Obs: O texto abaixo foi escrito quando da exibição de "Desenrola" no Festival Paulínia de Cinema, em julho de 2010.
"Desenrola" de Rosana Svartman, é uma boa surpresa. No início se tem a impressão de que vamos ver um capítulo longo de Malhação; há uma escola de classe média no Rio de Janeiro, adolescentes "irados", trilha sonora ensurdecedora, atores e atrizes "globais", como Cláudia Ohana, e a participação de Pedro Bial como o professor de matemática não prometiam muito. Aos poucos, porém, a história da jovem Priscilla (Olívia Torres, uma graça) e seus colegas vão conquistando o público. Os dramas adolescentes apresentados são os de sempre; paqueras, ciúmes, foras e a eterna preocupação com a "primeira vez". Mas estes temas são apresentados de forma natural e engraçada. Priscilla é apaixonada por Rafa (Kayky Brito), o "gostosão" da praia, mas ela põe tudo a perder com ele ao revelar que é virgem. Isso lhe dá a idéia para um trabalho de estatística que seu grupo tem que fazer para o colégio. Quantas garotas ainda seriam virgens na escola? A pesquisa acaba gerando vários boatos sobre Priscilla, inclusive um video em que um garoto, Boca (Lucas Salles), diz que ela "faz de tudo", acaba indo para o youtube. No início ela fica brava mas, depois do fora que levou de Rafa, quem sabe a fama de "galinha" não seja uma boa?
O roteiro, da própria diretora com Juliana Lins, é divertido e o filme acerta ao retratar os jovens de hoje com os mesmos dramas universais que seus pais passaram no "século passado". Há boas referências a coisas "antigas" como fitas K7 e Walkman, além de músicas tema dos anos 80, como "Don´t you forget about me", do Simple Minds. Sim, o filme é extremamente "global", comercial e, como já disse, chega perigosamente perto de ser um capítulo de Malhação em diversos momentos, mas a direção, roteiro e elenco conseguem se elevar acima disso, e "Desenrola" acaba resultando em um filme gostoso de assistir.
Nina (Natalie Portman) é uma boa moça. Ela mora com a mãe amorosa (Barbara Hershey) e dorme em um quarto que ainda parece o de uma menina, com bichos de estimação e caixinhas de música. Ela é uma bailarina dedicada que através de muito esforço chegou onde queria, ao papel principal de um dos balés mais famosos da música, "O Lago dos Cisnes".
Nina (Natalie Portman) é uma moça problemática. Aos 28 anos, ainda mora com a mãe superprotetora, que trata a filha como se fosse uma criança. Os anos de dedicação e obsessão com o balé estão cobrando seu preço e Nina tem pesadelos constantes, vomita o pouco que come e tem marcas estranhas pelo corpo, como arranhões e sangramentos inexplicados. O papel principal em "O Lago dos Cisnes" a está enlouquecendo; o diretor do balé (Vincent Cassel) quer que ela faça igualmente bem o Cisne Branco e o Cisne Negro, lados opostos em comportamento, modo de agir e personalidade. Qual das duas Ninas é a real?
O novo filme de Darren Aronofsky (de "Requiem para um Sonho" e "O Lutador") é uma viagem alucinógena ao mundo competitivo e perfeccionista da dança. O balé clássico, com suas sapatilhas apertadas e horas exaustivas de ensaios e treinamentos, envolve também muito ego e os sonhos e a sensibilidade de mulheres que ainda tem o corpo (e talvez a mente) de uma criança. Aronofsky aproxima a câmera dos dançarinos e nos leva para dentro de ensaios e apresentações. Não só isso, ele nos leva para dentro da mente conturbada de Nina, que não sabe mais se pode confiar nos próprios olhos. Para complicar, a chegada de uma nova e sensual bailarina, Lily (Mila Kunis), afeta ainda mais Nina; ela sente atração ou repulsa? O trabalho de maquiagem e iluminação iludem o espectador fazendo com que Nina e Lily se confundam em cena, como reflexos em um espelho distorcido. Lily parece mais do que interessada em Nina, e algumas cenas entre Natalie Portman e Mila Kunis causaram alvoroço no público americano, mas diria que elas são mais bizarras do que sexy. Estaria Lily planejando tomar o papel de Nina no balé? Ou, como diz o diretor a Nina, seu maior obstáculo é ela mesma?
Tecnicamente falando, atente para o ótimo uso de espelhos e de falsos espelhos criados pela fotografia do filme. A câmera é literalmente invisível em alguns planos em que, pela lógica, ela deveria estar sendo refletida no espelho mostrado em cena, mas engenhosos truques óticos (usando dublês e um cenário maior do que o real) enganam os olhos. Inteligente também o uso dos reflexos para representar idéias e sensações. Quando Nina está no metrô, por exemplo, seu reflexo no vidro está sempre com um fundo sombrio atrás, mostrando sua insegurança. Há uma ótima cena em que vemos Nina, jovem e esguia, em primeiro plano, e o reflexo de uma velha bailarina em segundo plano, como que representando a inevitável decadência do corpo humano.
Pelo lado humano, "Cisne Negro" pode ser descrito como a história triste e trágica de uma garota dominada pela mãe e presa em uma cela sem grades. Curiosamente, é o mesmo tema encontrado no infantil "Enrolados", também lançado em 2010. Assim como a estranha relação espelhada entre Nina e Lily, o visual de Natalie Portman e Barbara Hershey também é semelhante. A relação aparentemente amorosa entre mãe e filha, na verdade, mascara uma simbiose doentia entre as duas. A mãe não quer que a filha cresça, e as tentativas de rebelião de Nina acabam se refletindo em seu próprio corpo, com feridas que surgem não se sabe de onde. São auto infligidas? São apenas ilusões? Natalie Portman está excelente e sua interpretação é aposta certa no próximo Oscar.
Certas sequências (e grande parte do final), a bem da verdade, não podem ser explicadas racionalmente. Mas Aronofsky envolve o espectador em uma espiral descendente em que, assim como a personagem principal, não sabemos se podemos ou não confiar em nossos sentidos, e muito menos na razão. "O Lago dos Cisnes" é uma das composições mais trágicas do grande compositor russo Tchaikovsky, e o tema principal é dos mais belos, e tristes, da sua obra. Ele é aproveitado pelo compositor da trilha, Clint Mansell (habitual colaborador de Aronofsky) durante a estonteante sequência final. Aronofsky não é um diretor habituado a sutilezas e, assim como a música de Tchaikovsky, "Cisne Negro" é por vezes exagerado, mas é forte, sublime e trágico.
Não foi só no Brasil que o espiritismo atraiu a atenção dos cineastas ultimamente. Depois que filmes nacionais como "Chico Xavier", "Nosso Lar" e "As Cartas Psicografadas por Chico Xavier" foram exibidos por aqui, chega agora aos cinemas "Além da Vida", com Matt Damon e direção de Clint Eastwood. A questão do que po de haver depois da morte sempre afligiu o ser humano. Shakespeare já falava, em Hamlet, sobre a "terra desconhecida, de onde ninguém jamais voltou". Clint Eastwood trata do tema do ponto de vista dos sobreviventes, que tem que suportar a perda de alguém e que, às vezes, querem tentar "fazer contato" com os que partiram.
Matt Damon é George Lonegan, um homem comum que, depois de quase morrer em uma cirurgia delicada quando criança, recebeu um "dom". Ao tocar em uma pessoa, ele pode, aparentemente, entrar em contato com os entes queridos dela que morreram. George não vê sua habilidade como um dom, mas como uma maldição, pois impede que ele tenha qualquer tipo de relacionamento normal com alguém. Eastwood e Damon fazem um bom trabalho ao mostrar como George evita o contato físico com todos à sua volta. Uma das situações mais complicadas (e doces) do filme é seu "relacionamento" com Melanie (Bryce Dallas Howard). Os dois fazem um curso de culinária e as cenas entre eles são conduzidas por Eastwood com muita elegância. Melanie, frágil e carente, sente-se atraída por George, mas como retratar um romance em que o casal não pode se tocar, e tornar as cenas interessantes? Novamente, é com muita sensibilidade que Eastwood resolve a situação, em uma cena da aula de culinária que envolve o uso de vendas e a degustação de alguns temperos.
Há outras duas tramas que correm paralelas à de George. Na França, uma jornalista chamada Marie LeLay (a bela Cécile de France, de "Um segredo em família") volta mudada de uma viagem à Tailândia. Em uma cena espetacular logo no início do filme, Marie quase morre afogada por um tsunami que destrói tudo por onde passa. Na verdade, talvez ela tenha realmente morrido e visto, por alguns segundos, o "outro lado", a conhecida imagem da luz branca e sensação de paz descrita por milhares de pessoas. Marie pede afastamento do trabalho e começa a escrever um livro sobre o assunto.
Em Londres, um garoto chamado Marcus (Frankie McLaren) sofre com a perda do irmão gêmeo em um acidente. Para piorar, a mãe é viciada em drogas e é levada para uma clínica de recuperação. Sentindo muita falta do irmão, Marcus começa a investigar a vida após a morte, chegando a consultar vários tipos de "videntes", muitos deles charlatões.
O roteiro de Peter Morgan não toma partido, o que por vezes deixa o filme superficial. A direção de Eastwood e a qualidade das interpretações, porém, superam alguns tropeços da trama, que quase cai no sensacionalismo quando Marie discursa sobre uma "conspiração" para silenciar os que acreditam na vida após a morte. A trilha sonora, do próprio Eastwood, é um pouco melodramática. Um dos temas, aliás, é praticamente uma cópia do segundo movimento do Concerto número 2 para Piano e Orquestra de Rachmaninov. Em um filme sobre a vida após a morte, Eastwood, acertadamente, está mais interessado nos vivos e faz um tipo de cinema raro hoje em dia (da sala ao lado se podia escutar o barulho de tiros e explosões comuns aos cineplexes), com tempo para o desenvolvimento das tramas e respeito pelos personagens.
O novo filme de Sofia Coppola, apesar de muito bom, sofre pela semelhança com outro da diretora, o ótimo "Encontros e Desencontros" (2003), que tinha basicamente a mesma premissa. Bob Harris (Bill Murray), era um ator famoso, mas decadente, que ia para Tóquio gravar uma série de comerciais de bebida. Entre as gravações, o filme era sobre suas andanças pelo grande (e estéril) hotel onde estava hospedado e sua amizade/amor com uma garota mais jovem, Charlotte (Scarlett Johansson), também "perdida" na cidade. O charme do filme estava nos longos silêncios e na sensação de vazio dos dois personagens diante de uma cultura que eles não entendiam e não faziam parte. E, claro, na atração amorosa que se instala entre os dois.
"Um lugar qualquer" (Somewhere) também trata de um astro de cinema, o jovem Johnny Marco (Stephen Dorff), vagando em vazio existencial pelos corredores do hotel Chateau Marmont, em Hollywood. Ele é bem sucedido naquele tipo de filme de ação em que não tem muito o que fazer a não ser correr, saltar e ser bonito, mas está no limbo. Sua vida se resume a beber muito, consumir drogas e ter sexo casual com fãs e prostitutas. De vez em quando, pede o serviço de duas "dançarinas de pole dance", gêmeas, que se apresentam em elaboradas coreografias em seu quarto. Em uma delas, ele dorme no meio da apresentação.
E há Cleo (Elle Fanning), sua filha de 11 anos, com quem ele passa alguns dias da semana. A cena em que Cleo é apresentada é um primor de Sofia Coppola. Após uma apresentação das gêmeas dançarinas, ambas loiras, jovens e lindas, há um corte que sai de uma delas e vai para uma mão feminina, que assina o gesso do braço quebrado de Johnny Marco. Ele abre os olhos e tanto ele quanto o público vê Cleo pela primeira vez, também jovem, loira e linda. É como se ela fosse apenas mais uma etapa nos compromissos sem importância que ele tem que cumprir durante o dia. Só que a mãe de Cleo deixa uma mensagem para Marco dizendo que precisa "dar um tempo" e desaparece por uns dias, deixando a garota com ele. Ao contrário do que se poderia esperar, este não é um filme clichê de pai descobrindo o valor dos filhos. Aos poucos, sim, Johnny Marco vai se sentindo mais próximo da filha mas, ao mesmo tempo, sente-se cada vez mais vazio. Os dois passam o dia jogando videogame ou tomando sol à beira da piscina. Elle Fanning é uma graça e dá a Cleo uma imagem de garota que sabe do status de celebridade do pai, mas não é muito afetada por isso. Há várias sequências em que a vemos simplesmente cozinhando ou criando pratos para o jantar, como alguém que está acostumada a se virar sozinha. Pai e filha partem para a Itália em uma viagem promocional do novo filme de Marco, mas não vemos nada do país, continuamos no ambiente artificial dos hotéis de luxo.
Em vários aspectos, é um filme mais cruel do que "Encontros e Desencontros". Não há o exotismo do Japão, por exemplo, para aliviar o vazio existencial dos personagens. E tanto Bill Murray quanto Scarlett Johansson passavam a sensação de pessoas apenas temporariamente perdidas, a ponto de mudar de situação. Já Johnny Marco (como o próprio chega à conclusão em determinado ponto do filme) sente-se como um "nada". Ele tem dinheiro e fama, mas não sabe o que fazer com eles. A vida é uma sucessão de brincadeiras sem sentido e acompanhantes de luxo. A convivência com Cleo pode dar aos dois uma nova chance, mas mesmo o final é falsamente otimista. O que Johnny Marco vai fazer em seguida? O filme estréia no Brasil dia 28 de janeiro.
A produção de "Enrolados" passou por muitos problemas. Originalmente chamado de "Rapunzel", a produção da Disney era para ser um desenho animado tradicional, feito à mão e seguindo a longa tradição do estúdio. Mas os tempos mudaram, os animados em computação gráfica se tornaram a norma e uma concorrente, a Pixar, havia tomado o posto de principal estúdio de animação do mundo.
Disney e Pixar se fundiram, executivos mudaram de posição na empresa e John Lasseter, o gênio criativo por trás de "Toy Story" e outros sucessos se tornou produtor executivo de "Rapunzel", que depois de muitas mudanças passou a se chamar "Enrolados". O filme foi feito em computação gráfica e, seguindo outra tendência, em 3D. O resultado, surpreendentemente, é excelente. "Enrolados" pode ser considerado um marco na fusão das novas tecnologias com o traço tradicional do desenho animado da Disney. Não só isso; o coração do filme está em algo que a Pixar, com toda sua tecnologia, sempre prezou muito: o roteiro.
Seguindo a tradição das princesas da Disney como Cinderela, A Bela Adormecida e a Pequena Sereia, "Enrolados" conta a história de Rapunzel, uma princesa com cabelos mágicos que têm o poder de manter as pessoas jovens e de curar feridas. Ainda quando bebê, ela é sequestrada por uma bruxa chamada Gothel, que se torna sua mãe. Superprotetora, Gothel coloca Rapunzel em uma alta torre em um local secreto da floresta, onde a garota passa todos os dias de sua vida. Ela tem curiosidade sobre o mundo lá fora, claro, mas as histórias de terror que sua mãe lhe diz faz com que ela também tenha muito medo de sair da sua prisão sem grades. Uma vez por ano, em seu aniversário, o palácio solta balões iluminados no céu, na esperança de que a princesa ache o caminho de volta para casa. A cena em que a garota, aos 18 anos, pede de presente para a mãe que a deixe sair da torre valeria teses de psicologia sobre o poder da influência dos pais sobre a liberdade dos filhos. Gothel aterroriza e ridiculariza a menina de tal forma que Rapunzel, apesar de ainda querer fugir, se sente segura e protegida na alta torre da floresta. Até que um dia um ladrão chamado Flynn Ryder, fugindo dos guardas do palácio, acaba chegando até a torre, e no momento que Rapunzel olha para ele sabe que tudo mudou em sua vida.
Além do ótimo roteiro, a técnica de "Enrolados" é impressionante. A influência e know how da Pixar se fazem sentir em cada plano; os cenários são ricos em detalhes e os personagens não se movimentam como bonecos de computador. O 3D é muito bem usado e não é somente um chamariz de bilheteria. A trilha sonora tem músicas de Alan Menken, um dos responsáveis pelo ressurgimento da Disney no mundo da animação em "A Pequena Sereia" (1989) e vencedor de oito Oscars em filmes como "A Bela e a Fera", "Aladinn" e "Pocahontas". O filme tem cenas ótimas, como a passada dentro de uma taverna escura, cheia de bandidos (que acabam se revelando sensíveis e de bom coração) ou a primeira vez que Rapunzel sai da torre, alternando momentos de extrema alegria com outros de depressão e culpa. Há também um personagem coadjuvante, um camaleão que faz companhia a Rapunzel na torre, que rende boas gargalhadas. Mas a melhor cena, para entrar para a história da Disney, é o momento em que Flynn e Rapunzel, em um barco, acompanham o lançamento dos balões iluminados ao céu.
Longa metragem composto por seis episódios, este filme da Romênia foi escrito pelo mesmo diretor do ótimo "4 meses, 3 semanas e 2 dias", Cristian Mungiu. Enquanto este último tinha uma trama pesada (as negociações de duas mulheres com um salafrário para fazer um aborto ilegal), estes contos são leves, tendendo para a comédia irônica.
Assim como "4 meses, 3 semanas e 2 dias", os curtas se passam durante a ditadura de Nicolau Ceausescu, que governou a Romênia comunista de 1965 até 1989, quando foi derrubado e morto por uma revolta armada. Os episódios foram todos escritos por Mungiu e dirigidos por Hanö Hofer, Rasvan Marculescu, Constantin Popescu, Iona Uricaru e o próprio Cristian Mungiu. As tramas são uma série de "lendas urbanas" sobre como o povo romeno lidava com os problemas gerados pela burocracia do governo comunista.
Em "Vendedores de Ar", um rapaz e uma moça (Diana Cavaliotti e Radu Iacoban) se fazem passar por funcionários do "Ministério da Química" e aplicam golpes em idosos que ficam sozinhos em seus apartamentos. Eles dizem que vieram buscar uma amostra da água (ou do próprio ar) do apartamento porque houve reclamações sobre a má qualidade destes. O objetivo dos dois, na verdade, é recolher garrafas de vidro vazias e vendê-las. Segundo o episódio, no final do governo comunista era possível até comprar um carro velho vendendo garrafas.
O episódio "Chofer de Galinhas" trata de um motorista de caminhão, Grigore (Vlad Ivanov) que está com problemas no casamento. Quase todos os dias ele tem que transportar galinhas até uma cidade portuária, mas ele sempre para em um restaurante gerenciado por uma bela mulher solitária. Os dois começam um esquema de vender os ovos postos pelas galinhas para o povo da vizinhança. Como em todos os episódios, a presença da polícia do Estado se faz sentir, e Grigore acaba descobrindo, da pior forma, quem lhe é realmente fiel.
"Visita Oficial" é o episódio mais engraçado do longa. O povo de uma comuna está agitado por causa de uma visita dos membros do Partido no dia seguinte. Todos estão pintando faixas vermelhas com frases patrióticas, tapando buracos nas ruas ou trazendo os animais do campo para serem expostos na estrada. Um modesto parque de diversões também está instalado na comuna para uma festa local, e um dos aparelhos do parque vai ter papel importante na trama, além de arrancar da platéia as únicas gargalhadas de todo filme.
A burocracia do Partido Comunista é mostrada de forma mais evidente em "O Fotógrafo Oficial". Durante a visita de um "representante do capitalismo" à Romênia, os fotógrafos do jornal oficial são obrigados a seguir diretrizes que dizem que Nicoláu Ceausescu tem sempre que parecer mais alto que os outros na foto. Em uma época em que o Photoshop ainda não existia, retoques tinham que ser feitos, à mão, através de truques óticos. Um problema ideológico acontece quanto, em uma foto, o ditador romeno parece mais baixo que um político francês, que está usando um chapéu. O que fazer? Tirar o chapéu do francês ou colocar um em Ceausescu? Para que a foto seja adulterada e os jornais sejam impressos a tempo, o Partido até atrasa o horário dos trens. Só que um detalhe esquecido na foto adulterada pode custar o emprego (e a liberdade) do fotógrafo oficial do jornal.
"O Ativista" é o episódio tecnicamente mais bem feito, mas é dos menos inspirados. Fugindo do estilo "câmera na mão" e documental dos outros episódios, este tem movimentos de câmera bem feitos e trilha sonora mais evidente. A trama conta a história de um ativista que vai para uma pequena aldeia para cumprir a promessa do Partido de erradicar com o analfabetismo. A intenção pode ser boa, mas ele vai enfrentar barreiras culturais e um pastor que se recusa a ir à escola.
No episódio "O Policial Ganancioso", um porco vivo é contrabandeado para dentro do apartamento do personagem título, que tem que imaginar um meio de matá-lo para o Natal. Como matar um porco, em um apartamento, sem atrair a atenção de toda a vizinhança? É o filho do policial que tem a idéia de usar o gás da cozinha para matar a "fera".
Os episódios são interessantes pricipalmente por mostrar uma cultura que, assim como a brasileira, está acostumada a dar seus "jeitinhos" para sobreviver. Há uma leveza intencional nas histórias que acaba sendo o ponto fraco do longa como um todo. A ingenuidade por vezes soa forçada e os episódios carecem de um final mais impactante. Com 155 minutos de duração, é também bastante longo. Mas alguns episódios são realmente interessantes, ao mostrar a solidão do motorista de caminhão, a burocracia na visita oficial, a censura aos fotógrafos do jornal e a história bizarra do porco de Natal. "Contos da Era Dourada" está em cartaz no Topázio Cinemas.
A África foi e continua sendo um dos continentes mais explorados e prejudicados da era moderna. Os países europeus a dividiram em pedaços, desrespeitaram fronteiras culturais e tribais e a pilharam até o último centavo. Os reflexos continuam sendo vistos; revoluções contínuas, fome, doenças, ditadores, minas terrestres, morte.
"Minha Terra, África", da roteirista e diretora francesa Claire Denis, vai fundo na exposição de todos estes problemas do ponto de vista de uma mulher branca, Maria Vial, apegada a uma plantação de café em um país africano não identificado. Maria é interpretada por Isabelle Huppert, e o primeiro plano dela no filme é um choque. A grande atriz francesa se expõe com todas as marcas da idade e um olhar que mistura cansaço com determinação cega. O país está tomado por uma guerra civil, pessoas estão sendo mortas à esmo e todos os empregados de Maria na fazenda estão fugindo, mas Maria, com um pragmatismo branco e capitalista, argumenta que falta apenas uma semana para o café estar pronto para vender e é incapaz de ver os problemas à sua volta. Crianças portando armas como lanças e rifles automáticos invadem a fazenda e, como fantasmas, passeiam pelos cômodos fazendo pequenos furtos e atacando o filho de Maria, Miguel (Nicholas Duvauchelle), mas ainda assim a francesa não consegue desistir do que considera sua propriedade e sua colheita.
Christophe Lambert (sim, o velho galã careteiro dos anos 80) interpreta André, marido de Maria, que tenta fazer um acordo com o prefeito local para trocar a fazenda pela segurança da família. Para isso ele precisa da assinatura do sogro, um senhor que mora em uma casa ocidental com ar condicionado em meio ao calor africano. "Minha Terra, África" não é um filme fácil. A câmera na mão está quase sempre próxima dos personagens, dando uma sensação de claustrofobia. O trabalho de som é muito bom, mas também serve para oprimir o espectador em um mundo em que a natureza é onipresente, com o constante som dos insetos zumbindo alto. A vida humana não vale muita coisa neste ambiente doente e em decadência, e Denis não tem escrúpulos em mostrar como tudo é pobre e sem esperanças. Em um diálogo revelador, um velho africano diz à Maria que não foi embora porque não conseguiria se adaptar em nenhum outro lugar. Quando Maria diz que também não, ele diz que há uma diferença importante: ela não vai embora porque tem medo que tomem o que ela julga ser dela. É essa possessividade que fará com que, no final, Maria fique sem nada. (visto em pré-estréia no Topázio Cinemas, em Campinas).
"72 Horas" carece de foco. É um filme indeciso entre ser um thriller clássico de fugitivo, um drama familiar ou, ainda, a saga particular de um marido obcecado pela inocência da esposa. O marido, no caso, é Russell Crowe, carismático e competente como de costume e carregando o filme nas costas. Sua esposa Lara (Elisabeth Banks) foi condenada pelo assassinato da própria chefe e enviada para uma prisão municipal em Pittsburgh.
As "72 horas" do título, na verdade, demoram a começar. O drama se estende por mais de três anos, desde a prisão de Lara, e foca na vida do professor universitário John Brennan (Crowe) e seu filho pequeno Luke. Escrito e dirigido por Paul Haggis, o roteiro não tem pressa. Haggis foi para o time "A" dos roteiristas/diretores de Hollywood após ganhar o Oscar por dois anos seguidos, o primeiro pelo roteiro de "Menina de Ouro", de Clint Eastwood, e depois os prêmios de roteiro e direção por "Crash", filmes com duração longa. O cacife de Haggis é tão alto que, para "72 Horas", ele pode se dar ao luxo de ter coadjuvantes como Lian Neeson, que só aparece por alguns minutos, e Brian Dennehy, que interpreta o pai de Crowe e diz no máximo cinco frases.
John Brennan fica obcecado com a idéia de, esgotadas todas as opções legais, tirar a esposa da prisão por outro meio. Lian Neeson, um criminoso que escapou sete vezes da prisão, lhe passa as informações necessárias para que ele bole um plano que requer a obtenção de documentos falsos, ter um meio de sair do país e, claro, conseguir tirar a mulher da penitenciária sem ser preso ou morto. A interpretação sincera de Crowe e o passo lento do roteiro até conseguem, por vezes, dar verossimilhança a esta premissa absurda. Interessante como Haggis mostra que é teoricamente possível, pesquisando vídeos e tutoriais na internet, aprender desde como se abre uma fechadura até arrombar um carro. O problema é que o roteiro vai se tornando cada vez mais absurdo e, quando o espectador imagina que o filme está para acabar, é como se outro se iniciasse, a partir da fuga de Lara da prisão. Só então "72 Horas" passa a ter aquele ritmo e trama esperados de um filme no estilo de "O Fugitivo", com o agravante que não é só uma pessoa tentando escapar da polícia, mas um homem, uma mulher e uma criança de seis anos.
Para quem gosta de boas interpretações e um ritmo de um cinema mais "clássico", "72 Horas" tem seus pontos de interesse. Mas a trama é cheia de furos e, acabada a sessão, o filme não se sustenta até o final dos créditos.
José e Pilar é, antes de mais nada, uma bela história de amor. Gravado entre 2006 e 2009, o documentário acompanha a vida extremamente agitada e ocupada do escritor e de sua esposa, a jornalista espanhola Pilar del Rio. Vinte e oito anos mais nova que o marido, Pilar é uma força na tela. Ela organiza a agenda de Saramago, dá entrevistas, organiza sua biblioteca e é a presidenta da "Fundação José Saramago". Sim, presidenta, com "A", como ela faz questão de frisar a um jornalista português que usa a palavra no gênero masculino.
O documentário tem produção do estúdio "El Deseo", de Almodovar e da produtora "O2", de Fernando Meireles. Dirigido por Miguel Gonçalves Mendes, o filme começa em 2006, quando Saramago e Pilar estavam organizando uma biblioteca. O escritor é visto concentrado diante do computador, mas se engana quem o imagina escrevendo a mais nova obra prima das letras; a câmera revela que o Prêmio Nobel de Literatura de 1998 está, na verdade, jogando "paciência" no notebook, para "afastar o Alzheimmer", diz Saramago. Um dos principais charmes deste documentário é exatamente o de mostrar momentos caseiros como este. O filme também exibe mais do conhecido ateísmo do escritor português, famoso por suas declarações polêmicas contra a religião e a igreja. "Era de se imaginar", diz Saramago, "que alguém com 83 anos começasse a ficar preocupado com deus, mas isso não acontece comigo".
A agenda do escritor é brutal. Com Pilar à frente, Saramago enfrenta uma maratona interminável de entrevistas, noites de autógrafo, horas passadas em aeroportos e voando entre os continentes e fazendo declarações aos jornalistas que, segundo ele, perguntam sempre a mesma coisa. Há uma cena muito engraçada em que Saramago vira para a câmera, antes de entrar em uma feira de literatura, e diz que vai reciclar uma frase antiga que ele nem lembrava que tinha dito. Segundos depois nós o vemos usando a frase, como havia prometido.
A saúde do escritor finalmente cedeu no final de 2007 e ele passou semanas no hospital, à beira da morte. Saramago chegou a dizer à esposa que temia não terminar o livro que estava escrevendo, "A Viagem do Elefante", mas ele não só o terminou como, saúde restabelecida, voltou às viagens internacionais. A parte final do filme é bem brasileira, passada entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Há uma cena muito tocante (que já circulou pelo youtube) de Saramago se emocionando com uma sessão privada de "Blindness", versão de Fernando Meirelles para "Ensaio sobre a Cegueira". Meirelles ficou tão feliz com a aprovação do escritor que mal pode se conter, chegando a beijar Saramago.
Mas o que fica de todas essas imagens, autógrafos, vôos internacionais e feiras de literatura é o amor entre Pilar e José. Os dois oficializam o casamento pela segunda vez em uma cerimônia civil simples e tocante. “Se eu tivesse morrido antes de te conhecer, Pilar, teria morrido sentindo-me muito mais velho", Saramago diz em uma convenção. Em uma placa de rua que leva o nome da esposa, Saramago lhe fez esta dedicatória: "À Pilar que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar”.
José Saramago morreu em 18 de junho de 2010, aos 88 anos. (o filme está em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas). Imperdível.
A animação em computação gráfica deixou de ser novidade há um bom tempo. Assim, quando vemos um filme animado que é tecnicamente bem feito, isso também não deveria mais contar como uma qualidade. Mesmo assim, é fato que a qualidade da animação em "Megamente", produção da mesma DreamWorks Animation que Shrek, é de um nível comparável à Pixar. Há uma cena passada na chuva em que dois personagens estão passando por uma separação difícil que é extraordinária na qualidade da imagem e na "interpretação" dos personagens. Mas não há muito mais em "Megamente" que possa ser recomendado.
O filme começa em um estilo "Superman". Dois planetas estão para ser sugados por um buraco negro e pais preocupados colocam seus filhos em naves espaciais que escapam da destruição e vão parar no planeta Terra. Uma das naves carrega "Metroman", um superbebê heróico, loiro, de olhos azuis, que cai na mansão de uma família rica dos Estados Unidos. A outra nave acaba caindo em um presídio de segurança máxima onde "Megamente", um alienígena de cor azulada e cabeça grande, aprende com os piores presos do país a ser um criminoso. Os dois são superdotados e têm poderes, mas somente Metroman é bem aceito pelos terráqueos. O feio Megamente acaba desistindo de querer agradar aos seres humanos e se transforma em um vilão, o principal antagonista de Metroman.
Os animados da DreamWorks costumam ser acusados de serem cópias de segunda classe dos filmes da Pixar, e com Megamente não é diferente. Há uma boa dose de "Os Incríveis" no roteiro, principalmente no personagem de um cinegrafista que, recebendo superpoderes de Megamente, é bastante parecido física e psicologicamente com o vilão do filme da Pixar. O próprio Megamente, a bem da verdade, com sua vontade de ser um vilão conhecido e conquistar a todos, lembra muito Gru, de "Meu Malvado Favorito" (que não é da Pixar, é verdade). Ele até tem um animal de estimação (um peixe de aquário) que lembra muito o cão de Gru. E por que os desenhos animados ultimamente tem que ser tão barulhentos? "Megamente" tem uma trilha sonora composta principalmente por AC/DC que é tocada no último volume o tempo todo.
O filme é de certa forma ousado, embora nada original, em subverter os papéis de vilão e herói. Logo no início, Megamente surpreende o mundo todo (e principalmente a si mesmo) quando consegue derrotar Metroman em um daqueles "planos infalíveis". Com Metroman destruído, ele ocupa a prefeitura e começa a saquear os tesouros do mundo. Isso o satisfaz por alguns dias, mas logo ele começa a sentir falta justamente de seu pior inimigo. O que foi que ele fez? De que adianta sequestrar a esperta repórter Rosana Rocha (obviamente baseada em Louis Lane) se Metroman não vai aparecer para salvá-la?
"Megamente" está sendo lançado em versões 2D e 3D, com seu preço exorbitante. A versão bidimensional funciona perfeitamente bem, sem ter que pagar o preço extra. "Megamente" é sem dúvida bem feito e tem algumas boas risadas mas, em termos de vilões, não chega perto do "Meu Malvado Favorito" (veja o filme no Topázio Cinemas).
O último livro da saga Harry Potter foi dividido em dois filmes. Os fãs vão adorar, pois isso significa que praticamente cada palavra do enorme livro vai ser transposta para as telas. Para quem tem só um interesse cinematográfico ou passageiro no personagem, no entanto, a idéia soa como um grande golpe de marketing, para atrair duas bilheterias em lugar de uma.
Não é um filme ruim. Dirigido por David Yates, "As Relíquias da Morte" é bem feito, tem uma bela direção de fotografia e direção de arte inventiva. Mas sofre do problema de ter um público muito específico. É extremamente lento, pesado e, a bem da verdade, apenas um meio para se chegar ao final verdadeiro, em episódio que será lançado em julho de 2011.
Após a morte de Alvo Dumbledore (Michael Gambon) no final do filme anterior, o mundo está tomado pelos poderes das trevas, lideradas pelo malígno Lorde Voldemort (Ralph Fiennes, ótimo ator, escondido sob uma maquiagem que faz seu rosto parecer com o de uma cobra). Harry Potter (Daniel Radcliffe) e os amigos inseparáveis Ron Weasley (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) têm que encontrar as "horcruzes", artefatos que contem partes da alma de Voldemort, e destruí-las. Só assim o vilão poderia ser destruído. Mas onde estariam os tais artefatos? Dumbledore deixou algumas pistas na herança que deixou para Potter e seus amigos, e eles partem para encontrá-los.
Ao contrário dos filmes anteriores, que se passavam na escola de Hogwarts e arredores, "Relíquias da Morte" tem longas sequências passadas em florestas cobertas de neve ou penhascos cheios de pedras. O grande número de personagens do início do filme dá lugar a cenas intermináveis em que os três amigos, agora adolescentes, caminham por estes cenários desolados enquanto escutam, no rádio, o nome dos bruxos mortos ou desaparecidos na guerra que está acontecendo à distância. O fato deles não serem mais crianças traz problemas novos entre os três, como o ciúme de Ron por Harry Potter por causa do suposto interesse dele por Hermione.
Com 147 minutos de duração, é realmente um filme voltado exclusivamente aos fãs fervorosos da série. Boas sequências, como quando Potter volta à sua terra natal e encontra o túmulo dos pais, estão perdidas em meio a cenas intermináveis, deprimentes e sombrias. Personagens importantes como Snape (Alan Rickman) aparecem momentâneamente para nunca mais voltar. Hermione passa grande parte do tempo tentando explicar o próprio enredo a Potter e Weasley, que também parecem cansados. Há, porém, uma sequência extraordinária quando um personagem conta a história das "Relíquias da Morte" para Harry Potter. Toda feita em animação, a sequência é como um curta metragem à parte, magnificamente projetado e criado em computação gráfica. É um exemplo de síntese que, infelizmente, não foi aplicado ao resto do filme.
Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) descobriu o potencial das redes sociais quando era aluno na Universidade de Harvard. Uma noite de 2003, depois de levar um "fora" da namorada, ele quis se vingar falando mal dela online. Também invadiu o banco de dados das alunas de Harvard e de diversas outras redes, criando um site em que os visitantes eram convidados a escolher, na tela do computador, qual a mais "atraente" entre duas garotas. Em poucas horas seu site se espalhou de forma viral pelo campus e o tráfego de informações foi tão grande que Zuckerberg derrubou o servidor de Harvard. A experiência lhe mostrou o quanto as pessoas se interessam em saber da vida alheia e em como elas, na verdade, colocariam voluntariamente informações sobre suas vidas para os outros verem. O ambiente universitário, carregado com altas doses de ambição, sexo e dinheiro, caiu como uma luva para a "república" virtual que Zuckerberg criou. Ele seria o bilionário mais jovem do mundo em pouco tempo.
Esta história é contada de forma muito competente pelo diretor David Fincher (de "Clube da Luta", "Zodíaco"), com roteiro de primeira de Aaron Sorkin, escritor e criador de séries premiadas como "The West Wing" e "Sports Night". Sorkin é habilidoso em escrever diálogos rápidos, irônicos e cheios de informações técnicas que, às vezes, até deixam o filme difícil de acompanhar, mas são um prazer de escutar. O filme parte de dois processos judiciais contra Zuckerberg. Um deles é feito por dois irmãos gêmeos de Harvard (interpretados pelo mesmo ator, duplicado digitalmente, Armie Hammer), campeões de remo que contrataram Zuckerberg para desenvolver um site. Eles o acusam de roubar a idéia deles para criar o Facebook.
O outro processo é mais pessoal, envolvendo o antigo melhor amigo de Zuckerberg, Eduardo Saverin (Andrew Garfield). Saverin teria desenvolvido o código matemático usado por Zuckerberg em seu site, além de bancar financeiramente os primeiros passos do Facebook. Acompanhamos as tramas em elaborados flashbacks que mostram o ambiente ultracompetitivo, classe alta, branca e protestante de Harvard. Também tem papel importante o criador do Napster, Sean Parker (o cantor Justin Timberlake), que consegue "enfeitiçar" Zuckerberg com suas histórias sobre como teria derrubado a indústria da música (além de ser processado, preso por porte de drogas e outros delitos) enquanto tenta afastar Eduardo Saverin do Facebook.
Com duas horas de duração, "A Rede Social" é bem mais profundo e bem feito do que se poderia esperar de um filme sobre um programa de computador. Fincher e Sorkin, auxiliados por um ótimo elenco (Eisenberg está especialmente bem como o obsessivo Zuckerberg) conseguem capturar o lado humano destas pessoas extremamente técnicas e ambiciosas, além de revelar o lado exibicionista, e carente, da sociedade moderna.
Shakespeare diz em uma de suas peças (Macbeth) que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que não significa nada". É assim que Woody Allen começa seu mais novo filme. Escrever sobre Allen, assim como ver um filme dele, é um prazer. O diretor veterano se mantém tão ativo que muitos o acusam de estar decadente. Na verdade seus filmes ainda estão bem acima da média da bobagem que tem povoado as telas recentemente. Sim, há uma espécie de "fórmula" para um filme de Woody Allen. Homens e mulheres com problemas conjugais, diálogos irônicos, jazz na trilha sonora e a sensação de que o mundo é feito de peças de teatro, óperas, galerias de arte e conversas sobre o ato de escrever. Só que em meio a este mundo aparentemente fora da realidade há espaço para pequenos e grandes dramas humanos, cheios de som e fúria, significando a vida e a morte para seus protagonistas, mas nada no esquema geral do mundo.
Helena (Gemma Jones) é uma senhora que perdeu o "chão" quando o casamento de 40 anos terminou. O ex-marido, Alfie (Anthony Hopkins), se assustou com a idade e caiu naquele padrão patético do idoso que deixa a esposa e passa a frequentar academias de ginástica e sair com garotas de programa. Helena vai buscar consolo em uma vidente chamada Cristal (Pauline Collins), que logo na primeira sessão vê "ondas coloridas positivas" indo na direção de Helena. Claro que ela é uma charlatã, mas ao menos é mais pessoal que os psiquiatras que tratavam de Helena antes, com frieza e remédios.
Helena é mãe de Sally (Naomi Watts), que trabalha em uma galeria de arte chefiada pelo atraente Greg (Antonio Banderas). Sally é casada com um americano, Roy (Josh Brolin), que já foi um escritor de sucesso. Incapaz de escrever um livro bom novamente, Roy passa o dia espiando e "buscando inspiração" na vizinha do outro lado da rua, a indiana Dia (Freida Pinto). A garota é violonista clássica e está noiva de um rapaz que está sempre viajando.
Allen, com seu talento habitual, cruza e descruza o caminho destas pessoas pelas ruas de Londres. Sally se apaixona pelo chefe espanhol, que aparentemente está interessado nela. Alfie se casa com uma prostituta chamada Charmaine (Lucy Punch, a personagem mais caricata do filme), que obviamente só está interessada no dinheiro dele. O novo livro de Roy é rejeitado pela editora e um de seus amigos, também escritor, sofre um grave acidente e fica em coma. Só que, antes do acidente, ele havia deixado o manuscrito de um ótimo livro para Roy ler, e Roy começa a imaginar se o amigo vai acordar um dia ou não. Todos estes personagens tem que lidar com a fascinação de Helena pela vidente e por sua recém descoberta "espiritualidade". Helena consulta Cristal regularmente e acredita piamente em todas as visões da charlatã.
A trama lembra o extraordinário "Interiores", filme extremamente sério que Allen escreveu e dirigiu em 1978. Aquele filme também lidava com uma mulher cujo marido a havia abandonado e sua filha com problemas no casamento com um escritor. Talvez o tempo tenha mostrado a Allen que tudo isso, no final, não "significa nada" e ele resolveu fazer uma comédia sobre o mesmo assunto. Para os cinéfilos, um filme de Woody Allen sempre significa alguma coisa, e este não é exceção.
Sexta-feira, 29 de abril de 1994, Grande Prêmio de San Marino, Itália. O jovem Rubens Barrichello voa em uma zebra durante o treino classificatório em um acidente espetacular, do qual sai ileso. No sábado, dia 30, Roland Ratzenberger não teve a mesma sorte. Um acidente grave custou-lhe a vida, e uma sombra negra pairou sobre o "circo" da Fórmula 1. Um dos mais afetados foi um brasileiro chamado Ayrton Senna da Silva, 34 anos, três campeonatos mundiais e um ícone do esporte. Ele havia trocado a equipe Mclaren pela Williams, não estava enturmado com a equipe de engenheiros e, o mais grave, não estava em paz com o carro. Mudanças no regulamento haviam proibido as inovações eletrônicas que haviam dado o quarto campeonato mundial a Alain Prost no ano anterior, e nem a habilidade de um piloto como Senna conseguiam manter a Williams na pista. No domingo, primeiro de maio, a tragédia.
O grande prêmio deveria ter sido suspenso devido à morte de Ratzenberger? Senna, inseguro, deveria ter desistido de correr? Se ele não tivesse saído da Mclaren, seu destino seria outro? Estas perguntas ficam na cabeça do espectador depois de assistir ao documentário "Senna", dirigido por Asif Kapadia para a produtora inglesa Working Title. O documentário é todo feito a partir de imagens de arquivo, em um ótimo trabalho de seleção e edição. Vozes em off completam o filme, com depoimentos da família de Senna e de pilotos e comentaristas da Fórmula 1, como Reginaldo Leme. Há cenas muito boas cedidas pela família ou recuperadas por televisões do mundo todo, muitas delas providenciadas pela Rede Globo. O arquivo pessoal da família mostra imagens de Senna muito jovem, em 1978, competindo de kart na Europa e já chamando a atenção do mundo. Senna diz que era competição pura, sem politicagens ou dinheiro, problemas que ele teria que enfrentar depois na F1.
Grande ênfase é dada ao relacionamento conturbado que Senna teve com seu companheiro de equipe na Mclaren, Alain Prost. O "professor", como era conhecido, era um mestre em tirar vantagem tanto do carro quanto na política envolvida no esporte. Em especial sua ligação com Jean-Marie Balestre, também francês, que dirigia a Federação Internacional de Automobilismo. Se o filme fosse feito no Brasil, provavelmente teria sido dado destaque também à relação não muito amigável entre Senna e Nelson Piquet. Os dois foram explorados pela imprensa como lados opostos da mesma moeda, Senna era o "bom" e Piquet era o "mau". Quando hoje se vê Rubens Barrichello, bom piloto mas simples pelego de equipes como Ferrari, que mandavam e desmandavam nele, é difícil lembrar como eram competitivos pilotos como Ayrton Senna e Nelson Piquet. Piquet podia não ser tão genial quanto Senna dentro de um carro, mas também foi tri-campeão mundial e era arrojado como ninguém. Senna acabou levando a fama de "bom moço", era muito mais acessível e ficou conhecido por seus trabalhos filantrópicos. Mas o documentário mostra que, nas pistas, ele também não era nenhum "santo". Após ter perdido o campeonato mundial para Prost em 1990, no Japão, após uma manobra discutível do francês e pela politicagem da FIA, Senna não teve dúvidas; no ano seguinte, jogou seu carro contra Prost, também no Japão, e venceu seu segundo campeonato mundial.
O que vemos em "Senna" é o retrato de um homem obcecado pela velocidade e pela vitória. É impressionante ver como os carros da sua época eram guiados realmente pelo piloto manualmente, e não por "controle remoto" dos boxes, como é praticamente feito hoje. O câmbio ainda era mecânico, por exemplo, e nas câmeras colocadas no carro podemos ver Senna "voando" pelas ruas estreitas de Mônaco, pilotando com a mão esquerda (ele era canhoto) e mudando as marchas com a direita. Pilotar era sua paixão e seu objetivo era vencer. O documentário traz cenas incríveis das ultrapassagens de Senna, seu trabalho de recuperação quando largava mal e feitos como quando venceu o Grande Prêmio do Brasil tendo apenas a sexta marcha funcionando.
Felizmente, o documentário não tenta endeusar o homem. As conquistas de Senna falam por si em imagens de suas vitórias dentro e fora das pistas. E, claro, quando ele está dentro da Williams, rosto triste e conturbado, esperando a corrida começar em Ímola, temos vontade de lhe dizer para sair do carro e ir para casa. Senna acabou sendo vítima da própria obsessão. Muito se fez para tentar culpar a equipe Williams, dos mecânicos ao próprio Frank Williams, pela morte de Ayrton Senna. Mas isso é bobagem. Quanto mais o carro o desafiava, mais ele tentava conquistá-lo. Senna morreu porque foi, até o último minuto, um piloto de corrida.
Uma aluna de jornalismo de 18 anos, ao ler um texto meu em que me referia ao "cineasta e jornalista Arnaldo Jabor", me perguntou: "Cineasta?". Para os mais novos, Arnaldo Jabor é sinônimo de jornalista, de crônicas apimentadas, polêmicas, de humor sarcástico e cínico. Os um pouco mais velhos lembram de Jabor como o cineasta de "Toda nudez será castigada" (1973, vencedor do Urso de Prata em Berlim) ou "Eu sei que vou te amar" (1986, que deu a Fernanda Torres o prêmio de Melhor Atriz em Cannes). Jabor se tornou colunista e cronista nos anos 1990, depois que a extinção da Embrafilme pelo governo Collor causou a queda brusca da produção cinematográfica brasileira.
Ele volta para trás das câmeras com "A Suprema Felicidade", que tem muitos dos cacoetes do cinema nacional pré-retomada (movimento iniciado com "Carlota Joaquina", em 1995), como cenas de nudez gratuitas, interpretações tendendo ao teatral e problemas de roteiro. Autobiográfico, "A Suprema Felicidade" fala sobre a vida de Paulo, um rapaz que cresce no Rio de Janeiro nos anos 50 e 60. Já a primeira cena do filme mostra uma cena de sexo entre Marco (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima) pais de Paulinho aos 8 anos (Caio Manhente). É das poucas cenas felizes entre o casal, que passa grande parte do filme brigando por problemas típicos da metade do século XX, como o machismo, a bebida e as relações fora do casamento. Marco é um aviador que sonha em voar com jatos e que conheceu a mãe de Paulinho em um baile, em 1939. As interpretações de Stulbach e Mariana Lima são exageradas. Há algumas cenas que não funcionam, como quando Stulbach ralha com o filho por não estar segurando a colher direito, no jantar, sendo que o garoto sequer estava com a colher na mão. Em uma cena de ciúme, ele rasga a alça do vestido da esposa, que fica com os seios à mostra da família e do próprio filho, chorando, por um longo tempo, sem se cobrir.
Jabor tenta mostrar os problemas do machismo no século XX com este casal, mas é importante dizer que a mãe de Paulo é das poucas mulheres a aparecer em cena que não são, ou foram, prostitutas. A avó de Paulo (Elke Maravilha, imaginem) era uma dançarina de cabaré quando o avô (Marco Nanini), um músico, a conheceu e se apaixonou. Nanini é, de longe, a melhor parte do filme. Seu personagem, mesmo que um pouco caricato, é a alma da história. Ele está ótimo como um boêmio que já viveu muito, viu de tudo e tem sempre bons conselhos para dar para o neto. É sem dúvida a melhor interpretação do filme, e merecia até mais espaço.
O resto da história é dedicada a um olhar nostálgico sobre um Rio de Janeiro sem traficantes de drogas ou policiais do BOPE. Mas será que era tão bom assim? No colégio, os padres ficavam contando histórias sobre o inferno para os estudantes que praticassem o "vício solitário". Michel Joelsas, que foi o garoto em "O ano que meus pais sairam de férias" (2006) interpreta Paulo aos 13 anos e Jayme Matarazzo aos 19. Há nostalgia também da "malandragem" carioca, das frases de duplo sentido ensinadas pelo pipoqueiro aos meninos e dos carnavais de rua. Mas é como se os personagens soubessem que estão em um filme. Há duas cenas que misturam sonho e realidade, uma em que dezenas de dançarinos invadem a rua em uma espécie de musical, e outra envolvendo várias prostitutas se exibindo em um casarão da Lapa. É assim que Paulo tem contato com as mulheres. Há uma sequência bastante bizarra envolvendo Maria Flor, que interpreta uma garota espírita que psicografa cartas da mãe morta. As flores do vestido, os quadros na parede e a alta torre remetem, sem motivo aparente, a "Um Corpo que Cai" (1958), filme de suspense de Alfred Hitchcock. Há também a "prostituta virgem" Marilyn (Tammy di Calafiori, lembrando muito Scarlett Johansson), agenciada pela própria mãe (Maria Luisa Mendonça, também bizarra). A garota é primeiro assediada pelo pai de Paulo, depois pelo próprio, que a paga para ser sua "namorada".
Longo (125 minutos) e episódico, "A Suprema Felicidade" tem bela fotografia de Lauro Escorel e direção de arte de Tulé Peak. Há várias boas sequências intercaladas por outras desnecessárias. Fica claro o calor de Jabor (expresso em suas crônicas) em fazer o filme, mas ele poderia ser menos irregular.