Lobisomen - Rick Baker e Dave Elsey

Melhor Figurino
Alice no País das Maravilhas - Colleen Atwood

Melhor Documentário Curta-Metragem
Strangers no More, de Karen Goodman e Kirk Simon

Melhor Curta-Metragem
God of Love, de Luke Matheny

Melhor Documentário Longa-Metragem
Inside Job, Charles Ferguson e Audrey Marrs

Melhores Efeitos Especiais
A Origem

Melhor Edição
A Rede Social, Angus Wall e Kirk Baxter

Melhor Canção
We belong together, de Randy Newman em Toy Story 3

Melhor Direção
Tom Hooper, por O Discurso do Rei

Melhor Atriz
Natalie Portman, em O Cisne Negro

Melhor Ator
Colin Firth, em O Discurso do Rei

Melhor Filme
O Discurso do Rei

Exit through the gift shop

Curioso. Dos cinco filmes indicados a melhor documentário no Oscar que acontece esta noite, dois deles questionam a definição e o valor da Arte. Um deles é "Lixo Extraordinário", ótima co-produção britânico-brasileira que mostra o trabalho desenvolvido por Vik Muniz em Jardim Gramacho, o maior "lixão" do mundo, no Rio de Janeiro. O outro filme é "Exit through the gift shop" (sem previsão de lançamento no Brasil), que discute não só o que seria "Arte" e seu valor financeiro como também a própria definição de documentário. Há quem diga que o filme não passe de uma charada criada pelo artista Banksy, diretor do longa.

Explicando: Thierry Getta é um francês que mora nos Estados Unidos desde os anos 80. Ele tem uma obsessão; tudo que faz é gravado por ele mesmo em centenas de fitas de vídeo, que se acumulam em caixas em sua casa. Sua renda vem de uma loja de roupas "recicladas" em Los Angeles, de onde ele tira uma fortuna. Ele compra produtos de segunda mão e, após mexer um pouco com as roupas, revende para a sociedade "alternativa" da cidade por centenas de dólares. Já se nota aqui uma crítica irônica à sociedade de consumo. Um dia Thierry começa a gravar imagens de um artista francês chamado de "Space Invader", pois sua arte consiste em espalhar pelas cidades do mundo ícones com figuras do antigo jogo de videogame.

Thierry passa então a seguir outros artistas de rua como Shepard Fairey e dezenas de outros pelas noites de Los Angeles, supostamente para fazer um documentário. Mas Thierry realmente gostaria de gravar Banksy, um artista britânico famoso por suas obras polêmicas feitas nas ruas de Londres ou no muro construído por Israel para "se proteger" dos palestinos. Não demora muito para Thierry se tornar o guia de Banksy em Los Angeles e a documentar seu trabalho. Há uma sequência ótima que mostra Banksy e Thierry entrando na Disneylândia e deixando outro trabalho polêmico: um boneco em tamanho real vestido como um dos prisioneiros iraquianos que os Estados Unidos mantinham (sem julgamento) em Guantanamo, Cuba.

A última parte é a mais irônica. Thierry teria passado meses montando seu filme e mostrado a Banksy, que o achou péssimo. Banksy resolveu tomar as rédeas da produção e mudar o assunto do documentário, que agora passou a ser o próprio Thierry Getta (Banksy diz que o francês é um assunto melhor do que ele). Thierry resolve se tornar ele mesmo um artista e gasta milhares de dólares em uma exposição de arte montada em um estúdio abandonado da TV CBS, em Los Angeles. Suas obras não passam de cópias modificadas do trabalho de Andy Warhol (como a famosa lata de sopas Campbell), mas isso não importa. O que "Exit through the gift shop" quer mostrar é como qualquer coisa pode ser chamada de "arte" e valer muito dinheiro. A mega exposição criada por Thierry (que passa a se chamar "Sr. Lavagem Cerebral", veja a ironia) rende uma fortuna. Em "Lixo Extraordinário", Vik Muniz é mostrado criando arte a partir do lixo, em figuras claramente inspiradas por quadros clássicos. A palavra "reciclagem" ganha outros significados nas obras criadas por Muniz, Banksy ou mesmo Thierry Getta.

Mas seria "real"? O "Mr. Brainwash" realmente existe e tem feito exposições de arte pelo mundo. Mas tudo pode ser uma armação elaborada por Banksy, ele mesmo uma figura "anônima" cujo rosto nunca é visto durante o documentário. A indicação do filme ao Oscar gerou outra polêmica: caso o documentário vença, quem vai receber o prêmio? As últimas notícias dizem que Banksy conseguiu convencer a Academia a deixá-lo comparecer vestindo uma roupa de macaco. É a arte de rua invadindo outro ícone, o Oscar.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Abutres

Dirigido por Pablo Trapero, "Abutres" é um retrato visceral da máfia das indenizações na Argentina. Um letreiro informa que morrem oito mil pessoas por ano em acidentes de trânsito, cem mil pessoas na última década, em nosso país vizinho. Héctor Sosa (Ricardo Darín) é um advogado que teve a licença revogada e que agora presta serviços para uma organização chamada de "Fundação". Eles são especialistas em negociar com as companhias de seguros em nome das vítimas de trânsito, ficando com quase todo o dinheiro. Sosa é um "abutre", assim chamado por passar a noite seguindo ambulâncias e procurando por clientes em potencial em hospitais, nas ruas e até mesmo em velórios.

Luján (Martina Gusman) é uma médica que trabalha atendendo vítimas em longos plantões. Sua primeira imagem a mostra se injetando uma droga que a mantém calma e capaz de enfrentar a estressante jornada de trabalho. Luján e Sosa se conhecem quando ela é chamada para atender um acidente. Ele já está no local, aparentemente prestando socorro à vítima, quando a ambulância chega. Os dois passam a se encontrar várias vezes em outras ocorrências e começam um romance conturbado. Ricardo Darín ficou conhecido no mundo como o ator preferido do diretor Juan José Campanella, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro ano passado com o ótimo "O Segredo dos seus Olhos". Gusman é sócia do diretor Pablo Trapero na "Matanza Cine", produtora de "Abutres".

Trapero rodou o filme com a câmera digital RED, e a imagem é um misto de cinematográfico e jornalístico. "Abutres" é um filme bastante cru e, por vezes, chocante. A máfia das indenizações não se limita a explorar acidentes comuns, mas também em forjá-los. Há uma cena bastante forte em que Sosa aplica um remédio em um "cliente" e, enquanto conversa com ele, pega uma marreta e lhe quebra a perna. Claro que suas atividades não serão bem aceitas por Luján, que ainda tenta manter alguma ética médica. Sosa também está querendo largar tudo, mas seus superiores, através de ameaças físicas e psicológicas, não vão deixar.

Há vários planos sequência muito bem filmados pelo diretor de fotografia Julián Apezteguia, que mantém a câmera na mão e enquadra os personagens de forma documental. O plano final é brilhante, um belo trabalho de fotografia, direção e interpretação dos atores. E o cinema argentino, novamente, mostra como se podem fazer filmes sérios aqui por nossas bandas.


Inverno da Alma

Este é um lado dos Estados Unidos que raramente é visto no circuito comercial. "Inverno da Alma" venceu o Festival de Sundance, tradicional reduto de filmes independentes, e teve fôlego para chegar a quatro indicações ao Oscar (melhor roteiro adaptado, atriz, ator coadjuvante e melhor filme). Escrito e dirigido por Debra Granik e rodado no estado do Missouri, "Inverno da Alma" é um retrato de uma região onde, aparentemente, o "sonho americano" nunca chegou.

A jovem Ree Dolly (Jennifer Lawrence), de 17 anos, carrega a responsabilidade de cuidar de dois irmãos mais novos e da mãe com problemas psicológicos. O pai era um fabricante de "crack" que foi solto sob fiança, mas seu paradeiro é desconhecido. O xerife visita a casa de Ree e lhe avisa que o pai havia colocado o imóvel como garantia da fiança; se ele não se apresentar para sua audiência, Ree, a mãe e as crianças vão perder a propriedade. "Eu vou achar meu pai", diz a garota. Jennifer Lawrence faz um trabalho sério e convincente e a indicação ao Oscar foi merecida. A garota começa então a procurar pelo pai foragido mas, aos poucos, percebemos que ninguém está disposto a ajudá-la. Teria o pai fugido? Estaria escondido na casa de algum parceiro? Ou, o que se torna cada vez mais provável, estaria morto? Quem se incomodaria com um traficante a mais naquela região pobre e miserável?

A maioria dos personagens têm dificuldades financeiras ou com a lei. Suas casas não passam de cabanas ou trailers caindo aos pedaços. A família de Ree depende da ajuda de uma vizinha para não passar fome, ou então tem que comer esquilos que caçam na floresta. Granik faz um filme bastante feminino, mas não no sentido "frágil" ou "delicado", pelo contrário. As marcas da vida estão nos rostos de todas as mulheres de "Inverno da Alma". Os poucos homens mostrados na tela também parecem sobreviventes. O tio de Ree, chamado de Teardrop ("Lágrima"), é um sujeito assustador interpretado por John Hawkes, que me lembrou um jovem Dennis Hopper.

Há uma passagem que mostra como o exército americano consegue membros vindos da camada pobre da população. Ree tenta se alistar por causa dos 40 mil dólares prometidos aos novos recrutas, e só não consegue por ainda não ter os 18 anos exigidos. Mas não é difícil imaginar um exército de miseráveis indo perder suas vidas no Iraque em troca de 40 mil dólares. "Inverno da Alma" é baseado no livro de Daniel Woodrell, com roteiro adaptado por Debra Granik e Anne Rosellini. Um filme sério e honesto, cuja indicação ao Oscar tornou possível sua divulgação mundo afora.


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O Mágico

Mágica e ilusão. Sylvain Chomet, o diretor da ótima animação "As Bicicletas de Belleville" (2003), usou da ilusão do cinema para trazer de volta a uma de suas figuras mais marcantes, o francês Jacques Tati. Herdeiro artístico de astros do cinema mudo como Charles Chaplin e Buster Keaton, Tati criou um personagem que quase não falava e protagonizou vários filmes, como "As Férias do Sr. Hulot" (1953) e "Meu Tio" (1958) (e, certamente, serviu de inspiração para o "Mr. Bean" de Rowan Atkinson). Em 1956, Tati escreveu um roteiro chamado "L'Illusionniste", que nunca filmou. Há controvérsias sobre as motivações por trás deste roteiro, mas a versão mais aceita é a de que Tati sentia remorso por ter abandonado uma filha (Helga Marie-Jeanne Schiel) quando criança. A filha mais nova de Tati, Sophie Tatischeff, foi quem autorizou Sylvain Chomet a levar para as telas, finalmente, o roteiro não produzido pelo pai.

A animação conta a história de um mágico que, no final dos anos 50, está enfrentando problemas para atrair público para suas apresentações. Seu número é tradicional (com coelho na cartola e tudo) e ele sofre com a concorrência do rock ´n roll e da televisão. A própria eletricidade representa uma ameaça, com toda a mecanização que ela traz. Há uma sequência linda em que o mágico é levado para uma pequena vila no litoral da Escócia, onde encontra uma platéia entusiasmada. Mas a eletricidade acaba de chegar na vila e, logo após sua apresentação, o dono do bar liga uma máquina de "jukebox" que toca, a todo volume, rock ´n roll. É a música gravada tomando o lugar das apresentações ao vivo.

Mas se engana quem pensa que este é um filme contra a modernização; é sem dúvida nostálgico, mas as mudanças fazem parte da vida. A mudança é representada na figura de uma garota que, fascinada com as ilusões do mágico, acredita que ele realmente consegue fazer coisas aparecerem no ar. Quando ele deixa a vila e parte para a cidade grande (Edinburgo, maravilhosamente desenhada), ela o acompanha. O filme é praticamente mudo, a história sendo contada apenas com imagens, música (do próprio diretor Sylvain Chomet) e frases curtas em inglês e francês (que sequer têm legendas em português). A relação entre o mágico e a garota nunca é explicada nem questionada. Ele apenas a acolhe e ela o acompanha em sua vida como artista. E ela realmente acredita (ou simplesmente não questiona) o fato dele fazer surgir presentes para ela, como sapatos e roupas novas quando, na verdade, ele batalha em vários trabalhos paralelos para ganhar algum dinheiro. Outros artistas frequentam o mesmo hotel em que eles estão, como um ventríloco, um palhaço e um grupo de malabaristas, todos em vários estágios de decadência.

O trabalho de animação é primoroso e os desenhistas conseguiram replicar os movimentos de Tati perfeitamente. Mas não só isso. Cada plano do filme é uma obra de arte cheia de luzes, cores e movimento. Como toda comédia séria (perdão pela contradição), "O Mágico" é também bastante melancólico, principalmente no retrato dos decadentes artistas de palco. É o final de uma era e o início da massificação e globalização do entretenimento. Mas, aparentemente, é também uma auto-espiação de Tati pela vida errante de artista e pelo tempo longe da família. Mas há esperança. Vários casais são vistos em cenas do filme e, não demora muito, a garota também vai achar seu par.

Destaque para uma cena memorável em que o Tati animado entra em um cinema que está passando "Meu Tio" e vê na tela Jacques Tati, em carne e osso, atuando. "O Mágico" foi indicado ao Oscar de Melhor Animação (deve perder para Toy Story 3) e é um trabalho maravilhoso. Em Campinas pode ser visto no Topázio Cinemas.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Bravura indômita

Há um plano de Jeff Bridges neste filme que é o típico retrato do herói. A câmera o focaliza de baixo, contra um céu azul aparentemente infinito, e ele joga uma coisa no ar. Ele saca seu revólver e atinge o objeto com um tiro certeiro. O plano dura alguns segundos, mas é um dos grandes momentos de "Bravura Indômita", novo filme dos irmãos Joel e Ethan Coen. Mas se engana quem acha que este plano tem qualquer coisa de heróica. O filme dos Coen é, como quase todos os faroestes feitos nos últimos anos, revisionista.

Bridges interpreta o agente federal Rooster Cogburn, um personagem bêbado, sanguinário e decadente, contratado por uma garota de apenas 14 anos para localizar o assassino do pai dela. Ela é Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garota decidida e precoce que quer a todo custo vingar a morte do pai. A jovem Steinfeld é uma atriz excelente, mostrando uma determinação implacável e falando com naturalidade os longos diálogos escritos pelos irmãos roteiristas, baseados no livro de Charles Portis (já transformado em filme por Henry Hathaway em 1969, estrelando ninguém menos que John Wayne). É muito engraçada uma cena em que a garota consegue negociar com um vendedor os pôneis e a sela do pai. É com este dinheiro que ela contrata Cogburn e eles partem para o território indígena atrás do assassino, Tom Chaney (Josh Brolin). Os dois são acompanhados pelo texano LaBoeuf (Matt Damon), que também está atrás de Chaney por outros motivos.

Os irmãos Coen são marcados por um tipo de cinema sofisticadamente cínico e bem escrito, em filmes como "Barton Fink", "O Homem que não estava lá", "E ai, meu irmão, onde está você?" e "Fargo", entre outros. O Oscar veio com "Onde os fracos não têm vez", um tipo de faroeste moderno que deixou muita gente sem entender o final em aberto e sem esperanças. "Bravura Indômita" é não só um filme de "gênero" definido (e o mais americano de todos, o "western") como ainda carrega a carga de ser uma "refilmagem", o que poderia sinalizar um afrouxamento no cinema de Joel e Ethan. Não é verdade. Para começar, não é realmente uma refilmagem, mas um novo roteiro escrito a partir do livro no qual se baseou o filme de 1969. E há várias características dos Coen neste novo filme. Há uma passagem extremamente "Coeniana" na cena em que Bridges e a garota vêem o que parece ser um urso montado a cavalo (na verdade, um homem vestindo uma pele de urso para se proteger do frio) e no diálogo bizarro que eles trocam. A violência inesperada de "Fargo" também pode ser vista em uma cena em que Bridges tenta convencer um homem a dizer o destino de Chaney, ou no tiroteio que se segue.

Há também um retrato satírico dos Estados Unidos na personagem da garota (que não tem nada de infantil), Mattie Ross. Seus motivos podem ser justos, mas seu desejo de vingança é fortemente baseado na religiosidade dos colonizadores americanos. Ao presenciar um enforcamento triplo, no início do filme, ao invés de se sentir chocada, sua determinação só aumenta, e ela chega a passar sua primeira noite na cidade no depósito da funerária, onde estavam os corpos não só de seu pai, mas dos três enforcados.

Tecnicamente falando, destaque deve ser dado à excelente direção de fotografia de Roger Deakins. Seus enquadramentos são primorosos, assim como o uso preciso da luz e sombra. Os enquadramentos também lembram clássicos do gênero dirigidos por John Ford. Roger Deakins divide uma das dez indicações ao Oscar que o filme recebeu.


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Santuário

Esta aventura usa duas "grifes": o nome James Cameron e o sistema 3D de projeção. Despois do sucesso de "Avatar", um praticamente virou sinônimo do outro, e o diretor de "Titanic" e "O Exterminador do Futuro" assina a produção executiva de "Santuário". Mas se o roteiro de "Avatar" já era bem simples, "Santuário" mais parece um falso documentário de televisão. Curiosamente, a ligação com Cameron também faz lembrar seu filme de 1989, "O Segredo do Abismo", em que mergulhadores descobriam uma civilização extraterrestre no fundo do oceano.

"Santuário" não passa da exibição de belas imagens em três dimensões povoada por personagens bidimensionais. Todos os clichês possíveis podem ser encontrados. O início do filme é praticamente igual a Jurassic Park, lançado por Steven Spielberg em 1993: "Santuário" começa com a chegada (em um helicóptero) de um milionário excêntrico, Carl (Ioan Gruffud) a uma ilha coberta por florestas tropicais. Lá se encontra o maior sistema de cavernas do mundo, que está sendo explorada por cientistas. O problema é que uma chuva se transforma inesperadamente em um ciclone e deixa a todos presos na caverna, enfrentando a fúria da Natureza. Em "Santuário" não há nem os dinossauros de Spileberg nem os extraterrestres de Cameron; assim, metade do filme é dedicado a mostrar as pessoas entrando na caverna e a outra metade os mostra tentando sair dela. Continuando com os clichês, há o relacionamento conturbado entre um pai linha dura, Frank (Richard Roxburgh) e seu filho adolescente, Josh (Rhys Wakefield). Há também uma mergulhadora (que além de mulher se chama "Jude", judia) que logo na primeira cena fica assustada e, claro, morre no mergulho. Há também uma cena em que um personagem começa a tossir, o que significa doença grave, e ele não dura muito tempo.

De clichê em clichê, o diretor Alister Grierson leva o espectador pelos vários "níveis" da caverna que, como em um videogame, vai ficando cada vez mais perigosa. Um aviso no início do filme diz que "Santuário" foi inspirado em uma história real, uma forma de dar "credibilidade" ao roteiro de John Garvin e Andrew Wight. O site oficial informa que Wight realmente ficou preso por dois dias com uma equipe de filmagem em uma caverna na Austrália, mas este é o limite de "realidade" presente em "Santuário". A produção sem dúvida é bem feita; cenários enormes foram usados para simular o interior da caverna, além de cenas reais de mergulho filmadas em cavernas australianas. Mas "Santuário" é muito fraco. Teria sido mais interessante, talvez, se fosse um documentário de verdade.


sábado, 29 de janeiro de 2011

Minhas mães e meu pai

Nic e Jules são um casal há vinte anos. Têm um casal de filhos, Joni e Laser (sim, como em "raio laser") e a garota está de partida para a faculdade. Esta seria uma família comum em um filme comum se não fosse pelo fato de que Nic e Jules são duas mulheres, interpretadas por Annette Bening e Julianne Moore. As duas ficaram grávidas do mesmo doador de esperma, e o filho mais novo, Laser (Josh Hutcherson), pede à irmã Joni (Mia Wasikowska) que ligue para a clínica de fertilidade para descobrir a identidade do pai. Ele é Paul (Mark Ruffalo), um solteirão que tem uma plantação de alimentos orgânicos, um restaurante e uma vida aparentemente tranquila.

Dirigido por Lisa Cholodenko, é um filme curioso, que quer ser ao mesmo tempo progressista e tradicional. A família, se não fosse pelo fato de ser lésbica, é o típico sonho americano. Nic (Bening) é uma médica bem sucedida que sustenta a casa. Ela é durona, perfeccionista e controladora. Jules (Moore) é mais submissa e ainda não descobriu o que fazer da vida; no momento ela quer ser paisagista. Joni é uma aluna exemplar que tem uma amiga que vê sexo em tudo e um melhor amigo por quem é atraída. Laser é o típico garoto sem rumo, que anda de skate com um amigo que, em breve, vai acabar parando na prisão. A vida de todos muda quando Joni e Laser finalmente conhecem o "pai", Paul. Ele é tudo que Nic não é; é divertido, livre, pilota uma motocicleta. Nic, claro, sente sua posição de "pai' da família ameaçada, o que a torna ainda mais repressora. É perfeitamente possível imaginar o mesmo filme tendo um homem no lugar de Annette Bening, mas provavelmente "Minhas mães e meu pai" não atrairia muita atenção.

Para complicar ainda mais a situação, Paul contrata Jules para fazer o paisagismo de sua casa e os dois começam a passar bastante tempo juntos. Jules gosta da atenção de Paul e, lésbica ou não, logo os dois acabam parando na cama. "Minhas mães e meu pai" ganhou como Melhor Filme (musical ou comédia) e Melhor Atriz (musical ou comédia) para Annette Bening no último Globo de Ouro e está entre os dez indicados a melhor filme no Oscar. Annette Bening está realmente muito bem, mas a indicação a melhor filme é um exagero (o filme é outro a se beneficiar do fato do Oscar indicar dez filmes desde o ano passado, ao contrário de cinco). Como já foi dito, ele é curiosamente tradicional e quadrado, chegando a terminar com um discurso sobre as dificuldades e virtudes do casamento. Mark Ruffalo (indicado ao Oscar de ator coadjuvante) repete o par vivido com Julianne Moore em "Ensaio sobre a Cegueira", de Fernando Meirelles. Paul, seu personagem, merecia um destaque melhor ao final do filme, que é mais dramático do que o trailer abaixo tenta passar.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

127 Horas

Aron Ralston (James Franco) é um aventureiro. Em um final de semana de março de 2003, ele partiu para uma região de canyons, no estado de Utah, sem avisar ninguém. Ao pisar em uma rocha que julgara ser firme, ela rolou e jogou Ralston no fundo de uma fenda, prendendo seu braço direito firmemente à parede. Aron tenta empurrar a pedra com toda a sua força, e nada. O que fazer? Ele está a quilômetros de qualquer cidade, fora da rota normal dos turistas e, o que é pior, ninguém sabe que ele está lá.

Danny Boyle, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" (2008) é o responsável pela versão cinematográfica desta aventura real vivida por Aron Ralston. Boyle e James Franco conseguem um feito e tanto, que é criar suspense e interesse em um filme que se passa quase o tempo todo dentro de um buraco. Por isso mesmo, o início de "127 horas" é bastante agitado, com um visual até exagerado e publicitário demais em que Boyle usa telas divididas e música muito alta para nos apresentar Ralston. O rapaz mora sozinho, está sempre com fones de ouvido e uma atitude hiperativa. Ao levar um tombo espetacular com sua bicicleta, ele não só dá risada como ainda tira uma foto de si mesmo com uma câmera digital. No caminho para o canyon ele encontra duas adolescentes perdidas e as leva para uma aventura em uma incrível lagoa escondida no fundo das rochas. O letreiro com o título só aparece depois de 15 minutos de filme, quando Aron percebe que está realmente preso no fundo da fenda.

Interessante como o filme mostra como o ser humano é frágil diante da natureza. Ainda assim, Aron tenta uma saída racional para seu problema. Com a mão livre, explora o conteúdo da sua mochila que, felizmente, tem uma garrafa de água e algumas barras de cereal. Ao menos ele não morreria de fome tão cedo. Ou será que os mantimentos só prolongariam o inevitável? Com um canivete ele tenta escavar um buraco para soltar seu braço, mas a rocha é sólida. As horas, e depois os dias, vão passando e o desespero só cresce. James Franco foi indicado ao Oscar por sua interpretação, que é bastante convincente. O diretor mantém o interesse do espectador mostrando flashbacks na forma de lembranças e sonhos de Aron, que pensa em sua família e sua primeira namorada. Interessante também a forma como a tecnologia moderna, se não consegue soltar Aron, ao menos lhe dá conforto; em vários momentos Aron faz declarações (ou fala consigo mesmo) para sua pequena câmera de vídeo, que carregava na bicicleta. É através do vídeo que ele se despede dos pais e lhes pede perdão. Há uma cena muito boa em que ele faz uma auto-entrevista, em que chega à conclusão que foi seu egoísmo que o colocou naquela situação.

Não vou falar sobre o final do filme, mas "127 Horas" levanta a questão de qual o limite para a sobrevivência? O que um ser vivo faz quando não tem nenhuma saída? Aron Ralston descobriu seu limite, e o espectador com ele. O filme está indicado ao Oscar de Melhor Filme, Ator (James Franco), Roteiro Adaptado, Edição, Trilha Sonora (A.R. Rahman) e Canção.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Vencedor

Filmes de boxe seguem uma fórmula. É a clássica história do derrotado que tem que lugar contra seus problemas pessoais, sua família, seu físico e, no final, contra um oponente de carne e osso. É terreno fértil para o drama e para os clichês. O que, então, faz de "O Vencedor" um filme a ser visto? Em primeiro lugar, o elenco, em especial o britânico Christian Bale, famoso por se entregar de corpo e alma aos pergonagens que interpreta. Bale ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Drama neste ano e pode repetir o feito no Oscar, ao qual foi indicado. Ele interpreta Dicky Eklund, um viciado em crack que é uma lenda na pequena cidade em que vive por sua carreira como boxeador. Ele chegou a derrubar o lendário Sugar Ray Leonard, embora alguns digam que Leonard teria tropeçado.

Dicky e sua mãe Alice (Melissa Leo, também premiada com o Globo de Ouro e indicada ao Oscar) vivem agora de agenciar Micky (Mark Wahlberg), o meio irmão mais novo de Dicky, em lutas de boxe. Micky é bom, mas a mãe e o irmão estão mais preocupados com eles mesmos do que com a carreira dele. Após uma luta especialmente violenta, em que Micky é surrado por um oponente dez quilos mais pesado, ele começa a pensar em tomar as rédeas de sua vida. Ele conta com o apoio da namorada Charlene (Amy Adams, indicada ao Oscar), uma garçonete. A direção de "O Vencedor" é de David O. Russell, diretor do bom "Três Reis" (1999) e do esquisito "Huckabees, A Vida é uma Comédia" (2004). Russell estava parado desde esta última produção e volta em grande forma, ganhando inclusive uma indicação ao Oscar. O passo do filme desenvolve bem os personagens, principalmente a complicada família de Micky. A casa está sempre cheia e agitada por suas sete irmãs, todas falando ao mesmo tempo e, aparentemente, vivendo do pouco que Micky ganha para apanhar nos ringues.

Christian Bale, apesar da posição "coadjuvante", carrega o filme nas costas. O ator está mais magro e com os tiques e maneirismos comuns aos viciados em drogas. Seu personagem é sempre o centro das atenções, onde quer que ele vá, mesmo ficando claro que ele não passa de um fracassado. Uma equipe de televisão o segue por toda parte supostamente para gravar sua volta aos ringues quando, na verdade, está fazendo um documentário sobre viciados em crack.

Mark Wahlberg, um dos produtores do filme, é bom ator. Seu personagem cresce gradualmente em importância e, apoiado por Charlene, consegue a inédita chance de disputar o titulo mundial. Todo mundo sabe como o filme vai terminar, mas isso não importa. "O Vencedor" foi um dos dez indicados a Melhor Filme no Oscar é um bom exemplo de como um roteiro pode retrabalhar os clichês de um gênero e fazer um bom espetáculo.


Indicados ao Oscar

Os indicados ao Oscar foram anunciados hoje em Los Angeles. Veja a lista a seguir e faça suas apostas.

Melhor filme
Cisne Negro (texto)
O Vencedor (texto)
A Origem (texto)
O Discurso do Rei (texto)
A Rede Social (texto)
Minhas Mães e meu Pai (texto)
Toy Story 3 (texto)
127 Horas (texto)
Bravura Indômita (texto)
Inverno da Alma (texto)

Melhor diretor
Darren Aronovsky - Cisne Negro
David Fincher - A Rede Social
Tom Hooper - O Discurso do Rei
David O. Russell - O Vencedor
Joel e Ethan Coen - Bravura Indômita

Melhor ator
Jesse Eisenberg - A Rede Social
Colin Firth - O Discurso do Rei
James Franco - 127 Horas
Jeff Bridges - Bravura Indômita
Javier Bardem - Biutiful

Melhor atriz
Nicole Kidman - Reencontrando a Felicidade
Jennifer Lawrence - Inverno da Alma
Natalie Portman - Cisne Negro
Michelle Williams - Blue Valentine
Annette Bening - Minhas Mães e meu Pai

Melhor roteiro original
Minhas Mães e meu Pai
A Origem
O Discurso do Rei
O Vencedor
Another Year

Melhor roteiro adaptado
A Rede Social
127 Horas
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma

Melhor ator coadjuvante
Christian Bale - O Vencedor
Jeremy Renner - Atração Perigosa
Geoffrey Rush - O Discurso do Rei
John Hawkes - Inverno da Alma
Mark Ruffalo - Minhas Mães e meu Pai

Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams - O Vencedor
Helena Bonham Carter - O Discurso do Rei
Jacki Weaver - Animal Kingdom
Melissa Leo - O Vencedor
Hailee Steinfeld - Bravura Indômita

Melhor longa metragem de animação
Como Treinar o Seu Dragão (texto)
O Mágico (texto)
Toy Story 3 (texto)

Melhor filme em lingua estrangeira
Biutiful
Fora-da-Lei
Dente Canino
Incendies
Em um Mundo Melhor

Melhor direção de arte
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte I (texto)
A Origem (texto)
O Discurso do Rei (texto)
Bravura Indômita (texto)

Melhor documentário
Lixo Extraordinário
Exit Through the Gift Shop
Trabalho Interno
Gasland
Restrepo

Melhor trilha sonora
Alexandre Desplat - O Discurso do Rei
John Powell - Como Treinar o seu Dragão
A.R. Rahman - 127 Horas
Trent Reznor e Atticus Ross - A Rede Social
Hans Zimmer - A Origem

Melhor edição
127 Horas
Cisne Negro
A Rede Social
O Discurso do Rei
O Vencedor

Melhor fotografia
A Origem
Cisne Negro
A Rede Social
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

Melhor figurino
O Discurso do Rei
Bravura Indômita
Alice no País das Maravilhas
I am Love
The Tempest

Melhor canção original
"Coming Home", de Country Strong
"I See the Light", de Enrolados
"If I Rise", de 127 Horas
"We Belong Together", de Toy Story 3

Melhor mixagem de som
Salt
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita
A Rede Social

Melhor edição de som
Toy Story 3
Tron - O Legado
A Origem
Bravura Indômita
Incontrolável

Melhor maquiagem
O Lobisomem
Caminho da Liberdade
Minha Versão para o Amor

Melhores efeitos visuais
Além da Vida
A Origem
Homem de Ferro 2
Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1

Melhor curta-metragem
The Confession
The Crush
God of Love
Na Wewe
Wish 143

Melhor documentário em curta-metragem
Poster Girl
Strangers no More
Killing in the Name
Sun Come Up
The Warriors of Qiugang

Melhor curta-metragem de animação
Day & Night
Let's Pollute
The Lost Thing
The Gruffalo
Madagascar, Carnet de Voyage

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Discurso do Rei

Histórias de superação quase sempre dão bons filmes. E que extraordinária história é contada em "O Discurso do Rei", dirigido por Tom Hooper e produzido pelos antigos donos da Miramax, os irmãos Bob e Harvey Weinstein.

São os anos 30, na Inglaterra. O Duke de York, Albert (Colin Firth), tem um problema que o acompanhou a vida inteira: ele é gago. No início do filme, ele tenta, sem sucesso, fazer um discurso em um evento esportivo. Ele não é o primeiro na linha de sucessão do rei George V (Michael Ganbom) mas, como príncipe, sua gagueira é um problema nestas ocasiões públicas. Após vários médicos falharem em curá-lo, sua esposa Elizabeth (Helena Bonhan Carter) encontra Lionel Logue (Geoffery Rush), um terapeuta australiano com um método particular de corrigir defeitos de fala. Para Lionel, o problema não é apenas físico, mas emocional. Mas como conseguir uma relação pessoal com um príncipe da Inglaterra?

Geoffrey Rush (um dos produtores do filme) interpreta Lionel como um homem extremamente seguro de si e que se torna o único "homem comum" a tratar o Duque de York de igual para igual. Ele insiste em chamá-lo de "Bertie" (diminutivo de Albert) e exige ser chamado pelo primeiro nome. Colin Firth, também excelente, interpreta um homem que foi a vida toda colocado para baixo pelo pai George e pelo irmão mais velho, David (Guy Pearce), que caçoava de seu defeito de fala. Aos poucos, Lionel consegue revelar os medos interiores do príncipe e mostrar que ele, na verdade, pode estar destinado a se tornar o futuro rei da Inglaterra. Ele não é o único a pensar assim. Após a morte de George V, David foi coroado com o rei Eduardo VIII, mas sua insistência em se casar com uma mulher divorciada causa desconforto na corte e na política britânica. Além disso, na Alemanha, Hitler está se revelando uma ameaça a toda Europa, e David não parece capaz de lidar com isso. O Duke de York, assim, acaba subindo ao trono como o rei George VI, às portas do início da II Guerra Mundial.

Todos estes nomes e fatos podem parecer confusos, mas o roteiro de David Seidler deixa tudo muito claro. O foco está na relação pessoal entre o terapeuta e seu paciente nobre que, de repente, tem que fazer seu primeiro pronunciamento à nação: a declaração de guerra à Alemanha nazista. Tecnicamente impecável, "O Discurso do Rei" tem bela fotografia de Danny Coen, que usa o foco para destacar seletivamente partes da imagem. A trilha original é de Alexander Desplat, mas se faz também bom uso de músicas clássicas de Mozart e Beethoven. O roteiro abre espaço para mostrar o relacionamento de Lionel com a esposa e os filhos, assim como os bastidores da família real britânica. Mas é nos diálogos (às vezes duelos verbais) entre Geoffrey Rush e Colin Firth que o filme tem seus melhores momentos.

"O Discurso do Rei" venceu (em 22 de janeiro) o Producer´s Guild Award; nos últimos três anos, o vencedor deste prêmio também levou o Oscar de Melhor Filme. Colin Firth ganhou o Globo de Ouro como melhor ator em drama. O filme se torna, assim, o principal concorrente de "A Rede Social" no próximo dia 27 de fevereiro, dia da entrega do Oscar.

Atualização: "O Discurso do Rei" foi o recordista de indicações ao Oscar deste ano, concorrendo a Melhor Filme, Diretor (Tom Hooper), Roteiro Original (David Seidler), Ator (Colin Firth), Atriz Coadjuvante (Helena Bonhan Carter), Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Direção de Arte, Fotografia (Danny Coen), Figurino, Edição (Montagem), Trilha Sonora (Alexander Desplat) e Mixagem de Som.


sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Um Homem Misterioso

George Clooney é um astro tão grande que pode se dar ao luxo de, de vez em quando, fazer um tipo de filme diferente. "Um Homem Misterioso" ("The American", no título original) começa com três mortes em menos de cinco minutos; uma delas é bastante surpreendente. Clooney é Jack, um americano que escapa de uma tentativa de assassinato na Suécia e foge para Roma, Itália. Lá ele liga para um homem chamado Pavel (Johan Leysen), que lhe dá as chaves de um carro e o manda para um pequeno vilarejo nas montanhas. Precavido (ou paranóico?) Jack se instala no vilarejo vizinho ao ordenado, e espera. Espera pelo que? Não sabemos. Jack passa seus dias fingindo ser um fotógrafo e tentando não chamar a atenção, mas não é bem sucedido. O padre local, Benedetto (Paolo Bonacelli) percebe que Jack é um homem em conflito, uma bomba relógio a ponto de estourar.

É então que Jack conhece Mathilde (Thekla Reuten), que tem uma encomenda para ele: uma arma. Com infinita paciência e atenção aos detalhes, é na fabricação de tal arma que Jack se revela um artista. Com equipe toda européia e dirigido pelo holandês Anton Corbijn (de "Control" e vários videoclips de bandas como U2), "Um Homem Misterioso" é um thriller despreocupado em criar cenas de ação desnecessárias. O filme é bastante lento e marcado por poucos diálogos. A rididez espartana de Jack se dissolve quando está fabricando a arma, lendo sobre borboletas ou quando está com Clara (Violante Placido), uma prostituta com quem fica envolvido. Há uma homenagem a Sergio Leone em uma cena em que "Era uma vez no Oeste" (1968) está passando na televisão, e a referência não é em vão. Há algo do diretor italiano nos longos planos abertos e no silêncio do personagem principal. É até possível imaginar Clint Eastwood fazendo o papel de Jack uns anos atrás. Clooney está muito bem em um papel atípico; Jack é um homem que pouco fala e muito menos sorri.

É na relação com as mulheres que está seu lado mais humano e, nesta profissão, o mais perigoso. Ao mesmo tempo em que percebe que está apaixonado por Clara, sente-se ameaçado pela frieza calculista da assassina Mathilde e vê possíveis ameaças em todo lugar. A relação com a prostituta também revela algo sobre ele mesmo, alguém pago para fazer algo eticamente imoral. Haverá saída para eles? Ou, como lhe diz o Padre Benedetto, a saída está no amor? Jack, com certa razão, acha que talvez seja tarde demais.


domingo, 16 de janeiro de 2011

Vencedores do Globo de Ouro 2011

Vou atualizar ao vivo os vencedores. Quem quiser pode acompanhar por aqui.

Melhor Ator Coadjuvante (cinema)
Christian Bale ("O Vencedor")

Melhor Atriz (Drama TV)
Katey Sagal (“Sons of Anarchy”)

Melhor Minissérie ou Filme para a TV
“Carlos”

Melhor Ator Coadjuvante TV
Chris Colfer (“Glee”)

Melhor Ator (Drama TV)
Steve Buscemi (“Boardwalk Empire”)

Melhor Série (Drama TV)
“Boardwalk Empire”

Melhor Canção Original
“You Haven”t Seen the Last of Me” (“Burlesque”)

Melhor Trilha Sonora Original
Trent Reznor e Atticus Ross (“A Rede Social”)

Melhor Animação
“Toy Story 3”

Melhor Atriz (Comédia ou Musical)
Annette Bening (“Minhas Mães e Meu Pai”)

Melhor Ator em Minissérie ou Filme para a TV
Al Pacino (“You Don´t Know Jack”)

Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para a TV
Claire Danes (“Temple Grandin”)

Melhor Roteiro (cinema)
“A Rede Social” - Aaron Sorkin

Melhor Atriz Coadjuvante (série TV)
Jane Lynch (“Glee”)

Melhor Filme em Língua Estrangeira
“In a Better World” (Dinamarca)

Melhor Atriz (Comédia ou Musical TV)
Laura Linney (“The Big C”)

Melhor Ator (Comédia ou Musical TV)
Jim Parsons (“The Big Bang Theory”)

Melhor Atriz Coadjuvante (cinema)
Melissa Leo (“O Vencedor”)

Prêmio especial Cecil B. DeMille
Robert De Niro

Melhor Diretor (cinema)
David Fincher (“A Rede Social”)

Melhor Série (Comédia ou Musical)
“Glee”

Melhor Ator (Comédia ou Musical TV)
Paul Giamatti (“Minha Versão para o Amor”)

Melhor Atriz (Drama TV)
Natalie Portman (“Cisne Negro”)

Melhor Filme (Comédia ou Musical Cinema)
“Minhas Mães e Meu Pai”

Melhor Ator (Drama)
Colin Firth (“O Discurso do Rei”)

Melhor Filme (Drama Cinema)
"A Rede Social"