domingo, 26 de abril de 2009

O visitante

Curioso este momento de transição pelo qual passamos. Os oito anos de governo Bush deixaram um gosto amargo na política internacional dos EUA, única potência do mundo e mais xenofóbico e assustador do que nunca. A chegada de Barack Obama à Casa Branca vem carregada de esperança para o futuro, mas ainda há muita desconfiança entre os países do mundo e o fantasma do 11 de setembro ainda permanece na memória recente das pessoas. Com Bush ou sem, o fato é que há uma enorme desigualdade social no Brasil e no mundo, o que força cada vez mais as pessoas a fugirem de seus países em busca de uma vida melhor em outro lugar. E Nova York ainda mantém o posto não oficial de capital do mundo, com a Estátua da Liberdade dando boas vindas aos imigrantes famintos, desde que eles consigam fugir da imigração americana. É neste cenário que se passa "O Visitante", produção sensível escrita e dirigida por Thomas McCarthy.

Walter Vale (Richard Jenkins, perfeito) é um professor universitário cuja vida está estagnada. Ele repete a mesma aula há anos sem muito interesse tanto de sua parte quanto de seus alunos. Tenta sem sucesso, nem muito esforço, aprender a tocar piano, tendo trocado várias vezes de professor. Viúvo de uma pianista, ele agora passa seus dias sozinho, dando poucas aulas e reservando tempo para escrever um livro. Sua vida muda ao ter que ir para Nova York falar em um congresso. Ao chegar ao apartamento que tem na cidade, mas que não visitava há anos, ele encontra um casal de imigrantes morando lá. Tarek (Haas Sleiman) é um percussionista da Síria, e sua mulher Zainab (Danai Gurira) é do Senegal e vende bijuterias. Os dois foram enganados por um homem que se dizia dono do apartamento e já estavam morando lá há dois meses. Inicialmente Walter os manda embora, mas muda de idéia e acaba deixando que eles permaneçam ali até encontrarem outro lugar. Uma improvável amizade se estabelece entre Walter e Tarek, que têm um amor em comum, a música. Richard Jenkins, que concorreu ao Oscar de melhor ator por este filme, é minimalista ao fazer de Walter Vale um senhor aparentemente sem nenhum atrativo. Aos poucos, porém, percebemos que ele não é má pessoa. Apenas passou muito tempo sozinho e sem desafios. O encontro com o jovem casal de imigrantes desperta nele as memórias da própria esposa e a vontade de fazer algo diferente da vida. Aos poucos Walter começa a ter aulas de tambor com Tarek e há cenas muito engraçadas dos dois batucando.

Acontece, no entando, de Tarek ser preso injustamente pela polícia de Nova York. Como está no país ilegalmente, ele é enviado a um presídio da imigração no Queens, bairro afastado de Nova York. Walter está tão envolvido com o percussionista que passa a visitá-lo na prisão e tenta encontrar uma saída para o problema. Ele também tem que lidar com a mãe de Tarek, Mouna (Hian Abbass, do belo "Lemon Tree"), que vem de Michigan procurar pelo filho. Aos poucos Walter descobre como é difícil a vida para um imigrante ilegal nos Estados Unidos quando este é preso pela imigração. Tarek pode ser enviado para qualquer parte do país ou mesmo deportado sem aviso prévio, e os oficiais da imigração não estão dispostos a dar muitas informações.

O filme poderia cair em um drama fácil ou em um protesto político superficial, mas mantém o foco no lado humano dos personagens. Walter, ao se envolver com os imigrantes, percebe como sua vida tem sido vazia, e a presença feminina de Mouna também desperta sentimentos há muito esquecidos. A trama me lembrou do filme que Peter Weir fez em 1990, "Green Card, Passaporte para o Amor", em que Gerard Depardieu simulava um casamento com Andie MacDowell para tentar ficar nos Estados Unidos. As duas produções tem a música como um dos focos principais (o personagem de Depardieu também era músico) e em ambos aparece um músico de rua que toca percussão em uma lata. "O visitante", porém, é um filme mais sério e mais realista sobre as condições de vida nos Estados Unidos. Digamos que "Green Card" seja uma fantasia dos tempos anteriores ao 11 de setembro, enquanto que "O Visitante" mostre como o mundo mudou, infelizmente para pior, nesse período.


sábado, 25 de abril de 2009

Escritores da Liberdade

“Escritores da Liberdade”, de 2007, foi escrito e dirigido por Richard Lagravenese. O filme é mais um exemplar de uma espécie de “gênero” do cinema, o “filme de professor”. São vários os exemplos de produções que seguem mais ou menos a mesma fórmula: um professor idealista e exemplar tem que enfrentar alunos indisciplinados, quase criminosos, em alguma escola decadente. Um dos primeiros e mais famosos do gênero é “Um Mestre com Carinho”, dirigido por James Clavell em 1967, em que Sidney Poitier interpreta um professor negro que consegue disciplinar uma turma baderneira de uma escola de Londres. Podemos citar também "Mentes Perigosas", com Michelle Pfeiffer; ou "O clube do Imperador", com Kevin Kline; "Mr. Holland", com Richard Dreyfuss; "Sociedade dos Poetas Mortos", com Robin Williams e assim por diante, todos seguindo variações da mesma fórmula.

“Escritores da Liberdade”, apesar de formulaico, consegue ser original em alguns momentos e certamente tem uma mensagem interessante. O filme é baseado na história real da professora Erin Gruwell (interpretada por Hillary Swank), que ao enfrentar uma turma multirracial em uma escola americana teve que lidar com todo tipo de problemas. A classe é formada em grande parte por filhos de imigrantes que foram aos Estados Unidos fugidos da pobreza ou violência de seus países de origem. Dentro da escola esses adolescentes acabam por imitar os problemas que enfrentam fora da sala de aula, como a violência e o preconceito. Cada grupo racial se senta junto e não se comunica com o grupo ao lado. A professora começa a mudar isso misturando os alunos dentro da sala e, através de um exercício de perguntas e respostas, consegue mostras aos jovens que, apesar das diferentes origens, todos compartilham problemas em comum. Ela também usa a história do holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial para ensinar lições como intolerância e perseguição política.

A dedicação da professora Gruwell a seus alunos é tamanha que ela acaba por negligenciar a vida familiar, o que acaba com seu casamento com um arquiteto fracassado. Ela enfrenta também problemas com a direção da escola, que vê os alunos como meros delinqüentes sem solução. Ao distribuir diários para seus alunos, a professora acaba mostrando que cada um deles tem uma história própria e um motivo para agir da maneira que age. Todo mundo, no fundo, precisa aprender a ser respeitado para poder respeitar o colega de classe, o vizinho ou aquele que, a princípio, parece tão diferente mas que, no fundo, é um ser humano como qualquer outro.


terça-feira, 21 de abril de 2009

Iron Maiden: Vôo 666

O cinema, cheio de cabeludos, escutava às notas açucaradas de "Take my Breath Away" (do filme Top Gun), enquanto esperava pelos riffs pesados da banda inglesa Iron Maiden. Grande parte da platéia vestia camisetas pretas com o nome da banda, como se estivessem vestidos para um show. O fato da sessão ser à meia-noite só mostra a força que o Iron Maiden tem no Brasil.

Criada nos anos 80 na Inglaterra, a banda de heavy metal se mantém com uma longevidade impressionante. E eles têm uma massa religiosa de fãs no Brasil desde sua primeira apresentação por aqui no Rock in Rio de 1985. Naquela época, a maioria das garotas metaleiras que hoje vão assistir a seus shows sequer havia nascido. "Iron Maiden: Vôo 666" documenta a turnê "Somewhere back in time", em que a banda fez 26 shows, em 21 cidades, no espaço de seis semanas. Estas 21 cidades estão espalhadas pelos cantos do globo, de Munbai na Índia a Anchorage no Alasca; de São Paulo, Brasil a Tóquio, Japão. Isso só foi possível graças a uma logística apertada e um avião próprio, o "Ed Force One", um 757 pilotado pelo vocalista da banda, Bruce Dickinson, que carrega toda a aparelhagem além dos músicos, suas famílias e 70 pessoas da equipe técnica. O filme foi dirigido pelos canadenses Scott McFadyen e Sam Dun e segue o ritmo frenético da banda, mostrando cenas de bastidores, entrevistas, momentos de lazer e, claro, músicas dos shows.

Uma das perguntas que podem ser feitas é o porquê do grupo ter tantos fãs não só entre os que os acompanham há tempos, mas cada vez mais atraindo uma nova legião de jovens. Talvez simplesmente não tenha surgido nos últimos anos nada que se equipare ao grupo, principalmente nas apresentações ao vivo. Eu estive presente dia 15 de março último ao retorno deles ao Brasil e pude acompanhar, junto com quase 100 mil fãs extasiados no Autódromo de Interlagos, SP, a energia do grupo. O filme mostra cenas surreais de multidões pulando em Mumbai, na Índia, da mesma forma que um estádio foi pouco para conter os fãs da Costa Rica. Na Colômbia, policiais faziam uma revista severa nas milhares de pessoas esperando na fila, tirando câmeras fotográficas, comida e até mesmo os cintos das calças dos fãs. É da Colômbia também que vem uma das imagens mais marcantes do filme. Um fã, aos prantos, segura uma baqueta lançada pelo baterista Nicko McBrain; ele encosta a baqueta no rosto, exausto, chorando, e então faz um sinal-da-cruz. Não deixa de ser irônico que a igreja católica tenha conseguido banir o grupo de se apresentar no Chile, nos anos 80, devido às letras satânicas de suas músicas. A mesma igreja que fazia vista grossa às torturas, desaparecimentos e mortes no regime do General Pinochet.

A banda é formada pelo incansável vocalista Bruce Dickinson, pelo baixista e principal compositor Steve Harris, pelo engraçadíssimo baterista Nicko McBrain e por nada menos que três guitarristas: Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers. As músicas, apesar de pesadas, são melódicas e, como admite um engenheiro de som no filme, seguem uma fórmula: uma parte lenta, um solo, uma cadência de cavalgada, um solo final. Curioso ver as diferenças entre as platéias do mundo conforme a turnê e o documentário avançam. Da organização dos fãs do Japão aos delírio dos fãs latinos, cada show é um show. O Brasil, infelizmente, é visto com um certo folclore, quando entrevistam um "padre" que tem mais de cem tatuagens da banda pelo corpo, mas o empresário está certo quando diz que Iron Maiden por aqui é "religião". A banda vem com frequência e toca sempre para platéias lotadas, que cantam cada nota.

O filme se torna um pouco repetitivo pois a banda, em sua vontade de agradar as platéias, mostra praticamente todas as cidades por onde passaram. Mas é um retrato interessante do funcionamento de uma banda de rock em plena atividade.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Presságio

"Presságio" começa como um bom filme de ficção-científica e mistério. Infelizmente, ele termina como uma mistura de terror, suspense, filme religioso, new age, catástrofe e quase todos os outros gêneros possíveis. Em 1959, uma escola resolve enterrar uma "cápsula do tempo" contendo desenhos feitos pelas crianças sobre o futuro. A cápsula seria desenterrada apenas 50 anos depois. Uma das alunas, ao invés de fazer um desenho, escreve uma série de números aparentemente desconexos, para espanto da professora. Cinquenta anos depois, a cápsula é desenterrada e a série de números vai parar nas mãos de um garoto chamado Caleb (Chandler Canterbury). O pai dele é um professor de astrofísica chamado John Koestler (Nicolas Cage) do famoso MIT (Massachussets Institute of Technology) que perdeu a esposa recentemente. Pai e filho vivem sozinhos em uma daquelas casas de cinema afastadas da cidade, isoladas e prontas para serem palco de fatos assustadores. A lista com os números cai nas mãos de John que, em uma noite passada em claro, descobre toda sorte de "coincidências" entre os números da lista e tragédias que ocorreram nos últimos cinquenta anos. Lá estão as datas, as coordenadas e o número de vítimas de fatos como o atentado terrorista ao World Trade Center ou o incêndio que vitimou a esposa de Koestler. Mais assutador ainda, a lista marca três datas que ainda não ocorreram. Será que John pode fazer alguma coisa para evitar as mortes que vão acontecer?

O filme é um apanhado de boas idéias jogadas em um roteiro cada vez mais absurdo. Há uma discussão interessante entre determinismo (que diz que o Universo tem um motivo para existir e que tudo segue leis pré-estabelecidas) versus a idéia de que tudo é uma coincidência, de que o fato de que estamos aqui é resultado aleatório de reações químicas e mutações. Há um eco evidente com o filme "Sinais", de M. Night Shyamalan, em que o personagem de Mel Gibson também havia perdido a fé depois da morte da esposa em um acidente. Nicolas Cage vai atrás da filha da garota que havia escrito os números há cinquenta anos e descobre que ela morreu louca, em uma overdose. O roteiro então começa a atirar para todos os lados. A ficção-científica dá lugar a filme de suspense/terror sobrenatural, com o aparecimento de alguns "seres sussurrantes" que começam a rondar Caleb, o filho de John, com profecias que podem significar o Apocalípse bíblico. Há também momentos de filme catástrofe em que a competência técnica da equipe de efeitos especiais se destaca; "Presságio" pode ser um filme irregular, mas sem dúvida tem duas da melhores cenas de desastre jamais feitas. Na primeira, um único plano-sequência mostra um espetacular desastre aéreo que acontece literalmente na frente do personagem de Nicolas Cage, que corre até os destroços para procurar por sobreviventes. A segunda acontece no metrô de Nova York e também é muito bem feita.

O resto do filme, infelizmente, não se sustenta. O diretor é Alex Proyas, que tem um bom senso estético e fez o interessante "Dark City", filme de ficção científica muito superior a este, mas também cometeu bobagens como "Eu, Robô", com Will Smith. "Presságio" peca pela falta de direção e por citações nada sutis e menos elegantes que os originais que o influenciaram, como "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", de Steven Spielberg, um sem número de filmes catástrofe e vários de M. Night Shyamalan.


domingo, 12 de abril de 2009

Valsa com Bashir

Como funciona nossa memória? Por que é que, às vezes, um cheiro pode nos trazer lembranças de um tempo indeterminado no passado? E será que as coisas das quais nos lembramos aconteceram realmente ou são parte de nossa imaginação? E será que realmente nos esquecemos de alguma coisa ou só achamos que sim?

Valsa com Bashir é um filme extraordinário sobre as memórias de um soldado. Ele é o diretor do filme, Ari Folman, um israelense que lutou no Líbano nos anos 80. Uma noite um ex-companheiro de batalha o chama para contar um sonho que ele tem tido todas as noites: ele é perseguido por exatamente 26 cachorros raivosos que o encurralam até que ele acorda. Pesquisando em sua memória, eles chegam à lembrança do tempo em que o colega de Folman teve que matar os cachorros que serviam de sentinela nas vilas libanesas. Vinte e seis cachorros.

Folman, surpreso, descobre que não consegue se lembrar da guerra, apesar dele sempre ter uma imagem na cabeça: ele está nu, boiando no mar com outros companheiros. À sua frente, uma cidade destruída, vista sob a luz de iluminadores do exército. Folman decide entrevistar ex-companheiros do exército e especialistas para tentar recuperar suas próprias lembranças. O que teria realmente acontecido durante a guerra? Uma característica técnica transforma "Valsa com Bashir" em uma experiência ainda mais pungente do que a de assistir a um "simples" documentário. O filme é todo feito com animações estilizadas, acompanhadas pela música de Max Richter e desenhadas por David Polonsky. O recurso da animação é perfeito neste filme na tentativa de transmitir as memórias de forma visual, com todos os seus lapsos e fantasias. Lembra um pouco os filmes "Waking Life" (2001) e "O Homem Duplo" (2006), de Richard Linklater, que utilizavam a animação como forma de ilustrar os pensamentos dos personagens e/ou viagens causadas pelo uso de drogas.

Entrevistando outros ex-soldados, Folman vai tentando montar um quebra cabeça sobre os acontecimentos na guerra do Líbano, e as imagens variam de fantasias a relatos assustadores dos combates. Aos poucos, a imagem de um massacre ocorrido em Beirute vai tomando forma. Teria Folman presenciado algo traumático demais para se lembrar? Poucos filmes de guerra conseguiram ser tão eficientes em transmitir os horrores do campo de batalha como este. Uma guerra dificilmente é feita com os bombardeios "cirúrgicos" transmitidos pela CNN. Na vida real, pessoas são mortas sem motivo algum, crianças são usadas como soldados e inocentes massacrados sob o olhar aturdido de seus executores. Nesse mundo maniqueísta em que vivemos, em que sempre há um lado "certo" e outro "errado" em uma guerra, "Valsa com Bashir" mostra que todos são vítimas. Matar outro ser humano é algo que marca alguém queira sua causa seja "justa" ou não. Em grande parte das guerras, na verdade, os soldados não entendem o que estão fazendo ou sabem interpretar suas ordens. Folman aos poucos relembra o que aconteceu, e imagens de um terrível massacre causado por uma milícia católica surgem em sua mente. Não foi ele quem matou os civis inocentes, mas sua inação (e de seus companheiros) propiciou o massacre. É de se pensar quantas pessoas estão sendo mortas pelo mundo afora (e aqui no Brasil) simplesmente porque deixamos de fazer alguma coisa.
"Valsa com Bashir" era o favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano, mas acabou perdendo. Não importa. O que importa é saber que filmes inteligentes e desafiadores como este ainda são feitos. A realidade chega no final do filme na força de imagens reais, não mais em animação. A fantasia acabou, e o que vemos é sangue, corpos e morte.


Cinturão Vermelho

Um filme sobre princípios. Há quanto tempo você não vê um desse tipo? Há quanto tempo, falando nisso, você não escuta falar em princípios fora da tela também? Cinturão Vermelho é dirigido por David Mamet, um dramaturgo que criou um estilo próprio de escrever e dirigir cinema (apesar do próprio, em uma das entrevistas vistas nos extras do DVD, dizer que não sabe o que é "estilo"). Mamet prega a simplicidade acima de tudo. Em um de seus livros, "On directing film", ele diz que a melhor resposta para a pergunta "onde vamos colocar a câmera?" é simplesmente "ali". A câmera deve ficar onde deve, simples assim. Quando um ator lhe pergunta como ele deve atuar uma cena em que deve atravessar um corredor e abrir uma porta, a resposta de Mamet é direta: "simplesmente ande pelo corredor e abra a porta". Não é necessário criar "significados" para cenas como esta, ou em nenhuma, na verdade, segundo o método de Mamet.

Isso posto, Cinturão Vermelho é um filme enganadoramente simples. É também, a bem da verdade, um filme falho. Mamet quase conseguiu o feito de produzir um "filme de luta" sem lutas. Quase.

Mike Torry (o excelente Chiwetel Ejiofor) é um professor de artes marciais que ensina "brazilian jiu-jitsu" em uma pequena academia em um canto afastado de Los Angeles. Torry é uma espécie de alter-ego da figura do diretor de cinema. Enquanto seus alunos se agarram e lutam no dojo, ele os dirige com frases curtas e simples. "Há sempre uma saída", diz ele a um aluno que está quase desmaiando em um exercício de estrangulamento. Mike é casado com uma brasileira, Sandra (a bela e eficiente Alice Braga), que não concorda muito com a mentalidade do marido. Ela desenha e vende roupas e tem um negócio razoavelmente bem sucedido, mas não entende porque o marido não consegue fazer dinheiro com a academia. A resposta é simples: ele não quer. Não se isso significar abrir mão de seus princípios ferrenhos de conduta e de moralidade. É a personificação da contradição que existe nas artes marciais: você aprende a lutar para não ter que lutar. Mas como manter esta pureza diante do mundo moderno, com seus apelos de dinheiro "fácil" e violência?

O roteiro de Mamet se torna rapidamente complicado. A trama envolve um astro de cinema (interpretado pelo comediante Tim Allen) que arruma uma briga em um bar e é salvo por Mike Torry. Em agradecimento, o ator convida Torry e a esposa para jantar em sua mansão e, sutilmente, seduz o casal. Mike é convidado para ser um dos produtores do filme em que Allen está trabalhando, e a esposa dele aparentemente se interessa pelas roupas produzidas por Sandra. Em dificuldades financeiras, tanto Mike quanto Sandra ficam interessados mas, como diz o ditado, "quando a esmola é demais o pobre desconfia". O desenrolar da trama revela a podridão do mundo contra o qual Mike lutou a vida toda. Suas idéias sobre artes marciais são transformadas em uma paródia de mal gosto em um torneio combinado feito para a TV. A esposa do astro de cinema deixa de atender às ligações de Sandra. O que está acontecendo? Há também uma advogada traumatizada por um estupro no passado que se torna aluna de Mike e um policial que faz de tudo para manter o nome da academia.
Nota pessoal, eu frequentei o mundo das artes marciais por vários anos e conheci pessoas como Mike Torry. Assim como no filme, por vezes sua integridade pode ser enervante. Mas também vi o lado comercial, que ganha rios de dinheiro com exames de faixa, torneios forjados e distribuição de medalhas a alunos que são meros números em uma fatura comercial. O filme de Mamet é bastante fiel ao mostrar estes dois lados, mais o "lado B" de Hollywood, com suas falsas promessas, decadência e vícios. Tudo isso vem embalado em um filme que nunca chega a decolar de verdade. A parte final é difícil de acreditar. Mas Mamet faz uma homenagem aos velhos filmes de samurai e aos westerns italianos. A figura do mestre solitário enfrentando a tudo e a todos no final é típico dos duelos de antigamente. Como disse, é um filme de lutas, mas não do mesmo modo que um filme de Jean-Claude Van Damme, por exemplo. O importante não é ver corpos musculosos se batendo. As lutas em "Cinturão Vermelho" são frutos do roteiro e parte integrante do mundo que representam. Para nós brasileiros, é curioso ver o Brasil citado tantas vezes no filme, assim como a presença de Alice Braga e Rodrigo Santoro em um filme de David Mamet.
Cinturão Vermelho está disponível em DVD, com fartos extras. Um filme falho, mas bastante interessante.


nota: o trailer a seguir contém SPOILERS e revela muito do filme

sábado, 4 de abril de 2009

Monstros vs. Alienígenas

O filme se chama "Monstros vs. Alienigenas", então é de se supor que não deveria esperar nada, certo? É apenas um filme para crianças, sem nenhuma pretensão, então o melhor a fazer é apenas assistir, esquecer o cérebro do lado de fora e não pensar. Mas não é tão simples. "Monstros vs. Alienígenas" mostra o quão longe (e baixo) a animação da DreamWorks foi. Tendo Jeffrey Katzemberg (ex-Disney) no comando, o estúdio estreou na animação com um dos melhores filmes animados da história, "O Príncipe do Egito". Quando a Pixar surgiu e elevou o mundo da animação a um nível mais alto não só de tecnologia mas principalemente de roteiros, a DreamWorks se contentou em fazer versões mais baratas e paralelas dos sucessos da rival, mostrando-se inovadora apenas com os filmes da série Shrek.

Agora a nova "moda" do cinema é a volta dos filmes em 3D, e Jeffrey Katzemberg tem dito ao mundo que este é o "futuro do cinema". Se "Monstros vs. Aliens" for este futuro, eu quero continuar com o bom e velho cinema do passado, obrigado. O animado é uma grande bobagem, cujo único atrativo é justamente a terceira dimensão. O 3D não fez falta alguma a filmes animados brilhantes da Pixar como "Os Incríveis", "Procurando Nemo", "Toy Story", etc, justamente porque estes não dependiam da tecnologia para serem bons. "Monstros vs. Alienígenass" parte dos velhos filmes "B" de ficção-científica para criar seu roteiro fraco. No dia em que Susan vai se casar com um homem do tempo da televisão ela é atingida por um meteoro que veio do espaço. Em plena cerimônia ela começa a crescer e se torna uma mulher gigante. O exército intervém e ela vai parar em uma base militar secreta, onde outras "aberrações" estão escondidas dos olhos da população em geral. Há o Dr. Barata, um ex-cientista que se transformou em um inseto (uma paródia de "A Mosca"); há um monstro azul sem cérebro que é apenas uma geléia disforme; há outro monstro que parece uma mistura de sapo com lagarto chamado de "Elo Perdido"; e há o "Insetossauro", uma espécie de bicho da seda gigantesco com o QI de uma ameba. Com excessão deste último, todos são muito falantes, apesar de não terem muito a dizer. Não importa. Este tipo de filme não está muito preocupado com a inteligência da platéia, mesmo que o público alvo tenha cinco anos de idade. Quando um robô alienígena invade o planeta, Susan e os outros monstros são convocados para lutar contra a ameaça... "monstros versus alienígenas", entendeu?

O verdadeiro teste para se saber se um desenho animado é bom é quando ele agrada também aos pais que levaram seus filhos ao cinema. Definitivamente não é o caso deste. A boa animação tem o poder de criar um universo, seja entre os brinquedos de uma criança ou mostrando o embate entre um príncipe encantado contra um dragão. Não há nada de ruim em uma animação feita apenas para divertir. O problema é quando um filme, seja lá qual for, é feito apenas para exibir algum tipo de técnica, sem nada de novo ou inteligente para a platéia. Disney entendia disso. John Lasseter entende disso. O próprio Katzemberg também entende, só precisa voltar a acreditar na inteligência da platéia.


quinta-feira, 2 de abril de 2009

MAURICE JARRE (1924-2009)

Descanse em paz.

Os três filmes de David Lean que deram a Maurice Jarre o Oscar de Melhor Trilha Sonora. Jarre musicou mais de 150 filmes, de épicos a filmes mais recentes como Sociedade dos Poetas Mortos e Ghost.








sábado, 28 de março de 2009

Watchmen

Sempre que se faz uma adaptação de um livro ou HQ para cinema há quem diga que o material original era melhor. Que a forma escrita tem mais possibilidades de descrever os estados de alma dos personagens ou clarificar partes da trama que a tela do cinema não consegue. Quando o material original é uma HQ, a transcrição fica teoricamente mais fácil, pois o suporte original já é visual, quase um storyboard pronto para ser filmado. Ainda assim, quando se trata de uma graphic novel extensa e profunda como "Watchmen" (escrita por Alan Moore e desenhada por David Gibbons) , a contraparte cinematográfica pode sair prejudicada. O debate tem sua razão de ser, embora não seja muito útil. Livro é livro e filme é filme. O melhor, talvez, seja se aproximar da forma cinematográfica sem ter conhecimento do material original. Foi meu caso em Watchmen. Sem ter lido os quadrinhos, pude ver o filme sem preconceitos e de um ponto de vista puramente cinematográfico. O resultado foi um filme extremamente bem feito, profundo e até perturbador. Uma história de super-heróis de adultos para adultos, com quase três horas de duração, o que pode explicar a recepção morna nas bilheterias.

Watchmen é passado em uma versão alternativa de 1985. Os Estados Unidos, como na "vida real", estão em plena Guerra Fria contra a União Soviética, mas com mudanças importantes. Vigilantes fantasiados existiam desde o começo do século e tiveram papel crucial em momentos históricos como a II Guerra Mundial, a administração Kennedy e, principalmente, na Guerra do Vietnam que, neste mundo paralelo, foi vencida pelos EUA. A "arma" principal dos americanos existe na forma de um musculoso homem azul chamado Dr. Manhattan (em referência ao Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica). Ele é o único super-herói com poderes reais, adquiridos durante um acidente com uma experiência nuclear na década de 1950. Quando o Dr. Manhattan interfere no Vietnam, como uma espécie de gigantesco "deus" que pulveriza o inimigo de forma fria e precisa, os vietnamitas se renderam. Mas, assim como a bomba atômica não garantiu a paz mundial, a existência do Dr. Manhattan (Billy Crudup) também não, e o mundo de 1985 está em vias de ser destruído por uma hecatombe nuclear. Os Vigilantes, declarados ilegais pelo presidente Nixon, estão assustados pelo assassinato do Comediante (Jeffrey Dean Morgan), um de seus principais membros. O enigmático Rorschach (Jackie Earle Haley) começa uma investigação que alerta os outros Watchmen, o "Coruja" (Patrick Wilson), Ozymandias (Matthew Goode) e Espectra (Malin Ackerman).

Lançada em 12 volumes entre os anos de 1986 e 1987, "Watchmen" foi uma das mais importantes graphic novels do gênero. Alan Moore partiu de influências como 1984, de George Orwell, e de toda uma mitologia pré-existente no mundo dos quadrinhos para criar um universo sombrio e profundo, em que os super-heróis também sofrem os problemas de todo ser humano de carne e osso. A adaptação cinematográfica levou longos anos para finalmente ver a luz do dia, passando por dezenas de diretores e roteiristas diferentes. Quando Zack Snyder lançou a fantástica adaptação de "300" para o cinema, seu nome foi escolhido para lidar com "Watchmen". O filme é um espetáculo não só visual mas sonoro. Uma seleção musical inspirada (coisa que os quadrinho não poderiam passar) dá nuances extras ao roteiro e é composta por canções como "The Times are A-Changing'", de Bob Dylan, "All Along the Watchtower", de Jimi Hendrix e "Hallelujah", de Leonard Coen. Questão de gosto pessoal, a escolha mais inspirada foi a da trilha de "Koyaanisqatsi", de Philip Glass, para as sequências passadas em Marte. A música "alienígena" de Glass se ajusta perfeitamente ao visual extra-terrestre do planeta vermelho, habitado apenas pela figura estilizada do Dr. Manhattan.

Mas seria Watchmen uma obra datada? Durante a sessão em que estive presente, testemunhei pelo menos três casais adolescentes abandonando o filme em diferentes momentos. Teria o público jovem repertório para acompanhar o que se passa na tela? Eles sabem quem foi Richard Nixon, ou mesmo quem ganhou a guerra do Vietnam? Darren Aronofski, um dos diretores cotados para dirigir o longa, era de opinião de que a trama deveria ser transportada para os tempos atuais e substituir o Vietnam pela guerra do Iraque. Seria, claro, um "sacrilégio" para os fãs da série original, mas talvez a frieza com que o filme foi recebido nas bilheterias possa ser explicada pela falta de identificação dos jovens de hoje com os temas do filme.


domingo, 22 de março de 2009

Madame Butterfly

Hoje pude conferir a exibição digital de Madame Butterfly no cinema. O evento é parte de uma nova tendência mundial, o uso das salas de cinema para exibir não apenas filmes "tradicionais", mas também shows musicais e óperas. Organizado no Brasil pela Moviemobz, uma série de óperas da Metropolitan Opera de Nora York será exibida em formato digital de alta definição. Nos Estados Unidos, estas projeções são transmitidas ao vivo e em alta definição de Nova Yorke para vários cinemas país afora. Em Campinas, os cines Topázio e Box Cinemas fazem parte do grupo que exibe as óperas do Metropolitan. Resta saber se a idéia vai vingar. Assisti à ópera no Box Cinemas, no Campinas Shopping, conhecido por ser um shopping "popular" e longe do centro da cidade. Um total de 17 pessoas (dos 120 lugares da sala) assistiu à projeção, na maioria pessoas da terceira idade, descendentes de japonês (sem dúvida pelo tema da ópera) ou então ligados ao mundo da música.

De fato, não é um programa popular. Com ingressos custando trinta reais e duração de três horas, imagino que a platéia frequentadora de multiplexes não seja muito interessada em ópera. De minha parte, que gosto de música clássica mas não sou realmente fã de óperas, estava interessado nos aspectos técnicos de projeção digital e curioso sobre como seria assistir à uma ópera no cinema. Posso dizer que foi uma experiência compensadora.

Madame Butterfly é a mais famosa ópera do italiano Giacomo Puccini (1858-1924). A trágica história de amor entre uma geixa japonesa e um oficial da marinha americana fascinou Puccini quando este a viu em Nova York e decidiu transformá-la em sua próxima ópera. O resultado é uma interessante mistura entre o melodrama da ópera italiana com a cultura japonesa (muito ligada à morte). De quebra, a ópera ainda toca no tema da colonização e exploração cultural americana sobre o fechado Japão tradicional. A versão apresentada no filme é a montagem produzida pelo cineasta Anthony Minghella (que faleceu em 2008) e coreografada por sua esposa, Carolyn Choa. Em um cenário simples mas muito bonito visualmente, Minghella utiliza biombos japoneses para montar ambientes e explora outras características da cultura japonesa, como as roupas coloridas, o modo ritualizado de se portar e recursos como a movimentação de bonecos por manipuladores vestidos de preto. A música de Puccini faz habilidoso uso do hino nacional americano e de temas tradicionais japoneses. Composta por três atos, no primeiro somos apresentados aos personagens do Tenente B.F. Pinkerton (interpretado por Marcello Giordani) e do cônsul americano Sharpless (Dwayne Croft). Eles estão em Nagazaki e Pinkerton alugou uma casa. Pinkerton vai se casar com uma jovem geixa chamada "Butterfly" (interpretada por Patricia Racette), mas ele diz ao cônsul que um dia vai se casar "de verdade" com uma americana. Butterfly abre mão da sua cultura e religião e é deserdada pela família. No segundo ato Pinkerton partiu já há três anos mas Butterfly ainda mantém a fidelidade e a esperança de que ele volte. Outros pretendentes tentam conquistá-la e o cônsul americano tenta fazê-la ver a verdade, mas Butterfly acredita na volta de Pinkerton. É no segundo ato que ela canta a ária mais conhecida e bela da ópera, "Un bel di vedremo". Também no segundo ato se revela que ela teve um filho com Pinkerton, que nesta montagem é "interpretado" por um boneco manipulado. O terceiro ato é o trágico final da ópera, quando Pinkerton volta com uma esposa americana, Butterfly lhe dá o filho e, em clássico final de ópera, se mata seguindo o ritual japonês.

A qualidade da imagem em alta definição é realmente impressionante, com cores espetaculares. Sobre assistir a uma ópera no cinema, há o problema da tradução de um meio para o outro. O uso do "close-up", por exemplo, é o oposto completo da experiência teatral, e em alguns momentos achei que a proximidade da câmera atrapalhava. Coisas que são aceitáveis em uma ópera ficam um pouco estranhas no cinema, como o elenco, por exemplo. Em um teatro talvez a platéia não se importe que uma mulher com mais de 30 anos interprete uma geixa japonesa de 15 anos, mas no cinema não. Assim como, de perto, fica estranho ver um italiano legítimo interpretando um tenente americano. Mas esta estranheza dura apenas os primeiros minutos, antes que você acabe "embarcando" na ópera



veja Patricia Racette cantando uma ária de Madame Butterfly

Gran Torino

Walt Kowalski é o típico americano tradicional. Veterano de guerra, durão, racista e incompreendido pelos filhos, ele vive sozinho em uma casa de Detroit. A esposa morreu recentemente e ele passa o dia sentado na varanda, tomando cerveja, "conversando" com o cachorro e reclamando da decadência da vizinhança. Ex-funcionário da Ford, ele guarda na garagem uma relíquia, um carro Gran Torino, 1972, que ele mesmo montou nos seus dias de linha de montagem. Na casa vizinha mora uma família de asiáticos do povo Hmong (originalmente da região do Laos e Vietnam). Eles também são tradicionais à sua maneira, e o filho mais novo, Thao (Ben Vang), está tendo problemas com uma gangue. Eles querem que ele se "inicie" no grupo roubando o Gran Torino de Kowalski. Thao falha na tarefa e ainda é quase morto por Kowalski que, armado de um rifle, embosca o rapaz dentro da garagem. Para se redimir do crime de Thao, a família Hmong oferece seus serviços para Kowalski, e uma relação que mistura repulsa e amizade se inicia.

O filme é dirigido e interpretado por Clint Eastwood, que já se tornou uma lenda viva. Há boatos de que este seja seu último filme como ator, o que seria uma pena. Clint faz de Kowalski uma caricatura de sua personagem cinematográfica mais conhecida, o policial durão "Dirty Harry". Mas Eastwood é muito mais esperto e "antenado"; os tempos mudaram, acabou a era Bush e é hora de se abrir para o mundo e aceitar suas diferenças. O modo como o velho Kowalski se aproxima lentamente da família de asiáticos é engraçado e tocante. Também é interessante o "assédio" que ele recebe do jovem padre da paróquia local, que havia prometido à esposa de Kowalski que o faria se confessar. Kowalski chama o rapaz de "um virgem de 27 anos educado demais e que não entende nada da vida e da morte". Veterano da Guerra da Coréia, Kowalski viu a morte de frente tanto nos companheiros que perdeu quanto nos jovens que teve que matar. "O pior não é o que você foi obrigado a fazer", diz ele ao padre, "mas o que você fez mesmo não sendo obrigado".

Trabalhando com atores em sua maioria amadores, Eastwood faz um filme de baixo orçamento e que se passa quase todo em apenas algumas ruas. Quase todos os americanos se mudaram da vizinhança de Kowalski e a região está tomada por imigrantes asiáticos ou comunidades negras. Ele salva a irmã de Thao, Sue (Ahney Her, muito bem no filme), de um grupo que quer atacá-la, em uma cena em que Eastwood, novamente, parodia "Dirty Harry", usando a mão como quem carrega uma Magnum 44. O filme se equilibra entre a comédia leve e o drama sério. Mais para o final as coisas vão ficando mais pesadas e o filme corre o risco de desabar, mas Eastwood leva o roteiro com firmeza até um final que, se não é muito verossímil, ao menos faz justiça ao personagem.



Trailer (atenção, o trailer revela muitas cenas do filme)

domingo, 8 de março de 2009

Quem quer ser um milionário?

O filme é sem dúvida um fenômeno. Feito na Índia, com dinheiro inglês e indiano, sem nenhum astro internacional e contando uma história simples e previsível, "Quem quer ser um Milionário?" venceu praticamente todos os prêmios de cinema a que concorreu. No último dia 22 de fevereiro, levou para casa oito Oscars, inclusive os de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado. É a consagração, no Ocidente, do cinema indiano, também chamado de "Bollywood", de onde sai a maior produção mundial de filmes. Para os brasileiros, o filme tem uma curiosidade: seu estilo de fotografia e edição é praticamente uma cópia do consagrado "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Há até uma cena de perseguição por entre as ruelas de uma favela em Mumbai que conta com a "marca registrada" de Cidade de Deus, uma galinha correndo. Muldialmente aceito pelo público e mesmo por grande parte da crítica, o filme é acusado por alguns de ser uma exploração da pobreza da Índia, um filme feito "para inglês ver", espetacularizando a miséria do país.

"Quem quer ser um milionário?" conta a fantástica história de Jamal Malik (vivido por vários atores, mas principalmente por Dev Patel), um rapaz que veio das favelas e que, no início do filme, está a uma pergunta de ganhar uma fortuna em um programa de televisão. A edição "nervosa" entrecorta cenas do programa com outras em que o rapaz está sendo torturado pela polícia: eles desconfiam que ele está trapaceando de alguma forma. Afinal, como um rapaz pobre e ignorante poderia ter chegado tão longe em um programa de perguntas e respostas? Sua história é contada em flashbacks que tentam explicar isso. O filme trata também do trio formado por Jamal, seu irmão mais velho Salim e a garota Latika, que é o amor da vida de Jamal. O cinema indiano é famoso por seus romances novelescos e seus filmes musicais. "Quem quer ser um milionário?" investe pesado na parte "açucarada" do romance, e por pouco os personagens não saem cantando e dançando. Mas o filme, ao menos no início, tem a pretensão de ser sério, e há certa verdade nas acusações de exploração da miséria indiana, principalmente nas cenas que mostram a infância de Jamal. Ele, o irmão e Latika caem nas mãos de um homem inescrupuloso que explora o trabalho infantil. Ele é tão cruel que chega a cegar certas crianças apenas para que ganhem mais esmolas. Jamal e Salim conseguem fugir de trem e acabam deixando Latika para trás, mas Jamal nunca se esquece dela. Dai para frente, "Quem quer ser um Milionário?" fica em um padrão que se repete: Jamal tenta achar Latika, a encontra, a perde novamente, e assim sucessivamente. Conforme os personagens vão crescendo, eles vão sendo substituídos por atores mais velhos. Dev Patel tem um rosto bastante expressivo mas, curiosamente, ele está sempre impassível nas cenas passadas no programa de televisão. Latika é interpretada pela bela Freida Pinto, e Salim por Madhur Kapoor.

Mas a maior personagem do filme é a própria Índia. Além das favelas, lá está também o famoso Taj Mahal, em uma sequência que me pareceu bastante "turística", provavelmente colocada ali para agradar ao gosto estrangeiro. O filme é dirigido por Danny Boyle, que tem uma carreira irregular. Ele dirigiu filmes tão diferentes quanto o cult "Trainspotting", a ficção científica 'Sunshine" e agora este "Quem quer ser um Milionário?". Como disse no início, é um filme simples, filmado em tons quentes e editado com a velocidade de um videoclip. Provavelmente seu lado "exótico" acabou conquistando as platéias européias e americanas mais do que por aqui. Agora que se tornou um fenômeno, pode-se dizer que foi um golpe calculado para agradar ao cinema indiano e selar a aproximação com o americano, que vem perdendo cada vez mais espectadores ano a ano. Embora haja certa verdade nisso, creio que o fator "sorte" (ou "destino", como prega o filme) tenha tido grande participação no sucesso do filme. A sequência final assume o lado "Bollywood" e exibe um grande número de música e dança.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Man on wire

No final dos anos 60, um jovem francês chamado Philippe Petit estava na recepção do dentista, quando viu o desenho de duas torres no jornal: era a concepção artística do que viriam a ser as Torres Gêmeas do World Trade Center. Um idéia "maluca" surgiu na cabeça do francês, que desenhou uma linha entre as torres. Seis anos depois, ele atravessaria o vão de 450 metros de altura entre as torres a pé, equilibrando-se sobre um cabo de aço. Preso pela polícia de Nova York, ele foi levado para uma avaliação psiquiátrica e questionado sobre porquê ele havia feito aquilo. Em seu boletim de ocorrência, havia simplesmente as palavras: MAN ON WIRE. Esta é a extraordinária história do documentário de James March, vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Longa Metragem no último domingo.

March usa de filmagens, fotos e documentos da época que, misturados a cenas reconstituídas por atores, constroem um filme de muito suspense, drama e comédia. O próprio Philippe Petit é um dos narradores, e o fato de sabermos que ele sobreviveu não tira o suspense do filme. Philippe, a namorada e um pequeno grupo de amigos organizou o ato como se fosse um assalto a banco. Ou, nos tempos de hoje, como um ataque terrorista. E é notável o fato de que o ataque de 11 de setembro de 2001 não seja citado nenhuma vez durante o filme. Pelo contrário, vemos as Torres Gêmeas serem construídas diante de nossos olhos, ao mesmo tempo em que Petit se prepara para seu "assalto". É um crime, claro, mas é em nome da arte, do espetáculo. Ou, talvez, da obsessão de um homem que nasceu para "subir em coisas". O documentário o mostra atravessando o vão entre as torres da Catedral de Notre Dame, em Paris, e em uma ponte na Austrália. A preparação para o World Trade Center, obviamente, era muito mais complicada. Eles construiram modelos em escala do topo dos prédios e Petit foi pessoalmente várias vezes para Nova York estudar a movimentação dos operários e dos poucos inquilinos do prédio ainda em construção. Sua equipe acabou contando com ajuda interna de um advogado que tinha um escritório no prédio, e providenciou identidades falsas para eles. Em outro momento, Petit e seus colegas fingiram ser jornalistas franceses que precisavam tirar fotos e entrevistar os operários no teto do prédio. Após anos de planejamento, identidades falsas e quase uma tonelada de equipamento preparado, a equipe foi para o prédio no dia 6 de agosto de 1974. Uma dupla subiu a Torre Norte enquanto a outra tomou a Torre Sul. É muito engraçada a descrição deles da noite passada no topo de Nova York, escondendo-se de guardas de segurança e passando finalmente o cabo entre as torres.

Em 7 de agosto de 1974, às sete e meia da manhã, Petit começou a travessia. Ele não só atravessou as duas torres uma vez, mas oito vezes, enquanto a polícia o aguardava dos dois lados para prendê-lo. Petit dançou, pulou e até deitou-se sobre o fio, a 400 metros de altitude sobre a cidade de Nova York. Isso depois de passar a noite em claro, escondido sob uma lona, e de puxar um cabo que pesava mais de duzentos quilos. Ele estava com 25 anos.
Além de fotos e filmes, o documentário conta com o depoimento dos cúmplices de Petit. Particularmente emocionantes são os depoimentos de sua ex-namorada, contando como ele a conquistou e como a vida dela foi dedicada a ele a partir de então, e de Jean-Louis Blondeau, o amigo que tentava manter as idéias malucas de Petit na parte prática. Interessante também ver como a vida de todos mudou depois do acontecido. A travessia (ou as travessias) entre as Torres Gêmeas mudou a vida de Petit e mesmo seu relacionamento com os amigos, que se separaram depois. O documentário é uma co-produção da BBC com a Discovery e tem previsão de lançamento no Brasil. Quanto ao "porquê" da travessia, Philippe Petit simplesmente disse à polícia de Nova York: "Não há um porquê". Condenado pelo juíz, sua sentença foi se apresentar para as crianças de Nova York.

ps: Quando o documentário ganhou o Oscar dia 22 de fevereiro último, Petit, no palco, equilibrou a estátua no queixo.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Milk - A Voz da Igualdade

Indicado ao Oscar de Melhor Filme e vencedor de Melhor Ator (uma surpresa, o favorito era Mickey Rourke por "O Lutador")) para Sean Penn, "Milk" é uma biografia bem feita dirigida por Gus Van Sant. Harvey Milk se mudou com o namorado para São Francisco no início dos anos 70. A cidade era mais acolhedora aos homossexuais, particularmente em um bairro chamado Castro, para onde chegavam gays de todo o país. Milk abriu uma loja de fotografia na Rua Castro e, aos poucos, foi crescendo politicamente. Gays andavam pelo bairro de forma mais livre que no resto do país, embora ainda fossem vítimas de violência por parte da polícia. Harvey Milk se candidatou por anos seguidos ao conselho da cidade, mas só conseguiu ser eleito quando as leis de voto distrital foram aprovadas. Em seu breve mandato conseguiu aprovar uma lei que impedia que homossexuais fossem demitidos sem justa causa de seus empregos e lutou bravamente contra uma cantora chamada Anita Bryant, que usava a fama para fazer discursos anti-homossexuais. Com a ajuda de um Senador, Bryant tentou aprovar uma lei chamada Proposição 6, que propunha que todos os professores homossexuais, e pessoas ligadas a eles, fossem demitidos. A tese do senador era que já que homossexuais não podem reproduzir eles usariam da posição de professor para "recrutar" novos gays. Não é preciso ser pró ou anti gay para perceber que não havia muita lógica por trás da idéia.

O filme usa muitas imagens de arquivo para recriar a São Francisco dos anos 70 e é bastante genuíno. Gus Van Sant, que é gay assumido, está à vontade com o material e faz o filme de forma sincera, sem endeusar Milk ou demonizar seus adversários. O elenco, encabeçado por um Sean Penn extraordinário, conta com Emile Hirsch, Diego Luna, James Franco e Josh Brolin, também indicado ao Oscar. Ele interpreta o personagem mais enigmático do filme, o conselheiro de São Francisco, Dan White. A relação entre Milk e White é complicada. Milk é convidado para o batismo do filho de White, uma cerimônia católica, e é o único conselheiro a aparecer. Os colegas de Milk pedem para que ele tenha cuidado com White, mas Milk acha que ele pode ser um gay enrustido e estar do lado deles. A História provou que não foi bem assim. O verdadeiro Dan White acabaria assassinando tanto Milk como o prefeito de São Francisco.

Minha única reclamação com a parte técnica é o formato em que o filme foi feito. "Milk" é extremamente televisivo, com a imagem "quadrada" ao invés do widescreen da tela do cinema (ou ao menos foi assim na sala em que assisti). No resto é uma boa produção, com música de Danny Elfman e fotografia de Harry Savides.



domingo, 22 de fevereiro de 2009

O vencedores do Oscar, ao vivo

Os vencedores do Oscar, ao vivo:

Hugh Jackman é o apresentador da noite. Ele acabou de fazer uma apresentação musical que lembrou os tempos de Billy Crystal, com referências aos filmes indicados.

Vou atualizando o blog conforme os prêmios forem sendo apresentados.

Melhor Atriz Coadjuvante:
Penelope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona

Melhor Roteiro Original:
Dustin Lance Black, Milk - A Voz da Igualdade

Melhor Roteiro Adaptado:
Simon Beaufoy, Quem quer ser um milionário?

Melhor Animação:
Wall-E, Andrew Stanton, PIXAR

Melhor Curta de Animação:
La Maison en Petits Cubes, de Kunio Kato

Melhor Direção de Arte:
O Curioso Caso de Benjamim Button

Melhor Figurino:
A Duquesa

Melhor Maquiagem:
O Curioso Caso de Benjamim Button

Melhor Direção de Fotografia:
Anthony Dod Mantle, por Quem quer ser um milionário?

Melhor Curta Metragem:
Spielzeugland (Toyland), de Jochen Freydank

Melhor Ator Coadjuvante:
Heath Ledger, por Batman, O Cavaleiro das Trevas

Melhor Documentário de Longa Metragem:
Man on Wire, de James March e Simon Chinn

Melhor Documentário de Curta Metragem:
Smile Pinki, de Megan Mylan

Melhores Efeitos Especiais:
O Curioso Caso de Benjamim Button

Melhor Edição de Som:
Batman, O Cavaleiro das Trevas

Melhor Mixagem de Som:
Quem quer ser um milionário?

Melhor Edição (Montagem)
Chris Dickens, Quem quer ser um milionário?

Prêmio Humanitário Especial:
Jerry Lewis

Melhor Trilha Sonora:
A.R. Rahman, Quem quer ser um milionário?

Melhor Canção Original:
Quem quer ser um milionário?

Melhor Filme Estrangeiro:
Departures, de Yojiro Takita (Japão)

Melhor Diretor:
Danny Boyle, por Quem quer ser um milionário

Melhor Atriz
Kate Winslet, por O Leitor

Melhor Ator
Sean Penn, por Milk - A voz da igualdade

Melhor Filme:
Quem quer ser um milionário?