segunda-feira, 23 de junho de 2008

Agente 86

Apesar de haver várias críticas ruins à versão cinematográfica da série de TV "Agente 86", o filme é bastante satisfatório. "Get Smart" foi criada em 1965 por Mel Brooks e Buck Henry, e era uma paródia dos filmes de James Bond. Estrelada por Dom Adams (agente 86), Barbara Feldon (agente 99) e Edward Platt (o Chefe), a série continha algumas das melhores piadas da história da televisão, era bem escrita, não apelativa e gostosa de se ver. Nessa fase pouco criativa pela qual passa o cinema americano (tomado por continuações, refilmagens e versões de sucessos da TV), era de se esperar que Maxwell Smart acabaria chegando à telona mais cedo ou mais tarde. Boatos a respeito deste filme circulavam há anos e a idéia, a bem da verdade, não me atraia muito. A chance de estragarem o charme da antiga série eram grandes e havia um grande problema: quem iria substituir Dom Adams como o Agente 86? Em 1998 Jim Carrey foi anunciado para o papel, mas o filme não foi adiante. Agora, dez anos depois, ele finalmente sai da gaveta com Steve Carell (de "O Virgem de 40 Anos" e "Todo Poderoso").

Carell consegue ser muito engraçado, apesar da cara aparentemente séria e "certinha" o tempo todo. Ele foi boa escolha porque Dom Adams também levava seu personagem a sério, e é isso que causava as maiores gargalhadas. Vários dos elementos da série original estão no longa metragem; nem todos funcionam direito. O "cone do silêncio", por exemplo, rendia as melhores risadas da série por nunca fazer o que devia. O original era feito de plástico e descia sobre as cabeças dos atores, que não conseguiam escutar o que o outro estava falando. No filme, o cone do silêncio recebeu um "upgrade" digital desnecessário e não tem tanta graça. Estamos em pleno século XXI e a Guerra Fria faz parte do passado, mas a organização criminosa KAOS ainda existe, assim como sua contrapartida, o CONTROLE. O filme reproduz a tradicional abertura da série, em que Maxwell Smart passa por um longo corredor cheio de portas que se abrem e fecham, até o elevador escondido na cabine telefônica. Maxwell Smart ainda não é um agente, mas um analista que prepara relatórios de inteligência enormes, que ninguém lê. O Chefe é interpretado por Alan Arkin, e a Agente 99 por Anne Hathaway. Quando todos os agentes do CONTROLE estão na mira da KAOS, Smart é promovido e enviado com 99 para a Europa, para tentar desmantelar uma operação que pretende ameaçar o mundo com armas nucleares.

Steve Carell faz um Agente 86 mais inteligente que o criado por Dom Adams. Apesar de bastante atrapalhado, suas análises costumam estar certas e o filme mostra que o CONTROLE não conseguiria sobreviver sem Smart. Achei curiosa essa escolha do roteiro em mostrar um Agente 86 mais "eficiente" do que o original. Apesar disso, há vários momentos hilariantes de humor físico em que as trapalhadas de Smart provocam gargalhadas na platéia, como quando ele tenta se soltar de algemas usando dardos de um canivete suíço, ou um engraçado duelo de dança com 99 em um baile.

Mais para o final o filme tende a se arrastar um pouco. Há uma curiosa homenagem a "O homem que sabia demais", de Hitchcock, no modo como os vilões pretendem detonar sua bomba em um concerto em Los Angeles. O elenco conta também com a presença de Dwayne Johnson (ex "The Rock"), bastante engraçado, e Terence Stamp como o vilão Sigfried.

Abertura da série original:


trailer do filme atual:


domingo, 15 de junho de 2008

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fim dos Tempos

A musa criativa parece ter abandonado M. Night Shyamalan nos últimos anos. O diretor, roteirista e produtor que surgiu praticamente do nada para uma indicação ao Oscar e grande sucesso com "O Sexto Sentido", em 1999, vem acumulando uma série de fracassos. Gostei bastante dos filmes que seguiram "O Sexto Sentido", como "Corpo Fechado" (Unbreakable, 2000) e "Sinais" (Signs, 2002). Shyamalan mostrava criatividade nos roteiros e grande domínio no terreno dominado pelo mestre Alfred Hitchcock, o suspense. "Sinais", principalmente, é um filme feito praticamente só de suspense, baseado em boas interpretações e um belo roteiro. Com "A Vila" (The Village, 2004), o namoro do diretor com público e crítica começou a se romper. Eu acho a primeira parte do filme magnífica, com ótimas interpretações, grande suspense e maravilhosa trilha de James Newton Howard. Mas a parte final desagradou a muita gente, com certas "surpresas" reveladas de forma capenga e um final duvidoso. Mas as críticas tocaram forte no diretor e ele resolveu se "vingar" com seu próximo filme, "A Dama da Água" (Lady in the Water, 2006), em que abertamente ataca os críticos de cinema criando um personagem caricato e, mostrando falta de modéstia, escalando a si mesmo para um dos papéis mais importantes (ou auto-importantes) do filme. Foi mais um fracasso.

E então eu vi o cartaz acima e pensei, "opa, ele está de volta". Lembra muito o cartaz de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", não? Pois é, mas o filme está longe disso. Todos os elementos de um "filme de Shyamalan" estão presentes: há o herói relutante e solitário vivido por Mark Wahlberg; há a esposa meio fria e distante, Alma (interpretada por Zooey Deschanel); há "algo" excepcional acontecendo no mundo, mas isso é visto pelo ponto de vista de um universo pessoal, e assim por diante. Sem motivo aparente, as pessoas que passeiam pelo Central Park, Nova York, em uma bela manhã começam a agir de forma estranha e a se matar. Operários da construção civil despencam, aos montes, dos prédios para as ruas lá embaixo. Guardas de trânsito se matam com as próprias armas, e assim por diante. Os noticiários atribuem o fato a um ato terrorista e as notícias logo chegam aos ouvidos de Elliot Moore (Wahlberg), um professor de ciências da Filadélfia. As autoridades recomendam a evacuação em massa das grandes cidades e ele parte de trem com a esposa, um colega da escola e sua filha para o interior. Mas a "praga" começa a se espalhar para as cidades vizinhas e logo para toda área nordeste dos Estados Unidos. A premissa seria interessante para um episódio curto de "Além da Imaginação", mas é um pouco fraca para manter a atenção em um filme de longa metragem. Como a "ameaça" é invisível, Shyamalan tentou dar a ela a forma de um vento que apenas agita as folhas das árvores por onde passa, mas o resultado não é muito eficiente.

E ele insiste em criar pequenos "incidentes" no roteiro que serviriam para humanizar os personagens mas que, no fundo, apenas tiram o foco da história e soam, a bem da verdade, um pouco ridículos. Por exemplo, a esposa de Elliot não só sofre de algum tipo de paranóia e síndrome de pânico, mas também recebe ligações misteriosas no celular de um tal de "Joey" que, no fundo, foi apenas um colega de trabalho com quem ela jantou uma vez. Para que criar esta história paralela se ela não vai ser aproveitada pelo roteiro? E o que dizer de outra história paralela lançada no início do filme, de que as abelhas teriam simplesmente desaparecido sem deixar vestígios?

Há certas cenas criadas com o objetivo de fazer rir mas que provocam o efeito contrário. Mark Wahlberg, por exemplo, tenta convencer um homem dentro de uma casa que ele é "real" cantando uma musiquinha sem motivo aparente. Em outra cena, acredite, ele começa a conversar com uma planta. E para quem criou personagens infantis tão interessantes em O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Sinais, Shyamalan poderia ter se esforçado mais no personagem da garotiha adotada por Elliot e a esposa.

Assim, "Fim dos Tempos" até que começa bem, mas vai se esvaziando e ficando cada vez mais sem sentido conforme vai chegando ao fim. Mark Wahlberg se revela limitado no papel que poderia ter ficado melhor nas mãos de Joaquin Phoenix, por exemplo, com quem Shyamalan trabalhou em "Sinais" e "A Vila". Quanto ao diretor, talvez ele ainda tenha liberdade criativa dos estúdios para fazer seus filmes porque, provavelmente, eles custem relativamente pouco para serem produzidos. "Sinais" foi feito praticamente todo em uma só locação, e "O Fim dos Tempos" é passado quase todo com apenas alguns atores em campos neutros no interior dos Estados Unidos. Para quem depende tanto de um bom roteiro, Shyamalan precisa voltar aos bons tempos.
ps: tem muita gente, eu inclusive, confundindo o título brasileiro do filme. O certo é "Fim dos Tempos", e não "Fim dos Dias", que é um filme com o Swarzenegger.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Pecados Inocentes


O início de "Pecados Inocentes" me fez lembrar da frase atribuída ao pensador Rousseau, que declarou que os homens nascem bons, é a sociedade que os corrompe. O narrador nos informa que ele é o sorridente bebê que vemos em cena, fruto do fogo que é sua mãe, Barbara, e do gelo que é seu pai Brooks (Stephen Dillane). Bárbara é interpretada por Julianne Moore em uma daquelas performances que são maiores (e talvez melhores) que o próprio filme. Ela é uma mulher que se casou pelo dinheiro de Brooks Bakaeland, herdeiro do inventor da "Bakelita", um tipo de plástico que trouxe fortuna à família. Bárbara é um furacão de emoções contraditórias e gosta de ser o centro das atenções. Ela ama seu bebê mas, ao sair para uma reunião no famoso Stork Club, em Nova York, fica ensaiando como é que vai se referir a ele para as outras pessoas. "Devo chamá-lo de Anthony ou de Tony?". Ela mantém cartões de visitas de famílias ilustres, como os Duchamp, à vista na entrada das várias casas em que a família mora com o passar dos anos. O filme se passa de 1946 a 1972 em cidades como Nova York, Paris e Londres, além do litoral quente da Espanha.

Tony, o filho, vai crescendo sob a influência sempre presente da mãe, que o mima e o treina para se comportar bem diante dos convidados. Brooks, o pai, tem aquele ar cansado de quem precisa de um momento para si mesmo. Ele venera a história da família, principalmente o avô, e tenta lidar com as mudanças de humor da esposa, sem sucesso. Há uma cena forte em que, como que se vingando de Bárbara, o filme mostra Brooks fazendo sexo anal com ela, violentamente. O diretor de "Pecados Inocentes" (Savage Grace, 2007) é Tom Kalin, que faz do filme um espetáculo curioso. A produção é impecável e ele é todo tomado por cores fortes, bela fotografia ao ar livre e um bom elenco. Mas é tudo aparência. Por baixo, o mundo cheio de dinheiro dos Bakaelend está claramente com problemas. Tony cresce e se transforma em um jovem (interpretado por Eddie Redmayne) que é culto, rico e bonito, mas que ainda sofre com a influência de Bárbara e com a indiferença de Brooks. Na Espanha ele até tenta se envolver com uma bela garota chamada Blanca (Elena Anaya), mas sua opção sexual é claramente outra. Para complicar, o pai Brooks vê em Blanca uma chance de mudar de vida e se separa de Bárbara para morar com ela.

O filme é tão bonito plasticamente e a interpretação de Julianne Moore tão forte que fica difícil julgar se "Savage Grace", por si só, é um bom filme ou não. O diretor não tem pudores em mostrar cenas de nus masculinos e femininos ou cenas de homossexualismo. Julianne Moore atrai tanta atenção que a função de Anthony na trama fica diminuida mas, perto do final, seus problemas se tornam mais evidentes. A relação com a mãe é tão próxima que não tem barreiras, sejam mentais ou físicas (como em uma cena edipiana de sexo que pode chocar muita gente). Confesso que não sabia que o roteiro é baseado em uma história real (tirada do livro de Nathalie Robins e Steven M. L. Aronson) sobre um crime chocante que ocorreu em 1972. O filme é interessante e bem feito. Mas não é daquele tipo para sair "contente" do cinema.

trailer abaixo (cuidado, contém spoilers):


domingo, 8 de junho de 2008

Edifício Master

"Edifício Master" venceu o prêmio de melhor documentário no Festival de Gramado de 2002. O diretor é Eduardo Coutinho, diretor de "Peões", documentário "irmão" de "Entreatos", de João Moreira Salles, que acompanhou a campanha de Lula à presidência, "Jogo de Cena" (que brinca com a questão realidade/ficção em um documentário), entre vários outros.

"Edifício Master" é um prédio no Rio de Janeiro que fica a um quarteirão da famosa Praia de Copacabana. Era de se esperar que um endereço tão "nobre" abrigasse apenas classe média alta mas o documentário serve para desmistificar muitas ilusões. O prédio abriga mais de duzentos apartamentos conjugados, com uma população de aproximadamente quinhentas pessoas, de todos os tipos. E é desta diversidade que Coutinho se serve para retratar o que é o coração deste documentário: os habitantes. O filme não é sobre o prédio, mas sobre o ser humano. O filme é formado por uma série de entrevistas francas dos mais variados tipos ao próprio Eduardo Coutinho que, com sua fala tranquila e perguntas certas, consegue retirar confissões impressionantes dos moradores. Engraçado como a presença da câmera não intimida os entrevistados. Diria até que o contrário acontece; a chance (e até a necessidade) de expressão destas pessoas é tão importante que elas se abrem para declarar ressentimentos reprimidos, idéias e desejos. Há um casal de idosos que, na superfície, parece estar bem, mas quando a entrevista começa a mulher começa a falar dos problemas de relacionamento que vêm acontecendo. Ela diz que não é ciumenta mas reclama do fato do companheiro ficar olhando para outras mulheres na rua. Cita também uma tentativa de suicídio (tema recorrente no documentário, como se vê em outras entrevistas) e os quinze abortos que já fez. Já um outro casal idoso é a imagem da felicidade. Juntos há treze anos, os dois se conheceram através de anúncios e estão muito bem.

Outro tema que se repete é o da gravidez adolescente. Há uma garota que veio de Belo Horizonte que conta que não teve infância, pois engravidou aos 14 anos, do primeiro homem que teve na vida. Ela conta como foi reprimida pelo pai superprotetor e como, hoje, vive como garota de programa. Ela fala do assunto de forma extremamente franca, até surpreendendo Coutinho. Diz que o trabalho é "nojento" e que tem que beber todas as noites para conseguir realizá-lo, mas que faz isso porque tem que sustentar a filha. Do outro lado do espectro, há o depoimento de uma jovem bonita e de classe alta que também engravidou cedo e foi expulsa pelo pai do apartamento grande em que morava para ir para o Master. Ela diz que no início o apartamento era "claustrofóbico", mas que hoje é sua casa. Diz também que, se pudesse, isolaria acusticamente o apartamento porque não aguenta a invasão sonora que vem dos outros moradores o tempo todo.

Há os artistas, como uma banda formada por dois músicos e um... quem é aquela figura? O terceiro membro do grupo fica o tempo todo parado, mudo, vestindo uma capa de chuva amarela e uma espécie de capacete extraterrestre. Há uma "apresentação" apaixonada "My Way", com Frank Sinatra, de um morador que já morou nos Estados Unidos e que hoje vive da pensão que recebe de lá. Há também uma professora de inglês que, apesar de bem articulada, não consegue encarar Coutinho nem a câmera durante a entrevista. Timidamente, ela recita uma poesia sua em inglês e mostra um quadro que pintou. Falando em quadros, uma pintora gosta de criar paisagens que vê pela janela, mas que são geograficamente "incorretos".

Coutinho não segue a cartilha "tradicional" do audiovisual em seus documentários. Ele tem horror aos "inserts", que são imagens usadas normalmente para exemplificar ou ilustrar alguma coisa que o entrevistado está dizendo. Nos comentários em áudio do DVD, um produtor puxa a orelha de Coutinho por não mostrar os retratos que uma senhora cita repetidamente em sua entrevista, mas Coutinho diz que isso não faz seu gênero. Como editor de imagens, confesso que também senti falta delas para ilustrar vários dos depoimentos, mas o resultado é muito interessante. Coutinho não quer fazer o óbvio, como mostrar uma cena da praia quando alguém está falando sobre a praia. O documentário é sobre as pessoas e suas histórias, e não sobre imagens. Edifício Master sequer tem uma tomada externa do edifício, o que é surpreendente e até revolucionário. Mesmo a ordem das entrevistas não segue uma lógica tradicional. O DVD, aliás, trás o recurso de assistir às entrevistas em ordem aleatória, criando novos documentários a cada exibição. O que fica de "Edifício Master" é a diversidade humana frente à vida, à morte e o fantasma cada vez mais presente da solidão. E o outro solitário pode esta apenas à distância de uma parede.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O Sonho de Cassandra



"O Sonho de Cassandra" é mais um filme da "fase britânica" de Woody Allen. O diretor, famoso por seus filmes passados em Nova York, nos últimos anos se apaixonou por Londres e fez filmes como o bom "Machpoint" (2005) e "Scoop" (2006), que eu não assisti. Allen tem seus altos e baixos, lançando um filme novo praticamente todos os anos. É de certa forma reconfortante ver um filme que comece simplesmente mostrando os créditos (de forma simples, letras brancas em fundo preto), característica dos filmes de Allen. A equipe e elenco impressionam, como a fotografia do veterano Vilmos Zsigmond ou a trilha sonora característica de Philip Glass. No elenco, dois grandes atores, Ewan McGregor e Colin Farrell são Ian e Terry, irmãos que compram um pequeno veleiro no início do filme e o batizam de "O Sonho de Cassandra". O nome veio de um cachorro que Terry, jogador inverterado, apostou nas corridas. "Cassandra", assim me lembra a Wikipedia, vem da mitologia grega; o deus Apollo lhe deu o dom da profecia por causa de sua grande beleza, mas ela não retribuiu seu amor. Ela assim recebeu a maldição de que ninguém acreditaria em suas previsões (como a queda de Tróia, por exemplo), e teria enlouquecido.

Ian e Terry estão sempre no limite entre o risco e a malandragem. Terry (Farrell) está sempre devendo dinheiro a alguém por causa de suas apostas em corridas ou jogos de pôker. Ian (McGregor) é boa pinta e empreendedor, mas sempre sonha alto demais e engana suas namoradas usando carros esportes que ele empresta da oficina de Terry. Uma destas garotas é Angela (Haylay Atwell), uma bela atriz de teatro que aparentemente faria de tudo para conseguir um grande papel em Hollywood. O filme começa bem, mostrando as malandragens dos irmãos e sua complicada relação com os pais. A mãe (Clare Higgins, muito bem) está sempre ralhando com o pai e falando bem de um tal de "tio Howard", que seria um parente rico dono de hotéis e restaurantes em vários países do mundo. Os diálogos de Allen são interessantes e o filme, até aqui, é dirigido de forma impecável. Há uma cena curiosa (e muito bem fotografada) em que os irmãos levam as namoradas para passear no veleiro e eles estão cantando "Show me the way to go home", que remete diretamente ao clássico "Tubarão" (1975), de Steven Spielberg. Em outras palavras, algo muito errado está para acontecer, e rápido.

O problema é que o filme, de repente, perde um pouco o foco justo quando o misterioso "tio Howard" (ninguém menos que Tom Wilkinson) entra em cena. Tudo apontava para a chegada de mais um trambiqueiro, mas não é o que acontece. Aparentemente Howard é mesmo rico e bem sucedido, mas ele tem um problema. Um sócio está para testemunhar contra ele no tribunal e isso pode enviá-lo para a cadeia. Terry está devendo uma fortuna para agiotas e precisa da ajuda financeira do tio para sobreviver, assim como Ian, que tem planos de se mudar para a Califórnia com Angela. Howard, então, pede ajuda para os sobrinhos para "se livrarem" do tal sócio e, em troca, ele os ajudaria financeiramente. O filme, infelizmente, começa a decair a partir deste momento. Colin Farrell, que não é mal ator, começa a ter problemas de consciência não muito convincentes mais por culpa do roteiro do que por sua interpretação. De jovem irresponsável, mas irreverente, ele de repente passa a um alcoólatra que também tem problemas com remédios, além das crises de consciência. Allen escreve diálogos cheios de culpa freudiana que, repito, não soam muito convincentes, assim como as situações vividas pelos personagens. As cenas que levam ao crime em si tem certo suspense e sem dúvida são bem feitas, mas não são suficientes para justificar os problemas que o filme enfrenta. Allen já esteve muito melhor em "Crimes e Pecados" (1989), que também lidava com questões morais a respeito de assassinato mas de forma muito mais profunda e equilibrada. "O Sonho de Cassandra", apesar de seus bons momentos, acaba soando falso e vazio.

domingo, 1 de junho de 2008

Trilogia das Cores

O diretor polonês Krzysztof Kieslowski (que morreu em 1996, aos 55 anos, de ataque cardíaco) era especialista em filmes em série. Católico, realizou "O Decálogo", um conjunto de filmes baseados nos Dez Mandamentos. Com as comemorações dos duzentos anos da Revolução Francesa, em 1989, Kieslowski conseguiu financiamento francês para realizar mais uma série, desta vez baseada nos ideais da revolução e nas cores da bandeira francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. Azul, branco e vermelho.


A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, 1993) conta a história de Julie (a jovem, bela e talentosa Juliette Binoche), uma mulher que perde o marido e a filha em um acidente de carro. O marido era um compositor famoso que estava compondo um concerto em homenagem à unificação da Europa. Julie se fecha atrás de um rosto fechado e incapaz de sentir qualquer emoção. Quando ela volta à sua casa encontra uma empregada chorando. Ela lhe pergunta: "Por que você está chorando?", e a empregada responde: "Porque a senhora não chora". Julie decide tentar mudar de vida e se muda do campo para a cidade grande, decidida a apagar o passado e nunca mais se ligar a mais ninguém. Mesmo assim, há uma cena em que ela pega o telefone e liga para um amigo, perguntando simplesmente: "Você ainda me ama? Então venha". Eles fazem amor mas ela parece não ter sentido nada. Kieslowski, auxiliado por seu ótimo compositor Zbigniew Preisner, usa a música como forma de indicar que as emoções não abandonaram totalmente Julie. Em alguns momentos, por exemplo, a tela fica simplesmente escura e escutamos alguns acordes da orquestra tocando parte da trilha (do suposto concerto perdido). É como se Julie carregasse a música, e todas as suas tristes memórias, presas dentro de si. Há também a desconfiança de que, na verdade, era ela quem compunha as músicas para seu marido. A bela fotografia e a direção de arte tratam de fazer com que todo o filme seja azulado. Binoche está maravilhosamente contida, e consegue transmitir emoção apenas com o olhar. O tema da música é levado por todo o filme. Em frente ao café que frequenta, por exemplo, Julie vê um músico de rua que, com a flauta, curiosamente toca as mesmas notas do concerto que ela escuta repetidamente na cabeça. Kieslowski gosta de colocar esses "acasos" em seus filmes, e há situações similares ou encontros casuais mesmo entre os personagens da trilogia. As emoções (ou a música) acabam vencendo no final, em uma sequência de arrepiar, mostrando os personagens do filme enquanto o concerto é escutado na trilha sem interrupções pela primeira vez. Juliette Binoche é mostrada fazendo amor como que através de um vidro, em um curioso efeito visual, como se ela estivesse finalmente exposta ao mundo e a seus sentimentos.

A Igualdade é Branca ( Trois Couleurs: Blanc, 1994) tem um tom bem mais leve e cômico que o filme anterior. O roteiro trata de um casal em crise. O polonês Karol Karol (Zibgniew Zamachowski) está sendo abandonado pela esposa Dominique (Julie Delpy). Em um tribunal, ela explica ao juiz que o motivo do divórcio é que o casamento não foi consumado. Envergonhado, Karol admite que não conseguiu fazer amor com a esposa desde o casamento, seis meses antes, mas que ele quer tentar salvar o relacionamento. Dominique não só não quer mais continuar casada como, aparentemente, quer acabar com a vida do ex-marido. Ela ateia fogo no salão de beleza deles e diz para a polícia que o culpado foi Karol. Ele tenta voltar para a Polônia mas está sem passaporte e sem dinheiro. Uma das cenas mais engraçadas do filme é o modo pelo qual Karol volta à Polônia: dentro de uma mala de viagem, embarcada por Milokaj (Janusz Gajus) um colega polonês que ele conheceu na estação de metrô de Paris. A idéia da "igualdade", ou melhor, da desigualdade, fica aparente na diferença de tratamento que imigrantes como Karol tem. De volta à Polônia, além de trabalhar como cabeleireiro no salão do irmão, Karol começa a trabalhar como segurança para um empresário e, com muita sorte e esperteza, começa a ganhar dinheiro e, aos poucos, elabora um plano para se vingar da ex-esposa. "A igualdade é branca" é o filme mais leve da trilogia, mas não deixa de ter seu charme.


A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, 1994) lembra um pouco mais o primeiro filme. Até porque a personagem principal, Valentine, é interpretada por uma Iréne Jacob que me lembrou muito Juliette Binoche, de "Azul". Só que Valentine (que é uma modelo) é bem mais otimista e menos sofrida que Julie, apesar de ter sua cota de problemas, como um irmão viciado em drogas. Uma noite ela acidentalmente atropela uma cadela chamada Rita, que tem o nome e o endereço escritos na coleira. Valentine vai até o endereço e encontra um senhor amargo e indiferente com o destino de sua cadela. Ela leva Rita ao veterinário e cuida dela, mas fica curiosa com o velho, e volta à casa dele. Lá ela descobre que ele é um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant) que perdeu a esperança na Justiça e nos seres humanos. Como passatempo ele fica escutando as conversas telefônicas dos vizinhos através de um aparelho, o que inicialmente choca Valentine. Mas percebemos que, ao mesmo tempo que ela quer ir embora, parte dela é atraída seja pela conversa dos vizinhos ou pela figura triste do velho. Uma curiosa ligação acontece entre os dois. O filme tem uma série de tramas paralelas curiosas e interligadas. Há um vizinho de Valentine, por exemplo, que acabou de se tornar um juiz e que tem uma vida muito parecida, sabemos depois, com a juventuda da velho juiz. Valentine tem um namorado morando na Inglaterra que liga para ela todas as noites para checar se ela está em casa e, ciumento, fica fazendo perguntas sobre o dia dela. O tema da traição (e da Justiça) está presente nos três filmes da trilogia. No primeiro, a personagem de Juliette Binoche descobre que o marido recém falecido tinha uma amante que é advogada no mesmo tribunal em que o divórcio de Karol e Dominique é julgado no segundo filme. No terceiro, tanto o velho juiz quanto o rapaz foram traídos por suas companheiras e perdem a fé na Justiça. Irene Jacob, bela e inocente, ainda acredita nos seres humanos e, aos poucos, vai trazendo o juiz de volta à "vida". Há cenas de pura beleza como a sessão de fotos de Valentine, com o fundo vermelho sangue, ou seu desfile na parte final do filme. Apesar dos problemas com o namorado, Valentine resolve partir para a Inglaterra encontrá-lo, e ao final um acontecimento trágico junta todos os personagens da trilogia no mesmo lugar.

Kieslowski dirige com elegância e tem preferência por certos planos, como belos closes em perfil de suas atrizes, ou detalhes mecânicos como a roda do carro do primeiro filme, a esteira que transporta a mala no segundo, ou a sequência de abertura do terceiro, que acompanha os cabos telefônicos de um aparelho ao outro. Há uma série de dicas visuais ligando um filme ao outro, como as cores de certas roupas ou objetos de cena. Ou então certas piadas como uma senhora que aparece nos três filmes na mesma situação, tentando depositar uma garrafa de vidro em uma lixeira alta demais para ela. Só Irene Jacob, em "Fraternidade", ajuda a senhora a jogar a garrafa. Kieslowski declarou, terminada a trilogia, que estava se aposentando e que jamais faria outro filme. Os DVDs contém uma entrevista dada a Rubens Ewald Filho em que ele diz que cinema é apenas sua profissão, e que ele pode parar quando quiser. Soa um pouco duro escutar isso de alguém tão competente na fabricação de suas imagens. Se ele falava sério ou não, o caso é que o cinema perdeu Kieslowski, morto por um ataque cardíaco, dois anos após filmada sua bela e sensível trilogia.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Caché


Caché ("escondido", em francês) é um exercício de cinema de suspense. E é também um exercício de cinema como manipulação da imagem e do ponto de vista de quem filma (e de quem assiste). Os créditos iniciais, pequenos e de difícil leitura, são todos exibidos sobre um plano estático: uma rua que dá para uma casa. Vemos o portão, vemos uma fileira de janelas e o sótão. Escutamos apenas som ambiente...carros passando, passos de pessoas. De repente, a imagem começa a voltar sozinha e vemos marcas de fita rebobinando na tela, e por um instante checamos o controle remoto do DVD para ver se não apertamos o rewind acidentalmente. Não, quem está voltando a imagem (e o filme, por consequência), são os personagens na tela.


A casa pertence a um apresentador de televisão chamado Georges Laurent (o sempre competente Daniel Auteuil), sua esposa Anne (Juliette Binoche, muito bem neste filme) e seu filho adolescente. A suposta harmonia familiar está sendo ameaçada por misteriosas fitas de video que estão sendo deixadas anonimamente na porta da casa. Elas sempre apresentam a mesma coisa: uma imagem da casa gravada do ponto de vista da rua, por um cameraman escondido. Quem estaria gravando estas imagens? E para que? O casal vai até a polícia, mas eles dizem que não podem fazer nada. É curioso o jogo do diretor Michael Haneke em mostrar primeiro a imagem do ponto de vista da camera escondida, e depois, quando conhecemos os personagens da casa, o ângulo se inverte. Em uma dessas imagens escondidas feitas durante a noite, um carro chega e seus faróis lançam uma sombra bem nítida de uma câmera na parede à esquerda da imagem. Mas quando o personagem principal desce do carro e passa ao lado da suposta câmera ele não a vê. Teria sido a sombra acidental durante a filmagem ou o diretor está nos dizendo alguma coisa?


O fato é que há muitas coisas escondidas neste filme, além do cameraman misterioso. Aos poucos, junto com as fitas, começam a chegar desenhos que mostram um garoto com sangue na boca, ou então uma galinha com o pescoço cortado, e pela reação de Georges percebe-se que ele está começando a se lembrar de algo. Ao mesmo tempo, estranhas (e assustadoras) cenas começam a aparecer rapidamente no filme, às vezes entrecortadas com as imagens das fitas, e não sabemos mais o que é real ou imaginação dos personagens. Juliette Binoche está muito bem como uma mulher aparentemente segura de si que, de repente, não sabe mais em quem confiar e se assusta com o simples tocar do telefone. Através de pistas nas imagens Georges tem uma idéia de quem possa ser o remetente das fitas e vai atrás da pessoa. O que ele encontra se torna mais uma peça no complicado quebra cabeças apresentado no filme. E por que será que, de repente, ele começa a mentir para a esposa?


"Caché" pode, talvez, frustrar um espectador mais convencional, que espera ter todas suas perguntas respondidas e/ou um filme mais tradicional. O filme cria suspense às vezes pela supressão de informações, nos deixando "no ar". Em outros momentos, o suspense é criado pela simples imobilidade da câmera, mostrando uma sequência que acontece inteira diante de nossos olhos, sem cortes de imagem, mas nem por isso mais reveladora. Mais do que entregar respostas prontas, "Caché" levanta questões sobre o que é a imagem e qual sua validade como verdade absoluta. Um sonho é uma imagem? E uma lembrança? Interessante também como a TV, quando não está servindo para passar as imagens das fitas, geralmente está passando imagens dos notíciários sobre a Guerra do Iraque ou outroas problemas mundiais. Novamente, fica a questão da validade e da importância das imagens.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Bullitt (ou Cut to the chace!)


Há uma expressão no cinema americano que diz “Cut to the chace!”. Literalmente, significa “Corte para a perseguição!”. A frase diz muito sobre o filme americano tradicional que, no fundo, nada mais é do que uma série de perseguições entrecortadas por algum diálogo. E isso vem desde os primórdios de Hollywood. “The Great Train Robbery” (“O grande roubo do trem”, de 1903), de Edwin Porter, assombrou as platéias do início do cinema com suas cenas de perseguição. O filme serviu de base para, basicamente, todo o cinema americano que se seguiu.

Falando em perseguição, um clássico vem à mente: o filme “Bullitt”, interpretado por Steve McQueen em 1968. Dirigido por Peter Yates, “Bullitt” tem uma das mais famosas cenas de perseguição do cinema. Steve McQueen era piloto de moto e carro e diz a lenda que ele pilotou seu Mustang pessoalmente durante toda a seqüência. Irônico pensar que a famosa perseguição dura por volta de onze minutos em um filme com aproximadamente duas horas; “O grande roubo do trem” de Porter tinha, no total, doze minutos de duração.

A seqüência deu ao filme o Oscar de montagem (edição) em 1969 e, apesar de conter certas falhas óbvias (reparem que o mesmo Fusca verde aparece pelo menos três vezes durante a seqüência), é um primor de ritmo e montagem. Curioso também como os papéis de perseguidor e perseguido se invertem. Steve McQueen interpreta um policial encarregado por Robert Vaughn de proteger uma testemunha chave que iria depor contra a “Organização” (provavelmente a máfia). A testemunha acaba sendo morta pelos dois assassinos profissionais que são perseguidos por McQueen na famosa cena. “Bullitt” foi dos precursores de um tipo de filme policial que se consolidaria nos anos 70 com Clint Eastwood e seu “Dirty Harry”.

Engraçado ver o nascimento de certos clichês como o policial que passa por cima da lei para conseguir seu objetivo, ou o chefe de polícia que dá um sermão a seu subordinado, para em seguida liberá-lo, e assim por diante. O filme tem uma bela e realista fotografia em Cinemascope de William A. Fraker e trilha do famoso compositor Lalo Schifrin. A montagem vencedora do Oscar é de Frank P. Keller. Notem também a presença de Robert Duvall como um motorista de táxi. Um DVD duplo foi lançado uns anos atrás com vários extras, como um documentário sobre a arte invisível da edição. O filme serviu de inspiração para várias outras produções, como “Fogo contra Fogo” (“Heat”, 1995), grande filme de Michael Mann com Robert DeNiro, Al Pacino e Val Kilmer. Toda a seqüência final passada no aeroporto de “Fogo contra Fogo”, por exemplo, é muito semelhante à seqüência final de “Bullitt”. A maravilhosa Jacqueline Bisset está em “Bullitt” apenas como “material decorativo”. Há só uma cena, francamente desnecessária, em que a personagem de Bisset fala mais do que alguns segundos, questionando a moral e os sentimentos de Bullittt. Steve McQueen era famoso por seu temperamento ruim e por ataques de ciúme contra companheiros de tela, principalmente em seus filmes em “grupo” como “Sete Homens e um Destino” e “Fugindo do Inferno”. Mas em “Bullittt” ele reina sozinho. E o que importa, de verdade, é quando o filme corta para a próxima cena de perseguição.
Cut to the chace!

Veja abaixo a perseguição em Bullitt

Veja "The Great Train Robbery":

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Morre ator e diretor Sydney Pollack



Morreu o ator e diretor americano Sydney Pollack, de 73 anos, de câncer, nos EUA. Além de diretor, Pollack era bom ator, econômico, e chegou a trabalhar com Stanley Kubrick, em "De Olhos bem Fechados" ("Eyes Wide Shut", 1999), no papel de um médico. Recentemente fez o papel do chefe de George Clooney em "Conduta de Risco" ("Michael Clayton", 2007), interpretando o inescrupuloso presidente de uma firma de advocacia. Fez participações especiais em diversos seriados como "Mad About You", "Família Soprano" e "Frasier".

Como diretor, trabalhou sempre com grandes astros como Paul Newman em "Ausência de Malícia" ("Absence of Malice", 1981), Dustin Hoffman na comédia "Tootsie" (1982), Tom Cruise em "A Firma" ("The Firm", 1993), Harrison Ford no romance "Sabrina" (1995) e no drama "Destinos Cruzados" (Random Hearts, 1999) e Sean Penn e Nicole Kidman em "A Intérprete" ("The Interpreter", 2005).

Pollack trabalhou com Robert Redford em quatro filmes, ganhando o Oscar de Melhor Diretor por "Entre dois amores" ("Out of Africa", 1985), também com Meryl Streep no elenco. Era um bom diretor, competente e cuidadoso com os atores e atrizes sob seu comando. Gostava muito de seu trabalho como ator também, sempre elegante e com classe. "Destinos Cruzados", com Harrison Ford e a britânica Kristin Scott Thomas, foi um filme pouco visto e considerado ruim, mas que eu acho bastante interessante. O roteiro sem dúvida é falho, mas gostei do modo como Pollack conseguiu elevar o material e criar um quadro muito bem feito das relações entre homens e mulheres e como cada um enfrenta de modo diferente a questão da traição e do adultério. "A Intérprete" também foi um suspense competente, explorando a trama e as boas interpretações de Sean Penn e Nicole Kidman. Uma perda considerável para o cinema.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal



A espera finalmente terminou. Após 19 anos de rumores, fofocas, boatos e roteiros cancelados, o maior aventureiro do cinema, Indiana Jones, está de volta. E a boa notícia é que "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" é tudo o que se podia esperar de um bom filme de Indiana Jones.


Pessoalmente, considero "Caçadores da Arca Perdida" (1981), o primeiro filme da série, o melhor filme de aventura de todos os tempos. O personagem, o arqueólogo aventureiro Indiana Jones, nasceu da vontade de Steven Spielberg de dirigir um filme da série James Bond. Um dia ele comentou isso com o colega George Lucas, que lhe falou da idéia de recuperar a magia dos antigos seriados de aventura do cinema usando da tecnologia moderna de efeitos especiais e um grande orçamento. Lucas se juntou a Philip Kauffman para criar o roteiro de "Caçadores", que foi um grande sucesso quando lançado. O filme tinha aventura sem parar, um personagem humano o suficiente para ter medo de cobras, vilões detestáveis (na forma de nazistas interessados em artefatos religiosos), a produção de George Lucas, direção de Steven Spielberg e música do mestre John Williams. Claro que se tornou um clássico instantâneo. Para interpretar o herói, Harrison Ford, grande sucesso como Han Solo na outra série de Lucas, Guerra nas Estrelas. A princípio Lucas não queria Ford no papel e pensaram em chamar Tom Selleck, da série Magnum, para seu lugar. Quando o contrato de Selleck apresentou problemas, Ford assumiu o posto que lhe cabia de direito e deu vida ao personagem.


Indiana Jones voltaria em "O Templo da Perdição", em 1984, com menos brilho. George Lucas queria um filme mais sombrio e assustador que o anterior e ele apresentou cenas muito violentas para as crianças que lotaram os cinemas. Spielberg não ficou satisfeito, Harrison Ford teve problemas nas costas durante as filmagens e ficou afastado por semanas, e o filme sofreu com isso. O que não impediu que fosse um grande sucesso de bilheteria e tivesse grandes sequências de ação, como a perseguição dentro de uma mina abandonada.


Em 1989 eu entrava no cinema para ver a estréia de "Indiana Jones e A Última Cruzada", que conseguiu recuperar o "clima" do primeiro filme, o bom humor e, de quebra, trazia James Bond em pessoa, Sean Connery, para viver o pai de Indiana Jones. O filme era ótimo e aparentemente encerrava a série com chave de ouro, com os personagens partindo em direção ao pôr do sol ao som da marcha de John Williams. Era o final da trilogia Indiana Jones. Harrison Ford disse que não voltaria ao personagem, Spilberg partiu para projetos mais sérios e Lucas voltou para a série Star Wars (com resultados duvidosos).


Mas os anos foram passando, Spielberg foi ganhando Oscars e Harrison Ford, com excessão de "O Fugitivo", de 1994, nunca mais fez um filme que agradasse ao público de verdade. George Lucas criou uma série de TV, o "Jovem Indiana Jones" que, apesar de bem produzida e de lidar com temas históricos, não tinha muito a ver com o espírito do personagem. A internet começou a espalhar rumores de uma continuação. Os temas eram vários: Indy ganharia uma filha e partiria em aventuras com ela. Indiana Jones iria enfrentar os russos durante a Guerra Fria, ou talvez fosse investigar o suposto OVNI que caiu em Roswell, Novo México, em 1947. Ele iria procurar pela cidade perdida de Atlântida ou, quem sabe, iria atrás da mítica Eldorado. Supostos roteiros vazavam na rede, nomes de roteiristas eram anunciados e desmentidos, até que, finalmente, era oficial. Frank Darabont, renomado diretor e roteirista de "Um Sonho de Liberdade", "À Espera de um Milagre" e "Cine Majestic", entre outros, havia sido contratado para escrever o roteiro. Spielberg ficou satisfeito com o resultado e até Harrison Ford gostou e disse que vestiria de novo o chapéu pelo roteiro de Darabont. Mas George Lucas, na última hora, e ainda envolvido com seus filmes sobre Star Wars, vetou o projeto.


Se você leu até aqui e não quer saber detalhes do novo filme, sugiro que pare por aqui e volte depois de ver o filme.

Finalmente a espera acabou. Indiana Jones está de volta em um roteiro (escrito por David Koepp) que, incrivelmente, conseguiu juntar várias das teorias pensadas acima na forma de um grande filme de aventura. Assim, estamos em 1957 e Indiana Jones não está mais lutando com os nazistas. Estamos na Guerra Fria e o clima de paranóia contra os comunistas está à solta nos Estados Unidos. Os russos levam Indy para a famosa "área 51", para um galpão cheio de caixas que são imediatamente familiares para os fãs da série: foi ali que a Arca da Aliança, encontrada por Indy em "Caçadores", foi guardada. Cate Blanchett interpreta a vilã, uma soviética chamada Irina Spalko, que faz Indiana Jones encontrar os restos do suposto alien que caiu em Roswell dez anos antes. O roteiro parte disso e nos leva para uma série de situações, uma mais deliciosamente absurda que a outra, até terminar no meio da Floresta Amazônica. Indy enfrenta um teste nuclear no estado de Nevada (do qual ele foge de forma inusitada), conhece um rapaz arrogante (Shia LaBeouf) que o leva até o Peru atrás de uma "Caveira de Cristal" que teria poderes místicos e que levaria à Eldorado. De quebra, reencontra um amor antigo, Marion Ravenwood (Karen Allen, de Caçadores da Arca Perdida, considerada pelos fãs a "verdadeira" namorada do herói) e descobre que o rapaz é seu filho. Claro que nada pode ser levado à sério. A começar pelo fato de que Harrison Ford estava com 64 anos durante as filmagens. Apesar disso, Ford recuperou o antigo "charme" e o personagem está de volta, com o mesmo modo de andar, falar e esmurrar os adversários.


Colaboradores antigos como Denholm Elliot (que morreu em 1992), que interpretava Marcus Brody, ou John Rhys-Davies (Sallah), não estão mais presentes. Também não está de volta Sean Connery como pai de Indiana Jones, por motivos óbvios. Mas a adição de Shia LaBeouf como filho de Indy foi uma escolha acertada. LaBeouf está "quente" em Hollywood no momento e tem participado de produções de sucesso como "Transformers" e "Paranóia". Cate Blanchett, sempre talentosa, está apropriadamente exagerada como a vilã soviética de sotaque carregado e Ray Winstone faz o papel de um amigo não muito confiável de Jones. Para completar o elenco, John Hurt faz o papel de um arqueólogo meio maluco que originalmente descobriu a Caveira de Cristal.


Spielberg dirige com segurança e está em casa nas cenas de perseguição à pé, de moto, de carro, caminhão, barco e qualquer coisa que se mova que acontecem no filme. O clima de matinê reina absoluto e há cenas absurdas, mas divertidas, como uma perseguição em que os personagens ficam pulando de um carro para outro, ou até mesmo duelando com espadas à toda velocidade, desviando por mágica das árvores da floresta. As Cataratas do Iguaçu mudam de local e vão parar lá no Amazonas, para mais algumas cenas absurdas. E tudo termina em uma seqüência espetacular de efeitos especiais, com Indiana Jones em primeiro plano, testemunhando uma mudança na paisagem realizada pelos mágicos da Industrial Light and Magic, a veterana empresa de efeitos especiais da Lucasfilm.


Confesso que me surpreendi com a receptividade do filme durante a pré-estréia em que fui. As duas sessões em que estive (sim, vi o filme duas vezes) estavam lotadas, e grande parte do público me pareceu jovem demais para sequer ter nascido antes dos 19 anos que se passaram desde o último filme. Prova de que Indiana Jones se tornou parte da cultura popular e já é um clássico do cinema. "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" é uma boa pedida. A espera, afinal, valeu a pena.

domingo, 18 de maio de 2008

Paixão Proibida



Em meio à névoa, distinguimos as formas de uma mulher de costas, se banhando. A câmera vai se aproximando da imagem em meio ao vapor que sobe da água e não sabemos se a figura é real ou apenas um sonho. Não me lembro agora quem foi que disse que o oriente nada mais é do que uma miragem do ocidente, mas é o que esta imagem inicial me passou. Há "algo" no oriente que provoca uma reação nos ocidentais, uma impressão de mistério, de algo que deve ser revelado. O problema é que, de perto, talvez o mistério não seja assim tão interessante, ou o que se esperava. É desse mistério que "Paixão Proibida" ("Silk", seda, no título original) trata. O filme é uma história de amor... mas qual amor? Será o amor que o jovem Herve Joncour (Michael Pitt) sente pela bela esposa Helene (Keira Knightly)? Ou o amor que ele encontra, ou acha que encontra, do outro lado do mundo, no Japão?


Herve mora em uma pequena cidade francesa, no século 19, e está de licença do exército. Ele se apaixona por Helene e os dois se casam, mas eles estão fadados a passarem pouco tempo juntos. Um empresário local, Baldabiou (Alfred Molina) reativou a produção de seda local e está trazendo grande riqueza para a cidade. O problema é que uma doença desconhecida está matando os bichos da seda e Baldabiou precisa que Herve parta para o Japão para buscar ovos saudáveis para continuar a produção. A viagem é longa e passa por toda Europa e Ásia, em pleno inverno, até chegar ao outro lado do mundo. A fotografia do filme é muito boa e vemos belas paisagens pela França, Áustria, Rússia, China e finalmente Japão. Fica difícil no mundo globalizado em que vivemos imaginar como tudo deveria ser lento e trabalhoso naquela época, e talvez o filme seja lento exatamente por isso. Herve finalmente chega a uma pequena vila onde consegue comprar os ovos do bicho da seda. Lá ele conhece um samurai chamado Hara Jubei (Kôji Yakusho), que está às voltas com problemas políticos internos, e sua concubina. É então que Herve se apaixona, ou acha que se apaixona, pela garota (de quem nem sabemos o nome, interpretada por Sei Ashina).


Herve volta à Europa e para a esposa e embora tudo pareça ir bem ele não consegue se esquecer do Japão e da moça misteriosa. O filme, assim, é basicamente um embate entre esses dois mundos. Herve ama a esposa de verdade, mas não consegue se livrar da "miragem" do outro lado do mundo, e a necessidade de buscar mais ovos o manda ao Japão por outras ocasiões. "Paixão Proibida" é, ao mesmo tempo, bonito e decepcionante. Não deixa de ser bom, de vez em quando, ver no cinema um filme sobre pessoas e sentimentos, e não apenas efeitos especiais e explosões. O problema é que o filme talvez seja sutil demais, lento demais, mesmo que, o tempo todo, nos apresente magníficas imagens para se olhar. Alguns pontos da história me lembraram "A Época da Inocência", de Martin Scorsese, que também lidava com um jovem casal e a fascinação de um homem por outra mulher. Havia até uma cena, perto do final, em que o personagem de Daniel Day-Lewis estava olhando umas gravuras japonesas e pensando em largar tudo para partir para uma longa viagem.


"Paixão Proibida" é um filme bonito e bem feito, mas o roteiro deixa um pouco a desejar. Há algumas questões que são levantadas, mas não são bem explicadas. Por exemplo, qual a razão de apresentar uma vizinha de Herve e Helene que foi abandonada pelo marido? Ela tem um filho pequeno e, por vezes, têm-se a impressão que algo vai ser "revelado" sobre eles, mas nada acontece. Há também uma cena em que, no Japão, um comerciante de armas alemão diz a Herve que a concubina não seria japonesa. De onde ela veio então? E qual a relevância disso para o roteiro?


A direção é de François Girard, que baseou a história em um livro de Alessandro Baricco, e a produção é internacional (França, Itália, Japão). A trilha sonora é do veterano Ryuichi Sakamoto e é bonita, embora seus solos de piano, como o filme, também se estendam demais.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Shine a Light


Martin Scorsese declarou certa vez que ele é um músico frustrado. Quem está familiarizado com seus filmes certamente já notou como a música é um ponto forte não só sonorizando a história, mas servindo como força motriz para a narrativa, para movimentos de câmera e momentos chave do roteiro. Já em “Mean Streets” (1973), um jovem Robert DeNiro aparecia na tela ao som de “Jumpin´ Jack Flash”, dos Rolling Stones. E a música de Mick Jagger e Keith Richards invariavelmente apareceu em quase todos os filmes da carreira de Scorsese. É de se admirar que um filme como “Shine a Light”, o tardio encontro entre os Stones e Scorsese, tenha demorado tanto tempo para aparecer. Scorsese tem credenciais de sobra em documentários de música. Ele fez parte da equipe de filmagem e edição do lendário documentário sobre o Festival de Woodstock, que inovou na técnica ao usar imagens divididas na tela (split screen), algo tecnicamente complicado de se fazer naquela era analógica do cinema. Ele também dirigiu “The Last Waltz” (1978), que documentou a última turnê da banda canadense “The Band” e, recentemente, realizou “The Blues” (2003), uma série para a televisão, e “No Direction Home” (2005), sobre a vida e arte de Bob Dylan.

Shine a Light” é montado a partir de duas apresentações ao vivo dos Rolling Stones em Nova York, em 2006. No início do filme vemos cenas em preto e branco com um making of da preparação para os shows. Apesar da mútua admiração, nem tudo parece ir bem entre os Stones e Scorsese. Mick Jagger não está muito satisfeito com o cenário do show, que teria sido projetado por Scorsese. Já o cineasta reclama da falta de informações com relação ao show em si, principalmente quais as músicas que serão tocadas e, o mais importante, em que ordem. Metódico, Scorsese tem planilhas com direções de câmera e iluminação para praticamente todas as músicas dos Stones, mas está visivelmente preocupado por não saber em que ordem elas serão apresentadas. Sua solução é deixar preparadas uma série de câmeras de cinema rodeando todo o palco, para não perder nenhuma tomada. Em dado momento escutamos Mick Jagger resmungar sobre como a platéia vai reagir com todas aquelas câmeras na frente deles. Mas isso me pareceu um pouco de drama para nos preparar para o show em si. Há até espaço para um pouco de política (ou propaganda política?) quando Bill Clinton e a esposa pré-candidata à presidência, Hillary, aparecem com um monte de convidados para cumprimentar a banda.

Quando os Stones entram no palco tudo isso é colocado de lado. As câmeras digitais dão lugar às imagens de cinema de um colorido espetacular e o show se inicia. Mick Jagger é uma máquina. Com 65 anos nas costas ele tem tanta energia quanto toda aquela iluminação no palco e é difícil acreditar que ele esteja fazendo isso há 45 anos. A música dos Stones, com sua mistura de rock, blues e country, é capturada pelas câmeras de todos os ângulos possíveis e a edição de David Tedeschi valoriza pequenos detalhes como a constante troca de olhares entre os guitarristas Ronnie Wood e Keith Richards, os flertes entre Jagger e a backing vocal, e a presença discreta do baterista Charlie Watts tocando (como um “gentleman”) no fundo do palco. É tecnicamente perfeito, mas como documentário o filme deixa um pouco a desejar. Há algumas interrupções mostrando entrevistas antigas da banda ao longo da carreira, geralmente respondendo à mesma pergunta (“quanto tempo vocês ainda pretendem fazer isso?”), mas o filme é centrado no show mesmo. Assim, não espere ver muito da banda na intimidade. Em termos de filmes de rock eu prefiro Pink Floyd Live at Pompeii, ou The Song Remains the Same do Led Zeppelin, ou Rattle & Hum, do U2. E achei a seqüência de músicas um pouco pesada demais. São duas horas seguidas de sucessos tocados a todo volume pela banda original mais backing vocals, um grupo de metais, percussão e a presença de convidados como Jack White (que não conheço e, francamente, não está à altura da apresentação), o bluesman Buddy Guy (dando um show) e até Christina Aguilera (correta). O filme não tem muito do “toque” de Scorsese, mas certamente é extremamente bem feito e captura a energia aparentemente sem fim desta banda.

Mais sobre Scorsese e sua obra em meu mini documentário:

sábado, 10 de maio de 2008

Cururueiros - Os Repentistas Paulistas


O Cine Paradiso, em Campinas, exibe hoje o documentário "Cururueiros - Os Repentistas Paulistas", produzido pelas jornalistas Cleide Elizeu, Inaiana Vicentin e Renata Oliveira. O documentário foi realizado como projeto de conclusão de curso de jornalismo da PUC-Campinas, em 2007, e foi gravado nas cidades de Piracicaba, Votorantim e Sorocaba, no Médio Tietê Paulista. A edição e arte do documentário foi feita por João Solimeo.


Cururu é uma manifestação folclórica do interior paulista em que cururueiros (repentistas) e violeiros desafiam uns aos outros na forma de música e versos, seguindo regras pré estabelecidas e rimas específicas. Os artistas cantam na forma do "Sagrado" (baseado em histórias religiosas) e do "Profano", mais popular. O documentário mostra entrevistas com cururueiros e violeiros da região como Cido Garoto, Jonata Neto, Natalino, entre outros, assim como apresentações musicais e a influência do cururu na região. O video também levanta a questão da continuidade da tradição do cururu no interior paulista e sua sobrevivência frente à cultura de massa e influências entrangeiras. Representantes da nova geração do cururu são apresentados e garantem que a tradição vai continuar.

Direção, roteiro e produção:
Cleide Elizeu, Inaiana Vicentim, Renata Oliveira
Edição e arte:
João Solimeo
Fotografia:
Marco Doretto
No Cine Paradiso, Rua Barão de Jaguara, 939, Centro, Campinas
10 de maio, 14 hs.
Entrada: R$ 2,00

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Vênus




O primeiro papel no cinema de Peter O´Toole foi no épico “Lawrence da Arábia” (1962), de David Lean. O´Toole deu a interpretação de sua carreira, que foi seguida de uma série de sucessos e de outras grandes atuações, mas nunca recebeu o Oscar de Melhor Ator. Alguns anos atrás ele recebeu um prêmio honorário da Academia, o que não é a mesma coisa. Em 2007, aos 75 anos, O´Toole foi novamente indicado (e novamente derrotado) ao prêmio por sua brilhante interpretação em “Vênus”, um bom filme dirigido em 2006 por Roger Michell. Não deixa de ser chocante ver o efeito dos anos nas feições do antigo Lawrence da Arábia. O´Toole exibe as marcas da idade em seu rosto, sua voz e no modo de andar. O “consolo” é que tudo isso é perfeitamente adequado ao papel que ele está interpretando, Maurice, um velho ator que passa seus dias indo ao teatro e na companhia de velhos amigos. Um deles é Ian (Leslie Phillips, ótimo), a própria definição do “velho rabugento”. Ian também foi um ator de sucesso modesto e que está ansioso com a notícia de que uma sobrinha de 19 anos virá morar com ele. Ian tem fantasias de que a sobrinha Jessie será uma espécie de enfermeira particular, cuidando dele e fazendo suas vontades, mas a realidade é bem diferente. Jessie (Jodie Whittaker) é a típica adolescente revoltada e insolente, que não liga para o tio e o trata mal.

Mas Maurice sente uma inesperada atração pela atitude da garota e começa a usar do seu velho charme para conquistá-la. Ian pergunta a Maurice, indignado: “o que você faz com ela, na sua idade?”. E Maurice responde simplesmente “algo muito difícil... eu a trato bem”. De fato, a relação entre Maurice e Jessie não é inteiramente platônica... há um subtexto sexual ocorrendo o tempo todo, mas é fato que a idade avançada de Maurice não permite que nada muito físico ocorra. Assim, Maurice passa as tardes levando Jessie ao teatro e a jantares, onde Jessie descobre que ele é razoavelmente famoso. Ele também lhe arruma um emprego como modelo (nua) em uma classe de desenho, mas ela não permite que ele a veja. Maurice começa a chamá-la de “Vênus” depois de levá-la ao museu de arte para ver o quadro de mesmo nome de Diego Velázquez. A garota não tem maturidade para entender os motivos do interesse de Maurice, mas claro que gosta da atenção e, em alguns momentos, permite certas liberdades da parte dele, como deixar que ele beije seu pescoço ou segure suas mãos. Estas cenas (um velho de 74 anos e uma garota de 19) podem soar “impróprias” mas são feitas com muita sensibilidade. Maurice claramente foi um ator belo e desejado na juventude (assim como Peter O´Toole), e a figura de Jessie lhe trás de volta velhos desejos. Jessie (que teve um filho abortado recentemente) não está acostumada a ser bem tratada por ninguém, muito menos por homens.

Vale notar também a presença de Vanessa Redgrave, maravilhosamente “real” e idosa, como a ex-esposa de Maurice. Eles ainda cultivam uma amizade antiga, mas ela guarda certo ressentimento pelas aventuras amorosas que Maurice teve nos tempos de juventude. Há uma bela cena entre os dois em que Maurice demonstra arrependimento pelo que fez. Peter O´Toole está magnífico nos pequenos detalhes de seu personagem e em seu claro declínio físico. O filme não tem ilusões com relação à velhice e também mostra o lado “ruim” (ainda que natural) da idade, como embaraçosas consultas a médicos, problemas físicos e a presença inevitável da morte. O filme está em DVD.