segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Rock Brasília - Era de Ouro

"O Renato Russo era uma esponja de biografias de rock", diz Dado Villa-Lobos, da Legião Urbana, sobre seu ex-companheiro de banda, que morreu há 15 anos. Apesar deste tempo da morte de Russo e dos 30 anos do chamado "Rock dos anos 80", a mesma moçada que hoje escuta produtos como "Banda Cine" ou "Restart" canta as letras da Legião como se tivessem sido compostas ontem. "Rock Brasília - Era de Ouro", do documentarista Vladimir Carvalho, tenta explicar esta longevidade em um filme que, apesar de ser sobre vários grupos, é centrado da banda de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá.

O rock que surgiu em Brasília no final dos anos 70 e início dos 80 foi resultado de uma juventude bem de vida, estudada e com recursos, todos filhos de diplomatas, políticos ou membros da elite brasiliense. Na quadra conhecida como a "Colina" circulavam os membros do "Aborto Elétrico", banda formada pelos jovens que formariam a Legião Urbana e o Capital Inicial. Também por lá passavam Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso, e Phillippe Seabra, do Plebe Rude. O documentário mescla entrevistas atuais dos músicos com depoimentos de Renato Russo feitos por Vladimir Carvalho em 1988 e em uma longa entrevista que deu à MTV Brasil em 1994. Estranhamente, todas as entrevistas dos Paralamas são de arquivo do final dos anos 80; há apenas um depoimento atual de Hermano Vianna, irmão de Herbert, que conta como ele foi chamado a Brasília, no papel de jornalista, para fazer a primeira matéria sobre as bandas locais. "Foi uma matéria praticamente comprada", diz ele, rindo. Vianna completa dizendo que Renato Russo já era uma espécie de herói local e que já se comportava como uma estrela. O caminho para as bandas de Brasília foi aberto pelos Paralamas, que conseguiram entregar uma fita de Renato Russo para uma gravadora do Rio de Janeiro. Há uma parte engraçada que mostra como os produtores não sabiam o que fazer com a Legião Urbana. "Eles queriam me transformar em um Bob Dylan do cerrado", diz Russo. Outro momento, mais sério, mostra a confusão causada por um show da Legião em Brasília, em 1986, quando 40 mil pessoas se acotovelavam em um estádio para vê-los. Os primeiros acordes de "Que país é esse?" literalmente incendiaram a multidão, causando a reação da polícia, o ataque de um fã a Renato Russo e centenas de pessoas no hospital. Quando "Quatro Estações" foi lançado em 1989, a Legião Urbana foi alçada de vez ao estrelato, para espanto de Renato Russo que, irônico, diz que não era para ser um disco "pop". Ele cita os primeiros versos de "Há tempos": "Parece cocaína, mas é só tristeza. Talvez tua cidade. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão".

O documentário tem acertos e erros. Tenta sair do lugar comum repetindo uma viagem que o Plebe Rude (e a Legião) fizeram para Patos de Minas, no primeiro show fora de Brasília dos grupos; por outro lado, dá muita importância para o Capital Inicial que, apesar do sucesso, nunca foram do mesmo calibre das bandas da época como Titãs, Paralamas e Barão Vermelho. O documentário por vezes perde o foco nas declarações da mãe e da irmã de Renato Russo e do pai de Fê e Flávio Lemos (do Capital Inicial). No geral, porém, traça um interessante perfil das bandas da época e, mais para o fim, contextualiza o final de uma era, causada pela morte de Renato Russo e pelos constantes problemas econômicos que o país atravessou. O documentário termina com um show feito pelo Capital Inicial em 2008 na "Esplanada dos Ministérios", para um milhão de pessoas. Tocando Legião Urbana, é claro.

Câmera Escura

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Homem ao Lado

Leonardo (Rafael Spregelburd) é um designer famoso internacionalmente; sua principal criação, uma cadeira futurista que é a principal atração de seu site (depois de uma foto dele mesmo) já vendeu 500 mil unidades pelo mundo. Sua casa não poderia deixar por menos e Leonardo mora com a esposa e a filha adolescente em uma obra assinada por Le Corbusier que é atração turística.

Uma manhã Leonardo é acordado por marteladas insistentes. A câmera o acompanha pela casa enorme até uma parede em comum que dá para o vizinho de trás, que está abrindo uma janela. O vizinho é Víctor (Daniel Aráoz), um homem de fala grave que explica pacientemente a Leonardo que tudo o que ele quer é um pouco de Sol. Leonardo retruca, dizendo que a janela não só é ilegal como vai invadir a privacidade de sua família. Está estabelecido o impasse e se inicia uma das situações mais complicadas do mundo moderno, que é como lidar com o outro.

O filme dos diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat guarda curiosa semelhança com outro filme argentino lançado recentemente, "Medianeiras", também passado em uma Buenos Aires descaracterizada e moderna. "Medianeiras", inclusive, menciona as pequenas janelas ilegais feitas pelos argentinos para poder trazer um pouco de luz e ventilação para suas moradias. "O Homem ao Lado" soa como uma acidental continuação em que, do outro lado da janela, está um homem de classe alta, muita cultura mas pouco traquejo social. A família de Leonardo é tão limpa e asséptica quanto a casa futurista em que vivem, e a figura extravagante de Víctor lhes parece semelhante à dos bárbaros que chegaram ao Império Romano.

A idéia não é original; o cinema está cheio de exemplos bons e ruins de filmes que mostram os problemas de convivência entre vizinhos. "O Homem ao Lado" se distingue pela ironia com que o roteiro vê as diferenças sociais entre eles. Apesar da atrapalhação causada pela janela e pela obra do vizinho, a presença de Víctor traz cor nova à vida de Leonardo, que em um jantar com amigos discorre sobre como tem lidado com a situação, que ele descreve como "uma experiência antropológica". Há uma cena muito engraçada em que as marteladas do vizinho são confundidas como parte de uma música "concreta" que Leonardo e um amigo estão escutando. O filme é um tanto longo e repetitivo, mas "O Homem ao Lado" é outro exemplo do bom cinema argentino. Visto no Topázio Cinemas de Campinas.

Câmera Escura

domingo, 9 de outubro de 2011

Um Sonho de Amor

Em uma rica mansão em Milão, Itália, um grande número de empregados uniformizados, eficientes e discretos está preparando um jantar especial. É o aniversário do patriarca da família Recchi, um magnata dono de uma rica tecelagem que carrega seu nome; com a idade avançada do Sr. Recchi, ele decide passar a empresa para seu filho mais velho, Tancredi (Pippo Delbono) e para o neto Edoardo (Flavio Parenti). Nos bastidores e calmamente comandando o jantar está Emma (Tilda Swinton), esposa de Tancredi, uma russa de nascimento que aprendeu, com o tempo, a se tornar italiana (o que, no mundo refinado dos Recchi, significa ser eficiente e obediente).

"Um Sonho de Amor" (no original, "Eu sou o amor"), sem exageros, é uma jóia rara. O diretor Luca Guadagnino produz uma obra elegante, extremamente ambiciosa e muito bela de se ver. A direção de fotografia de Yorick Le Saux é deslumbrante. Esta sequência inicial do jantar é filmada à meia luz, em tons quentes que contrastam com o cenário frio de Milão durante uma tempestade de neve. A sofisticação da direção de arte revela, a cada plano, os anos de tradição (e muito dinheiro) que existem naquela família. Ao mesmo tempo, percebe-se que algo não vai bem. O roteiro mostra, aos poucos, os pequenos dramas familiares que vão surgindo, como quando o patriarca se decepciona com o presente dado pela neta Elizabetta (Alba Rohrwacher, de "Que mais posso querer")  que, mais tarde, se revela homossexual. Ou o ciúme não declarado do irmão mais novo por Edoardo, claramente o preferido pela mãe. Para culminar a sequência, ela termina com a chegada de Antonio (Edoardo Gabbriellini), um cozinheiro amigo de Edoardo, que lhe traz um bolo de presente e é apresentado à mãe dele.

Um filme comum seria sobre o adultério de Emma e sobre suas consequências, mas este é um filme mais inteligente. Ele gira em torno das mudanças trazidas pelo tempo e pela sociedade sobre os personagens. Tilda Swinton sempre foi uma atriz excelente e é fascinante o modo como ela encarna o papel de Emma, uma mulher aparentemente sem passado que largou tudo para se tornar membro desta família italiana. A chegada da primavera traz novas cores ao filme e leva os personagens para as ruas, com consequências inesperadas. A revelação da homossexualidade da filha leva Emma a San Remo, onde Antonio, o cozinheiro amigo de Edoardo, planeja abrir um restaurante. Os dois iniciam um caso tórrido e inesperado, filmado por Guadagnino com grande beleza, em cenas passadas em meio à natureza. O relacionamento parece mais uma traição ao filho Edoardo do que ao marido de Emma, constantemente envolvido com a tecelagem e fazendo negócios em Londres.

Claro que a trama não vai acabar bem, mas, novamente, com que elegância o roteiro mescla a decadência familiar dos Recchi com os fatores externos, como a globalização, que vão tirar a tecelagem das mãos da família. Curioso também o modo como a sexualidade é retratada no filme, da frieza entre Tancredi e Emma para o calor de seu relacionamento com Antonio; do homossexualismo de fato de Elizabetta à insinuação de que a amizade entre Antonio e Edoardo poderia se tornar algo mais. Tudo culminando em um final apropriadamente operático, com tragédia, drama e romance resultando em uma emocionante cena de libertação. Imperdível. Visto como cortesia no Topázio Cinemas.

Câmera Escura

domingo, 2 de outubro de 2011

Estranhos Normais

Metalinguagem é um recurso que, quando bem usado, eleva a qualidade de uma obra. É frequentemente utilizada em filmes do roteirista Charlie Kaufman, por exemplo ("Adaptação", "Sinédoque", "Quero ser John Malkovich"), com bons resultados. Quando mal empregada, porém, a metalinguagem pode gerar confusão ou, pior, revelar problemas básicos de roteiro. "Estranhos Normais", de Gabrielle Salvatores (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro por "Mediterrâneo") é um exemplo de mau uso da metalinguagem.

O que não significa que o filme seja ruim. O recurso é apenas inadequado, desnecessário. "Estranhos Normais" conta a história de duas famílias muito diferentes, reunidas em um jantar pelo fato de que seus filhos Filippo (Gianmaria Biancuzzi) e Marta (Alice Croci) pretendem se casar. Eles têm apenas 16 anos e tanto a família classe alta de Filippo quanto a classe média de Marta são contra. Acontece que todos estes personagens são fruto da imaginação de um roteirista chamado Ezio (Fabio De Luigi), recentemente abandonado pela mulher e tentando escrever seu primeiro longa metragem. Ele se inclui na história em uma cena em que atropela Anna (Margherita Buy), mãe de Filippo, que o convida para o jantar. Lá ele conhece Caterina (Valeria Bilello), uma pianista clássica de 27 anos que está deprimida, e se apaixona por ela. A trama é interrompida de vez em quando pelo próprio Ezio que, cansado de escrever e infeliz com o desenrolar da história, fecha seu laptop; mas os personagens ganham vida própria e importunam o escritor, exigindo que ele termine o roteiro. A inspiração claramente vem da peça "Seis personagens à procura de um autor", de Pirandello, que é inclusive citado no filme. O diretor Gabrielle Salvatores tem origem teatral e o roteiro é baseado em uma peça escrita por Alessandro Genovesi, co-autor do filme.

O problema é que as intervenções metalinguísticas raramente servem para algo útil e mais parecem inseridas para esticar a duração do filme. A idéia original é simples e falta material para desenvolver um longa-metragem. Salvatores tenta compensar este fato com montagens musicais regadas ao som de "Simon and Garfunkel" ou com monólogos em que os personagens falam diretamente com a câmera. O elenco tem boas escolhas, como o divertido pai de Marta, interpretado por Diego Abatantuono, um homem de meia idade que fuma constantemente um baseado e se veste de forma estravagante. Há um leve toque de drama e profundidade na história do pai de Fillipo, Vincenzo, que descobre estar com um câncer terminal mas não consegue contar à família; ele é muito bem interpretado por Fabricio Bentivoglio.

"Estranhos Normais", felizmente, melhora conforme avança para o final, o que de certa forma compensa suas falhas. Destaque para o trabalho de direção de arte, que carrega os planos com as cores vermelho, amarelo e verde, remetendo ao semáforo em que Anna é atropelada pelo roteirista, dando início à trama. Visto no Topázio Cinemas.


domingo, 18 de setembro de 2011

Minhas Tardes com Margueritte

O filme está na sexta semana em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas, e a sala continua cheia. Não é para menos. A história da amizade entre um "ignorante" de bom coração e uma senhora amante dos livros é contada de forma bem humorada pelo veterano diretor francês Jean Becker.

Gérard Depardieu é Germain, um homem que teve a inteligência tolhida a vida toda pela mãe dominadora e cruel, pelos professores da escola ou pelos colegas. Ele vive de vários trabalhos, cuida de uma horta, é bom em trabalhos manuais e sabe o nome dos 19 pombos que alimenta, todos os dias, em uma praça. É neste lugar que ele conhece Margueritte (Gisèle Casadesus), uma senhora gentil que é das poucas pessoas no mundo que não zomba de seus eventuais defeitos. Pelo contrário, aos poucos ela começa a ler trechos de Albert Camus e outros autores clássicos para Germain, que se revela um aluno aplicado. As cenas entre Depardieu e Casadesus são ótimas, uma aula de interpretação.

Flashbacks revelam os problemas de Germain com a mãe, que o gerou depois de um caso passageiro. Ela é uma mulher orgulhosa e rude com o menino, que trata aos berros. O garoto tem que lidar com o abuso da mãe, dos eventuais namorados dela e de seus professores. Adulto, Germain mora em um trailer no quintal da casa da mãe, ainda viva mas, aos poucos, perdendo a lucidez. Ele tem uma namorada que é motorista de ônibus e tem idade para ser sua filha, mas a relação entre os dois revela a maturidade da garota. O filme ainda conta com uma série de personagens secundários muito interessantes, imigrantes e trabalhadores amigos de Germain que passam a trama toda em um pequeno bar. A convivência de Germain com Margueritte provoca uma melhora em seu vocabulário e um aumento em sua cultura, o que não passa despercebido por seus colegas. O roteiro é bem escrito e incorpora na trama elementos aprendidos por Germain dos livros que lê com Margueritte no banco da praça. Tudo isto é visto em bela fotografia de Arthur Cloquet.

O final é um pouco apressado e comportado demais, mas coroa de forma alegre a relação de amizade entre os personagens principais. Belo filme. Visto como cortesia no Topázio Cinemas.

Câmera Escura

domingo, 11 de setembro de 2011

Além da Estrada

O filme começa e termina na água. A primeira vez que o argentino Santiago (Esteban Feune de Colombi) vê a belga Juliette (Jill Mulleady) é no barco entre Buenos Aires e Montevidéu. Ele morava em Nova York mas, com a morte dos pais, resolveu voltar à terra natal e investigar um terreno que a família tem na cidade de Rocha, Uruguai. Após pegar a escritura do terreno com um senhor em Montevidéu, Santiago vê Juliette novamente, puxando uma mala à beira do Rio da Prata, e lhe oferece uma carona. Começa assim o road movie "Além da Estrada", cuja equipe é tão multicultural quanto seus personagens. O diretor é o brasileiro Charly Braun, formado em cinema nos Estados Unidos e que estréia em longas metragens. A produção é brasileira e uruguaia e o elenco conta com o argentino Colombi, a suíça Mulleady e vários não-atores uruguaios, interpretando a si próprios. Do nada, em uma cena, a top model Naomi Campbell faz uma ponta.

"Além da Estrada" é tão zen que, em alguns momentos, corre o risco de se transformar de um road movie em um vídeo amador de viagem. Há apenas um fiapo de roteiro. Santiago e Juliette se conhecem em um daqueles encontros que só acontecem no cinema e a garota é tão bela e bem vestida que, por vezes, parece que se está assistindo a um vídeo de moda. Mas a leveza do roteiro e a curiosidade criada pelos lugares por onde o casal passa mantém o interesse da platéia. O interior do Uruguai é menos conhecido para os espectadores brasileiros do que, digamos, as ruas de Nova York, e é interessante ver a sucessão de paisagens. Há algumas repetições interessantes; em quase todas as cenas há um ou mais cachorros que interagem com os personagens. Há também vários portões de madeira em pequenas estradas de terra perdidas pelo interior uruguaio. Juliette e Santiago acabaram de se conhecer mas há uma intimidade quase infantil entre os dois, que em grande parte do filme são vistos literalmente brincando um com o outro, seja correndo pela paisagem ou jogando-se na água. No caminho, conhecem vários habitantes locais e a interação entre eles e os atores se dá como em um documentário, com os não-atores falando sobre seu modo de vida. Santiago e Juliette visitam um tio dele, que é artista e faz uma vernissage em Punta del Leste. A agitação da cidade contrasta com uma comunidade hippie onde Santiago reencontra Juliette após breve separação.

Além (ou, na verdade, dentro) do road movie, porém, há escondido um álbum de recordações. Durante os créditos são exibidas imagens aparentemente reais de uma família nas mesmas paisagens vistas no longa. O diretor é meio-irmão da atriz Guilhermina Guinle (que é uma das produtoras do filme) e seu pai é argentino; ele passou a infância em vários dos locais mostrados em "Além da Estrada". Braun ganhou o prêmio de melhor diretor no Festival do Rio e o filme é bastante interessante em sua mistura entre realidade, ficção e recordações, embora não seja para todos os gostos. Visto como cortesia no Topázio Cinemas.



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Medianeiras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Escrito e dirigido por Gustavo Taretto, "Medianeiras" é simpático e inteligente. É passado em Buenos Aires mas poderia facilmente ser ambientado em São Paulo, Nova York, Tóquio ou qualquer cidade grande do mundo. Econômico nos diálogos, o filme conta a história de Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar Lópes de Ayala, de "Lope"), dois solitários cujo mundo interior é contado ao espectador através de narrações e colagens de imagens. O estilo lembra muito o usado pelo roteirista e diretor brasileiro Jorge Furtado em filmes como "Ilha das Flores" ou "O Homem que Copiava", embora em um ritmo mais lento.

Martín e Mariana moram a poucos metros de distância em Buenos Aires, mas não se conhecem. Eles compartilham as mesmas angústias de milhões de pessoas no mundo inteiro; solidão, isolamento, dependência de anti-depressivos e problemas de relacionamento. A namorada de Martín foi para os Estados Unidos para passar um mês e nunca mais voltou, deixando com ele a poodle de estimação. Mariana acabou um relacionamento de quatro anos e está morando no mesmo apartamento em que vivia antes do namoro. Martín é um web designer e não lhe falta serviço, mas vive enfurnado em uma kitnete entulhada de monitores, tabuleiros de xadrez, action figures e outras quinquilharias de um nerd solteiro. É hipocondríaco e está se recuperando de uma síndrome de pânico; o primeiro site que criou foi, não por acaso, para seu psiquiatra. Já Mariana é arquiteta mas nunca construiu nada, por falta de oportunidades. Ela ganha a vida criando vitrines para lojas; sozinha em casa, ela conversa com os manequins.

Há dezenas de referências "pop" que, nos dias de hoje, são reconhecíveis em qualquer lugar do mundo. Há citações a "Star Wars", "O Estranho Mundo de Jack" (Tim Burton), "Manhatan" (Woody Allen), "Feitiço do Tempo" (filme em que Bill Murray acorda todos os dias no mesmo dia, uma sutil comparação com a vida repetitiva dos personagens), jogos de videogame etc. E há uma referência importante tirada do livro infantil "Onde está Wally?", em que o famoso personagem tem que ser encontrado no meio de uma multidão de anônimos. É bastante inteligente o modo como o diretor/roteirista se utiliza destas referências para criar uma história bastante humana sobre a individualização da sociedade. Buenos Aires é também uma personagem e uma metáfora. Em um de seus monólogos, Mariana diz que a tecnologia prometeu poder controlar a temperatura de casa pelo celular, para encontrar o apartamento quentinho quando se chega em casa. "É porque não vai ter ninguém nos esperando", diz ela. O filme foi muito bem recebido no último Festival de Gramado, onde ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Visto como cortesia no "Topázio Cinemas".

domingo, 4 de setembro de 2011

Amor a toda prova

O casal está no restaurante tentando decidir o que pedir. "O que você vai querer?", pergunta o marido. "Um divórcio", responde a esposa. Assim começa "Amor a toda prova" (mais um desses títulos brasileiros genéricos, inferior ao original, "Crazy, Stupid, Love"). O marido é Cal Weaver, o sempre competente Steve Carell. A esposa, Emily (ninguém menos que Julianne Moore), "não quer magoar" Cal, mas além do anúncio do divórcio ainda confessa ter transado com um companheiro de trabalho, David Lindhagen (Kevin Bacon), o que é mais informação do que Cal estava disposto a receber. Desolado, Cal começa a passar suas noites bebendo em um bar da moda, onde conhece o "homem perfeito", Jacob (Ryan Gosling), um conquistador que leva uma garota diferente para casa todas as noites. Jacob, afetado pela figura triste de Cal reclamando suas "histórias de corno" todas as noites no bar, resolve ajudá-lo a sair do buraco.

Steve Carell, que foi lançado à fama com a comédia escrachada "O Virgem de 40 Anos", tomou um rumo curioso (e muito bem sucedido) em sua carreira. Seu tipo "homem comum" se adaptou tranquilamente a filmes engraçados, mas com um foco mais "família", como "Agente 86", "A volta do Todo Poderoso" e "Eu, meu irmão e nossa namorada" (além da voz de Gru na ótima animação "Meu malvado favorito"). Assim como neste último, Carell eleva o nível do batido gênero "comédia romântica" de "Amor a toda prova", do qual é um dos produtores, com um roteiro inteligente escrito por Dan Fogelman. Robbie (Jonah Bobo, uma boa descoberta), seu filho de 13 anos, é um romântico incurável que é apaixonado pela baby sitter Jessica (Analeigh Tipton), de 17 anos. Ela, por sua vez, é apaixonada pelo patrão Cal e, com o divórcio, Jessica resolve partir para o ataque, consultando a "piranha" do colégio, uma garota que só transa com homens mais velhos. Cal, auxiliado pelas dicas de conquista de Jacob, faz uma reciclagem no guarda roupa, ganha um novo corte de cabelo e, após alguns tropeços, também se torna um conquistador competente. Há uma cena hilariante estrelada por Marisa Tomei, sua primeira conquista, que vale o filme.

"Amor a toda prova", porém, não é um filme sobre conquistas adolescentes. O roteiro, apesar de moderno, é voltado a valores tradicionais como romance e casamento. Cal e Emily têm uma longa história juntos e mesmo Jacob, após conhecer a bela Hannah (Emma Stone), começa a repensar seu modo de vida. Com 118 minutos, o filme poderia ser um pouco mais curto, mas o roteiro inteligente tem até espaço para algumas surpresas e reviravoltas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Planeta dos Macacos: A Origem

Este filme começa de forma tão acelerada que promete ser uma grande aventura. Will Rodman (James Franco), um geneticista, está apresentando uma droga nova para possíveis investidores de uma empresa farmacêutica; ele promete curar o Mal de Alzheimer e os testes preliminares com chimpanzés foram promissores. Em plena apresentação, no entanto, uma das primatas testadas com a droga se solta e, em fúria, causa caos na empresa até ser abatida pela segurança. O chefe de Will ordena que as pesquisas sejam canceladas e todos os chimpanzés mortos. Will descobre que a chimpanzé estava cuidando secretamente de um filhote e, sem coragem de sacrificá-lo, o leva para casa, onde mora com o pai, Charlie (John Lithgow), que sofre, claro, de Mal de Alzheimer. Charlie se apega ao macaquinho e o chama de César, em homenagem a uma peça de William Shakespeare.

É então que o ritmo do filme muda drasticamente. Dirigido por Rupert Wyatt, este é mais um filme com subtítulo "A Origem" a ser lançado nos cinemas (assim como "Wolverine", "X-Men", entre outros). A saga "Planeta dos Macacos" iniciou-se em 1968, com o clássico dirigido por Franklin J. Shaffner. O roteiro, baseado em livro de Pierre Boulee, passou pelas mãos de Rod Serling (criador da série "Além da Imaginação") e o final surpresa marcou época. Houve quatro continuações, séries de televisão, uma série animada e, em 2001, Tim Burton fez um remake que teve recepção morna. O filme de Wyatt entra na moda das "origens" e, apesar de auxiliado por efeitos especiais realmente impressionantes, tem problemas de ritmo e de roteiro. O chimpanzé César é "interpretado" por Andy Serkis, que se tornou um especialista em atuações criadas em "motion capture"; os movimentos do ator são "capturados" pelo computador e transformados em dados para que o personagem em computação gráfica ganhe vida. Serkis, entre diversos trabalhos, já interpretou Gollum, na trilogia "O Senhor dos Anéis" e o gorila gigante de "King Kong", mas as expressões faciais e a linguagem corporal de César são realmente impressionantes.

O roteiro tem vários tropeços. Não fica muito clara a posição do personagem de James Franco depois do fracasso do início do filme. Há diversas passagens temporais em que o escutamos, em uma locução em off, narrar a evolução de César; a inteligência do macaco é superior aos outros da sua espécie graças aos genes que herdou da mãe, que havia testado a droga do Dr. Rodman. O cientista passa a roubar a droga da empresa (a pesquisa não havia sido cancelada?) e a usá-la no próprio pai que, a princípio, também demonstra uma melhora milagrosa. César cresce e se torna um "adolescente" problemático que começa a questionar (através da linguagem dos sinais) sua origem. Um dia ele agride um vizinho e a justiça determina que ele seja trancafiado no abrigo para primatas da cidade de São Francisco, onde sofre "bullying" dos outros macacos e de um cruel humano (interpretado por Tom Felton, o "Draco Malfoy" da série Harry Potter, igualmente maldoso). Há uma longa passagem que mostra a transformação de César de animal dócil para um ser ferido e ressentido. Aos poucos sua inteligência vai formando um plano de vingança que culmina com dezenas de macacos inteligentes soltos pelas ruas de São Francisco, em um final que acaba sendo um anticlímax.

É possível dizer que a interpretação de César, com todo respeito a James Franco, é a melhor do filme. "Planeta dos Macacos: A Origem", a não ser em momentos isolados, não chega a empolgar. A idéia da "cura" e subsequente epidemia lembram diversos outros filmes, principalmente "Eu sou a lenda", com Will Smith. Vale como marco nos efeitos visuais e, para os fãs da série, como mais um capítulo na saga dos macacos

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Também a Chuva

Sebastián (Gael Garcia Bernal) é um cineasta que quer filmar a chegada de Cristóvão Colombo à América. Idealista, quer mostrar a exploração feita pelos europeus aos povos indígenas. Seu produtor, Costa (Luis Tosar), levou toda a equipe para filmar em Cochabamba, Bolívia, pois a mão-de-obra é praticamente de graça. De fato, a primeira cena do filme mostra uma fila enorme de moradores locais tentando uma vaga como figurante no filme de Sebastián. Um deles, Daniel (Juan Carlos Aduviri), causa confusão quando os produtores dizem que não há mais vagas. Sebastián gosta do jeito do rapaz e o contrata, junto com a filha pequena, para o filme.

"Também a Chuva", dirigido por Icíar Bollaín, é metalinguístico, quando um filme fala sobre a feitura de outro. O recurso é interessante e serve para mostrar os bastidores do cinema, mas este traz uma particularidade: além do recurso do filme dentro do filme, "Também a Chuva" serve para mostrar sensível paralelo entre a exploração dos conquistadores espanhóis do século 16 e dos cineastas espanhóis do século XX. Os figurantes locais, por exemplo, são contratados por míseros dois dólares por dia, enquanto a equipe européia toma champanhe e se hospeda em hotéis caros. Há cenas muito inteligentes; quando o ator que interpreta Colombo (Karra Elejalde) está ensaiando uma cena no jardim do hotel, por exemplo, ele se aproxima de uma empregada local (com rosto indígena) e retira o brinco dela, dizendo "Ouro! Onde encontrou isso?". Por um momento, o espectador fica sem saber onde termina o filme histórico e começa o filme contemporâneo. A confusão, proposital, continua por toda a produção e é interessante como várias cenas do passado da América são ecoadas no presente.

Além disso, a trama se passa durante a chamada "guerra da água" ocorrida na Bolívia no ano 2000. O governo fez um acordo com a companhia americana Bechtel Corporation, privatizando toda a água da região. A empresa fez melhorias, mas a população local não tinha como pagar os serviços, que sofreram um aumento de 300%. Era considerado ilegal abrir um poço ou até mesmo coletar a água da chuva. Daniel é um dos líderes do movimento de resistência contra a privatização da água, o que causa preocupação aos produtores. Eles até tentam suborná-lo, oferecendo 10 mil dólares para ele deixar de participar das manifestações que estão pipocando pela cidade. Seu personagem, um índio chamado Hatuey, é muito importante para que ele coloque o filme em risco. Conforme o tempo passa, o idealista diretor Sebastián e o ganancioso produtor Costa vão trocando de papel. Costa começa a perceber os problemas locais enquanto Sebastián só está preocupado com seu filme.

"Também a Chuva" foi o filme escolhido pela Espanha para tentar uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011. É uma bela produção muito bem escrita por Paul Laverty, e mostra como quinhentos anos de colonização não mudaram muita coisa.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres

Você já escutou esta música. As notas graves da guitarra dão lugar a uma melodia suave, acompanhada por sussurros que parecem ter sido gravados durante o momento íntimo de um casal. "Je T ´aime...moi non plus", de Serge Gainsbourg, foi um escândalo ao ser lançada em 1969 e chegou a ser proibida em vários países. A não ser por esta canção, porém, Gainsbourg não é muito conhecido fora da França, seu país de origem. Pintor, desenhista, escritor, músico, cineasta e boêmio profissional, Gainsbourg teve uma vida cercada de sucessos e polêmicas. Seu talento multimídia foi transformado agora em filme pelo cartunista francês Joann Sfar, que tentou ser tão anárquico quanto o personagem.

O melhor elogio que se pode fazer a "Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres" (no subtítulo infeliz escolhido no Brasil) é sobre o quanto os atores são parecidos com as pessoas que estão representando. A começar pelo próprio Gainsbourg, replicado à perfeição por Eric Elmosnino, que ganhou o prêmio "César" pelo papel. Muito bem representadas também estão figuras como a deusa francesa Brigitte Bardot (Laetitia Casta), a inglesa Jane Birkin (Lucy Gordon) ou mesmo a filha de Serge, Charlotte (Orphée Silard).

A trama acompanha a vida de Gainsbourg (nascido Lucien Ginsburg) desde a infância; o pai o forçava a tocar piano e o garoto já provocava polêmica por desenhar mulheres nuas nos cadernos dos colegas da escola. Quando os nazistas invadiram a França e os judeus foram obrigados a usar a Estrela de Davi no ombro, o pequeno Lucien foi o primeiro da fila. O fato de ser judeu e ter as feições exageradas fizeram com que o garoto criasse um companheiro imaginário na forma de uma enorme cabeça caricatural que o segue para todos os lados. A idéia pode dar certo em uma história em quadrinhos ou charge, mas a figura é muito entranha em um filme. Quando Gainsbourg se torna adulto, o companheiro imaginário ainda o segue, agora na forma de um homem alto, com orelhas e nariz compridos. Há cenas bizarras em que Gainsbourg conversa consigo mesmo (ou com a tal figura) e a seriedade do momento fica comprometida. A trilha sonora e as cenas musicais funcionam melhor em apresentar o talento de Serge e sua relação com as mulheres. "Je T´aime...", na verdade, foi composta com (e para) Brigitte Bardot, com quem Gainsbourg teve uma tórrida relação. Só que a atriz era casada e o romance terminou, fazendo com que Serge transferisse a música para sua próxima paixão, a atriz inglesa Jane Birkin. Gainsbourg também provocou a ira dos tradicionalistas ao fazer uma versão "jamaicana" da "Marselhesa", o hino da França.

Há boas cenas perdidas no filme de Joann Sfar que, no geral, é confuso. Mas o tom cartunesco é bem vindo por subverter a fórmula tradicional das cinebiografias de artistas, que sempre seguem a lógica do "desconhecido que alcança a fama, se entrega às drogas e mulheres e entra em decadência". Mas se o espectador fica conhecendo mais sobre a obra de Gainsbourg depois de ver o filme, o personagem ainda é um enigma. Tudo parece vir muito fácil para o homem pequeno e feio, mas talentoso, que se vê na tela. E o filme termina antes que outras polêmicas, principalmente envolvendo a filha Charlotte Gainsbourg, aconteçam na vida de Serge. Charlotte se tornou atriz e cantora de sucesso, interpretando em filmes como "Anticristo" e "Melancolia", de Lars von Trier, entre dezenas de outros. Gainsbourg, expert em criar polêmicas, gravou com a filha de 13 anos "Lemon Incest", em que os dois são vistos deitados na mesma cama, ele sem camisas, cantando um para o outro. Ao que parece, Serge Gainsbourg foi provocador até o fim. Morreu de ataque cardíaco em 1991.

sábado, 20 de agosto de 2011

A Árvore da Vida

Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Deus existe? E se existe, como pode permitir que coisas ruins aconteçam? Estamos sós no Universo? O que é estar vivo, afinal? Estas são as perguntas básicas que os seres humanos fazem desde o início dos tempos, e campos de conhecimento como a filosofia, a psicologia ou as religiões tentam responder. São questionamentos fascinantes mas, também, extremamente básicos, e lidar com eles pode resultar em obras baratas de auto-ajuda ou em obras-primas. O diretor Terrence Mallick não se intimidou e fez um filme que é extremamente pretensioso, sim, e lembra os tempos em que diretores como Stanley Kubrick não tinham medo de desafiar o público. Curioso também que o filme de Mallick tenha sido produzido e lançado praticamente no mesmo período que Melancolia, de Lars von Trier, e é uma experiência singular vê-los com poucas semanas de diferença. Há várias ligações, tanto temáticas quanto visuais, entre as duas obras.

A Árvore da Vida era um projeto antigo de Terrence Mallick que, como diretor, se dá ao luxo de só produzir quando está absolutamente pronto para um projeto. O enredo pode ser descrito em poucas palavras. Uma típica família americana do pós guerra perde um de seus três filhos quando ele tem 19 anos. A morte do rapaz provoca reações de dor, consusão, revolta e questionamentos. Mallick, auxiliado pela espetacular fotografia de Emmanuel Lubezki, filma quase tudo com lentes grande angular montadas em câmeras que se movimentam constantemente. Não é aquela movimentação epilética e desnecessária dos filmes de Michael Bay; a câmera de Mallick é como um "espírito" percorrendo os cenários ou circulando os personagens. É, talvez, a visão de "Deus". Cada plano é como um pequeno filme acompanhado pela bela trilha sonora de músicas clássicas ou original, composta por Alexandre Desplat.

Os questionamentos da mãe (Jessica Chastain, sublime) a Deus e ao próprio Universo levam a um flashback que literalmente transporta o espectador para a origem dos tempos. Uma sequência claramente baseada em 2001 enche a tela de galáxias e aglomerados estelares, com efeitos especiais produzidos, em parte, por Douglas Trumbull (lendário técnico de filmes como 2001, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Blade Runner, entre outros). Vale repetir, Mallick não tem medo de ser pretensioso. O resultado é uma obra que, para surpresa negativa de vários frequentadores dos cinemas de shoppings, está longe de ser "um filme do Brad Pitt". É mais apropriado classificar A Árvore da Vida como um filme experimental, uma obra audiovisual que lembra Koyaanisqatsi (de Godfrey Reggio) e Baraka (de Ron Fricke), compostos inteiramente por imagens e música. A diferença é que, ao contrário dos exemplos citados, há um lado humano bastante presente no filme de Mallick. A típica família americana dos anos 50 é representada pelo Sr. O´Brien (Brad Pitt), um self made man que trabalha duro, sustenta (e oprime) a esposa e tenta ensinar aos três filhos o que é "ser homem". Não é uma tarefa fácil. Jack (Hunter McCraken), o filho mais velho, tem que lidar com a rididez do pai e com as dificuldades de se tornar adulto. A Sra. O´Brien, a mãe, é quase uma irmã para os três filhos homens, mas carrega aquela sabedoria e amor que só a maternidade ensina.

Falar mais é desnecessário. "A Árvore da Vida" deve ser mais sentido do que explicado. Não é um filme fácil e Mallick se equilibra em uma linha tênue entre o sublime e o patético. Na comparação com Melancolia, o filme de Terrence Mallick é mais esperançoso, embora também mostre como o Universo, ou a Natureza, ou Deus, ou seja lá como se pode nomear o grande mistério da existência, é ao mesmo tempo generoso e implacável. Seja você humano ou um ser pré-histórico, recém saído do mar e dando os primeiros passos na areia.


domingo, 14 de agosto de 2011

Super 8

Nos anos 60, nos Estados Unidos, um garoto "nerd" chamado Stevie pegou a câmera de 8 milímetros do pai e começou a fazer imagens com ela. Umas das primeiras foi um acidente de trem feito com um modelo; Stevie faria uma série de filmes de guerra, terror e ficção-científica com os amigos da escola. Com estas obras debaixo do braço, mais um curta metragem em 35mm chamado "Amblin", Stevie (sobrenome Spielberg) visitou os estúdios da Universal, em Hollywood, e se tornou o diretor mais jovem contratado pelo estúdio. Ou assim conta a lenda. O fato é que o Super-8, a menor bitola da película cinematográfica (que tem geralmente 35mm no cinema profissional) foi a escola de muitos diretores, como Spielberg, George Lucas, Martin Scorsese, James Cameron e tantos outros. Em uma época pré "home video" e décadas antes das câmeras digitais, era com o Super-8 que as famílias registravam seus aniversários e viagens e os futuros cineastas aprendiam a disciplina de filmar com cartuchos que duravam no máximo três minutos.


Corte para o Século XXI. Um diretor "nerd" chamado J.J. Abrams (de "Lost" e "Star Trek") propôs ao diretor Steven Spielberg uma parceria. O resultado, "Super 8", é uma bem intencionada homenagem não só ao formato de filmes caseiros mas, antes de tudo, ao cinema de Steven Spielberg. Há várias citações ao "mestre da fantasia" (como já foi chamado Spielberg), como o roteiro passado em uma cidade pequena, garotos andando de bicicleta, raios de luz cruzando a tela e um mistério que pode, ou não, ter vindo do espaço. Vale dizer que, por mais bem intencionada que seja a produção, a obra fica um pouco aquém do esperado.


Em 1979, com a chegada das férias de verão, o garoto Joe Lamb (Joel Courtney) e um grupo de amigos resolvem fazer um filme de zumbis. Joe está animado com a perspectiva de trabalhar com a bela Alice Dainard (a precoce Elle Fanning, de 13 anos), que aceitou fazer um papel. Uma noite todos vão à estação de trem da cidade para filmar uma cena e então (em clara citação a Steven Spielberg) testemunham um espetacular acidente entre um trem e uma caminhonete. A cena, diga-se de passagem, é a melhor do filme, e os efeitos sonoros foram feitos por Ben Burtt (antigo colaborador de Lucas e Spielberg). Nos destroços do trem os garotos encontram centenas de estranhos cubos brancos, e Joe vê que "alguma coisa" foge de um dos vagões. Os garotos pegam a câmera de Super-8 (que havia filmado o acidente) e desaparecem do local logo antes da chegada de um grupo do exército. O acidente e a presença do exército mudam a rotina da pequena cidade de Lilian, Ohio. Coisas estranhas começam a acontecer; os cachorros fogem; motores e aparelhos elétricos desaparecem misteriosamente; a eletricidade falha. De tantos em tantos minutos, em cenas coreografadas para que o espectador não veja o que está acontecendo, pessoas são atacadas por "algo". O que está acontecendo?


J.J. Abrams é bom diretor ("Star Trek" é impecável) mas está longe de ser um Spielberg na hora de lidar com cenas de ação ou emoção. "Super 8" flui bem quando foca nos garotos fazendo seu filme de zumbis ou vagando pela cidade, mas certas nuances escapam às mãos do diretor. A relação entre Alice e Joe poderia render muito mais, até porque falta ao jovem ator o que sobra de talento em Fanning. Em uma cena em que os dois estão vendo imagens em Super-8 da mãe de Joe, por exemplo, Alice se emociona e chora de verdade enquanto o garoto não demonstra nada. E por que será que Abrams é obcecado por monstros escondidos? Assim como em "Lost" e em "Cloverfield" (produzidos por ele), a criatura em "Super 8" permanece invisível por quase todo o filme. Isso é interessante para criar suspense, sim, mas após certo tempo o recurso acaba cansando (e, assim como em "Cloverfield", quando é revelado, o monstro parece mais feio do que realista).


Com citações a "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", "Os Goonies", "E.T. O Extraterrestre", entre outros, sobram homenagens mas falta um pouco de talento ao filme de Abrams. "Super-8" está pronto para uma boa "Sessão da Tarde", mas nada além. Imperdível: durante os créditos, o filme de zumbis que os garotos estavam fazendo é exibido na íntegra.


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Melancolia

"Melancolia" é uma criação estranha e bela do dinamarquês Lars von Trier. Ele tem uma legião de seguidores (e detratores) do seu cinema provocador e irregular, e gosta de ousar brincando com gêneros (o musical "Dançando no Escuro", o terror de "Anticristo") ou linguagens (o teatro filmado de "Dogville" e "Manderlay"). Com "Melancolia" ele cria uma obra inusitada, um "disaster movie psicológico". Algo como uma mistura entre o drama "Interiores", de Woody Allen e "Impacto Profundo", de Mimi Leder.

O filme é dividido em duas partes, "Justine" e "Claire", que são duas irmãs; a primeira parte se passa na festa de casamento de Justine (Kirsten Dunst) e Michael (Alexander Skarsgård). A recepção ocorre em um casarão afastado da civilização, em meio a uma floresta e um campo de golfe. Justine é um poço de contradições. Em um momento aparenta estar feliz com seu casamento e no momento seguinte entra em um estado de profunda depressão. A mãe (Charlotte Rampling) não acredita em casamentos e destila seu veneno sobre a filha. O pai (John Hurt) é um piadista que está permanentemente bêbado e alienado aos humores da filha. A irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) mantém uma distância estudada do caos à sua volta, que ela tenta administrar organizando a festa de casamento, a irmã instável e o marido controlador, John (Kiefer Sutherland), que não cansa de dizer a fortuna que tudo aquilo está lhe custando. Nesta primeira parte, "Melancolia" se refere ao estado depressivo de Justine. É um "disaster movie" familiar, já que o casamento está em rota de colisão desde o primeiro minuto de projeção.

A segunda parte trata de Claire, que parece ser o lado mais centrado da família, mas as aparências enganam. Charlotte Gainsbourg, que já trabalhou com Trier em "Anticristo", é uma atriz fascinante; seu corpo pequeno e rosto quase infantil passam uma sensação de fragilidade que contrasta com a beleza sensual de Kirsten Dunst. A trama se passa na mesma casa da festa, talvez meses depois; Justine está no fundo do poço, tendo que ser cuidada como uma inválida pela irmã Claire e pelo cunhado John. Há uma quarta figura neste grupo fechado, Leo (Cameron Spurr), o filho pequeno de John e Claire. Chega a ser surpreendente o modo terno com que Trier apresenta o garoto, que é o próprio retrato na inocência. Na casa isolada estão todos pensando na mesma coisa: a aproximação de um planeta chamado Melancolia, que surgiu no Sistema Solar e, dizem os cientistas, vai passar muito próximo da Terra, sem causar danos. O que não impede de aterrorizar Claire, que acredita nos sensacionalistas da internet que dizem que Melancolia vai colidir com a Terra.

Trier se utiliza desta trama com moldes de ficção-científica para fazer um filme psicológico sobre as relações humanas e discutir nosso lugar no Universo. John (em boa interpretação de Sutherland) é o típico "homem renascentista", que tem fé na ciência e um entusiasmo quase infantil (que divide com o filho pequeno) com relação à Astronomia. Ele está constantemente acalmando Claire e agindo como se algo tão bonito e fascinante como Melancolia fosse incapaz de causar mal. Prático, ele compra mantimentos extras e iluminadores à gás para o casarão e passa horas com o filho observando o planeta por um telescópio no jardim. Há uma cena incrivelmente bela quando Melancolia surge no horizonte, como uma Lua gigantesca e azul, iluminando a noite com uma falsa alvorada. Mas será que o lindo planeta é mesmo inofensivo? Quanto mais ele se aproxima da Terra e dá sinais de que vai realmente colidir com o planeta, os personagens reagem de forma diferente. Justine, paradoxalmente, é a que enfrenta o destino de modo mais calmo, embora fatalista. "A Terra é má", diz ela. "Ninguém vai sentir nossa falta". Já Claire entra em desespero, preocupada com o destino do filho pequeno. John, o calmo homem da ciência, reage da forma mais egoísta de todos.

Tudo isso é filmado de forma extremamente bela. O início do filme é formado por vários planos em câmera lenta que mostram, de forma metafórica, tudo o que vai se seguir. Há uma cena de nudez de Kirsten Dunst, deitada na relva, observando Melancolia, que é como uma pintura. Todas estas cenas são acompanhadas do melancólico (com o perdão da palavra) tema de Tristão e Isolda composto por Richard Wagner. Pena que Lars von Trier, em uma atitude que lembra certas ações da personagem Justine, se boicotou durante o último Festival de Cannes, onde "Melancolia" foi exibido. Durante uma entrevista coletiva, Trier começou a divagar e, surpreendendo a todos, disse ser nazista e que "entendia Hitler". Ele foi expulso do festival (que premiou "A Árvore da Vida") e causou mal estar geral; há quem acredite que tenha sido um golpe de marketing. Independente disso, "Melancolia" é um filme bastante singular, de beleza ímpar.