Morreu o grande cineasta Sidney Lumet. Estava com 86 anos, mas bastante ativo. Seu último filme foi "Antes que o diabo saiba que você está morto" (2007), com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Marisa Tomei, que mostrava a ousadia e força de um diretor em início de carreira.
Lumet teve uma carreira prolífica e marcante.
Em 1957 dirigiu Henry Fonda em "12 Homens e uma Sentença". A parceria com Al Pacino deu ao mundo "Serpico" (1973) e "Um dia de Cão" (1975); quem pode se esquecer de Pacino gritando "Attica! Attica!"?
Em 1976, fez um dos filmes mais corrosivos sobre o mundo do jornalismo, "Rede de Intrigas", com o famoso discurso de Peter Finch revelando, ao vivo, os "podres" da mídia televisiva. Com Paul Newman, James Mason e Charlotte Rampling fez o drama de tribunal "O Veredicto" (1982).
E mais uma série de filmes de todos os tipos, bons e ruins, sempre interessantes e com algo a dizer.
Parte Lumet, ficam seus filmes. Sua morte deixa o cinema menos inteligente.
Há muitos anos existe um debate entre o que é entretenimento e o que é notícia. Nos Estados Unidos até se criou o termo "infotainment", ou "infoentretenimento", que englobaria aqueles programas matinais como o icônico "Today Show", da rede NBC, que mistura as notícias da manhã com receitas de bolo e matérias sobre obesidade. Como vivemos em plena era da publicidade, infelizmente o jornalismo clássico tem perdido terreno para o sensacionalismo e os programas apelativos. "Uma Manhã Gloriosa" trata destes assuntos, ironicamente, de forma leve e divertida, embora seria injusto exigir algo mais profundo de um produto que é, descaradamente, entretenimento.
Rachel McAdams, mais adorável do que nunca, é Becky Fuller, uma produtora de TV workaholic que assume a produção executiva do programa "Daybreak", da fictícia emissora IBS, em Nova York. "Daybreak" está com péssima audiência e a emissora está pensando em cancelá-lo, mas Becky, com uma dedicação patológica, começa a fazer mudanças. A mais drástica é demitir o âncora do programa e, em seu lugar, colocar o lendário (e ranzinza) jornalista Mike Pomeroy (Harrison Ford, assumindo a idade). Pomeroy representa o jornalista clássico, hard news, e só se interessa pela verdade e por sua inabalável integridade. Baseado em Mike Wallace (do programa 60 Minutes), Pomeroy aceita o trabalho pelo dinheiro, mas se recusa e entrar no "clima" do programa matutino. Becky, além dos problemas de audiência, precisa também controlar a briga de egos entre Pomeroy e a outra apresentadora do "Daybreak", Collen (Diane Keaton), que já foi Miss Arizona.
Dirigido por Roger Michell, "Uma Manhã Gloriosa" parece um sitcom bem produzido e está mais para filmes como "O Diabo Veste Prada" do que para clássicos sobre jornalismo como "Todos os Homens do Presidente" (Alan J. Pakula, 1976) ou mesmo filmes mais leves como "Broadcast News" (de James L. Brooks, 1987). Mas o carisma do elenco, principalmente de Rachel McAdams, mantém "Uma Manhã Gloriosa" razoavelmente interessante. As mudanças que a produtora tem que fazer para aumentar a audiência mostram como nossa sociedade está mais interessada em coisas bizarras do que em notícias sérias. Um dos repórteres mais antigos do programa, por exemplo, começa a fazer "matérias" que mostram sua reação desesperada ao andar em uma montanha russa ou saltar de paraquedas. Mas Mike Pomeroy acaba mostrando, mais para o final, que ainda há lugar para o jornalismo sério. Mesmo que venha entre uma matéria sobre vidas passadas e uma receita de omelete.
Quase todo mundo já ouviu a história: em um carnaval em Recife, durante uma transmissão do apresentador Amaury Jr., um rapaz se fez passar pelo filho do dono da empresa aérea Gol. Ele era Marcelo Nascimento da Rocha, que já vinha de uma série de trambiques em que se fazia passar por outras pessoas. O episódio mostrou como o mundo das celebridades é frágil, em que pessoas bem falantes, em camarotes VIP, são tratados como membros da realeza. Isso daria um filme igualmente interessante mas, infelizmente, não é o caso de "VIPs", dirigido por Toniko Melo e estrelado por Wagner Moura.
Moura é um tremendo ator, mas certas decisões do filme o colocaram em situações difíceis, a começar pela caracterização psicológica do personagem. Teria sido mais acertado se o Marcelo mostrado no filme fosse mais parecido com o personagem real no qual é baseado, um rapaz basicamente irônico e muito "cara de pau". Ao invés disso, o roteiro de Bráulio Mantovani (craque de filmes como "Cidade de Deus") e Thiago Dottori tentam dar uma explicação psicológica ao comportamento de Marcelo, criando um filme irregular. Wagner Moura usa os piores penteados e perucas da sua carreira para interpretar Marcelo desde os tempos do ensino médio, em que era chamado de "Bizarro" pelos colegas e tinha conversas imaginárias com um pai aviador (Norival Rizzo). A mãe, Silvia (Gisele Fróes), é uma cabeleireira que mima muito o garoto mas, ao mesmo tempo, diz que ele não vale nada. Marcelo foge de casa e vai parar no Paraguai, onde assume o nome "Carrera" e se torna piloto de avião de um traficante.
Há várias situações interessantes em meio a erros estranhos; um amigo de Marcelo, Baña, é interpretado pelo brasileiro Juliano Cazarré, que fala o tempo todo em um "portunhol" nada convincente. E outra, o "Carrera" criado por Marcelo não é imitação de ninguém, então fica difícil acreditar que esta sua passagem como traficante (a melhor parte do filme) o levaria a fazer o que fez depois. Na "vida real" não há necessariamente uma ordem de causa e efeito, mas na dramaturgia isso é necessário, ou então se tem a impressão que o espectador está vendo dois filmes independentes. E é nisso que resulta "VIPs". Não há muita relação entre o traficante (real) vivido por Marcelo na primeira parte do filme com o "filho do dono da Gol", Henrique Constantino, que ele cria na segunda parte. O que o filme quer mostrar, que ele é um picareta querendo se aproveitar do mundo das celebridades ou que é um homem com problemas mentais? O resultado é que o personagem de Marcelo se torna muito frágil e até inverossímil.
Inevitável também comparar "VIPs" com "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg, em que Leonardo DiCaprio interpretava Frank Abagnale Jr., um rapaz inteligente que, forçado por diversas situações, se fazia passar por várias pessoas, inclusive um piloto de avião. Há várias similaridades entre os dois filmes, principalmente na relação dos personagens com suas mães complicadas e na adoração a um pai ausente. A diferença, infelizmente, está em que o roteiro de "VIPs" é tremendamente inferior, que não faz justiça a seu personagem que, na vida real, parece ser muito mais interessante.
O trailer de "Rango", bastante engraçado, tenta passar uma imagem de mais uma animação leve para crianças, com muita correria e piadas fáceis. Quem for ver o filme vai dar muitas risadas, sim, mas "Rango" é muito mais do que isso; é mais adulto e inteligente do que a maioria dos filmes americanos em cartaz. A direção é de Gore Verbinski, diretor de "Piratas do Caribe", e é a primeira animação produzida pela empresa de efeitos especiais de George Lucas, a ILM (Industrial Light and Magic). O resultado é um filme tecnicamente perfeito, com uma qualidade visual e um nível de detalhes impressionante. Nos créditos pode-se ver o nome do diretor de fotografia Roger Deakins como "consultor visual". Deakins é um dos melhores fotógrafos do cinema, tendo trabalhado constantemente com os irmãos Coen ou com M. Night Shyamalan. Os detalhes, a luz e as texturas vistas em "Rango" só têm paralelo em animações como "Wall-E" ou "Como treinar seu dragão"; não coincidentemente, Roger Deakins foi "consultor" também nestes dois outros filmes.
"Rango" conta a história de um camaleão que cai do carro de seus donos e se vê perdido em pleno deserto de Mojave, no oeste americano. Ele recebe ajuda de um misterioso tatu que só fala por meio de metáforas e que o direciona no caminho da pequena cidade de "Dirt" (poeira), no meio do deserto. "Dirt" é a típica cidade do velho oeste, com o "saloon", o banco, a prefeitura, o ferreiro e a funerária. Todos estão passando por dificuldades pela falta de água, que misteriosamente deixou de correr pela região. Há um sem número de referências cinematográficas no roteiro, mas a influência principal é dos faroestes italianos de Sergio Leone. Há um "coro" de corujas que nos conta a história e acompanham a trilha sonora. A questão da falta de água e suas implicações políticas vêm diretamente do clássico "Chinatown", dirigido por Roman Polanski em 1974. Até o prefeito da cidade, uma tartaruga inteligente e traiçoeira, é claramente baseada no personagem que John Huston interpretou naquele filme.
O camaleão se faz passar por um sujeito durão e adota o nome de "Rango" (tirado do rótulo de uma bebida chamada "Durango"). Toda a cidade fica impressionada com ele quando, por acidente, ele mata a principal ameaça do lugar, uma águia. O prefeito faz dele o novo cherife e ele logo se vê envolvido em uma investigação; quem teria roubado a água do banco? Por que a fazendeira "Feijão" (uma lagarta que vai se apaixonar por Rango) afirma ter visto água ser despejada no deserto? Por que é que o prefeito parece ser o único da região a não sofrer com a falta de água? Todas estas perguntas e intrigas são desenvolvidas no ótimo roteiro escrito por John Logan, que faz uma mistura de velhos filmes de faroeste com a intriga de "Chinatown". A trilha de Hanz Zimmer flerta com os clássicos que Ennio Morricone compôs para Sergio Leone ou com a música de "Sete Homens e um Destino", composta por Elmer Bernstein.
"Rango" já é opção certa para o Oscar de Melhor Animação para 2012. Seu roteiro é inteligente e, tecnicamente, eleva a computação gráfica a um nível de realismo impressionante. Se cuide, Pixar.
Na cena da primeira vez que Bruna transa com um cliente e inicia sua "carreira" como prostituta, ela está de bruços, na cama, com o homem por cima. Sua expressão é um misto de dor e nojo e, em uma decisão interessante do diretor Marcos Baldini, a garota quebra uma convenção cinematográfica e fita o espectador direto nos olhos. É como se o filme perguntasse ao público presente ao cinema: "Vocês não vieram aqui para ver sexo? Então vejam". Nem que fosse apenas por esta cena, é um alívio ver que o filme está levando o assunto e o público com um mínimo de seriedade. Em um cinema nacional que quebra recordes de público com filmes rasos como "De Pernas pro Ar", podia-se esperar muito menos de "Bruna Surfistinha", a cinebiografia da prostituta mais famosa do país.
Bruna, interpretada com grande entrega por Deborah Secco, é o "nome de guerra" de Raquel Pacheco, garota de classe média paulista que abandonou a família para se tornar garota de programa. E inegável que ela foi um fenômeno de marketing. Primeiro em um blog e depois em um livro que se tornou "best seller" (para os padrões brasileiros), Raquel conseguiu fazer com que "Bruna" se tornasse conhecida e até mesmo admirada. Em um país em que Geisy Arruda se tornou "celebridade" por usar um vestido curto, talvez não seja um feito assim tão louvável, mas sem dúvida é fora do comum. O blog de Bruna Surfistinha recebia milhares de visitas diárias e ela soube explorar a nova mídia para atrair clientes cada vez mais variados. Mas como diz o ditado, é preciso ter cuidado com o que se deseja. Qual a vantagem em ser a "garota de programa mais conhecida do país"? Mais dinheiro? A que preço? Quem desejaria ser a "número um" em uma das "profissões" mais humilhantes que existem?
O roteiro é baseado no livro "O Doce Veneno do Escorpião", que vendeu mais de 250 mil cópias no Brasil. O ritmo do filme é lento, mostrando desde o início de Bruna em uma pequena casa em São Paulo. Lá ela conhece as colegas de trabalho e, com seu jeito de garota tímida, começa a ganhar cada vez mais clientes, o que causa alguns atritos. As cenas de sexo chegam a surpreender pelo realismo e pela entrega de Deborah Secco à personagem. É até de se admirar que a censura seja de 16 anos. Bruna conhece Carol (Guta Ruiz), uma mulher de classe alta que a apresenta para clientes com mais dinheiro; de quebra, Bruna começa a cheirar cocaína e a gastar mais do que ganha. Infelizmente a trama perde o foco a partir do meio do filme. De forma nada sutil, há longas sequências no estilo "montagem musical" em que vemos primeiro a subida de Bruna à classe "alta" da prostituição e das drogas para, em seguida, mergulhar no vício e voltar ao ponto de origem, sem dinheiro ou clientes. Há também um personagem chamado "Huldson" (Cássio Gabus Mendes) que (verdadeiro ou não) é o típico clichê do homem que se apaixona pela prostituta e quer fazê-la "mudar de vida".
E é de se questionar o tom de "vencedora" com que a personagem chega ao final da trama. Tudo na vida são escolhas, mas ao ver "Bruna Surfistinha" é possível se lembrar da garota Suelen, do documentário "Lixo Extraordinário". Com 18 anos e dois filhos para criar, ela preferiu trabalhar dia e noite como catadora de lixo do que se prostituir. Ao final de "Bruna Surfistinha", ela escreve um número na janela de seu apartamento de luxo, que representa os programas que ela ainda pretende fazer antes de "largar essa vida". O número é alto, muito alto; e o preço, impensável.
Ao subir ao palco do "Kodak Theater" para receber o Oscar de Melhor Documentário em 27 de fevereiro deste ano, o diretor Charles Ferguson salientou que nenhum executivo mostrado em seu filme havia sido preso por fraude finaceira. "E isso é errado", disse ele. Ferguson detalha, nas cinco partes de seu documentário, como é que a maior crise financeira da história americana se formou, implodiu e foi resgatada pelo governo americano, enquanto milhões de pessoas perderam suas casas e empregos mundo afora.
Não é uma história fácil de acompanhar; mas o roteiro de Ferguson, a narração de Matt Damon e o uso de vários gráficos ajudam o espectador a entender um mundo em que termos como "derivativos" e siglas como "DCOs" são usados normalmente. Basicamente a crise de 2008 foi causada pela exploração do mercado imobiliário. Antigamente, diz o documentário, um banco emprestava dinheiro para alguém esperando receber de volta. A hipoteca era paga ao longo de vários anos e o investimento era razoavelmente seguro para ambas as partes. Com o crescimento das instituições financeiras, as coisas mudaram. Hoje, os bancos vendem um conjunto de hipotecas para uma instituição financeira que, por sua vez, as agrupa em "pacotes" que são revendidos para outras instituições. Estes pacotes são avaliados por firmas especializadas em dar "notas" para pacotes de investimento; os melhores são classificados como "AAA" (triplo A).
Está acompanhando? O problema é que isso causa uma negociação ilusória, que aparentemente não depende mais do pagamento do dinheiro que foi emprestado no início da cadeia. As financeiras juntam estes grandes pacotes de hipotecas (que são, na verdade, dívidas) e usam este "dinheiro" para jogar na bolsa de valores ou nas companhias de seguros. Em vários casos, era mais lucrativo para uma empresa de seguros (como a gigante AIG, por exemplo) torcer contra seus investimentos. Muitos executivos financeiros apostavam milhões de dólares na falência dos mesmos papéis que eles passavam para frente como "rentáveis".
Quando o inevitável aconteceu e as pessoas não puderam pagar suas hipotecas (no início da cadeia), tudo desmoronou. Bancos como "Lehman Brothers" e seguradoras como a "AIG" não tinham dinheiro para honrar seus papéis e entraram em falência, mesmo tendo seus investimentos sido avaliados como "triplo A" poucos dias antes. O governo americano foi chamado para "resgatar" estas empresas e um pacote de 700 bilhões de dólares foi dividido entre as empresas "culpadas" pela crise, como Goldman Sachs, AIG, Merrill Lynch e outras. O mais assustador no documentário, no entanto, é o fato de que a maioria dos executivos destas empresas trabalharam ou trabalham em altos cargos do próprio governo americano, servindo como diretores do tesouro ou presidentes do "Federal Reserve" por décadas. Outro ponto preocupante levantado é que as escolas de economia como Harvard ou Columbia, formadoras dos executivos de amanhã, também são geridas por estas mesmas pessoas, que são contrárias a qualquer tipo de regulamentação e tem como objetivo proteger as instituições financeiras, e não o público.
Nem o presidente Barack Obama, que subiu à Casa Branca prometendo terminar com a "farra" em Wall Street, sai ileso; a resposta de Washington depois da crise foi quase nula e vários dos envolvidos ocupam agora postos chaves do governo. Enquanto milhares de pessoas perderam seus empregos e suas casas, os executivos continuam ganhando milhões de dólares em bônus todos os anos. Um retrato assustador de como funciona o mercado financeiro americano e como suas ações refletem em todo o mundo.
Talvez uma das maiores dificuldades do ser humano seja lidar com a perda. Em "A Árvore", um pai de família tem um ataque cardíaco e deixa para trás a esposa Dawn (Charlotte Gainsbourg) e três filhos. Eles moram em uma casa de madeira no interior da Austrália. Ao lado há uma gigantesca árvore que, apesar de bela, representa uma ameaça. Suas raízes não respeitam fronteiras e estão destruíndo aos poucos não só a casa de Dawn como a propriedade dos vizinhos. Tudo indica que a árvore terá de ser sacrificada, mas não é tão simples.
Com a morte do marido, Dawn se entrega àquela letargia de quem não consegue arrumar forças para se levantar de manhã. Seus filhos acabam tomando conta da casa, que está sempre desarrumada. Simone (a ótima Morgana Davies), a filha de oito anos, é quem acorda a mãe e a veste. Simone não está mais triste com a morte do pai. Ela acredita que a "alma" dele encarnou na velha árvore, e passa horas empoleirada em seus galhos, tendo "conversas" com ele. Aos poucos Dawn se recupera e retoma a vida; ela arruma um emprego na cidade e, timidamente, começa a sair com George (Marton Csokas), seu chefe. Há uma cena interessante em que um galho da árvore cai dentro do quarto de Dawn e sua filha Simone acha que o "pai" está bravo com alguma coisa.
O filme tem roteiro e direção da francesa Julie Bertucelli, que trata o tema com delicadeza. As interpretações são muito boas, particularmente das crianças. A direção de fotografia de Nigel Bluck é rica em cores quentes, valorizando os raios de sol que entram pela casa ou passam pelos galhos da árvore. Simone está quase sempre vestindo um vermelho vivo, que contrasta com a sobriedade da mãe. Charlotte Gainsbourg, de quase 40 anos, ainda tem a aparência de uma menina; sua aparente fragilidade dá realismo à situação de Dawn, que sente a perda do marido e por várias vezes não consegue se impor como mãe. Racionalmente, ela não acredita na história da filha, de que o marido estaria "vivendo" na árvore, mas o subterfúgio a ajuda a lidar com a perda. O roteiro é baseado no livro de Judy Pascoe e o final é bastante dramático, quando as forças da natureza, na forma de um ciclone, acabam fazendo o que Dawn não teve coragem. Filme bonito e bem feito. (em cartaz no Topázio Cinemas)
A cerimônia de entrega do Oscar, ocorrida em Los Angeles na noite de ontem, foi previsível e entediante. Com o claro objetivo de atrair a audiência jovem, os atores James Franco e Anne Hathaway foram os mestres de cerimônia, substituindo os tradicionais comediantes. O resultado foi muito fraco. Hathaway e Franco podem ser bonitos e talentosos, mas não têm "timing" algum para levar uma cerimônia como esta. James Franco parecia estar drogado; fez toda a cerimônia com um sorriso travado no rosto e lia o teleprompter com dificuldade, de forma robótica.
Quanto aos vencedores, "O Discurso do Rei" confirmou as previsões e levou os prêmios de Melhor Filme, Diretor (Tom Hooper), Ator (Colin Firth) e Roteiro Original (David Seidler). O longa britânico tem a "cara" do Oscar e é sem dúvida um ótimo filme, mas "A Rede Social" é muito mais relevante e atual. Particularmente vergonhosa foi a decisão da "Academia de Artes e Ciências Cinematográficas" de votar em Tom Hooper como melhor diretor. Hooper fez um trabalho competente mas, novamente, o melhor diretor do ano foi David Fincher por "A Rede Social". Fincher pegou um roteiro basicamente falado (muito bem escrito por Aaron Sorkin, que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado) e conseguiu imprimir ritmo e suspense. "A Rede Social" venceu também os prêmios de Melhor Trilha Sonora (Trent Reznor and Atticus Ross) e Melhor Edição (Angus Wall e Kirk Baxter).
Outra injustiça da noite foi o prêmio de Melhor Fotografia para Wally Pfister em "A Origem". O vencedor deveria ter sido o mestre Roger Deakins por seu trabalho excepcional em "Bravura Indômita". O faroeste dos irmãos Coen, a propósito, foi o grande injustiçado da noite, com dez indicações e nenhuma vitória.
A categoria ator e atriz coadjuvantes surpreendeu favoravelmente. Christian Bale (excepcional em O Vencedor) repetiu o feito do Globo de Ouro e levou um Oscar merecido, assim como sua colega Melissa Leo (que deu uma gafe ao falar a palavra "fuck", proibida na televisão ao vivo americana, durante seu discurso de agradecimento).
Na categoria Melhor Documentário, "Inside Job" tirou o prêmio do divertido "Exit through the gift shop", do artista Banksy (que havia prometido receber o prêmio vestido de macaco, caso ganhasse). "Lixo Extraordinário", co-produção entre a Inglaterra e o Brasil, também ficou sem o prêmio.
No geral, os prêmios foram melhor distribuídos que em outros anos. Esperemos que no próximo ano escolham melhor o apresentador da cerimônia; Billy Crystal, antigo apresentador do Oscar, fez uma participação especial que serviu apenas para mostrar como Franco e Hataway estavam perdidos.
Curioso. Dos cinco filmes indicados a melhor documentário no Oscar que acontece esta noite, dois deles questionam a definição e o valor da Arte. Um deles é "Lixo Extraordinário", ótima co-produção britânico-brasileira que mostra o trabalho desenvolvido por Vik Muniz em Jardim Gramacho, o maior "lixão" do mundo, no Rio de Janeiro. O outro filme é "Exit through the gift shop" (sem previsão de lançamento no Brasil), que discute não só o que seria "Arte" e seu valor financeiro como também a própria definição de documentário. Há quem diga que o filme não passe de uma charada criada pelo artista Banksy, diretor do longa.
Explicando: Thierry Getta é um francês que mora nos Estados Unidos desde os anos 80. Ele tem uma obsessão; tudo que faz é gravado por ele mesmo em centenas de fitas de vídeo, que se acumulam em caixas em sua casa. Sua renda vem de uma loja de roupas "recicladas" em Los Angeles, de onde ele tira uma fortuna. Ele compra produtos de segunda mão e, após mexer um pouco com as roupas, revende para a sociedade "alternativa" da cidade por centenas de dólares. Já se nota aqui uma crítica irônica à sociedade de consumo. Um dia Thierry começa a gravar imagens de um artista francês chamado de "Space Invader", pois sua arte consiste em espalhar pelas cidades do mundo ícones com figuras do antigo jogo de videogame.
Thierry passa então a seguir outros artistas de rua como Shepard Fairey e dezenas de outros pelas noites de Los Angeles, supostamente para fazer um documentário. Mas Thierry realmente gostaria de gravar Banksy, um artista britânico famoso por suas obras polêmicas feitas nas ruas de Londres ou no muro construído por Israel para "se proteger" dos palestinos. Não demora muito para Thierry se tornar o guia de Banksy em Los Angeles e a documentar seu trabalho. Há uma sequência ótima que mostra Banksy e Thierry entrando na Disneylândia e deixando outro trabalho polêmico: um boneco em tamanho real vestido como um dos prisioneiros iraquianos que os Estados Unidos mantinham (sem julgamento) em Guantanamo, Cuba.
A última parte é a mais irônica. Thierry teria passado meses montando seu filme e mostrado a Banksy, que o achou péssimo. Banksy resolveu tomar as rédeas da produção e mudar o assunto do documentário, que agora passou a ser o próprio Thierry Getta (Banksy diz que o francês é um assunto melhor do que ele). Thierry resolve se tornar ele mesmo um artista e gasta milhares de dólares em uma exposição de arte montada em um estúdio abandonado da TV CBS, em Los Angeles. Suas obras não passam de cópias modificadas do trabalho de Andy Warhol (como a famosa lata de sopas Campbell), mas isso não importa. O que "Exit through the gift shop" quer mostrar é como qualquer coisa pode ser chamada de "arte" e valer muito dinheiro. A mega exposição criada por Thierry (que passa a se chamar "Sr. Lavagem Cerebral", veja a ironia) rende uma fortuna. Em "Lixo Extraordinário", Vik Muniz é mostrado criando arte a partir do lixo, em figuras claramente inspiradas por quadros clássicos. A palavra "reciclagem" ganha outros significados nas obras criadas por Muniz, Banksy ou mesmo Thierry Getta.
Mas seria "real"? O "Mr. Brainwash" realmente existe e tem feito exposições de arte pelo mundo. Mas tudo pode ser uma armação elaborada por Banksy, ele mesmo uma figura "anônima" cujo rosto nunca é visto durante o documentário. A indicação do filme ao Oscar gerou outra polêmica: caso o documentário vença, quem vai receber o prêmio? As últimas notícias dizem que Banksy conseguiu convencer a Academia a deixá-lo comparecer vestindo uma roupa de macaco. É a arte de rua invadindo outro ícone, o Oscar.
Dirigido por Pablo Trapero, "Abutres" é um retrato visceral da máfia das indenizações na Argentina. Um letreiro informa que morrem oito mil pessoas por ano em acidentes de trânsito, cem mil pessoas na última década, em nosso país vizinho. Héctor Sosa (Ricardo Darín) é um advogado que teve a licença revogada e que agora presta serviços para uma organização chamada de "Fundação". Eles são especialistas em negociar com as companhias de seguros em nome das vítimas de trânsito, ficando com quase todo o dinheiro. Sosa é um "abutre", assim chamado por passar a noite seguindo ambulâncias e procurando por clientes em potencial em hospitais, nas ruas e até mesmo em velórios.
Luján (Martina Gusman) é uma médica que trabalha atendendo vítimas em longos plantões. Sua primeira imagem a mostra se injetando uma droga que a mantém calma e capaz de enfrentar a estressante jornada de trabalho. Luján e Sosa se conhecem quando ela é chamada para atender um acidente. Ele já está no local, aparentemente prestando socorro à vítima, quando a ambulância chega. Os dois passam a se encontrar várias vezes em outras ocorrências e começam um romance conturbado. Ricardo Darín ficou conhecido no mundo como o ator preferido do diretor Juan José Campanella, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro ano passado com o ótimo "O Segredo dos seus Olhos". Gusman é sócia do diretor Pablo Trapero na "Matanza Cine", produtora de "Abutres".
Trapero rodou o filme com a câmera digital RED, e a imagem é um misto de cinematográfico e jornalístico. "Abutres" é um filme bastante cru e, por vezes, chocante. A máfia das indenizações não se limita a explorar acidentes comuns, mas também em forjá-los. Há uma cena bastante forte em que Sosa aplica um remédio em um "cliente" e, enquanto conversa com ele, pega uma marreta e lhe quebra a perna. Claro que suas atividades não serão bem aceitas por Luján, que ainda tenta manter alguma ética médica. Sosa também está querendo largar tudo, mas seus superiores, através de ameaças físicas e psicológicas, não vão deixar.
Há vários planos sequência muito bem filmados pelo diretor de fotografia Julián Apezteguia, que mantém a câmera na mão e enquadra os personagens de forma documental. O plano final é brilhante, um belo trabalho de fotografia, direção e interpretação dos atores. E o cinema argentino, novamente, mostra como se podem fazer filmes sérios aqui por nossas bandas.
Este é um lado dos Estados Unidos que raramente é visto no circuito comercial. "Inverno da Alma" venceu o Festival de Sundance, tradicional reduto de filmes independentes, e teve fôlego para chegar a quatro indicações ao Oscar (melhor roteiro adaptado, atriz, ator coadjuvante e melhor filme). Escrito e dirigido por Debra Granik e rodado no estado do Missouri, "Inverno da Alma" é um retrato de uma região onde, aparentemente, o "sonho americano" nunca chegou.
A jovem Ree Dolly (Jennifer Lawrence), de 17 anos, carrega a responsabilidade de cuidar de dois irmãos mais novos e da mãe com problemas psicológicos. O pai era um fabricante de "crack" que foi solto sob fiança, mas seu paradeiro é desconhecido. O xerife visita a casa de Ree e lhe avisa que o pai havia colocado o imóvel como garantia da fiança; se ele não se apresentar para sua audiência, Ree, a mãe e as crianças vão perder a propriedade. "Eu vou achar meu pai", diz a garota. Jennifer Lawrence faz um trabalho sério e convincente e a indicação ao Oscar foi merecida. A garota começa então a procurar pelo pai foragido mas, aos poucos, percebemos que ninguém está disposto a ajudá-la. Teria o pai fugido? Estaria escondido na casa de algum parceiro? Ou, o que se torna cada vez mais provável, estaria morto? Quem se incomodaria com um traficante a mais naquela região pobre e miserável?
A maioria dos personagens têm dificuldades financeiras ou com a lei. Suas casas não passam de cabanas ou trailers caindo aos pedaços. A família de Ree depende da ajuda de uma vizinha para não passar fome, ou então tem que comer esquilos que caçam na floresta. Granik faz um filme bastante feminino, mas não no sentido "frágil" ou "delicado", pelo contrário. As marcas da vida estão nos rostos de todas as mulheres de "Inverno da Alma". Os poucos homens mostrados na tela também parecem sobreviventes. O tio de Ree, chamado de Teardrop ("Lágrima"), é um sujeito assustador interpretado por John Hawkes, que me lembrou um jovem Dennis Hopper.
Há uma passagem que mostra como o exército americano consegue membros vindos da camada pobre da população. Ree tenta se alistar por causa dos 40 mil dólares prometidos aos novos recrutas, e só não consegue por ainda não ter os 18 anos exigidos. Mas não é difícil imaginar um exército de miseráveis indo perder suas vidas no Iraque em troca de 40 mil dólares. "Inverno da Alma" é baseado no livro de Daniel Woodrell, com roteiro adaptado por Debra Granik e Anne Rosellini. Um filme sério e honesto, cuja indicação ao Oscar tornou possível sua divulgação mundo afora.
Mágica e ilusão. Sylvain Chomet, o diretor da ótima animação "As Bicicletas de Belleville" (2003), usou da ilusão do cinema para trazer de volta a uma de suas figuras mais marcantes, o francês Jacques Tati. Herdeiro artístico de astros do cinema mudo como Charles Chaplin e Buster Keaton, Tati criou um personagem que quase não falava e protagonizou vários filmes, como "As Férias do Sr. Hulot" (1953) e "Meu Tio" (1958) (e, certamente, serviu de inspiração para o "Mr. Bean" de Rowan Atkinson). Em 1956, Tati escreveu um roteiro chamado "L'Illusionniste", que nunca filmou. Há controvérsias sobre as motivações por trás deste roteiro, mas a versão mais aceita é a de que Tati sentia remorso por ter abandonado uma filha (Helga Marie-Jeanne Schiel) quando criança. A filha mais nova de Tati, Sophie Tatischeff, foi quem autorizou Sylvain Chomet a levar para as telas, finalmente, o roteiro não produzido pelo pai.
A animação conta a história de um mágico que, no final dos anos 50, está enfrentando problemas para atrair público para suas apresentações. Seu número é tradicional (com coelho na cartola e tudo) e ele sofre com a concorrência do rock ´n roll e da televisão. A própria eletricidade representa uma ameaça, com toda a mecanização que ela traz. Há uma sequência linda em que o mágico é levado para uma pequena vila no litoral da Escócia, onde encontra uma platéia entusiasmada. Mas a eletricidade acaba de chegar na vila e, logo após sua apresentação, o dono do bar liga uma máquina de "jukebox" que toca, a todo volume, rock ´n roll. É a música gravada tomando o lugar das apresentações ao vivo.
Mas se engana quem pensa que este é um filme contra a modernização; é sem dúvida nostálgico, mas as mudanças fazem parte da vida. A mudança é representada na figura de uma garota que, fascinada com as ilusões do mágico, acredita que ele realmente consegue fazer coisas aparecerem no ar. Quando ele deixa a vila e parte para a cidade grande (Edinburgo, maravilhosamente desenhada), ela o acompanha. O filme é praticamente mudo, a história sendo contada apenas com imagens, música (do próprio diretor Sylvain Chomet) e frases curtas em inglês e francês (que sequer têm legendas em português). A relação entre o mágico e a garota nunca é explicada nem questionada. Ele apenas a acolhe e ela o acompanha em sua vida como artista. E ela realmente acredita (ou simplesmente não questiona) o fato dele fazer surgir presentes para ela, como sapatos e roupas novas quando, na verdade, ele batalha em vários trabalhos paralelos para ganhar algum dinheiro. Outros artistas frequentam o mesmo hotel em que eles estão, como um ventríloco, um palhaço e um grupo de malabaristas, todos em vários estágios de decadência.
O trabalho de animação é primoroso e os desenhistas conseguiram replicar os movimentos de Tati perfeitamente. Mas não só isso. Cada plano do filme é uma obra de arte cheia de luzes, cores e movimento. Como toda comédia séria (perdão pela contradição), "O Mágico" é também bastante melancólico, principalmente no retrato dos decadentes artistas de palco. É o final de uma era e o início da massificação e globalização do entretenimento. Mas, aparentemente, é também uma auto-espiação de Tati pela vida errante de artista e pelo tempo longe da família. Mas há esperança. Vários casais são vistos em cenas do filme e, não demora muito, a garota também vai achar seu par.
Destaque para uma cena memorável em que o Tati animado entra em um cinema que está passando "Meu Tio" e vê na tela Jacques Tati, em carne e osso, atuando. "O Mágico" foi indicado ao Oscar de Melhor Animação (deve perder para Toy Story 3) e é um trabalho maravilhoso. Em Campinas pode ser visto no Topázio Cinemas.
Há um plano de Jeff Bridges neste filme que é o típico retrato do herói. A câmera o focaliza de baixo, contra um céu azul aparentemente infinito, e ele joga uma coisa no ar. Ele saca seu revólver e atinge o objeto com um tiro certeiro. O plano dura alguns segundos, mas é um dos grandes momentos de "Bravura Indômita", novo filme dos irmãos Joel e Ethan Coen. Mas se engana quem acha que este plano tem qualquer coisa de heróica. O filme dos Coen é, como quase todos os faroestes feitos nos últimos anos, revisionista.
Bridges interpreta o agente federal Rooster Cogburn, um personagem bêbado, sanguinário e decadente, contratado por uma garota de apenas 14 anos para localizar o assassino do pai dela. Ela é Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garota decidida e precoce que quer a todo custo vingar a morte do pai. A jovem Steinfeld é uma atriz excelente, mostrando uma determinação implacável e falando com naturalidade os longos diálogos escritos pelos irmãos roteiristas, baseados no livro de Charles Portis (já transformado em filme por Henry Hathaway em 1969, estrelando ninguém menos que John Wayne). É muito engraçada uma cena em que a garota consegue negociar com um vendedor os pôneis e a sela do pai. É com este dinheiro que ela contrata Cogburn e eles partem para o território indígena atrás do assassino, Tom Chaney (Josh Brolin). Os dois são acompanhados pelo texano LaBoeuf (Matt Damon), que também está atrás de Chaney por outros motivos.
Os irmãos Coen são marcados por um tipo de cinema sofisticadamente cínico e bem escrito, em filmes como "Barton Fink", "O Homem que não estava lá", "E ai, meu irmão, onde está você?" e "Fargo", entre outros. O Oscar veio com "Onde os fracos não têm vez", um tipo de faroeste moderno que deixou muita gente sem entender o final em aberto e sem esperanças. "Bravura Indômita" é não só um filme de "gênero" definido (e o mais americano de todos, o "western") como ainda carrega a carga de ser uma "refilmagem", o que poderia sinalizar um afrouxamento no cinema de Joel e Ethan. Não é verdade. Para começar, não é realmente uma refilmagem, mas um novo roteiro escrito a partir do livro no qual se baseou o filme de 1969. E há várias características dos Coen neste novo filme. Há uma passagem extremamente "Coeniana" na cena em que Bridges e a garota vêem o que parece ser um urso montado a cavalo (na verdade, um homem vestindo uma pele de urso para se proteger do frio) e no diálogo bizarro que eles trocam. A violência inesperada de "Fargo" também pode ser vista em uma cena em que Bridges tenta convencer um homem a dizer o destino de Chaney, ou no tiroteio que se segue.
Há também um retrato satírico dos Estados Unidos na personagem da garota (que não tem nada de infantil), Mattie Ross. Seus motivos podem ser justos, mas seu desejo de vingança é fortemente baseado na religiosidade dos colonizadores americanos. Ao presenciar um enforcamento triplo, no início do filme, ao invés de se sentir chocada, sua determinação só aumenta, e ela chega a passar sua primeira noite na cidade no depósito da funerária, onde estavam os corpos não só de seu pai, mas dos três enforcados.
Tecnicamente falando, destaque deve ser dado à excelente direção de fotografia de Roger Deakins. Seus enquadramentos são primorosos, assim como o uso preciso da luz e sombra. Os enquadramentos também lembram clássicos do gênero dirigidos por John Ford. Roger Deakins divide uma das dez indicações ao Oscar que o filme recebeu.
Esta aventura usa duas "grifes": o nome James Cameron e o sistema 3D de projeção. Despois do sucesso de "Avatar", um praticamente virou sinônimo do outro, e o diretor de "Titanic" e "O Exterminador do Futuro" assina a produção executiva de "Santuário". Mas se o roteiro de "Avatar" já era bem simples, "Santuário" mais parece um falso documentário de televisão. Curiosamente, a ligação com Cameron também faz lembrar seu filme de 1989, "O Segredo do Abismo", em que mergulhadores descobriam uma civilização extraterrestre no fundo do oceano.
"Santuário" não passa da exibição de belas imagens em três dimensões povoada por personagens bidimensionais. Todos os clichês possíveis podem ser encontrados. O início do filme é praticamente igual a Jurassic Park, lançado por Steven Spielberg em 1993: "Santuário" começa com a chegada (em um helicóptero) de um milionário excêntrico, Carl (Ioan Gruffud) a uma ilha coberta por florestas tropicais. Lá se encontra o maior sistema de cavernas do mundo, que está sendo explorada por cientistas. O problema é que uma chuva se transforma inesperadamente em um ciclone e deixa a todos presos na caverna, enfrentando a fúria da Natureza. Em "Santuário" não há nem os dinossauros de Spileberg nem os extraterrestres de Cameron; assim, metade do filme é dedicado a mostrar as pessoas entrando na caverna e a outra metade os mostra tentando sair dela. Continuando com os clichês, há o relacionamento conturbado entre um pai linha dura, Frank (Richard Roxburgh) e seu filho adolescente, Josh (Rhys Wakefield). Há também uma mergulhadora (que além de mulher se chama "Jude", judia) que logo na primeira cena fica assustada e, claro, morre no mergulho. Há também uma cena em que um personagem começa a tossir, o que significa doença grave, e ele não dura muito tempo.
De clichê em clichê, o diretor Alister Grierson leva o espectador pelos vários "níveis" da caverna que, como em um videogame, vai ficando cada vez mais perigosa. Um aviso no início do filme diz que "Santuário" foi inspirado em uma história real, uma forma de dar "credibilidade" ao roteiro de John Garvin e Andrew Wight. O site oficial informa que Wight realmente ficou preso por dois dias com uma equipe de filmagem em uma caverna na Austrália, mas este é o limite de "realidade" presente em "Santuário". A produção sem dúvida é bem feita; cenários enormes foram usados para simular o interior da caverna, além de cenas reais de mergulho filmadas em cavernas australianas. Mas "Santuário" é muito fraco. Teria sido mais interessante, talvez, se fosse um documentário de verdade.