domingo, 23 de abril de 2023

Deixe-o Partir (Let him go, 2020)

Deixe-o Partir (Let him go, 2020). Dir: Thomas Bezucha. Netflix. Pelo título, capa e sinopse, "Deixe-o partir" parece uma daqueles dramalhões para se assistir em um sábado à noite, cheio de lágrimas e lições de vida. Na verdade, o filme é uma espécie de Western moderno, passado nos anos 1960, com um elenco encabeçado por um sóbrio Kevin Costner e por Diane Lane (curiosamente, os dois interpretaram os pais adotivos do Superman de Henry Cavill). Costner e Lane são um casal entrando na terceira idade que têm um rancho onde criam cavalos. O filho mais velho morre em um trágico acidente, deixando uma jovem esposa e um garotinho, Jimmy, para trás.

Alguns anos depois, a viúva se casa de novo com um rapaz chamado Donnie Weboy (Will Brittain), que não é coisa boa. O rapaz bate na esposa e no enteado pequeno, para desespero de Diane Lane, avó do menino. Um dia ela vai visitá-los e descobre que eles desapareceram sem dar notícia. Lane volta para casa, arruma uma mala grande para ela e para o marido. "O que você pretende fazer?", pergunta Costner. "Vou pegar meu neto", responde a mulher. Começa assim um "road movie" em que o velho casal vaga pelo meio oeste americano em busca da nora e do neto. As poucas notícias que eles encontram sobre a família Weboy não são boas. Costner tenta dissuadir a mulher, alegando que a mãe do menino nunca vai deixá-lo partir. Ela é irredutível.

Não vou revelar o que acontece depois, mas o filme se torna cada vez mais sombrio e pesado. A atriz Lesley Manville está ótima com uma matriarca que parece ter saído de algum Western antigo. Há ecos de John Ford e dos irmãos Coen. A fotografia é sombria e o filme tem boa trilha sonora de Michael Giacchino. Kevin Costner e Diane Lane estão ótimos como o velho casal. Tá na Netflix.

sábado, 22 de abril de 2023

Os Três Mosqueteiros: D´Artagnan (Les trois mousquetaires: D'Artagnan, 2023)

Os Três Mosqueteiros: D´Artagnan (Original title: Les trois mousquetaires: D'Artagnan, 2023). Dir: Martin Bourboulon. Filme de aventura francês à moda antiga, baseado no livro popular de Alexander Dumas (lançado em 1844). "Os Três Mosqueteiros" teve dezenas de versões para o cinema, começando com o cinema mudo, animações, comédias e até uma versão americana "teen" com Kiefer Sutherland, Charlie Sheen e Chris O´Donnell, nos anos 1990. Os espadachins do rei voltam agora às telas na versão original francesa, na primeira de duas partes que vão contar a história dos heróis.

É um filme de "capa e espada" legítimo, com bastante ação mas não só isso; há também espaço para intrigas palacianas, romance (e "bromance") e várias cenas de esgrima, filmadas com uma câmera que balança demais em longos planos sequência. Ao contrário do figurino colorido geralmente mostrado nas versões americanas, este filme francês é um pouco mais realista e mostra os mosqueteiros como homens com roupas escuras (e sujas), mulherengos e rápidos em desafiar alguém para um duelo. A cena em que o jovem D´Artagnan (François Civil) chega a Paris e, em poucas horas, acaba ofendendo e sendo desafiado por Athos (Vincent Cassel), Porthos (Pio Marmaï) e Aramis (Romain Duris) é famosa e engraçada.

A trama é um pouco confusa e envolve uma conspiração dos protestantes para derrubar o Rei da França, Luís (Louis Garrel) e caluniar a Rainha Anne (Vicky Krieps, de "Trama Fantasma"); embora "caluniar" talvez não seja a palavra certa, porque a Rainha tem culpa no cartório, um romance secreto com um Príncipe da Inglaterra. Eva Green (de "Cassino Royale") é uma misteriosa Milady que está envolvida em várias tramas com o Cardeal Richelieu (Eric Ruf). Há várias cenas de lutas de espadas intercaladas por conspirações na corte e tentativas de D´Artagnan em conquistar uma criada da Rainha, Constance Bonacieux (Lyna Khoudri). A segunda parte foi filmada junto e, creio, ainda será lançada este ano. Nos cinemas. 

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Kill Boksoon (2023)

 
Kill Boksoon (2023). Dir: Sung-hyun Byun. Netflix. Há um bom filme de 90 minutos dentro deste loooongo filme de ação coreano de 137 minutos. Estrelado por Jeon Do-yeon (de "The Housemaid") como uma assassina profissional, "Kill Boksoon" é muito bem feito, bem interpretado e tem um roteiro que seria ótimo com, no mínimo, 30 minutos a menos (mas eu tenho achado isso da maioria dos filmes ultimamente, então talvez o problema seja eu?).


Gil Boksoon (Jeon Do-yeon) é uma assassina de elite de uma "empresa" coreana chamada MK. Veterana, ela está no fim do seu contrato e pensando em parar. O motivo seria a filha adolescente, Gil Jae Yeong, que está em uma fase difícil. Como uma jogadora de xadrez, Boksoon tem a habilidade de ver vários movimentos à frente quando enfrenta um adversário. Assim, diversas vezes a vemos sendo morta por alguém... aí a cena volta para o início e ela tenta uma manobra diferente. O mesmo acontece quando ela tem que lidar com a filha (para ver como ela tem dificuldades em ser mãe, já que encara a filha da mesma forma como seus alvos). Já vimos antes no cinema histórias de assassinos que têm que manter uma fachada quando em suas vidas "normais", e aqui não é diferente.

As boas cenas de ação e luta corpo a corpo são bem poucas quando comparadas a intermináveis cenas em que se discute de tudo; há cenas intermináveis em um bar em que assassinos de "classes" diferentes conversam. Há cenas intermináveis em "reuniões de diretoria" das empresas de assassinos. Há cenas intermináveis em que os irmãos (homem e mulher, que mais parecem amantes) donos da MK tentam decidir o que fazer com Boksoon, que nunca segue as regras. Em meio a tudo isso, como disse, há um bom filme de ação e um bom filme da relação entre uma mãe e sua filha (assunto de vários filmes ultimamente, como o também interminável "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo"). Tá na Netflix. 

Irmãos de Honra (Devotion, 2022)

 Irmãos de Honra (Devotion, 2022). Dir: J.D. Dillard. Amazon Prime Video. Filme super comportado que nem dá para ser chamado de "filme de guerra". É passado um pouco antes da Guerra da Coréia, chamada de "a guerra esquecida", nos anos 1950. Em um ano em que foi lançado "Top Gun: Maverick", "Irmãos de Honra" parece um filme da Sessão da Tarde.

O que não significa que seja ruim. As poucas cenas de batalhas aéreas (e terrestres) são bastante bem feitas. O ritmo lento parece vir de um cinema à moda antiga; é longo, duas horas e vinte minutos, para contar uma história de camaradagem entre aviadores que, de novo, parece velha em ano de reprise de Top Gun. Um dos atores, inclusive, está nos dois filmes, Glen Powell, que interpreta o tenente Tom Hudner. O parceiro é vivido por Jonathan Majors, que interpreta o primeiro aviador negro da Marinha americana, Jesse Brown.

Acompanhamos um grupo de aviadores enquanto eles treinam com um caça novo (o Corsair), aprendem a pousar em um porta-aviões, são enviados à Europa, passeiam por Cannes (em uma sequência de meia hora que, sinceramente, poderia ter sido cortada, mesmo eles tendo encontrado Elizabeth Taylor), e finalmente chegando à fronteira entre a Coréia e a China. Há momentos de camaradagem, há cenas de racismo enfrentado pelo aviador negro, há boas sequências aéreas. Nada de memorável. Disponível na Amazon Prime Video. 

sábado, 25 de março de 2023

Cocaine Bear (2023)

Cocaine Bear (2023). Dir: Elizabeth Banks. Baseado remotamente em uma história real ocorrida nos EUA em 1985, "Cocaine Bear" é dirigido pela atriz Elizabeth Banks e é assumidamente um filme "B". Obviamente não deve ser levado a sério e, visto deste modo, tem alguns momentos divertidos (mas fica a sensação de que poderia ser melhor).

O roteiro, escrito por Jimmy Warden, é baseado na história de um urso que ingeriu mais de 30 quilos de cocaína lançada de um avião em uma região florestal. Na história real, o urso foi econtrado morto e só; o roteiro de Warden imagina o que teria acontecido se o animal, literalmente "cheirado", tivesse encontrado pessoas na floresta. O elenco surpreende, composto por pessoas como Keri Russell, Margo Martingale, Alden Ehrenreich, O'Shea Jackson Jr., Isiah Whitlock Jr. e Ray Liotta, em um de seus últimos trabalhos. Nesta era nostálgica pós Stranger Things, Banks tenta recuperar o ar "anos 80" mostrando crianças andando na floresta, figurino de época, walkmans, uma trilha feita com teclados e muita violência "gore" que lembra o estilo de Sam Raimi ou John Carpenter (mas sem o mesmo talento).

Como disse, poderia ser melhor. Não é engraçado o suficiente para ser uma comédia nem assustador o suficiente para ser terror. O urso, apesar de bem feito, é claramente feito em computação gráfica a maior parte do tempo (a não ser em closes ou em detalhes como garras). No Brasil estreia em 30 de março (sim, eu baixei). 

 
O Estrangulador de Boston (Boston Strangler, 2023). Dir: Matt Ruskin. Star+. Filme policial baseado na história real de uma série de crimes acontecidos em Boston nos anos 1960. Um estrangulador atacava mulheres sozinhas, convencendo-as a entrar no apartamento fingindo ser um zelador ou técnico de manutenção. Os crimes atraíram a atenção de uma repórter do jornal Record American, Loretta McLaughlin (Keira Knightley), que até então só escrevia "matérias femininas". Com a ajuda de outra repórter, Jean Cole (Carrie Coon, sempre competente), Loretta encontrou ligações entre os crimes que haviam escapado à polícia de Boston.

O filme é claramente influenciado pelo trabalho de David Fincher em "Zodíaco" e na série "Mindhunter". As cores são discretas e a fotografia é sombria. Falta ao diretor (Matt Ruskin), porém, o talento e a ousadia de Fincher em deixar o espectador mais desconfortável. Apesar de tenso, "O Estrangulador de Boston" é bem mais tranquilo de se assistir do que "Zodíaco" (e nem vou falar de "Seven"). As ações do estrangulador quase não são vistas, a não ser por breves cenas no início. A falta de identificação com as vítimas (anônimas) também não ajuda muito o roteiro. O que falta em roteiro, porém, é compensado pelo bom elenco; Knightley e Coon são acompanhadas por um bom grupo de coadjuvantes como Chris Cooper (como o diretor de redação) e Alessandro Nivola (como um policial). Disponível na Star+.

domingo, 12 de março de 2023

Entre mulheres (Women Talking, 2022)

Entre mulheres (Women Talking, 2022). Dir: Sarah Polley. O título original, "mulheres falando", pode parecer simples ou trivial. No contexto do filme, no entanto, significa muita coisa. "Entre mulheres" é um dos dez indicados a Melhor Filme no Oscar que acontece esta noite. Curiosamente, ele está indicado apenas a mais uma categoria, roteiro adaptado, da diretora canadense Sarah Polley (que adaptou o livro de 2018 escrito por Miriam Toews). Há duas formas de se ver este filme, como algo baseado em uma história real ocorrida na Bolívia em 2010 (como, de fato, foi), ou como uma alegoria para algo bem mais amplo. A trama: um grupo de mulheres mora em uma colônia religiosa à moda antiga; separadas do mundo, elas não têm acesso à educação, ao voto, a ter ideias próprias. Para piorar, elas são frequentemente assaltadas sexualmente pelos homens da colônia, que lhes dizem que é o ato de "fantasmas", de "Satanás", ou da imaginação fértil das moças. Um dia, porém, um dos homens é pego em flagrante. As mulheres, então, resolvem debater sobre o que devem fazer; há três opções: fazer nada, ficar e lutar ou deixar a colônia. O filme de uma hora e quarenta minutos mostra esta conversa.

Poderia ser tudo bastante teatral (e, em momentos, realmente é), mas a direção de Polley e a interpretação do elenco tornam o filme uma experiência fascinante e tensa. E que elenco; Claire Foy, Rooney Mara, Jessie Buckley, Frances McDormand, entre outras, estão excelentes (nenhuma delas foi indicada ao Oscar, lamentavelmente). Apenas um homem tem um papel de destaque, August, interpretado por Ben Whishaw, que é o professor dos meninos da colônia. Os homens, no entanto, estão na pauta por todo o filme. Os homens ou a própria masculinidade. São simplesmente inimigos a serem derrotados? Monstros? Vítimas de um sistema que pune tanto homens quanto mulheres? Possíveis parceiros? O que as mulheres devem fazer? Deixar para lá? Lutar? Fugir? Curioso como a religião também é tratara no filme. As mulheres se refugiam em uma fé que as conforta, mas será que também não as oprime?

Não é um filme fácil, mas vale bastante pelas questões levantadas e pelas belas interpretações. Destaque também para a trilha sonora da islandesa Hildur Guðnadóttir (que ganhou o Oscar por "Coringa" em 2019). Nos cinemas.

Luther: O Cair da Noite (Luther: The Fallen Sun, 2023)

Luther: O Cair da Noite (Luther: The Fallen Sun, 2023). Dir: Jamie Payne. Netflix. Não vi as cinco temporadas do policial Luther (Idris Elba), produzidas pela BBC. Assim, entrei neste filme produzido pela Netflix sem o contexto necessário, talvez, para apreciá-lo como deveria. Isso posto, "Luther" é longo, escuro, maniqueísta e não faz o menor sentido. Será que os fãs da série aprovaram o longa?

Luther é um policial de Londres que enfrenta um vilão digno de um filme de James Bond, interpretado por Andy Serkis (geralmente associado ao trabalho de voz e "motion capture" de personagens como o "Gollum" de "O Senhor dos Anéis" ou o César de "O Planeta dos Macacos"). Aqui ele interpreta em carne e osso um daqueles vilões completamente inverossímeis, um serial killer sádico que tem uma conta bancária infinita, tempo e uma equipe para praticar crimes da forma mais cruel possível (não contente em matar pessoas, ele grava seus gritos de agonia e os manda para suas mães).

Há diversos clichês de filmes policiais, como o "tira" que cai em desgraça mas ainda comanda a investigação dos bastidores, a mulher durona que não quer ser humilhada (uma chefe de polícia interpretada por Cynthia Erivo), as salas cheias de monitores vigiando as pessoas, etc. No final, descobre-se que há um "porquê" nas ações do vilão, mas nem isso é original (foi feito muito melhor em alguns capítulos da série "Black Mirror"). Tá na Netflix.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Se estas paredes cantassem (If these walls could sing, 2022)

Se estas paredes cantassem (If these walls could sing, 2022). Dir: Mary McCartney. Disney+. Há um misto de reverência e história neste documentário da filha de Paul McCartney, Mary, sobre o famoso estúdio "Abbey Road", em Londres. Talvez reverência demais e história de menos, mas não deixa de ser um bom retrato do lugar em que foram gravados alguns dos maiores discos de todos os tempos, de música clássica aos Beatles, de Pink Floyd a John Williams.

Com duração de 90 minutos, o filme conta rapidamente a história do estúdio (que começou como EMI) e parte para uma série de entrevistas com os músicos que lá gravaram. Há boas histórias; Elton John conta que comprava seus discos favoritos com o dinheiro que ganhava como pianista contratado. Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin, também foi músico contratado do estúdio e estava presente na gravação do tema de "Goldfinger", de 007. Como não poderia deixar de ser, Paul McCartney (e os Beatles) acabam sendo os mais citados no documentário. O filho de George Martin, famoso produtor musical dos Beatles, fala como o pai gravou os álbuns da banda. O primeiro disco (com clássicos como "Love me do" e "Twist and Shout") foi gravado em apenas um dia. Já o famoso "Sgt. Peppers", de 1967, foi quando "os loucos tomaram conta do sanatório", nas palavras de McCartney. Ringo Starr diz que, se não fosse por Paul McCartney, os Beatles teriam gravado só três álbuns, ao invés de oito.

No mesmo ano, no estúdio ao lado, o Pink Floyd (na época liderado por Syd Barrett) gravava seu primeiro álbum, o revolucionário "The Piper at the Gates of Dawn". Em 1973, a banda gravou o clássico "The Dark Side of the Moon", o álbum que mais tempo esteve entre os mais vendidos dos EUA. Curioso que Roger Waters e David Gilmour, inimigos históricos que recentemente trocaram farpas pela internet, façam alguns elogios na gravação do documentário.

O filme mostra também como o estúdio entrou em crise no final dos anos 1970 e teve que vender grande parte do equipamento (McCartney teria ficado com bastante coisa). O estúdio tomou vida nova quando John Williams e George Lucas resolveram gravar as trilhas de "Caçadores da Arca Perdida" e vários capítulos de "Star Wars" em Abbey Road. Há várias outras histórias sobre outros músicos e bandas (sobra até espaço para o imbecil do Kanye West). Como disse, talvez o documentário seja reverente demais em alguns momentos; fala-se muito sobre a "mística" do lugar e sobre como as paredes supostamente estão "encharcadas" com a música gravada lá. A não ser por um senhor chamado Lester que faz a manutenção do equipamento, senti falta do depoimento de mais pessoas que trabalharam lá, como o grande Alan Parsons, por exemplo (que foi engenheiro de som dos Beatles e do Pink Floyd antes de criar a própria banda); mas é um bom documentário. Disponível na Disney+.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

O Fio Invisível (Distancia de rescate, 2021)

 

O Fio Invisível (Distancia de rescate, 2021). Dir: Claudia Llosa. Netflix. Suspense psicológico que estaria mais à vontade em um festival do que perdido nas telas da Netflix, "O Fio Invisível" fascina mas deixa a desejar. Bem feminino, mostra a ligação das mães com seus filhos, misturando delírios, feitiçaria e, estranhamente, um final bastante ligado à realidade.

Amanda (María Valverde) vai para uma casa no interior chileno para passar o verão e esperar pelo marido. Ela tem uma filha pequena, Nina (Guillermina Sorribes Liotta) à qual é muito ligada. Ela então conhece uma mulher chamada Carola (a argentina Dolores Fonzi), uma vizinha sexy com quem começa uma amizade. Só que Carola tem um filho "estranho" chamado Davi (Marcelo Michinaux), de quem ela claramente tem medo.

A trama é contada de forma fragmentada, através de um diálogo interno entre Amanda e Davi. Amanda está claramente doente (morrendo?) e é vista sendo arrastada por uma floresta. O garoto Davi pede que ela se lembre de todos os detalhes desde que conheceu Carola, para que ela (e o espectador) possa entender o que a levou até onde está agora. Confuso? Sim. "Artístico"? Bastante. Vale a pena? O filme é bem bonito, com bela fotografia de Oscar Faura e trilha sonora de Natalie Holt. Como disse, parece mais um "filme de festival" do que um lançamento da Netflix. É cheio de suspense e nem tudo é feito para ser entendido. Há uma explicação final que me pareceu simplória (tudo isso para isso?). É melhor do que ver "Na sua casa ou na minha" (este sim, um Netflix Movie típico)? Com certeza. Tá na Netflix. 

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin, 2022)

 
Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin, 2022). Dir: Martin McDonagh. "Banshee" é uma figura do folclore irlandês que se manifesta na forma de uma mulher cujos gritos anunciam uma morte iminente. Este é um filme estranho, mas bastante envolvente, passado em uma pequena ilha na costa da Irlanda. Na superfície, ele trata do fim de uma amizade. Todos os dias, Pádraic (Colin Farrell) passava na casa de Colm (Blendan Gleeson) para irem ao bar. Uma tarde, porém, Colm simplesmente ignora os convites de Pádraic e não vai com ele. É uma ilha, e logo isso se torna o assunto dos moradores. "Vocês brigaram?", pergunta o dono do bar. "Não", responde Pádraic. "Eu acho que não... será que brigamos?". Pádraic vai tirar satisfações com Colm e recebe uma explicação estranha: "Eu só não gosto mais de você". É uma premissa inusitada para um filme, mas este pequeno incidente acaba rendendo um dos roteiros mais interessantes que já vi.

Roteiro e direção são de Martin McDonagh, que já fez um filme com Colin Farrell e Brendan Gleeson antes, "In Bruges" (2008), que por um motivo ou outro eu ainda não vi. McDonagh era dramaturgo e fez algum sucesso escrevendo peças em Londres e em sua terra natal, a Irlanda. Nos EUA, fez "Três Anúncios Para Um Crime", com Frances McDormand, que tem vários problemas, mas é um bom filme. "Os Banshees de Inisherin" talvez seja seu melhor trabalho. A trama se passa há um século, em 1923, e tem como pano de fundo a Guerra Civil irlandesa. Em vários momentos os habitantes da ilha escutam o barulho de bombas e tiros vindos do continente, mas é como se eles vivessem em um mundo à parte.
A "briga" inicial entre os dois melhores amigos acaba revelando um mundo que, para o bem ou para o mal, estava estagnado. Pádraic não só sente falta do que considerava seu melhor amigo, mas também do seu modo de vida. Colm revela que não quer mais "perder tempo" com ele porque quer se dedicar a compor músicas. Há uma bela discussão, em um momento, sobre "criar um legado" versus "ser uma boa pessoa". Colm desafia Pádraic a se lembrar de qualquer boa pessoa nos últimos trezentos anos. "Mozart, por outro lado, todo mundo sabe quem é". Bêbado, Pádraic responde que nunca havia ouvido falar em Mozart, então a teoria era furada. Colin Farrell está surpreendente como Pádraic, um sujeito comum que, de repente, perde o chão. Ele não se conforma com o fato do amigo simplesmente parar de falar com ele. Há também a personagem da irmã de Pádraic, Siobhán (Kerry Condon, excelente), uma solteirona que mora com ele e talvez seja a pessoa mais inteligente da ilha. Essa inteligência, no entanto, talvez seja seu fardo, porque ela gostaria de fazer algo melhor da vida. O que os tais "banshees" têm a ver com isso? Há a figura de uma velha que é vista ao fundo de várias imagens. Ninguém gosta de interagir muito com ela, mas a única que não tem medo é Siobhán.
É um filme cheio de simbolismos, parecendo uma fábula. O roteiro, que começa de forma cômica, vai se tornando pesado e até assustador. Ser "bom" é uma virtude ou uma fraqueza? É possível deixar um legado ou estamos todos fadados a nascer, crescer, morrer e sermos esquecidos? É possível cortar com o passado sem ser cruel com os outros? Devemos lutar por quem gostamos ou deixa-los partir? Um filme "estranho", mas cheio de significado. Indicado a nove Oscars.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

O Poderoso Chefão - Desfecho: A Morte de Michael Corleone (The Godfather Coda: The Death of Michael Corleone, 2020)

O Poderoso Chefão - Desfecho: A Morte de Michael Corleone (The Godfather Coda: The Death of Michael Corleone, 2020). Dir: Francis Ford Coppola. Netflix. Para começo de conversa, eu nunca achei o terceiro filme da saga "O Poderoso Chefão" ruim. Não estava no mesmo nível dos dois filmes lançados nos anos 1970, mas era uma boa conclusão aos épicos sobre a Máfia dirigidos por Coppola (baseados no livro de Mario Puzzo). A crítica foi de morna a selvagem. Foi considerado um filme "menor" e a presença de Sofia Coppola no papel da filha de Michael Corleone, desastrosa (de novo, também não achei a interpretação dela ruim; é claramente uma atriz amadora, chamada às pressas para substituir Winona Ryder, que desistiu do papel no ultimo minuto).


Trinta anos depois do lançamento, Francis Ford Coppola resolveu lançar esta nova versão, chamada de "Coda: The Death of Michael Corleone". "Coda" significa epílogo, conclusão. É como que um pedido de desculpas de Coppola, apresentando uma edição reeditada e melhorada. Curiosamente, é um filme mais curto do que o original (as "edições especiais" costumam ter cenas a mais, não a menos). Este filme é uns quinze minutos mais curto do que o original, e realmente me pareceu mais fluido. Ele já começa com Michael Corleone (Al Pacino) negociando com o Arcebispo Gilday (Donal Donnelly); ele pagaria 600 milhões de dólares ao Vaticano em troca do controle de uma empresa multinacional que o tornaria o homem mais rico do mundo. Não só isso... a negociação precisaria do apoio do próprio Papa, o que traria, aos olhos de Michael Corleone, "absolvição" por uma vida de crimes e pecados.

"Absolvição", aliás, é o tema deste desfecho. Ou a tentativa de absolvição. Michael Corleone nunca quis seguir os passos do pai (interpretado por Marlon Brando no primeiro filme e De Niro no segundo), mas as circunstâncias o tornaram um dos homens mais poderosos e temidos do mundo. Esta versão, além de mais curta, troca algumas cenas de lugar e deixa a trama mais clara. Coppola trabalhou novamente com o mágico Gordon Willis na direção de fotografia, com seus claros e escuros, e direção de arte deslumbrante de Dean Tavoularis. O elenco traz Andy Garcia como Vincent, o provável herdeiro do império Corleone (por anos se falou em filmes com seu personagem, mas eles nunca aconteceram). Diane Keaton, Talia Shire, Eli Wallach, George Hamilton, Bridget Fonda, Joe Mantegna, entre dezenas de outros, completam o elenco.

Há uma mudança sutil na última imagem do filme (que não vou revelar), que a deixa ainda mais trágica. Acho que Al Pacino deveria ter levado um Oscar só por aquela cena, incrível, um pouco antes, em que ele dá um grito silencioso (ideia do editor Walter Murch), terrivelmente desesperado, em frente à Ópera de Palermo. Tá na Netflix.

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness, 2022)

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness, 2022). Dir: Ruben Östlund. Chega aquela época do ano, as indicações ao Oscars, em que você tem que caçar pelos indicados nos cinemas, nos canais de streaming ou em serviços "alternativos" internet afora. "Triângulo da Tristeza" foi indicado a três prêmios importantes, melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original. Roteiro e direção são de Ruben Östlund, do superior "Força Maior" (2014), disponível na Amazon Prime.

"Triângulo da Tristeza" é melhor como uma série de cenas independentes do que como um filme completo. Ele é dividido em três partes que são quase filmes separados, embora tenham dois personagens em comum, um casal de supermodelos chamados Carl (Harris Dickinson) e Yaya (Charlbi Dean, que tragicamente morreu recentemente aos 32 anos). Carl e Yaya estão juntos não por amor, mas para alavancar suas redes sociais. Ele é visto, no começo do filme, fazendo um teste para um campanha, ao lado de dezenas de outros rapazes. "Como você se sente trabalhando em uma profissão que ganha 1/3 do que as mulheres?", pergunta um produtor. Já Yaya é aquela influencer que tira fotos sexy fazendo pose com um prato de comida que ela nem vai comer.

Quando achamos que o filme vai ser só sobre esses dois, há uma segunda parte passada em um iate de luxo, com a "nata" dos super ricos a bordo. O filme tem várias cenas satíricas envolvendo os ricaços, como quando uma mulher exige que toda a tripulação desça pelo tobogã, por exemplo. O clímax, no entanto, é uma longa e desconfortável sequência que envolve tempo ruim, muito vômito e esgoto literalmente saindo pelas privadas. Ah, e Woody Harrelson faz uma participação especial.

Há uma terceira parte que me pareceu baseada no livro "O Senhor das Moscas". Há uma curiosa inversão de papéis mas acho que funcionaria melhor se tivéssemos conhecido a personagem da faxineira antes. Resumindo, acho que "Triângulo da Tristeza" é mais longo do que deveria (como muitos filmes ultimamente), com 147 minutos, e vale mais por momentos isolados do que no geral.

Certas Pessoas (You People, 2023)

 

Certas Pessoas (You People, 2023). Dir: Kenya Barris. Netflix. O tipo de filme que, pelas pessoas envolvidas, deveria ter sido muito mais engraçado. Eddie Murphy, Jonah Hill, Julia Louis-Dreyfuss, David Duchovny (completamente desperdiçado), em uma comédia romântica que tinha tudo para render mais.


É aquele tipo de filme do tipo "meet the parentes" ("conhecendo os pais"). Johan Hill é um podcaster branco que se apaixona por uma figurinista negra, Amira (Lauren London); os dois têm boa "química", mas o filme parece com pressa e você mal os vê se conhecendo e já há um pulo no tempo para seis meses no futuro, com planos de casamento. Estranhamente, em seis meses as famílias ainda não haviam se conhecido. Os pais de Amira são o grande Eddie Murphy e Nia Long. Os pais e Jonah Hill são David Duchovny e Julia Louis-Dreyfuss. Além da questão racial, há outra ainda mais complicada: os brancos são judeus e os negros são muçulmanos. Há um monte daquelas cenas desconfortáveis que você imagina e, sim, há uma "mensagem" interessante tentando ser passada pelo filme.

Só que nada se aprofunda muito. Pior, tudo se resolve em um final bobinho, bobinho. Eddie Murphy, um dos melhores comediantes de todos os tempos, está preso sendo o "pai chato" e quase não muda de expressão. David Duchovny mal aparece. Julia Louis-Dreyfuss é a que mais se destaca. Não é um filme ruim, mas não sabe direito a que veio. Tá na Netflix.

The White Lotus - 2ª Temporada (2022)

 

The White Lotus - 2ª Temporada (2022). Dir: Mike White. HBO Max. "The White Lotus" retorna à HBO com sua mistura de paisagens maravilhosas, hotéis de luxo e pessoas podres. Enquanto a primeira temporada se passava no Havaí, esta segunda acontece no "velho mundo", a Europa, em um hotel paradisíaco na costa da Sicília, Itália.

Apenas uma personagem principal retorna da temporada anterior, a milionária sem noção Tanya (Jennifer Coolidge). O resto dos personagens inclui um trio de Los Angeles que está à procura de sua raízes, interpretados por um patriarca mulherengo (o grande F. Murray Abraham), seu filho produtor de cinema (Michael Imperioli, o Christopher da série "The Sopranos") e o neto, Albie (Adam DiMarco). Há também dois casais (Meghann Fahy e Theo James; Aubrey Plaza e Will Sharpe), novos ricos do ramo da tecnologia e finanças que vieram passar uma semana na Itália. Jennifer Coolidge traz junto sua assistente, Portia (Haley Lu Richardson), que quer viver "uma grande aventura" na Itália (ela consegue).

São sete episódios mostrando a relação dessas pessoas entre si, com um complicador: duas jovens prostitutas italianas (Simona Tabasco e Beatrice Grannò) que estão à caça de um(a) estrangeiro(a) rico(a) e se envolvem com vários dos hóspedes do hotel. Os roteiros e direção são de Mike White, que não se cansa de mostrar o lado "sombrio" de cada personagem. Assim como na primeira temporada, há um contraste interessante entre as paisagens belíssimas e a constante falta de noção destes personagens ricos, egocêntricos e perdidos. Aybrey Plaza, que geralmente interpreta personagens soltas e desencanadas, surpreende aqui como uma mulher reprimida que é ótima em achar o problema dos outros, mas não nela mesma. O trio de Los Angeles não consegue quebrar um padrão de comportamento misógino que envolve traições e problemas conjugais. O rapaz mais novo tenta ser diferente e ser "bonzinho", mas todo mundo sabe o que acontece com pessoas "boazinhas".

Há também um núcleo italiano representado, além das jovens prostitutas, pela gerente do hotel, Valentina (Sabrina Impacciatore, ótima), e outros empregados. É tudo muito bem filmado nas paisagens da Sicília, com suas belas praias e palacetes centenários. Há um bocado de cenas de nudez tanto masculina quanto feminina. E, claro, várias referências a "O Poderoso Chefão". Disponível na HBO Max.