domingo, 30 de agosto de 2009

Confissões de uma garota de programa

Chelsea é bonita, elegante, arrumada. Tem fala mansa, é educada e escuta as pessoas falarem de seus problemas. Ela mora com Chris, seu namorado, que é um personal trainer. Chelsea é uma garota de programa.

O filme é dirigido por Steven Soderbergh, que tem uma carreira singular. Ele surgiu para o mundo com o "cult" "Sexo, Mentiras e Videotape", que ganhou o Festival de Cannes em 1989. De lá para cá, tem misturado filmes de puro entretenimento, como a série Onze, Doze e Treze "Homens e um Segredo", com filmes um pouco mais ambiciosos, como "Traffic" (2000, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Diretor), "Erin Brockovitch" (no mesmo ano, dando o Oscar de Melhor Atriz para Julia Roberts), e a refilmagem de "Solaris" (2002). Técnico competente, ele é também Diretor de Fotografia e operador de câmera de vários de seus filmes, além de editor e músico.

O título brasileiro, apesar de correto, é enganador. Sim, temos "confissões de uma garota de programa", mas o espectador não deve esperar algo "picante" ou no estilo "Bruna Surfistinha". O título original, "The Girlfriend Experience", é mais interessante. Em um mundo sexualmente liberal (e até libertino) como o nosso, em que algumas pessoas "ficam" com várias outras em curto espaço de tempo, se envolvendo não só amorosamente mas fisicamente, o que significa ter um namorado ou namorada? O filme de Soderbergh não é só sobre Chelsea, mas também sobre seu namorado e, sim, sobre seus clientes. Vários sequer fazem sexo com ela durante os encontros. Eles vão ao cinema, jantam em restaurantes caros, conversam sobre os problemas de uma economia em crise. Para adicionar um toque ainda mais realista ao ar documental da produção, Soderbergh escolheu a atriz de filmes pornô Sasha Grey para viver Chealsea. Não que isso signifique, novamente, cenas de sexo picantes (o filme é bem comportado, aliás). Mas a presença de Grey aumenta o contexto extrafilme para o espectador, que vê aquela garota elegante e imagina como, ou porque, ela faz aquele trabalho (e é simples ver, em sites especializados, Grey trabalhando em outros papéis).

Não linear, a história acompanha a vida da garota em Manhattan, Nova York. Muito bem paga, ela está sempre impecavelmente vestida (mesmo quando está pouco vestida) e em várias etapas de negociação. De fato, dá a impressão que todas as personagens do filme estão negociando alguma coisa. Há algo de irônico no fato de que as negociações da garota de programa parecem bem mais simples e melhor resolvidas que dos vários executivos mostrados no filme. Eles estão sempre reclamando da queda nos lucros e imaginando o pior, mesmo que não abram mão de viagens em jatinhos para Las Vegas ou dos caros serviços das garotas de programa. Há espaço para o amor nesse tipo de mundo? Christine (o nome verdadeiro de Chelsea) mora com o personal trainer Chris (Chris Santos) que aparentemente não se incomoda com a profissão da namorada. Mas há regras. Christine não quer que ele vá para Las Vegas sozinho em uma viagem de executivos. E ele fica muito incomodado quando ela diz que vai passar um final de semana com um cliente que pode significar "algo mais" para ela.

Com 78 minutos, é um filme curto, cujo formato de falso documentário e passo lento não agradou muito a platéia (houve várias desistências durante a projeção). Incautos, provavelmente esperavam cenas "quentes", quando o que vemos na tela é um curioso e sensível quadro do mundo moderno, frio e calculista.


sábado, 29 de agosto de 2009

A Onda

Em uma escola de ensino médio, na Alemanha, os alunos são convidados a estudar vários sistemas de governo. A turma do professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) foi escolhida para estudar a "autocracia" (o governo de um só, ou de um grupo). Wenger é um professor jovem e moderno, que conversa de igual para igual com os alunos e veste uma camiseta do grupo "Ramones". Ele gostaria realmente de dar aula sobre "anarquia", mas o assunto já foi escolhido por outro professor.

Surpreso quando seus alunos dizem que seria impossível uma ditadura se estabelecer novamente na Alemanha, ele resolve fazer um experimento. Deixa de ser camarada com os alunos e começa a exigir ser chamado de "Sr. Wenger", além de alinhar todas as carteiras da classe. Todo aluno tem direito a falar, desde que peça permissão primeiro e se levante. Começa então a fazer perguntas hipotéticas sobre como se estabelece uma ditadura; do que ela precisa? É democraticamente eleito o líder do grupo, que também vota por usar um uniforme com camisas brancas. Os alunos que discordam são desprezados pelo grupo e colocados para fora. Por fim, decidem por um cumprimento próprio e por um nome, "A Onda". O processo, inicialmente, é benéfico para alguns alunos. Os mais tímidos, por exemplo, se sentem amparados pelo resto do grupo e acreditam ter achado um propósito para suas vidas. Os preguiçosos, motivados, decidem abrir um website para "A Onda" e criar seu logotipo. O problema é que o que começa como um exercício hipotético acaba ganhando força própria. Os membros da "onda" se sentem protegidos e especiais, mas começam a discriminar todos os que não são como eles. Uma noite, todos saem pelas ruas pichando os muros e espalhando adesivos com seu logotipo pela cidade. Atos de vandalismo e violência começam a ocorrer sem que o professor Rainer tenha conhecimento do que está acontecendo.

O roteiro foi baseado em um livro de Tod Strasser, que já havia sido adaptado para a televisão americana em 1981. A história é baseada em um fato real ocorrido nos Estados Unidos, mas o fato dessa versão se passar na Alemanha, claro, acaba por evocar o Nazismo. Dirigido por Dennis Gansel, o filme é por vezes um pouco simplista. Nem todo grupo exposto a idéias fascistas necessariamente agiria da mesma forma. A figura do professor também me pareceu muito inocente. A Alemanha Nazista chegou a extremos justamente por ter a figura carismática de um líder como Adolf Hitler no comando. Mas o filme é um alerta contra o preconceito e o fundamentalismo, que podem nascer de forma democrática e com a melhor das intenções.


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Casamento Silencioso

Eis um daqueles filmes raros, inteligentes, bonitos, instigantes, bem feitos. "Casamento Silencioso" é uma produção da Romênia, com direção de Horatiu Malaele, que também assina o roteiro em parceria com Adrian Lustig.

Em 1953, um pequeno vilarejo romeno acompanha com misto de apreensão e diversão o relacionamento apaixonado de Iancu (Alexandro Potocean) e Mara (Meda Andreea Victor). Os dois fazem amor nos campos de milho, na floresta, no celeiro, em todos os lugares, e seus pais gostariam que eles se casassem de uma vez. No horizonte, tanques soviéticos podem ser vistos fazendo manobras e, na floresta, uma estranha moça lança uma maldição sobre o casal. Quando os dois finalmente decidem se casar, uma grande festa é preparada, com muita comida e bebida. Só que, no dia da festa, oficiais soviéticos aparecem para ordenar que tudo seja parado. Joseph Stalin, que comandou a União Soviética de 1922 até 1953, havia morrido e um luto oficial de sete dias foi decretado. A festa de casamento estava proibida, sob pena de morte. O que se segue é das cenas mais hilariantes do filme, quando todo o vilarejo resolve se reunir à noite para celebrar o casamento da única forma possível, ou seja, silenciosamente. O diretor leva a sequência ao nível do absurdo, com brindes feitos com copos embrulhados em panos e uma banda que, animadamente, apenas finge tocar.

A sequência do "casamento silencioso" do título é ótima, mas todo o filme é permeado de situações que variam entre o absurdo e o sublime. Quando o Partido Comunista exige que um filme seja exibido no vilarejo, a luz elétrica tem que ser improvisada com um dínamo de bicicleta, operada pelo "inventor maluco" da cidade. Enquanto o filme de propaganda comunista é exibido na tela, toda a platéia do vilarejo solta gargalhadas com outro espetáculo involuntário: o prefeito da cidade, simpatizante dos soviéticos, se atrapalha com um grupo de comandados que, em câmera rápida, parecem interpretar uma cena cômica de um filme mudo. O clima de pastelão muda para a entrada poética de um grupo de circo na cidade, à noite, com as tochas dos malabaristas iluminando a todos. Pode-se sentir a presença do italiano Federico Fellini em momentos como este. O romeno Horatiu Malaele mostra grande habilidade para criar situações que passam pela comédia, pelo romance, pelo drama e até mesmo pelo sobrenatural. De forma poética e metafórica, "Casamento Silencioso" mostra como a Romênia, por anos, foi silenciada pelo regime comunista. Belo filme.

sábado, 8 de agosto de 2009

John Hugues, parte II

Hughes não dirigia um fime desde 1991, e fazia filmes que, na época, eram considerados "divertimento descartável". Pois bem, sua morte gerou reações bem interessantes mundo afora. Links que eu cacei por ai, ou achei na comunidade/sites de colegas:

ESTE LINK leva a uma história muito interessante de uma moça que era adolescente na época de "Clube dos Cinco" e enviou uma carta a Hughes. Em resposta recebeu uma "carta padrão" e adesivos do filme. Ela enviou outra carta a Hughes dizendo que tinha aberto seu coração para ele e recebeu uma carta padrão? Hughes respondeu pessoalmente pedindo desculpas e os dois se corresponderam ao longo de anos. Hughes levava as cartas dela à sério e acompanhava suas histórias, que ele dizia que o ajudavam a ir em frente. Anos depois, com ela já adulta, ela recebeu um longo telefonema dele falando que ele tinha parado de dirigir porque não gostava do caminho que Hollywood tinha tomado. E lamentava a morte do amigo e comediante John Candy (com quem trabalhou em vários filmes).

Este texto do crítico Roger Ebert fala com carinho sobre Hughes e seus filmes.

Texto de Kleber Mendonça Filho.

Cartaz do documentário American Teen, claramente influenciado pelo cartaz de "Clube dos Cinco".

Saudade de Ferris Bueller? Clique aqui.

Abaixo trailer de um documentário chamado "Don´t you forget about me", realizado por um grupo que tentou entrar em contato com Hughes para que ele falasse sobre os próprios filmes, mas aparentemente não conseguiu. Mas há depoimentos dos atores, agora todos adultos e de diretores que foram influenciados por Hughes, como Kevin Smith.



quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Morreu JOHN HUGHES

Um dos diretores mais significativos dos anos 80 faleceu hoje, aos 59 anos de idade, de ataque cardíaco. John Hughes era sinônimo de filmes inteligentes para adolescentes na década de 80. Ao contrário das pornochanchadas estúpidas como "Porkys" e "O Último Americano Virgem", Hughes lidava com adolescentes que não eram apenas veículos para filmes com sexo e diversão. A jovem Molly Ringwald, uma de suas descobertas, foi sua "musa" e atriz principal de "Sixteen Candles" (aqui com o título bobo de "Gatinhas e Gatões"), sobre uma garota de 16 anos chegando à adolescência (sim, adolescente na época não tinha 11 anos). Molly Ringwald também seria a personagem principal de "A Garota de Rosa Shocking" (Pretty in Pink, 1986), escrito e produzido por Hughes. O filme tratava de uma jovem garota pobre que se envolvia com um garoto de classe alta e que não conseguia lidar com a pressão dos amigos "playboys". "Pretty in Pink" também contava com Jon Cryer, hoje famoso na série "Two and a Half Men", como o melhor amigo de Ringwald, apaixonado platonicamente por ela.

Em 1985, Hughes fez um dos melhores filmes adolescentes do cinema, "O Clube dos Cinco" ("The Breakfast Club"), com um elenco que contava com os melhores atores juvenis da época: Molly Ringwald (novamente), Emilio Estevez, Anthony Michael Hall, Judd Nelson e Ally Sheedy. Os cinco adolescentes são obrigados a passar um sábado inteiro na escola como punição, e passam o tempo conversando sobre a vida, os problemas, juventude, virgindade, sexo, drogas e o futuro. Apesar das personalidades, origem e modos de vida diferentes, os cinco acabam encontrando pontos em comum e terminam se tornando amigos. A música tema composta pelo Simple Minds, "Don´t you forget about me", é emblemática desta fase em que as amizades e a juventude parecem eternas.

Em 1986, um campeão das Sessões da Tarde: "Curtindo a vida adoidado" (Ferris Bueller´s Day Off) trazia Matthew Broderick no seu papel mais famoso. Ferris Bueller acorda uma bela manhã e decide que o dia está bonito demais para desperdiçar na escola. Através de uma série de esquemas bem bolados (e totalmente fantasiosos), ele consegue convencer os pais e a escola de que está doente e sai para passear por Chicago acompanhado do melhor amigo hipocondríaco Cameron (Alan Ruck) e a namorada Sloane (Mia Sara). Sim, é um filme sobre adolescentes matando aula, mas Hughes constrói uma fantasia que não se trata apenas de farra. Os três passam o dia indo a museus, a jogos de beisebol e até participam de uma parada no centro de Chicago. A cena mais famosa do filme é quanto Ferris Bueller canta "Twist and Shout" em cima de um carro alegórico, para centenas de pessoas.

O último filme de Hughes como diretor foi "Curly Sue", de 1991, com James Belushi. Nos anos 90 ele preferiu trabalhar apenas como roteirista e produtor, e se deu muito bem lançando filmes como "Esqueceram de Mim". Segundo o site TMZ, Hughes sofreu um ataque cardíaco que o matou hoje de manhã, em Nova York, com apenas 59 anos.




segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Stella

"Stella" é um dos filmes mais femininos (e, ao mesmo tempo, universais) exibidos nos cinemas nos últimos anos. Escrito e dirigido por Sylvie Verheyde, é contado em primeira pessoa por Stella (Leora Barbara), uma menina de apenas 11 anos que vive com os pais em um bar de uma Paris que não é aquela que imaginamos, linda e com a Torre Eiffel. Esta é uma cidade real, com pessoas reais, enfrentando os problemas do dia a dia. Que problemas uma garota de 11 anos pode ter? Muitos.

O filme começa com Stella sendo admitida em uma escola "de ricos". Logo no primeiro dia, ela volta para casa com um olho roxo adquirido em uma briga com um garoto. Seus pais, Roselyne e Serge (Karole Rocher e Benjamin Biolay), não são más pessoas, mas têm pouco estudo, trabalham muito e não sabem como cuidar de uma criança. Stella ajuda a atender o balcão e pode assistir TV até tarde e conversar com os frequentadores do lugar (segundo a garota, todos vão morrer de cirrose, o que ajuda a renovar a clientela). Ela tem uma paixão platônica por Alain Bernard (Guillaume Depardieu, que morreu ano passado, filho de Gerárd Depardieu), um dos clientes que moram em um quarto alugado no mesmo prédio.

Na escola, Stella não consegue se enturmar com as outras crianças, todas mais avançadas intelectualmente e financeiramente. Um dia, porém, uma garota chamada Gladys (Melissa Rodrigues) conversa com ela e as duas engatam uma daquelas amizades que só são possíveis nessa idade, honesta e livre de interesses. Gladys é filha de um psiquiatra argentino e mora em um belo apartamento na cidade e, de vez em quando, Stella passa a noite com ela. A amizade acaba fazendo bem também aos estudos de Stella, embora não da forma rápida que aconteceria em um filme menos realista. A influência da educação de Gladys se faz sentir aos poucos, como quando Stella vai à uma livraria comprar um livro de Balzac. A leitura, ao menos no início, não impede que ela seja vítima constante daqueles professores mal amados que se encontram nas escolas mundo afora, que descontam suas insatisfações nas crianças. Mas o filme mostra como as boas amizades e bons exemplos são fundamentais para instigar a educação de uma criança. Os pais de Stella, principalmente a mãe, só sabem educar agredindo verbalmente e a colocando para baixo. Aos poucos, porém, a menina vai percebendo que a escola nova pode ser um caminho para fora do bar e para um futuro melhor.

A diretora/roteirista leva o filme com uma sensibilidade invejável. A interpretação das meninas é totalmente verdadeira, e nos identificamos de imediato. O filme é passado em uma época que, no início, não é muito fácil de identificar. Aos poucos, porém, certos indícios como roupas, discos de vinil e fotos de Alain Delon nos colocam entre os anos 60 e 70. A data exata (1977) só aparece em uma cena em que Stella se dá bem em uma tarefa na escola, falando sobre um quadro.

Não é um filme infantil (a indicação etária é de 14 anos), mas extremamente realista sobre como é, na verdade, a passagem da infância para a pré-adolescência. Para uma mulher ainda há o peso extra das mudanças mais rápidas no corpo, a primeira menstruação e a passagem das bonecas para outros interesses. Um filme com produção modesta, mas raro na beleza e sensibilidade.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Há tanto tempo que te amo

Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas) é uma mulher fria. Quando sua irmã Lea (Elsa Zylberstein), radiante de felicidade, vai buscá-la no aeroporto, Juliette a abraça, mas não esboça muita emoção. No carro, a mesma expressão fechada. Lea vai buscar as filhas adotivas na escola e diz a elas que a tia "estava viajando". As crianças tentam se aproximar, mas mesmo elas percebem que há algo "errado" com Juliette.

Kristin Scott Thomas (de "O Paciente Inglês") está ótima neste filme escrito e dirigido pelo romancista francês Philippe Claudel. Juliette é um enigma, mas Kristin aos poucos vai revelando o ser humano por trás da máscara fria e indiferente de sua personagem. Seu cunhado Luc não se preocupa em esconder que não a quer por muito tempo na casa. A irmã pede paciência ao marido. Afinal, ela passou 15 anos longe. Quando Juliette vai fazer uma visita obrigatória a seu agente de condicional (Frédéric Pierrot) é que ficamos sabendo parte da verdade. Juliette não estava viajando, mas sim presa por 15 anos. Qual teria sido seu crime? Por que Luc não a quer sozinha com as crianças? Por que ela é tão calada e fechada?

O filme explora muito bem a relação entre as duas irmãs. Lea é toda sorrisos com a irmã mais velha, mas sua apreensão e ansiedade são perceptíveis. Aos poucos, Juliette vai extraindo dela revelações sobre o comportamento da própria família. Os pais de Juliette obrigaram Lea a se esquecer da irmã, a ponto de começarem a dizer para os outros que Lea era filha única. Quando Juliette pergunta a Lea o porquê dela ter adotado duas crianças, ao invés de ter filhas próprias, a irmã responde que queria filhos, mas não queria gerar um. "É por minha causa", diz Juliette. A natureza do seu crime (que não vou revelar aqui) é tão terrível, e inexplicável, que as pessoas a tratam com desprezo ou medo. Existe crime sem perdão? Alguém que passou 15 anos preso e separado da sociedade tem o direito de tentar recomeçar a vida, quando solto?

O diretor Claudel, auxiliado pelo ótimo elenco, faz um trabalho delicado e sóbrio. Repare como o figurino das irmãs vai ficando mais claro e mais leve à medida que o filme se passa, conforme Juliette vai sendo aceita de volta pela família e por amigos. Curioso também o personagem do sogro de Lea, um senhor que mora com eles e que não pode mais falar por causa de um AVC. Juliette, calada por natureza e por consequência de suas ações, encontra conforto e companhia na presença do velho em algumas suaves passagens do roteiro.

Mais para o final o filme cresce em drama, mas também se perde um pouco. O crime de Juliette ganha uma explicação que pode ser vista como uma forma de "redimir" a personagem, e a cena em que as duas irmãs falam sobre o assunto "proibido" é interpretada brilhantemente por Kristin Scott Thomas e Elsa Zylberstein. O problema é que a tal "redenção" acaba tirando do filme um pouco do seu realismo e crueza e partindo para um clímax emocional contraditório. Por que não ir até o fim com o drama dessa mulher falha, mas fascinante? De qualquer forma, "Há tanto tempo que te amo" é um belo filme, levado com brilho pelo elenco encabeçado por Scott Thomas, em interpretação exemplar.


domingo, 26 de julho de 2009

Inimigos Públicos

De um lado, a Hollywood clássica e o filme de gângster. Anos 30, bandidos com nomes inventivos como "Baby Face" Nelson e "Pretty Boy" Floyd, metralhadoras Thompson, casacos longos, chapéus de feltro. Do outro, um dos diretores mais modernos do cinema atual, Michael Mann, com seu visual perfeccionista e suas experimentações com o cinema digital. O resultado: "Inimigos Públicos", um filme de gângster do século XXI. Mann é um mestre da imagem. Seu estilo é ao mesmo tempo épico e intimista. Ele gosta da câmera bem próxima do rosto dos personagens, como que tentando nos mostrar o que se passa dento da cabeça deles. Ao mesmo tempo, sua tela larga e imagem perfeita criam um mundo próprio. Desde algumas experimentações em "Ali" (sua falha biografia do boxeador mais famoso de todos os tempos) e em "Colateral" Mann têm usado as câmeras digitais Vyper e Sony CineAlta para substituir a tradicional película de 35 mm usada desde sempre no cinema. Se elas funcionavam bem em filmes modernos como "Miami Vice", com seu visual noturno e "sujo", sua utilização em um filme de estilo clássico como "Inimigos Públicos" poderia ser arriscada. Nas mãos de Mann e seu diretor de fotografia Dante Spinotti, no entanto, o resultado é surpreendente: temos um filme clássico que é, ao mesmo tempo, moderno até a medula.

Johnny Depp interpreta John Dillinger, um criminoso que, perguntado o que faz da vida, simplesmente responde: "Sou ladrão de bancos". Dillinger era uma espécie de "pop star" nos anos 30. Fã de cinema e de Clark Gable, vivia apenas para o dia de hoje e realizava seus roubos a banco com rapidez, nunca roubando o cliente comum. Mann e Depp, no entanto, não tentam glamourizar demais o personagem. Ele era cruel com seus inimigos e não tinha respeito algum pela lei. Apaixonou-se por uma garota chamada Billie Frechette (a francesa Marion Cotillard), o que acabou sendo seu ponto fraco. Seu inimigo declarado era Melvin Purvis (Christian Bale), um homem da lei que foi transformado em agente especial pelo diretor do FBI, o afetado John Edgar Hoover (interpretado muito bem por Billy Crudup). Hoover sonhava com uma agência anti-crime composta por homens com "treinamento científico", com técnicas que, nesses dias de CSI e exames de DNA, podem parecer risíveis, mas eram as mais avançadas da época. Purvis já havia matado pessoalmente "Pretty Boy" Floyd e "Baby Face" Nelson e Dillinger se tornou sua obsessão. Ele é interpretado por Christian Bale, que já foi um grande ator, mas ultimamente parece ter estacionado em um mesmo tipo de atuação. Saudade de seus tempos de filmes pequenos. Depp, em contrapartida, está cada vez melhor com seu estilo camaleônico.

Michael Mann é meticuloso na construção de certas sequências, como a que mostra Dillinger fugindo de uma delegacia, atravessando uma a uma as barreiras do lugar, metódica e precisamente. O frenezi da mídia a respeito de Dillinger é mostrado em uma sequência visualmente fantástica, em que o criminoso é trazido de avião, à noite, e iluminado por fogos pelos cinegrafistas da época, tão insistentes quanto os paparazzi modernos. O final é metalinguístico. Dillinger passa seus últimos momentos em uma sala de cinema, assistindo a Clark Gable. Depp observa Gable e, novamente, o moderno dialoga com o clássico. E o cinema continua.


domingo, 19 de julho de 2009

Antes que o mundo acabe

"Antes que o mundo acabe" foi o último filme exibido na competição oficial do II Festival Paulínia de Cinema, no dia 15 de julho e, em minha opinião, foi o filme mais gostoso de ver do festival. Dirigido por Ana Luiza Azevedo, "Antes que o Mundo Acabe" é uma produção da prolífica "Casa de Cinema de Porto Alegre", responsável por alguns dos melhores filmes nacionais dos últimos anos, como "Tolerância" (Carlos Gerbase), "O Homem que Copiava", "Meu Tio Matou um Cara" ou "Saneamento Básico" (todos de Jorge Furtado). Azevedo foi assistente de direção de Furtado e autora de vários curtas da casa, e faz sua estréia na direção de longas metragens. Baseado no livro de Marcelo Carneiro da Cunha, o roteiro foi escrito por Azevedo, Jorge Furtado, Paulo Halm e Giba Assis Brasil (que também é o editor do longa).

O filme conta a história do adolescente Daniel (Pedro Tergolina). Com 15 anos de idade, ele se encontra naquela fase em que os hormônios levam a melhor e tudo parece mudar muito depressa. Sua namorada, Mim (Bianca Menti) está em dúvidas sobre o namoro e pede "um tempo" a Daniel. "Quanto tempo é um tempo?", pergunta ele. Para complicar, ela está interessada no melhor amigo dele, Lucas (Eduardo Cardoso), que é o responsável pelo laboratório de Química no colégio onde os três estudam. Um dia Lucas sai mais cedo e deixa o laboratório sob a responsabilidade de Daniel. Ao descobrir que o melhor amigo está saindo com sua namorada, Daniel destrói o laboratório em um acesso de fúria e a culpa recai sobre Lucas. Além de estar com problemas com a namorada e o melhor amigo, Daniel começa a receber cartas da Tailândia de um fotógrafo que diz ser seu pai verdadeiro.

Tudo isso é contado de forma leve e divertida, sem cair no lugar comum. Daniel tem uma irmã menor chamada Maria Clara (Caroline Guedes) que tem um modo todo particular de ver o mundo. Parte da história é narrada por ela de uma forma que me lembrou muito o tipo de cinema feito por Jorge Furtado desde sua obra prima, o curta metragem "Ilha das Flores" (que consiste em criar "hyperlinks" entre os fatos do filme e informações extra filme). O fato do pai verdadeiro de Daniel ser fotógrafo também se presta para que o visual da obra seja muito interessante. Há várias referências à linguagem fotográfica e cinematográfica, como no brinquedo que Maria Clara tem no quarto (um zootropo, um dos primeiros aparelhos de imagens em movimento da história), ou nas colagens de figuras que ela faz. A narração também fala sobre as sociedades "poliândricas", em que as mulheres podem ter vários maridos, e o pai de Daniel pergunta a ele como isso seria visto aqui no Brasil. Claro que isso faz referência ao comportamento não só da namorada de Daniel como também do de sua mãe. Daniel é um garoto com "dois pais", um biológico e distante e um padrasto presente e gentil.

Tudo se passa na pequena cidade de Pedra Grande (RS), com uma passagem por Porto Alegre. Apesar da maioria da população ainda se locomover em bicicletas e o filme ter um ar que remete a uma vida mais pacata, é interessante notar que a tecnologia moderna não é deixada de fora; ela é representada pelo computador e aplicações da internet que já se tornaram lugar comum, como chats, Google Earth, sites de fotos e de busca (todos abrasileirados e adaptados de forma divertida). Quando Daniel ganha uma câmera fotográfica, é sua vez de registrar o que vê à sua volta e tentar tirar algum sentido disso. Será que tudo é o que parece? Será que o Brasil é tão diferente de um lugar distante como a Tailândia? Ou a globalização está nos deixando todos iguais?

"Antes que o mundo acabe" ganhou o prêmio da crítica no Festival de Paulínia e Ana Luíza Azevedo o de Melhor Direção. O filme ainda levou os prêmios de Melhor Fotografia (Jacob Solitrenick), Trilha Sonora (Leo Henkin), Figurino (Rosangela Cortinhas) e Direção de Arte (Fiapo Barth).

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Herbert de Perto

Um Herbert Vianna jovem, cheio de si, anda em volta de uma piscina e fala diretamente para a câmera. Ele diz que tem certeza de que, se uma tragédia acontecesse, ele poderia começar tudo de novo em algum lugar, onde quer que fosse. A imagem é intercalada por um Herbert Vianna nos dias de hoje, careca, cicatrizes no crânio, que assiste a si mesmo com expressão divertida. “Esse mané não sabe muito o que está falando”, diz ele. Será mesmo que não sabe?

Herbert Vianna, guitarrista e cantor da banda “Paralamas de Sucesso”, passou por uma tragédia; em um acidente com um ultraleve que pilotava em 2001, sua esposa morreu e ele foi praticamente dado como morto quando chegou ao hospital. Eu me lembro da primeira notícia que escutei no rádio a respeito do cantor. O locutor dizia que Herbert tinha menos de dez por cento de chances de sobreviver. O tempo e a tenacidade dele provaram o contrário. Ele não só sobreviveu como, contra todas as expectativas, recuperou aos poucos a lucidez, a memória e, mesmo paraplégico, voltou a ser um dos maiores guitarristas do rock brasileiro.

É esta história extraordinária que conta o documentário “Herbert de Perto”, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, apresentado dia 15 de julho no II Festival Paulínia de Cinema. Os “Paralamas do Sucesso” (Herbert Vianna nos vocais e guitarra, João Barone na bateria e Bi Ribeiro no baixo) já dariam um documentário fascinante sem mesmo contar a tragédia pessoal de Vianna. De fato, a produtora Conspiração Filmes fez um ótimo retrato do grupo e da história do rock nacional no documentário “Paralamas em Close-Up”, realizado em 1998. Uma das bandas a surgir no início dos anos 80, os “Paralamas” se destacaram pela tenacidade de seu vocalista e principal compositor e pela originalidade de suas músicas. O “power trio” fazia uma mistura de rock com toques de reggae e letras que exploravam as experiências pessoais de Herbert. “Óculos”, por exemplo, o primeiro super sucesso da banda, falava sobre como o acessório causava problemas entre Vianna e as garotas. O baterista João Barone conta como foi a primeira vez que se encontrou com Herbert. “Ele parecia um CDF”, brinca ele. De fato, Vianna tinha um visual de estudante “nerd”, roupas sociais e óculos de grau, que escondiam um músico compulsivo e autodidata que, quando criança, serrou o próprio violão para poder alcançar as notas mais agudas, como uma guitarra.

As imagens de arquivo, em qualidade baixa, mostram três “moleques” que criaram o que hoje são clássicos do rock nacional, como “Óculos”, “Meu Erro”, “Alagados” e dezenas de outros. O rock estourou após o sucesso da banda Blitz, que vendeu mais de um milhão de discos e abriu os olhos das gravadoras para novas bandas como “Titãs”, “Legião Urbana” e os “Paralamas” (a “santíssima trindade” do rock nacional). Nos anos 90 o grupo ainda fez grande sucesso na Argentina e gravou alguns discos em espanhol. Após o relativo fracasso dos discos “Os Grãos” (1991) e “Severino” (1994), a banca começou a se perguntar se a “onda” do rock nacional estava acabada. Como sempre, a história provou o contrario, e o disco ao vivo “Vamo Batê Lata” (1995) vendeu mais de 900 mil cópias. Herbert conheceu, se apaixonou e se casou com a inglesa Lucy Needhan, com quem teve três filhos. Quando o vemos falando com paixão sobre a esposa e sobre aprender a voar em frente ao ultraleve que quase o mataria, a emoção toma conta do filme. Dado Villalobos, membro do Legião Urbana e amigo de Herbert, conta como foi que viu o acidente dele acontecer praticamente à sua frente. Lucy morreu na hora e Herbert chegou ao hospital em um nível de coma considerado irreversível por grande parte dos médicos. Seria mais uma história de morte no rock se não fosse a história de Herbert Vianna. O grupo continua na ativa e eles fecharam o Festival Paulínia de Cinema com um show ao vivo.

Vencedores do II Festival Paulínia de Cinema

Longa-metragen - Ficção:

Melhor Filme ficção: R$ 60 mil: Olhos Azuis, José Joffily.
Melhor Direção de Ficção: R$ 30 mil: Ana Luiza Azevedo, de Antes que o Mundo Acabe.
Prêmio Especial do Júri: R$ 30 mil: O Contador de Histórias, de Luiz Villaça.
Melhor Roteiro: R$15 mil: Paulo Halm e Melanie Dimantas, de Olhos Azuis.
Melhor Ator: R$ 25 mil: Marco Ribeiro, Paulo Mendes e Cleiton Santos, de O Contador de Histórias.
Melhor Atriz: R$ 25 mil: Cristina Lago, de Olhos Azuis / Silvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, de Quanto Dura o Amor?
Melhor Ator Coadjuvante: R$ 15 mil: Irandhir Santos, de Olhos Azuis.
Melhor Atriz Coadjuvante: R$ 15 mil: Nívea Magno, de No Meu Lugar.
Melhor Figurino: R$ 15 mil: Rosangela Cortinhas, de Antes que o Mundo Acabe.
Melhor Trilha Sonora: R$ 15 mil: Leo Henkin, de Antes que o Mundo Acabe.
Melhor Direção de Arte: R$ 15 mil: Fiapo Barth, de Antes que o Mundo Acabe.
Melhor Som: R$ 15 mil: François Wolf, de Olhos Azuis.
Melhor Montagem: R$ 15 mil: Pedro Bronz, de Olhos Azuis.
Melhor Fotografia: R$ 15 mil: Jacob Solitrenick, de Antes que o Mundo Acabe.

Longa-metragem - Documentário:
Melhor Documentário: R$ 45 mil: Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar
Melhor Direção de Documentário: R$ 30 mil: Roberto Berliner e Pedro Bronz, por Herbet de Perto.

Curta-metragem - Regional:

Melhor Filme: R$ 20 mil: Spectaculum, de Juliano Luccas
Melhor Direção: R$ 15 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será katlyn
Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Pedro Struchi, de Prós e Contras
Melhor Ator: R$ 8 mil: Alexandre Caetano, de Prós e Contras
Melhor Atriz: R$ 8 mil: Roseli Silva, de Morte Corporation
Melhor Montagem: R$ 8 mil: Caue Fernandes Nunes, de Quem será Katlyn
Melhor Fotografia: R$ 8 mil: Marcelo Mazzariol, de Spetaculum

Curta-metragem - Nacional:

Melhor Filme: R$ 20 mil: Timing, de Amir Admoni
Melhor Direção: R$ 15 mil: Érico Rassi, de Milímetros
Melhor Roteiro: R$ 8 mil: Erico Rassi de Milímetros
Melhor Ator: R$ 8 mil: Fábio Di Martino, de Milímetros
Melhor Atriz: R$ 8 mil: Débora Falabella, de Doce Amargo
Melhor Montagem: R$ 8 mil: Amir Admoni, de Timing
Melhor Fotografia: R$ 8 mil: André Modugno, de Relicário

Prêmio da Crítica:

Melhor Filme de Ficção: Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo
Melhor Filme de Documentário: Moscou, de Eduardo Coutinho.

fonte: Festival de Paulínia

quinta-feira, 16 de julho de 2009

No Meu Lugar

“No meu lugar” marca a estréia de Eduardo Valente (curtametragista premiado em Cannes) na direção de longas metragens. O filme foi exibido no II Festival Paulínia de Cinema na segunda feira, 13 de julho, com recepção mista. Não é um filme fácil, com ritmo lento e estrutura não linear, o que confundiu parte do público.

Uma casa no Rio de Janeiro é o ponto em comum de três histórias interligadas por um crime. O policial Zé Maria (Márcio Vito, muito bem) está sob investigação após um tiroteio em que um homem é morto. Zé Maria é pai de Janaina (Nívea Magno), uma adolescente que não vê com bons olhos a degradação física e psicológica dele. O tiroteio aconteceu na casa de Elisa (Dedina Bernardelli), esposa do homem morto. Ela volta à casa um tempo após a morte do marido, com os filhos e um novo companheiro, Fernando (Licurgo Spinola). A casa está toda empoeirada e ainda apresenta marcas de tiros nas paredes. Elisa e família vieram de Curitiba, onde estão morando agora, para empacotar as coisas e vender a casa. Também acompanhamos a história de Sandra (Luciana Bezerra) e Beto (Raphael Sil). Ela é empregada na casa de Elisa e ele é o entregador do supermercado, e mora na favela. Os dois são namorados e, conforme a paixão aumenta, também aumenta a sensação de impotência diante da pobreza e dos problemas da vida no Rio de Janeiro.

Há um “truque” temporal na montagem que nunca é expresso abertamente, o que gerou certa confusão em parte da platéia. Não é nada exatamente novo, já visto em filmes fragmentados como “Crash”, “21 Gramas” e “Babel” e é uma faca de dois gumes neste filme. A estrutura em quebra-cabeças é interessante, fazendo com que o espectador tenha que prestar atenção para entender como o filme “funciona”. Por outro lado, assim que o “truque” se torna claro (cada trama está sendo vivida em uma época diferente), parte do interesse se perde. O ritmo é tão lento que acaba gerando desconforto em alguns momentos. Há planos que, mesmo após a ação ter sido terminada, continuam por mais alguns segundos na tela sem necessidade aparente. Fica a sensação de que algo está para acontecer, mas não acontece. O elenco é muito bom, mas o clima pesado cria um distanciamento entre os personagens. É tudo muito frio, melancólico, escuro. E o que dizer da relação entre o policial Zé Maria e Janaina, sua filha? Quando os vemos pela primeira vez, na escuridão de uma casa iluminada à luz de velas, temos a nítida impressão de estarmos vendo marido e mulher. E isso se repete por várias cenas até que, de repente, a moça começa a tratar Zé Maria como “pai”. A confusão só aumenta após uma cena em que vemos os dois acordando juntos, de manhã, dividindo a mesma cama de casal. Esta confusão é proposital ou um “erro” do filme? Escutei várias pessoas no cinema expressando a mesma sensação.

O filme é tecnicamente bem feito, com produção da Videofilmes, de Walter e João Moreira Salles. O final também não é do tipo “hollywoodiano”, em que tudo se explicaria de forma clara, o que não deixa de ser um anticlímax. A situação sugerida, mas não mostrada, no início do filme, é vista agora do lado dentro da casa. Fica certa frustração pela decisão de não mostrar o que aconteceu de forma clara novamente. Um filme denso e bem feito em que falta, talvez, um pouco mais de emoção.



terça-feira, 14 de julho de 2009

Moscou

Em “Jogo de Cena” (2007), o documentarista Eduardo Coutinho fez um jogo com a platéia. Contratou atores famosos e desconhecidos para interpretar “depoimentos” que eram intercalados com histórias reais ditas por pessoas comuns. O jogo era descobrir quem era real e quem era inventado. A conclusão que se pode tirar é que, no fundo, não faz diferença. Tudo é “verdadeiro” quando quer dizer alguma coisa.

Coutinho volta agora com mais uma experiência. Por três semanas ele gravou um grupo de teatro montando a peça “As Três Irmãs”, de Anton Tchekhov, mas de forma nada convencional. Com direção teatral de Enrique Diaz, o grupo Galpão fez uma série de workshops diante das câmeras de Coutinho, que novamente mistura ficção com realidade. Há cenas, por exemplo, em que os atores estão decorando as falas enquanto fazem um lanche ou trocam de roupa. Em vários momentos o espectador fica sem saber se os diálogos são dos personagens da peça ou conversas reais entre os atores. O rapaz está passando uma “cantada” na colega atriz ou é um trecho da peça? Conforme o filme avança, as cenas de bastidores vão se tornando mais raras e a peça vai ganhando destaque, embora os jogos continuem. Há um trecho em que dois atores fazem exatamente o mesmo papel, intercalando frases e mostrando duas formas diferentes de fazer o mesmo personagem.

O documentário foi exibido ontem no II Festival Paulínia de Cinema e Coutinho, sempre uma “figura”, subiu ao palco e disse que a montagem foi um “inferno”. Ele agradeceu especialmente ao produtor (e também documentarista) João Moreira Salles, por ter visto a montagem inicial (que tinha quatro horas e meia) e conseguido enxergar um filme ali. Após a sessão, Coutinho me disse que havia 70 horas de material para editar.

Fica evidente que Eduardo Coutinho, um dos mais importantes documentaristas do cinema brasileiro, está cada vez mais se aproximando da ficção em seus trabalhos e quebrando aquele modelo tradicional de documentário composto apenas por depoimentos para a câmera. Em “Moscou”, Coutinho não está simplesmente “documentando” a montagem de uma peça. A peça existe para que seja documentada por Coutinho que, por sua vez, cria sua versão de um filme de ficção. O documento, na verdade, é o do trabalho do ator. O espectador acompanha o gradual processo que começa com uma simples leitura ao redor de uma mesa e se transforma em uma cena montada. Aquela ‘mágica’ que acontece quando um ser humano representa outro.

domingo, 12 de julho de 2009

Quanto dura o amor?

O diretor Roberto Moreira surpreendeu com seu “Contra Todos” (2003), um filme que ousava pelo realismo e crueza tanto na trama quanto no estilo simples de produção. Ele volta agora com “Quanto dura o amor?”, exibido hoje no II Festival Paulínia de Cinema. Em muitos aspectos, é um filme melhor e mais maduro.

Silvia Lourenço (que fez sua estréia em “Contra Todos”, vencendo vários prêmios) é Marina, uma atriz do interior que se muda para São Paulo em busca de um papel na peça “Tio Vânia”, de Anton Tchekhov. Ela vai morar com Suzana (Maria Clara Spinelli), uma advogada competente e reservada que é objeto das atenções de Gil (Gustavo Machado), também advogado, que se apaixona por ela. Suzana também se apaixona por ele, mas tem um segredo que pode por tudo a perder. No mesmo prédio também mora Jay (Fábio Herford, muito engraçado), um rapaz que escreveu um livro de poesias e é a personificação do “nerd”, intelectual, de óculos e incapaz de se relacionar normalmente com mulheres. Sua paixão é a prostituta Michelle (Leilah Moreno) que, obviamente, só está interessado nele enquanto ele pode pagá-la. Marina começa a freqüentar a casa noturna de Nuno (Paulo Vilhena), que é namorado de Justine (a cantora Danni Carlos), uma sensual cantora por quem Marina se apaixona e começa a ter um caso.

Estas histórias se cruzam no decorrer da trama de forma natural e interessante. É um filme extremamente urbano, se concentrando na Avenida Paulista e no tradicional Bairro da Liberdade. Foi captado em digital com a nova câmera Red One, que tem uma imagem muito parecida com a tradicional película de cinema, com bela direção de fotografia de Marcelo Trotta. Sílvia Lourenço (que é uma das criadoras do roteiro) está muito bem, assim como todo o elenco. A cantora Danni Carlos se entrega a uma personagem que lembra um pouco Amy Whinehouse no visual e no comportamento. Ela canta várias canções em inglês durante o filme, e imagino que boa parte do orçamento tenha ido para pagar os direitos autorais destas músicas. Há uma boa dose de sexo no filme, mas o roteiro se concentra nos encontros e desencontros amorosos entre os personagens. A aproximação do advogado Gil a Suzana é feita com calma e romance, ambientada no visual oriental da Liberdade. Fábio Herford me lembrou um pouco Paul Giamatti em Sideways, com seu jeito tímido e intelectual.

A cidade de Paulínia foi uma das produtoras do filme através do Pólo Cinematográfico e algumas cenas foram feitas na cidade. O próprio teatro onde o filme foi exibido serviu de locação para as cenas em que Marina faz o teste para “Tio Vânia”. Sua trajetória como aspirante a atriz retrata bem os problemas da profissão. Há uma cena engraçada em que ela tenta um papel em uma propaganda de margarina e é esnobada por uma atriz mirim com provavelmente muito mais experiência do que ela.

Um filme urbano, bem feito e lidando com pessoas que, se não são exatamente “pessoas comuns”, representam sentimentos que podem ser reconhecidos por qualquer um.