terça-feira, 25 de outubro de 2022

Argentina, 1985 (2022)

Argentina, 1985 (2022). Dir: Santiago Mitre. Amazon Prime Video. Filme argentino novo com Ricardo Darín? Pois é, ele está de volta. Darín interpreta um promotor chamado Julio César Strassera que, em 1985, atuou em um dos julgamentos mais importantes da história argentina. Finda a ditadura militar, o país passou a ser governado por Raúl Alfonsín em 1983; dois anos depois, nove comandantes militares foram acusados de violação dos direitos humanos, assassinato, sequestro e tortura de centenas de pessoas durante a ditadura.

Darín, que está com 65 anos, foi envelhecido para o papel e faz um homem que, a princípio, não acreditava que o julgamento pudesse dar em alguma coisa. O filme faz uma bela recriação de época, mostrando Buenos Aires nos anos 1980 com ótima fotografia de Javier Julia. O roteiro humaniza a figura do promotor mostrando cenas da sua vida familiar; preocupado com o namoro da filha adolescente, Strassera pede ao filho mais novo (um competente Santiago Armas Estevarena) que siga a irmã e relate seus passos. Essas cenas bem humoradas contrastam com o peso das cenas de tribunal; o filme recria depoimentos pesados de pessoas que passaram por tortura ou tiveram familiares sequestrados e mortos. Promotor e equipe são frequentemente ameaçados por telefonemas anônimos ou por "recados" mais claros, como uma bala de revolver supostamente enviada pela Marinha ao promotor.

Darín está ótimo, como sempre, e brilha tanto nas cenas familiares como na cena em que ele lê a acusação aos militares. "Argentina, 1985" foi escolhido pelo país como o representante para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Falando em Oscar e em História argentina, não deixa de ver (na Netflix) "A História Oficial" (1985), belo filme sobre desaparecidos políticos que ganhou o Oscar de filme estrangeiro. "Argentina, 1985" está disponível na Amazon Prime Video.

A Casa do Dragão (House of the Dragon, 2022)

 
A Casa do Dragão (House of the Dragon, 2022). HBO Max. Eis que, depois de um final considerado desastroso, "Game of Thrones" está de volta. Não é exatamente "Game of Thrones", mas quase a mesma coisa; lá está a bela abertura com a música de Ramin Djawadi, os cenários medievais, intrigas palacianas, cenas de nudez e sexo, mortes violentas e uns dragões voando. Criada por

Ryan J. Condal e George R.R. Martin, "A Casa do Dragão" tem dez episódios e se saiu bem melhor do que eu esperava. A trama se passa uns duzentos anos antes do nascimento de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), a "mãe de dragões" da série anterior.

Os efeitos especiais são bastante bons, mas fiquei com a impressão de que a série é mais "light" em termos de orçamento. Grande parte dos episódios se passa dentro dos castelos e o foco me pareceu mais nas pessoas (apesar dos dragões) do que em grandes paisagens ou milhares de soldados feitos em computação gráfica. O elenco é ótimo. Há alguns pulos temporais e vários personagens são interpretados por atores e atrizes diferentes, conforme a idade. No elenco fixo, Paddy Considine faz um Rei Viserys muito bom. Quem rouba todas as cenas, no entando, é Matt Smith como o príncipe Daemon Targaryen; ele, que já foi o Doutor em "Doctor Who" e o Príncipe Philip em "The Crown", faz aqui um personagem totalmente sem escrúpulos e que vive conforme as próprias regras.

A série é, também, mais feminina, particularmente focada no enorme fardo (e beleza) da maternidade. Desde o primeiro episódio já vemos uma cena pesada de parto seguida de morte, tema que se repete por toda a temporada. A princesa Rhaenyra Targaryen é interpretada por Milly Alcock, quando criança e por Emma D´Arcy quando adulta. As duas são ótimas (Alcock, particularmente, é uma revelação). Já a Rainha Alicent Hightower é interpretada por Emily Carey quando criança e por Olivia Cooke quando adulta. Às vezes fica meio confuso entender quem é filho, tio, tia ou sobrinho de quem; ainda mais com nomes parecidos e com a mania desse povo de transar/casar com parentes (bem) próximos.

Peter Dinklage faz falta? Sem dúvida. A trama, às vezes, parece uma novela de luxo? Sim. Mas é tudo bem feito e, por enquanto, vale a pena acompanhar. A segunda temporada, pelo jeito, só em 2024. Disponível na HBO Max.  

sábado, 22 de outubro de 2022

O Desconhecido (The Stranger, 2022)

 
O Desconhecido (The Stranger, 2022). Dir: Thomas M. Wright. Netflix. Bom filme de suspense australiano lançado na Netflix esta semana, "O Desconhecido" não está interessado em pegar o espectador pela mão e explicar tudo. Pelo contrário, leva um bom tempo para você entender o que está acontecendo, e porquê. Baseado em um crime real ocorrido na Austrália em 2003, o filme tem um quê de David Fincher, um clima pesado, bastante lento e introspectivo.

Fica até difícil fazer uma sinopse ou evitar spoilers, mas a trama envolve um homem chamado Henry (Sean Harris, excelente) que entra para um grupo criminoso ao voltar para o oeste da Austrália. Ele conhece Mark (Joel Edgerton, igualmente excelente), que o apresenta a seus superiores e fica responsável por ele. Há várias cenas em que Henry é levado de um lado para outro dentro de um carro, conhece pessoas, recebe envelopes e (assim como o espectador) tenta entender o que está acontecendo. Aos poucos percebemos que as coisas não são como parecem, e a trama tem a ver com o desaparecimento e morte de um garoto ocorrida oito anos antes.
Imagino que este tipo de crime seja raro na Austrália, porque a escala da operação policial é enorme. Leva um bom tempo para você entender quem é quem e como eles planejam revelar o culpado. Tudo isso, porém, acaba sendo secundário em um filme mais interessado em desenvolver um angustiante clima de suspense através das boas interpretações, fotografia e trilha sonora. Joel Edgerton, quase monossilábico, lida mal com a pressão do trabalho e tem pesadelos frequentes com o suposto assassino. O fato de que ele tem que cuidar de um filho pequeno alguns dias da semana só aumenta sua angústia.

Não espere um filme policial com perseguições e tiroteios. "O Desconhecido" está mais para "Mindhunter" e "Zodíaco" do que para "Resgate" (filme de ação com Chris Hemsworth). Tá na Netflix.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (The Lord of the Rings: The Rings of Power, 2022)

 
O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (The Lord of the Rings: The Rings of Power, 2022). Amazon Prime Video. Já havia comentado sobre esta série no Facebook, elogiando o belo visual e a escala gigante do projeto. Isso ainda é verdade mas, confesso, não foi fácil chegar ao final dos longos oito episódios desta primeira temporada. "Os Anéis do Poder" é supostamente a série de TV mais cara de todos os tempos, com um orçamento próximo de 1 bilhão de dólares. Ela foi claramente pensada para ser o "novo Game of Thrones", série da HBO que foi um sucesso gigantesco até um final atrapalhado que deixou os fãs chateados. Curioso que a mesma HBO tenha lançado, praticamente ao mesmo tempo, uma série derivada de "Game of Thrones", "A Casa do Dragão", que é mais popular que a série dos "Anéis" da Amazon.


Afinal, "Os Anéis do Poder" é boa ou ruim? Diria que não é nem uma coisa nem outra; o que é uma pena. Minha experiência, ao ver a série, foi um misto de admiração pela bela direção de arte, os figurinos, a fotografia cinematográfica e o "jeitão" de cinema. Por outro lado, confesso que nunca consegui chegar ao final de um episódio começado tarde da noite... eu dormia mesmo, rs. Terminados os 8 episódios, não consigo me lembrar de nada que tenha realmente me marcado, ou de algum personagem que me despertou muita curiosidade. Os vários "núcleos" de personagens não são muito bem amarrados. Meu favorito, talvez, seja o "núcleo" dos anões em Khazad-dûm, e a relação entre Durin (Owain Arthur) e Elrond (Robert Aramayo).

Já a Galadriel interpretada por Morfydd Clark está longe da nobreza de Cate Blanchett, que interpretou a mesma personagem nos filmes de Peter Jackson. Clark é bonita, mas a personagem é muito mal escrita; para uma elfa com séculos de vida, Galadriel se comporta como uma criança sem paciência em diversos momentos da trama. Ela está em pé de guerra com todos à sua volta, o tempo todo, e o roteiro frequentemente derrapa (ou enrola) quando tem que lidar com ela. Há um núcleo "Hobbit" (sim, sei que não são hobbits) que é mais interessante. Gostei da personagem de Nori (Markella Kavenagh), uma "pé-peludo" que encontra um personagem misterioso na forma de um gigante que (literalmente) caiu dos céus (interpretado por Daniel Weyman).

Talvez a série fosse melhor se não se levasse tão a sério; tudo é muito lento e "pomposo". Diversos episódios têm mais de uma hora de duração. Os personagens não têm diálogos uns com os outros, mas sim longos discursos acompanhados por uma música melosa. Cansa. A Amazon já está produzindo a segunda temporada e li que os criadores planejam fazer cinco temporadas no total. Vamos ver se eles (e o público) têm fôlego para isso. Disponível na Amazon Prime Video.

domingo, 16 de outubro de 2022

The Old Man (2022)

 
The Old Man (2022). Criada por Robert Levine e Jonathan E. Steinberg. Star+. Boa série de espionagem que tem dois ótimos atores veteranos, Jeff Bridges e John Lithgow. Bridges passou por um susto na vida pessoal recentemente; primeiro foi diagnosticado com um linfoma. Durante a quimioterapia, contraiu Covid e quase morreu da doença. A pandemia e o câncer de Bridges pararam a produção da série duas vezes e é possível perceber algumas mudanças físicas nos atores durante o passar dos capítulos.


A série, bem escrita e interpretada, trata da história complicada de um ex-agente da CIA (Jeff Bridges) que é uma espécie de Jason Bourne na terceira idade. Depois de se envolver na guerra entre os soviéticos e afegãos nos anos 1980, ele "desapareceu" por trinta anos, se escondendo em uma cidade pequena dos EUA. Só que alguém quer fazer uma "limpeza de arquivo" e manda um assassino atrás dele. Começa então um jogo de gato e rato entre a CIA, o FBI e o personagem de Bridges, que destrói os assassinos enviados para matá-lo em cenas bastante violentas de luta corpo a corpo.

John Lithgow interpreta Harold Harper, um diretor da CIA que era o responsável por Bridges no Afeganistão, nos anos 1980. Ele tem uma relação de amor e ódio com o personagem de Bridges e você nunca sabe se ele está tentando matá-lo ou salvá-lo (às vezes, os dois). Cenas em flashbacks mostram Bridges novo no Afeganistão (interpretado por Bill Heck, que é parecido com Jeff Bridges quando jovem), quando se envolve com uma mulher misteriosa (Leem Lubany). Há também a personagem de uma filha que, por muito tempo, você só conhece como uma voz pelo telefone. Os roteiros são bem escritos e os episódios são como filmes de uma hora de duração. Há uma paranoia constante no ar e você nunca sabe quem pode estar traindo quem ou porquê. A atriz Amy Brenneman (que fazia a companheira de De Niro em "Fogo contra Fogo", de Michael Mann) também está no elenco como uma mulher "comum" que é jogada no meio da confusão (suas ações e motivações são as mais difíceis de acreditar).

O final deixa aberta a porta para uma segunda temporada. A série é um pouco confusa às vezes, mas vale a pena pelas boas interpretações e por ver Jeff Bridges de volta. Disponível na Star+. 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Apollo 11 (2019)

Apollo 11 (2019). Dir: Todd Douglas Miller. Netflix. Não sei se este documentário chegou agora na Netflix, mas eu o achei meio sem querer e é muito, muito bom. Feito em 2019 para comemorar os 50 anos do pouso da Apollo 11 na Lua, o documentário apresenta imagens restauradas da época com qualidade belíssima, misturando formatos como 35mm, 16mm, imagens de TV e até imagens inéditas filmadas em 70mm. Há um realismo impressionante nas imagens e a edição (que ganhou um Emmy) te transporta para o final dos anos 1960, intercalando imagens do centro de controle da NASA com belas cenas de milhares de pessoas aguardando o lançamento em praias e varandas da Flórida.


Outra coisa que ajuda no realismo é o fato de que não há uma narração atual ou entrevistas feitas depois do evento; a não ser por alguns gráficos (simples) que explicam as várias etapas da missão, tudo o que se vê e escuta na tela são da época. Os produtores tiveram que escolher entre milhares de horas de imagens e gravações de áudio para recriar os eventos de julho de 1969. A única coisa de "fora" é a boa trilha sonora eletrônica que acompanha as imagens, composta por Matt Morton.

O resultado é um belo filme com enxutos 93 minutos que sabe que não precisa inventar muito para impressionar o espectador; imagens e sons da época falam por si. Do impressionante transporte do colossal foguete Saturno V à base de lançamento até a beleza da manobra de acoplamento do módulo lunar com o de comando na volta da Lua, "Apollo 11" mostra o gigantesco feito técnico que levou três seres humanos de um pântano da Flórida até a superfície lunar. É também um filme bastante analógico, o que reflete a tecnologia da época; é impressionante ver aquelas centenas de técnicos lidando com réguas de cálculo e planilhas em papel enquanto, a 300 mil quilômetros de distância e a 40 mil km/h, três astronautas sobreviviam dentro de uma pequena nave de lata. Muito bom. Tá na Netflix.

sábado, 8 de outubro de 2022

A Queda (Fall, 2022)

A Queda (Fall, 2022). Dir: Scott Mann. Bom filme de suspense com uma premissa simples. Depois de perder o marido em uma escalada, Becky (Grace Caroline Currey) decide subir em uma das torres de comunicação mais altas do mundo. A torre tem 600 metros de altura, fica no meio do deserto e está abandonada há anos. Becky é acompanhada pela melhor amiga, Hunter (Virginia Gardner), uma Youtuber em busca de adrenalina que fica gravando a aventura com seu celular.


A trama vira um filme de sobrevivência de roer as unhas quando as duas amigas se veem presas no alto da torre, sem conseguir descer, sem comida e com pouca água. É claramente um filme de baixo orçamento, mas bem filmado e com várias sequências de efeitos especiais invisíveis. As duas atrizes são fraquinhas e o único conhecido do elenco é Jeffrey Dean Morgan (de The Walking Dead), que aparece rapidinho como o pai de Becky.

Mas este não é um filme de interpretações. É um bom exercício de suspense bem conduzido pela direção, fotografia e edição. O roteiro arruma novos modos de complicar a vida das garotas, seja por problemas com o sinal do celular, tempestades ou abutres que rondam o topo da torre. Simples e eficaz. Nos cinemas.

Bosch: Legacy (2022)

Bosch: Legacy (2022). Amazon Prime Video. "Bosch" é uma boa (e pouco falada) série policial da Amazon. Teve sete temporadas entre 2014 e 2021. Estava ficando "órfão" da série quando vi que lançaram "Bosch: Legacy", que é basicamente uma oitava temporada de "Bosch", com elenco reduzido e várias mudanças.


SPOILERS DE BOSCH SPOILERS DE BOSCH SPOILERS DE BOSCH

A nova série foca na carreira de Harry Bosch pós polícia de Los Angeles. Trabalhando agora como detetive particular, Bosch é basicamente o mesmo cara; a nova posição, porém, traz vantagens e desvantagens. Como detetive, ele não tem mais o respaldo e auxílio da Polícia de Los Angeles, então está mais limitado; por outro lado, o fato de não ser mais policial o deixa mais livre para atitudes "questionáveis".

São dez episódios com praticamente a mesma equipe de criação/produção. O autor Michael Connelly, a produção de Eric Overmeyer e vários nomes conhecidos aparecem nos créditos da nova abertura da série (saudade da trilha da antiga, rs). Além de Bosch, voltam ao elenco os personagens da filha dele, Maddie (Madison Lintz), que agora também é policial, e da advogada Honey Chandler (Mimi Rogers). Aqui e ali aparecem algumas figuras conhecidas (não vou estragar as surpresas). Os roteiros são bons, mas confesso que sinto falta dos outros personagens e cenários. Tudo é "menor" nesta continuação/spin-off. Até a icônica casa em que Bosch morava (usada em "Fogo contra Fogo", de Michael Mann) acabou saindo de cena. As várias tramas lidam com um milionário que deseja encontrar um herdeiro, um tiroteio da polícia que termina mal, o desejo de justiça/vingança de Chandler contra o homem que tentou matá-la na outra temporada e a história de um estuprador que está atacando uma vizinhança.

A temporada termina com várias pontas abertas, o que significa que vem uma segunda por aí. "Legacy" não tem a mesma qualidade do velho "Bosch", mas serve para matar a saudade. Disponível na Amazon Prime Video.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Blonde (2022)

 
Blonde (2022). Dir: Andrew Dominik. Netflix. Curioso que 2022 tenha visto o lançamento das cinebiografias de dois ícones da cultura pop americana: Elvis Presley e Marilyn Monroe. São filmes bastante diferentes e bastante iguais; os dois são bem longos, quase três horas de duração. São também muito estilizados... e bastante exagerados.

"Blonde" é baseado em um livro de Joyce Carol Oates que é descrito como uma "biografia de ficção". Ou seja, não se deve ler o livro (ou ver o filme) esperando uma reportagem jornalística. O que se vê nas telas é uma história baseada, em linhas gerais, na vida e morte de Marilyn Monroe, mas não se apegue a detalhes. É um filme visualmente belo e extremamente difícil. Andrew Dominik, o diretor, fez o belíssimo "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", com Brad Pitt, que tinha uma das mais belas fotografias do cinema. "Blonde" é igualmente belíssimo; o diretor usa e abusa de janelas com proporção diferente (tela cheia, tela quadrada, cinemascope, etc) e diversos tipos de cores e texturas. A produção também recriou fielmente enquadramentos de ensaios fotográficos, penteados e figurinos icônicos de Monroe, uma das mulheres mais fotografadas da história, e você é transportado para os anos 1930, durante a infância de Norma Jeane, e depois para os 1950 e 1960.

O problema é que o filme pega (bastante) pesado com a vida e morte de Norma Jeane/Marilyn Monroe. Ana de Armas está excelente no papel e magnética na tela (vem aí uma provável indicação ao Oscar). Só que garota é mostrada como se fosse um "pedaço de carne" (o termo é até usado no roteiro). O filme começa com Norma criança, (mal) criada por uma mãe solteira abusiva, e não lhe dá trégua por quase três horas de duração; acompanhamos estupros, casamentos abusivos, divórcios, abortos e todo tipo de humilhação. Tudo isso acompanhado por uma trilha sonora viajante de Nick Cave e Warren Ellis. É massacrante.

Confesso que precisei de duas sessões para ver o filme inteiro. Voltando à comparação com "Elvis", ao menos naquele filme dá para curtir as músicas do "rei" e ver algumas recriações de shows, etc. Em "Blonde" são pouquíssimas as sequências em que o espectador tem um "respiro" (há algumas passagens idílicas de Marilyn com o dramaturgo Arthur Miller, interpretado por Adrien Brody, mas logo o preto-e-branco retorna e, com ele, a depressão, as drogas, os surtos, etc).

E, sim, há uma parte do filme dedicada ao suposto "romance" entre Marilyn e John Kennedy, mas é a sequência mais bizarra deste filme, o que é dizer muito (e quando a edição comparou a ereção do presidente com imagens de foguetes na TV eu joguei a toalha). Difícil, veja por sua conta e risco. Tá na Netflix. 

Lou (2022)

 
Lou (2022). Dir: Anna Foerster. Netflix. Em um (raro) bom filme de suspense e ação produzido pela Netflix. Allison Janney (The West Wing, Eu Tônia) é uma ex agente da CIA que está escondida em uma ilha isolada na costa dos EUA (embora, vamos combinar, se ela está se escondendo, está fazendo um péssimo trabalho; todos na cidadezinha próxima a conhecem pelo nome). Estamos nos anos 1980, como mostram imagens do presidente Reagan na TV e pela trilha sonora composta por sucessos como "Africa", do Toto.

Uma vizinha, Hannah (Jurnee Smollett), tem a filha pequena sequestrada por um homem misterioso, Phillip (Logan Marshall-Green, que é um CLONE de Tom Hardy) e é então que Lou se revela como uma especialista em armas e em seguir rastros em uma floresta encharcada. Lou e Hannah partem em busca da menina debaixo de uma tempestade e, no caminho, as peças do quebra cabeça vão se juntando para revelar quem é quem, de verdade.

Janney, que geralmente interpreta personagens cômicas ou sarcásticas, está bem em um filme de ação. Ela carrega marcas físicas e psicológicas no corpo das coisas que teve que fazer em décadas na CIA. Hannah também carrega marcas pelo corpo, resultado de um relacionamento tóxico. É um filme de ação de um ponto de vista feminino, o que inclui discussões sobre maternidade e relacionamentos abusivos. Tá na Netflix. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Late Night (2019)

Late Night (2019). Dir: Nisha Ganatra. Netflix. Comédia leve que mais parece o piloto de alguma série não produzida pela Netflix. Ela é escrita, produzida e interpretada pela comediante Mindy Kaling, que criou e escreveu várias séries de TV e faz aqui sua estreia em longa metragens. Ela interpreta Molly, uma mulher que trabalhava em uma empresa química mas acaba contratada como roteirista de um "talk show" em Nova York (nada muito realista). O programa está no ar há muitos anos e é comandado por Katherine Newbury (a grande Emma Thompson), mas os números do ibope não estão bons. Os executivos da emissora querem trocá-la por um comediante jovem e com um humor mais "moderno". Claro que a roteirista novata (apesar de fazer uma coisa errada atrás da outra) vai ser a salvação da apresentadora veterana.

Como disse, é um filme bem leve. Há referências a temas sérios como sexismo no local de trabalho, a superficialidade da mídia e outros assuntos relevantes, mas o roteiro nunca vai muito a fundo em nenhum deles. As cenas de stand-up também não são muito engraçadas, o que é um problema em um filme sobre comediantes. Emma Thompson está competente, como sempre; sua personagem uma hora é um monstro como a Meryl Streep de "O Diabo Veste Prada" (clara influência aqui), para em seguida agir como uma pessoa humana e compreensiva. Vale como comédia leve. Tá na Netflix.

sábado, 17 de setembro de 2022

Boa noite, mamãe! (Goodnight Mommy, 2022)

Boa noite, mamãe! (Goodnight Mommy, 2022). Dir: Matt Sobel. Amazon Prime Video. Filme de suspense que é a versão americana de uma produção austríaca de 2014 (que eu não vi). Não posso comparar esta versão com a original, mas este filme estrelado por Naomi Watts é apenas razoável.

Dois garotos gêmeos, Elias e Lukas (Cameron Crovetti e Nicholas Crovetti) são levados pelo pai até uma casa de campo isolada (daquele tipo que só existe em filmes de terror). Lá eles se encontram com a mãe (Naomi Watss), que não viam há algum tempo. A mãe está com a cabeça coberta por bandagens; só os olhos, nariz e a boca podem ser vistos. Há um clima tenso entre a mãe e os garotos; ela estabelece regras (não brincar em um celeiro próximo, manter as janelas fechadas) e é fria com Elias quando este lhe dá um desenho que fez. Os garotos, por sua vez, começam a achar que aquela mulher, com o rosto coberto, talvez não seja realmente a mãe deles.

Como disse, não vi o filme original, mas algo me diz que a versão europeia é mais interessante. O clima inicial de suspense acaba substituído por uma série de situações bizarras em que não sabemos o que é real ou imaginação das crianças. A trama esconde um segredo que, sinceramente, não é muito difícil de descobrir. Naomi Watss, que andava meio subida das telas, passa grande parte do filme com o rosto coberto. Não é um filme ruim, mas também não é grande coisa (fiquei com vontade de ver o original). Disponível na Amazon Prime Video.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Não! Não Olhe! (Nope, 2022)

Não! Não Olhe! (Nope, 2022). Dir: Jordan Peele. "Nope" é o terceiro (e estranho) filme de Jordan Peele (dos também estranhos e fascinantes "Corra!" e "Nós"). Difícil de classificar, "Nope" é oficialmente ficção-científica com toques de terror; é também uma comédia de humor negro que homenageia/parodia filmes como "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (e "Guerra dos Mundos"), de Steven Spielberg, ou mesmo "Sinais", de Shyamalan.


Peele, desde o começo, brinca com a própria história do cinema, mostrando a famosa sequência de fotos de um cavalo cavalgando feita por Eadweard Muybridge em 1877; pois bem, quase 150 anos depois, "Nope" trata de uma família especializada em treinar cavalos para filmes e séries de TV. Daniel Kaluuya é OJ Haywood, um cara de poucas palavras que, com a irmã (Keke Palmer), tenta manter os cavalos em um rancho na Califórnia. Só que coisas bem estranhas começam a acontecer na região. Objetos começam a cair do céu. Formas estranhas são vistas atrás das nuvens. Cavalos (e pessoas) desaparecem em pleno ar. Auxiliados por um rapaz de uma loja de materiais elétricos (Brandon Perea), eles instalam várias câmeras por todo rancho, tentando gravar a "coisa" que está por trás de tudo isso.

Eu (como sempre) tentei ficar o mais longe possível de trailers e detalhes da produção, embora tivesse uma vaga ideia de se tratar de algo extraterrestre (assisti a um trailer agora, depois do filme, e mostram simplesmente TUDO). Há, como disse, grandes influências de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", principalmente na deslumbrante direção de fotografia de Hoyte van Hoytema (de vários filmes de Nolan), feita em Kodak 65mm. Há uma bizarra história paralela envolvendo o personagem de Steven Yeun (Minari, The Walking Dead) que, a princípio, pode parecer não ter nada a ver com o tema principal, mas envolve TV, cinema, espetáculo e, sim, um predador.

No fim das contas, "Nope" é muito mais sobre cinema do que sobre supostos extraterrestres. Note como o objetivo dos protagonistas nem é derrotar um inimigo, mas capturar sua imagem. Há até uma auto ironia no fato de que eles chamam um grande diretor de fotografia estrangeiro (Michael Wincott) para tentar filmar (em IMAX), uma cena boa do dito cujo. Fascinante. Nos cinemas.

A Luz é para Todos (Gentleman´s Agreement, 1947)

 
A Luz é para Todos (Gentleman´s Agreement, 1947). Dir: Elia Kazan. Star+. De vez em quando gosto de ver algum filme antigo, principalmente quando está escondido em um serviço de streaming. Este é de 1947 e venceu os Oscars de "Melhor Filme", "Diretor" (Kazan) e "Melhor Atriz Coadjuvante" (Celeste Holm). Gregory Peck é um jornalista da Costa Oeste que se muda para Nova York para escrever um artigo sobre antissemitismo para uma revista. Cristão, ele passa algumas semanas sem saber como abordar o tema quando... eureka! Ele decide que vai se apresentar como judeu a todos que encontrar, incluindo companheiros de trabalho e os familiares da nova namorada, Kathy (Dorothy McGuire). O roteiro, escrito por Moss Hart e adaptado de um livro de Laura Z. Hobson, é cheio daqueles "discursos" que você escuta de personagens em filmes mais antigos (ou alguns filmes brasileiros, hoje, rs). Não é uma reclamação, é só um fato... interpretação, diálogos e a própria cadência das falas eram mais teatrais naquela época (Hollywood havia saído dos filmes mudos há duas décadas).

Gregory Peck nasceu para fazer personagens íntegros e ele está muito bem no papel. O filme causou certa polêmica na época por expor o "acordo de cavalheiros" (título original do filme) que havia entre as pessoas de discriminar judeus no mercado de trabalho, nas escolas ou em contratos imobiliários. O personagem de Peck começa a ter problemas com a namorada porque, apesar dela apoiar a ideia, a coisa muda de figura quando ela tem que fingir que está se relacionando com um judeu.

É um bom filme, embora, visto hoje, pareça um pouco ingênuo. Como disse o crítico Peter Bradshaw no "The Guardian", simplesmente dizer que é judeu não torna uma pessoa um. Em nenhum momento Gregory Peck enfrenta problemas com a cultura judaica, a comida, religião, costumes, etc. Um judeu de verdade provavelmente perceberia que ele estava fingindo, mas ele interage com vários e ninguém percebe. O filme, hoje, provavelmente seria acusado de "lacração". A propósito: a cópia no Star+ está ótima, provavelmente passou por uma restauração.

sábado, 20 de agosto de 2022

Ameaça Profunda (Underwater, 2020)

 
Ameaça Profunda (Underwater, 2020). Dir: William Eubank. Star+. Ficção científica B que é uma mistura de "O Segredo do Abismo" com "Alien". É daquele tipo de filme que usa os créditos iniciais para explicar a premissa com vários trechos de reportagens; ficamos sabendo que "estranhas criaturas" foram vistas nas "Fossas Marianas", o lugar mais profundo do planeta. Um ótimo lugar para se instalar uma estação submarina e uma broca de mineração, certo? Dez quilômetros debaixo d´água? O filme parte logo para a ação e uma Kristen Stewart de cabelo curtinho e pouca roupa está correndo desesperada na estação submarina. A estação é (aparentemente) atingida por um terremoto e os poucos sobreviventes tem que tentar ir de um ponto X a um ponto Y, sob a pressão de 10 km de água sobre suas cabeças, para tentar chegar à superfície.


Além de Kristen Stewart, o filme ainda tem Vincent Cassel como o "capitão" da estação submarina. Os outros personagens podem ser descritos como "a garota assustada", "o maluco", "o personagem negro que vai ser o primeiro a morrer", etc. É bastante difícil ver o que está acontecendo por grande parte do filme porque os efeitos são ruinzinhos e eles usam a desculpa do fundo do mar para deixar tudo bem escuro. Há um lado "terror" na forma de seres estranhos que foram acordados pela intervenção humana no fundo do Oceano (insira mensagem ecológica aqui) e atacam de tanto em tanto tempo. Ao menos é rapidinho, tem uma hora e meia e até que o monstrão final (claramente inspirado no Cthulhu de Lovecraft) é razoavelmente bem feito. Chamem a Ripley. Disponível no Star+.