domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

Meryl Streep está bem, como sempre, interpretando a Primeira Ministra britânica Margaret Thatcher. O filme sobre Thatcher, no entanto, é sofrível. Dirigido por Phyllida Lloyd (que já havia trabalhado com Streep antes no musical "Mamma Mia"), "A Dama de Ferro" é uma confusa montagem de três elementos: 1) a representação fictícia de um momento na velhice de Thatcher quando, senil e tendo alucinações com o marido morto, ela recorda sua vida; 2) cenas de arquivo tiradas da televisão mostrando multidões protestando em uma Inglaterra decadente e 3) a cinebiografia propriamente dita da filha do dono de uma mercearia que chegou ao governo de uma das nações mais poderosas do mundo entre 1979 e 1990.

A mescla destes três elementos é feita de forma quase aleatória e, o que é pior, com um peso muito grande nas cenas que representam a velhice de Thatcher. Grande parte do filme se dedica a mostrar Streep coberta por uma pesada maquiagem que a envelhece e em acompanhá-la por seu apartamento, andando de um cômodo a outro na companhia do "fantasma" do marido, Denis (interpretado por outro grande ator desperdiçado, Jim Broadbent). Thatcher conversa com o marido como se ele estivesse vivo, escuta seus conselhos e lhe diz como se vestir enquanto ignora os empregados da casa que, vivos, não sabem o que fazer com ela. Entre uma conversa com o marido e outra, Thatcher relembra cenas da própria vida, e o filme parte para flashbacks que mostram como a jovem Margaret Roberts (interpretada quando moça por Alexandra Roach) idolatrava o pai que tinha idéias conservadoras. A jovem é aceita na renomada Universidade de Oxford e, em 1959, entra para o parlamento. Thatcher se tornaria a primeira mulher a liderar o Partido Conservador e a ser eleita Primeira Ministra em 1979, época em que a Inglaterra se via às voltas com problemas trabalhistas e com atentados do grupo separatista irlandês IRA.

Ao contrário do filme "A Rainha", que contrabalançava a personagem da Rainha Elisabeth (interpretada por Helen Mirren) com cenas do Primeiro Ministro Tony Blair e ainda falava sobre a morte da Princesa Diana, "A Dama de Ferro" trata apenas da personagem convervadora, durona e intransigente que era Margaret Thatcher, e não sabe o que fazer com ela. Todas as tentantivas de humanizar Thatcher se dão durante as cenas em que ela está tendo alucinações com o marido, o que acaba por tirar a importância das passagens históricas que são tratadas de forma superficial e, em grande parte, usando material de arquivo. O único acontecimento real que é retratado de forma um pouco mais aprofundada é a absurda Guerra das Malvinas, travada entre a Inglaterra e a Argentina em 1982. Ainda assim, o filme cita apenas vagamente o uso político que Thatcher fez da guerra, que resultou na morte de centenas de soldados argentinos e britânicos e ajudou a Dama de Ferro a vencer as eleições de 1983. É de se perguntar o porquê deste filme ser lançado justamente no aniversário de 30 anos do conflito.

"A Dama de Ferro", confuso e sem direção, falha tanto como cinebiografia quanto como denúncia de uma das figuras mais importantes (para o bem e para o mal) do século XX. Resta apenas tecer elogios retóricos à interpretação de Meryl Streep, indicada pela 17ª vez ao Oscar (que, provavelmente, será ganho por Viola Davis por "Histórias Cruzadas"). Mesmo assim, o filme mostra Thatcher de forma tão caricatural que nem Streep consegue salvá-lo.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Artista

"O Artista" é uma das mais puras homenagens feitas pelo cinema ao próprio cinema. É daqueles filmes que fazem o espectador querer sair dançando da sala e, por um momento, esquecer dos problemas do mundo. Dançando e pensando, pois apesar de parecer um culto ao escapismo de Hollywood, "O Artista" é muito mais, é uma reflexão sobre o próprio cinema e sobre a arte em geral.
Escrito e dirigido pelo francês Michel Hazanavicius, "O Artista" é um bilhete em uma máquina do tempo para o início do século XX e o surgimento de Hollywood. Uma época em que os filmes podiam ser mudos, mas nunca eram silenciosos. Hollywood, por mais que representasse o cinema "americano", foi o lugar para onde fugiram pessoas das mais variadas origens e credos; ela podia se localizar nos Estados Unidos, mas era universal. Atores que falavam com carregado sotaque europeu como o italiano Rodolfo Valentino (1885-1926) podiam ser estrelas de cinema pois suas vozes eram apenas imaginadas pelo público, que mantinha os olhos grudados na tela e eram auxiliados por uma orquestra ao vivo que acompanhava a projeção. Tudo isso mudou em 1927, quando um filme chamado "The Jazz Singer" apresentou alguma cenas faladas e cantadas; o público ficou encantado e a indústria cinematográfica teve que se adaptar à nova tecnologia.

"O Artista" começa exatamente em 1927, quando George Valentin (Jean Dujardin) era a maior estrela do cinema. O tom de metalinguagem já é estabelecido desde a primeira cena, que mostra a exibição de um filme de Valentin em uma daquelas salas gigantes, lotada, e Valentin e a equipe aguardam o término da projeção atrás da tela. "O Artista" não só é em preto e branco como também é mudo, assim como o filme que passa dentro do filme. A trilha de Ludovic Bource acompanha as imagens fielmente, estabelecendo o tom e reforçando as emoções. Valentin conhece por acaso a bela aspirante a atriz Peppy Miller (Bérénice Bejo) e os dois chegam a fazer uma pequena cena juntos, mas a indústria está mudando. A chegada do som joga Valentin no limbo das estrelas do cinema mudo, enquanto Miller representa a nova geração do cinema falado.

Please Be Silent
Há uma enorme quantidade de pequenos detalhes que mostram com que carinho e dedicação este filme foi feito. Durante a projeção no início, por exemplo, quando se mostra a equipe aguardando o final do filme, há uma placa que, ironicamente, diz "Faça silêncio quando estiver atrás da tela". E o que dizer da cena em que Valentin é dispensado pelo estúdio e encontra Miller em uma escada? Repare como, nesta cena, a garota está em um nível acima do ator, que se encontra em um momento complicado da carreira, abaixo. Em outra cena mais à frente, os dois estão em um restaurante, e a atriz está dando uma entrevista a um repórter de rádio (que representa o cinema falado), enquanto Valentin está de costas para a garota; ele está, literalmente, dando as costas para a nova tecnologia. Quando o ator se desespera e acaba indo parar em um hospital, a garota vai visitá-lo no quarto 27, extamente o ano em que surgiu o cinema falado.

Cena de "Cidadão Kane", 1941
Há pelo menos três homenagens ao filme "Cidadão Kane", de Orson Welles, de 1941. Mesmo não sendo um filme mudo, "Cidadão Kane" foi pioneiro em uma série de efeitos sonoros trazidos por Welles do rádio. A famosa sequência que mostra o distanciamento de Kane e a esposa através de cenas passadas na mesa do jantar é reproduzida em sequência parecida em "O Artista". O plano em que o dono do fictício estúdio Kinograph (interpretado por John Goodman) mostra para Valentin um trecho de um filme falado lembra muito, na cenografia e fotografia, a cena em que os jornalistas discutem a vida de Kane; o plano tem a mesma imagem escura cortada pelas fortes luzes da sala de projeção. Há também uma cena em que Valentin, em um acesso de fúria, destrói seu apartamento de forma bem similar à cena em que Kane destrói o quarto da mulher. Um pouco mais difícil de entender é o uso de uma faixa da ótima trilha de "Um Corpo que Cai" (1958), de Alfred Hitchcock, em uma cena dramática. O fato até causou controvérsia com a publicação de uma carta de repúdio da atriz Kim Novak a respeito. Como "O Artista" homenageia o cinema, e a música de Bernard Herrmann se encaixa perfeitamente na cena (que termina com uma cartela ótima, representando um efeito sonoro), pode-se dizer que Hazanavicious, o diretor, está desculpado pelo empréstimo.

A metalinguagem é também muito bem utilizada em uma cena em que George Valentin, logo depois de saber do aparecimento dos filmes falados, vai para seu camarim. Ele toma uma bebida e, ao colocar o copo sobre a mesa, leva um susto ao ouvir o som do vidro sobre a madeira. De repente, é como se todo o mundo ganhasse som, e o espectador partilha da surpresa de Valentin ao conseguir escutar o barulho do trânsito da rua, de pessoas falando e do latido do animal de estimação do ator. Impossível falar de "O Artista" sem citar, também, "Cantando na Chuva" (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly. O musical da Metro também tratou da transição entre o cinema mudo para o falado de forma bem humorada, embora seja um tanto cruel com os artistas do cinema mudo. 

"O Artista" recebeu dez indicações para o próximo Oscar, inclusive para melhor filme e melhor diretor. Seu principal concorrente, "As Aventuras de Hugo Cabret", de Martin Scorsese, curiosamente, também é uma homenagem aos primórdios do cinema. Parece que a Hollywood do século XXI está com saudades de suas origens. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Menina que Brincava com Fogo

Tendo visto "Os homens que não amavam as mulheres", filme de David Fincher baseado em livro de Stieg Larsson, fiquei curioso em assistir à versão sueca do segundo livro de Larsson, "A menina que brincava com fogo" (2009). Interessante acompanhar uma história com personagens familiares interpretados por outros atores. Noomi Rapace é Lisbeth Salander, que na versão americana foi feita por Rooney Mara. Rapace tem feições mais fortes e um lado físico que é mais ameaçador que  Mara. Michael Nyqvist é o jornalista Mikael Blomkvist, papel de Daniel Craig na versão americana. "A menina que brincava com fogo" tem direção de Daniel Alfredson, que repetiu o posto na última parte da trilogia sueca, "A rainha do castelo de ar".

Esta segunda parte investiga mais a fundo o passado de Lisbeth Salander, uma hacker bissexual que ajudou o jornalista Mikael Blomkvist a solucionar um mistério no primeiro filme. Salander sofreu uma série de abusos durante a vida e vive sob a tutela do estado desde que, aos 12 anos, tentou matar o próprio pai queimado. Stieg Larsson, na vida real, também era um jornalista que investigava a violência contra mulheres, e o tema é recorrente em seus livros. A revista Milleium, onde Blomkvist trabalha, está investigando o tráfico de mulheres da Europa oriental quando o jornalista responsável pela reportagem, Dag Svensson (Hans Christian Trulin) e sua namorada são assassinados. O assistente social responsável pela tutela de Lisbeth, Nils Bjurman (Peter Andersson), também aparece morto, e Lisbeth é declarada suspeita pela polícia. Vale lembrar que foi Bjurman que esturprou Lisbeth no primeiro filme. Mikael Blomkvist, certo da inocência da garota, entra na investigação dos crimes e acaba descobrindo muitos segredos do passado de Salander.

O filme é tecnicamente bem feito, embora Daniel Alfredson, o diretor, não tenha a mesma classe que David Fincher. A produção sueca é mais crua e há longas cenas que mostram simplesmente um personagem indo de um lugar a outro, fato que provavelmente seria acelerado em um filme americano. É também curioso que Blomkvist e Salander passem praticamente o filme todo separados, encontrando-se frente a frente apenas no final (em aberto) da obra. Resta se perguntar se Fincher, ou algum outro diretor, vai fazer uma versão em inglês desta segunda parte também.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Precisamos falar sobre o Kevin

Kevin (Ezra Miller) é um rapaz de quinze anos, bonito, culto, com fala mansa e grave. É apaixonado por arco e flecha desde que sua mãe, Eva (Tilda Swinton), leu Robin Hood para ele quando era criança. Mas Kevin tem um problema: ele é um monstro. "Precisamos falar sobre o Kevin" é um livro lançado pela escritora Lionel Shriver (nascida Margaret Ann Shriver) em 2003, que conta uma história bem americana que, infelizmente, se tornou lugar comum nos noticiários: o massacre em uma escola ginasial. A britânica BBC comprou os direitos do livro e lança agora o filme dirigido por Lynne Ramsay.

Assim como no livro, o filme é contado do ponto de vista da mãe de Kevin, Eva, após a tragédia ocorrida com a família. Tilda Swinton (de "Um Sonho de Amor") está excelente e foi injustamente esquecida pelo Oscar, para o qual não foi sequer indicada. Swinton, usando penteados diferentes conforme a época em que se passa a história, interpreta Eva como o retrato desesperado de uma mulher que, ao se tornar mãe, perdeu tudo. É um ponto de vista um tanto radical; é como se toda a vida dela, a partir do nascimento de Kevin, fosse uma interminável depressão pós-parto, e há algo de maniqueísta no filme. Que Kevin se torne um adolescente problemático e sádico é triste, mas possível. Mais improvável é a premissa de que o garoto fosse o retrato do demônio desde o seu nascimento. Será que Hitler era uma criança problemática? Exageros à parte, o filme é tão bem feito e Tilda Swinton tão convincete que o espectador acredita na existência deste garoto capaz dos atos mais terríveis. Mas o filme é tanto sobre os problemas de Kevin quanto sobre as falhas dos pais, Eva e Franklin (John C. Reilly).

Franklin é o retrato do otimismo e da ingenuidade. Ele se recusa a acreditar que Kevin tenha problemas e sempre poe a culpa na esposa. Eva também não é uma mãe exemplar. Ela tenta ser amigável com o filho, mas frequentemente transforma suas frustrações em um comportamento violento. Interessante como as semelhanças físicas e psicológicas entre Eva e seu filho são mostradas através de detalhes como o corte de cabelo dos dois ou em cenas espelhadas. A cor vermelha está ligada a Kevin através de suas roupas quando criança e seus sanduíches de geléia. A cor é fortemente ligada a Eva em uma cena extraordinária que abre o filme, quando ela está na Espanha durante a "Tomatina", uma festividade em que centenas de pessoas se envolvem em uma guerra de tomates. Uma cena que é, ao mesmo tempo, alegre e assustadora.

Há também uma crítica à sociedade do espetáculo em que o mundo se tornou. Quando perguntado sobre o porquê dele ter feito o que fez, Kevin diz a um repórter que ele agiu como todos, no fundo, desejavam . Por que eles estavam assistindo àquela entrevista? Por que não mudaram de canal? Perturbador, mas fascinante, "Precisamos falar sobre o Kevin" é dos melhores filmes do ano. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas

A maior força de "Histórias Cruzadas" está no elenco encabeçado por Viola Davis, que interpreta a empregada doméstica Aibileen Clark. Davis venceu o prêmio do Sindicado dos Atores, foi indicada ao Globo de Ouro e é a principal aposta para o Oscar. O elenco ainda conta com Jessica Chastain (de "A Árvore da Vida"), muito bem como uma dona de casa problemática, e Octavia Spencer, que venceu o prêmio de Melhor Coadjuvante no Globo e Ouro e também concorre ao Oscar.

"Histórias Cruzadas" é um filme cheio de boas intenções e que toca no delicado tema do racismo nos Estados Unidos, mas não tem nada de novo para contar. Baseado em um livro de Kathryn Stockett, o filme tem roteiro e direção de Tate Taylor e conta a história de uma recém formada jornalista que volta da faculdade para a pequena cidade de Jackson, no estado do Mississipi. Ela é Skeeter Phelan (Emma Stone, de "Amor a toda prova"), uma jovem independente que, ao contrário das amigas na cidade, não tem interesse em se casar e ter filhos.  Ela arruma um emprego no jornal local para escrever uma coluna sobre prendas domésticas, assunto que não domina. Ela então procura a ajuda das empregadas negras da cidade, em particular Aibileen Clark (Viola Davis), mas o contato com elas a faz mudar o foco de suas matérias. Skeeter fica interessada na vida das empregadas e babás negras e em um estranho fenômeno: as crianças brancas são criadas pelas mulheres negras mas, ao crescerem, se tornam patroas insensíveis e racistas. Aibileen e outra empregada, Milly (Spencer), concordam em relatar suas histórias a Skeeter, que pretende enviá-las a uma editora em Nova York.

O assunto da segregação racial gerou grandes filmes como "Mississipi em Chamas" (1988), de Alan Parker, e está na raiz do próprio cinema americano. O primeiro longa metragem importante de Hollywood foi "O Nascimento de uma Nação" (1915), de D.W. Grifith, que hoje causa espanto por mostrar os membros da organização racista Ku Klux Klan como heróis. "Histórias Cruzadas" está mais interessado em emocionar a plateia do que em ser um filme de denúncia. A fotografia de Stephen Goldblatt valoriza as paisagens ensolaradas e a recriação de época retrata bem o interior americano dos anos 60. Apesar das ótimas atuações e de momentos emocionantes, a relação entre os personagens é muito simplista, cheia de estereótipos. Há a "vilã" interpretada por Bryce Dallas Howard, uma dona-de-casa que posa de defensora das crianças da África mas propõe uma nova lei que proíbe os negros de usarem o mesmo banheiro que os brancos. A mãe de Skeeter (a ótima Allison Janney) passa por uma transformação rápida demais de mulher racista para defensora das ideias da filha. Falta ao filme um clima maior de tensão; as atitudes de Skeeter e as declarações das mulheres negras certamente causariam reações violentas, possivelmente letais, e não apenas rostos chocados de um grupo de donas-de-casa. Falta, essencialmente, um engajamento maior. Como entretenimento leve, "Histórias Cruzadas" certamente vai agradar o grande público, em particular o feminino, e vale pelas boas interpretações de Davis, Spencer e Chastain.

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