domingo, 26 de setembro de 2010

O Refúgio

Mousse (Isabelle Carré) e Louis (Mevil Poupaud) recebem a heroína tarde da noite. Louis prepara a droga cuidadosamente e os dois a usam durante a noite toda. Pela manhã, a mãe de Louis aparece no apartamento e encontra o filho morto no chão. Mousse é levada ao hospital e entra em coma. Quando acorda, descobre que o namorado está morto e que está grávida dele. Assim começa "O Refúgio", de François Ozon, em cartaz em Campinas no Topázio Cinemas.

É um filme pequeno e com poucos atores. E há algo na cinematografia francesa que gosta de contar histórias passadas em uma casa no campo, em contato com a natureza, longe da cidade grande; vários filmes com este cenário foram feitos nos últimos anos. É para uma destas casas no campo (perto do litoral, na verdade) que Mousse se muda durante a gravidez. Ela está longe de ser a mãe ideal. Viciada em heroína, toma vidros de xarope com metadona para impedir um aborto. Está sempre de óculos escuros e, de vez em quando, também bebe. Um dia chega à casa o irmão de Louis, Paul (Louis-Ronan Choisy), um rapaz jovem e bonito cujas intenções são incertas. Ele quer cuidar de Mousse? Gosta dela? Quer estar perto do futuro sobrinho?

"O Refúgio" não tem uma trama muito bem definida, lidando sobre o tema da solidão. Mousse estava com o namorado na noite da morte dele, mas nem presenciou o fato. Isolada agora na cabana, mesmo grávida e acompanhada de Paul, há nela uma solidão profunda. Seja por isso ou por carência, aos poucos ela começa a ter sentimentos por Paul. O problema é que a opção sexual dele é outra. Logo ele está saindo com Serge (Pierre Louis-Calixte), um rapaz que cuidava da casa e trazia mantimentos para Mousse. Em uma cena bizarra, um homem que se diz "atraído por grávidas" leva Mousse para a casa dele (por causa da "bela vista para o mar"). Não fica claro se eles transam ou não, mas a princípio Mousse só quer que alguém a abrace.

É um filme bem feminino. O diretor, François Ozon, já trabalhou com grandes atrizes como Catherine Deneuve e Isabelle Rupert em "Oito Mulheres" (2002) ou Charlote Rampling e Ludivine Sagnier em "À Beira da Piscina" (2003). Em "O Refúgio" ele deixa o filme ser levado por Isabelle Carré que, a propósito, estava realmente grávida durante as filmagens. O filme não é muito ambicioso e o final me pareceu muito calculado. Interessante que a trilha sonora foi composta pelo ator que faz Paul, Louis-Ronan Choisy, que canta a canção tema, acompanhado do piano, em uma cena.



sábado, 25 de setembro de 2010

Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme

Há um pouco de Gordon Gekko, o ambicioso jogador da bolsa de valores interpretado por Michael Douglas, no diretor Oliver Stone. Roteirista de sucesso nos anos 80, Stone se lançou para a fama cinematográfica dirigindo filmes polêmicos que trataram de biografias de presidentes americanos (como Nixon, JFK ou George W. Bush), a Guerra do Vietnã (Platoon, Nascido em Quatro de Julho, Entre o Céu e a Terra), violência e a mídia (Assassinos por Natureza) ou a ganância da bolsa de valores (Wall Street). Exagerado, ambicioso, manipulador, Stone passou por maus bocados nos últimos anos, investindo em grandes fracassos como "Alexandre" ou filmes por encomenda como "As Torres Gêmeas". Polêmico, também se tornou documentarista e se aproximou de figuras como Fidel Castro, em Cuba, e Hugo Chávez, na Venezuela.

Na cena que abre "Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme", continuação de seu filme de 1987, Gordon Gekko está sendo libertado da prisão depois de cumprir pena por diversos crimes financeiros. Ele tem pouco dinheiro, um celular que pesa quase um quilo e, fora das grades, ninguém para buscá-lo. Um pouco do Stone polêmico dos anos 80 também volta com Gekko. Paradoxalmente, o estilo um dia inovador de Stone, aos olhos do espectador do século XXI, parece extremamente "clássico", com belas tomadas de Nova York, capital do mundo, créditos no início do filme, música de David Byrne e Brian Eno e um elenco impressionante. De sólidos novos astros como Shia LaBeouf, a carismática Carey Mulligan e Josh Brolin a veteranos como Eli Wallach (no alto de seus incríveis 95 anos), Frank Langella, Austin Pendleton, Susan Sarandon e, claro, Michael Douglas, é um grupo de dar inveja.

Stone explora os atrativos e fraquezas do sistema capitalista em seu palco principal, o mercado de Wall Street. LaBeouf é Jake Moore, um garoto prodígio que, na casa dos vinte e poucos anos, mora em um apartamento caro em Manhatan e acaba de receber um bônus de US$ 1,4 milhões. Apesar da aparente prosperidade, no entanto, o mercado está para estourar em uma das maiores crises financeiras desde a queda da Bolsa de Nova York em 1929. Stone é meticuloso em mostrar como os "tubarões" do mercado exploram o sistema para derrubar competidores e sair lucrando no processo. É o caso de Bretton James (Josh Brolin), que liquida a empresa pertencente a Louis Zabel (Langella), mentor e segundo pai do personagem de LaBeouf. Desolado, Zabel se suicida no metrô de Nova York assim que perde sua empresa. LaBeouf promete se vingar de Bretton, mas ele o faz da maneira capitalista de ser, sendo contratado pelo próprio Bretton. Já Carey Mulligan (de "Educação" e "Em busca de uma nova chance") é Winnie Gekko, filha de Gordon, uma jornalista que mantém um pequeno site independente de notícias. Ela se recusa a perdoar o pai e não quer nada do seu dinheiro, apesar de estar noiva de Moore (LaBeouf), membro de Wall Street, e morar em um apartamento rico em Nova York.

Douglas e LaBeouf repetem, de certa forma, a dupla veterano/novato representada no Wall Street original, em 1987, por Douglas e Charlie Sheen (que faz uma ponta no novo filme). Escondidos de Winnie, os dois começam a trocar informações do mercado (que interessam Moore) por oportunidades de reconciliar pai e filha (que interessam Gekko). Michael Douglas ganhou um Oscar por sua performance no filme original e, paradoxalmente, acabou se tornando uma espécie de modelo para a geração dos anos 80. "Greed is good" (a ganância é boa), dizia Gordon Gekko. Neste filme suas motivações são mais cinzas e difíceis de decifrar. Teria ele se tornado um "homem bom" que só quer voltar a ver a filha? Teriam seus anos de prisão lhe ensinado alguma coisa? O filme é um pouco indeciso quanto a estas questões. O personagem de LaBeouf, principalmente, precisaria de um desenvolvimento melhor. Ele é claramente esperto e conhecedor do mercado o suficiente para estar na posição em que se encontra. Em outros momentos, no entanto, é ingênuo demais. Há também uma mensagem ecológica colocada na trama que, perigosamente, parece justificar os esquemas e lavagens de dinheiro realizados por Gekko e Moore.

Mesmo com estes problemas, é um filme extemamente interessante de assistir e muito bem realizado. Stone mostra como o governo americano foi em socorro das empresas que estavam para falir com um "auxílio" de 700 bilhões de dólares. Chega a ser engraçado o modo como todos, ao redor da mesa do Federal Reserve, discutem cifras de bilhões de dólares como se não fossem nada.

Fato extra filme, é digno de nota que o ator Michael Douglas, logo no início da campanha de promoção para "Wall Street", tenha sido diagnosticado com um câncer na laringe. Em aparição no programa David Letterman, Douglas revelou a doença e, calmo mas bastante preocupado, disse que é grave e que entraria em tratamento. Saber disso nos faz ver sua interpretação de forma diferente (talvez uma despedida?) e, talvez, tornem Gekko mais humano.


domingo, 19 de setembro de 2010

Um Doce Olhar

Chamado por aqui de “Um doce olhar”, o filme “Mel” (“Bal”, no original) do diretor turco Semih Kaplanoglu foi o vencedor do Urso de Ouro em Berlim no início do ano. É a terceira parte de uma trilogia baseada no personagem Yusuf (o garoto Bora Altas, muito bem), que já contou com os filmes “Ovos” (2007) e “Leite” (2008). “Um doce olhar” é uma obra extremamente contemplativa, lenta e silenciosa. Passado nas florestas da região montanhosa da Turquia, o filme é quase um documentário de uma civilização arcaica, ainda baseada na agricultura e na cultura de abelhas. A câmera de Kaplanoglu fica estática quase o tempo todo em longos planos que apenas observam os personagens. A cena inicial mostra Yakup (Erdal Besikcioglu), pai de Yusuf, procurando por uma árvore apropriada para instalar sua colméia. Ele vem acompanhado de um burrinho que carrega seus mantimentos. Escolhida a árvore, Yakup lança uma corda e começa a escalada. É então que escutamos um estalo, o galho começa a se partir e o pobre homem fica pendurado na árvore entre a vida e a morte.

Acompanhamos então a vida da família de Yakup, composta por sua jovem esposa Zehra (Tulin Ozen) e seu filho Yusuf, nos dias anteriores ao episódio da árvore. Yusuf é um garoto inteligente que tem um problema de fala. Ele é gago e só consegue conversar com o pai quando sussurra as frases. Ou, estranhamente, quando lê as orações do dia no início da manhã. Na escola, no entanto, não consegue ler os textos pedidos pelo professor. Entristecido, vê os colegas ganharem, um a um, um broche vermelho como recompensa pela boa leitura. Yusuf nunca se junta aos colegas durante o recreio, ficando na sala de aula a observar suas brincadeiras pela janela.

A sensação de se estar assistindo a um documentário permeia todo o filme. Observamos costumes da pequena vila de Yusuf e o modo de vida de seu pai e colegas. Há o fabricante das cordas que Yakup usa para escalar as árvores. Há a colheita de folhas feita pela mãe de Yusuf. Há a senhora religiosa que leva o garoto até o alto da montanha, em uma cabana, onde ela e outras senhoras recitam trechos da vida de Alá. O filme não tem trilha sonora no sentido tradicional, os sons e músicas ouvidos são os produzidos pelos personagens ou pela natureza. Os sons naturais, aliás, têm uma força enorme na obra, principalmente os produzidos pela floresta, como rangidos de galhos, vento, pássaros ou animais ao longe. A fotografia de Baris Ozbicer privilegia os tons escuros e o contraste entre o dia e a noite. Há apenas uma seqüência um pouco mais barulhenta quando a mãe de Yusuf vai procurar pelo marido em um festival religioso que acontece no meio das montanhas. É um choque reconhecer a marca de um famoso sorvete vendido no Brasil em meio àquela sociedade quase medieval.

Não é um filme muito fácil de se ver. É necessário certo estado de espírito para uma obra extremamente lenta e silenciosa. Há pequenos detalhes interessantes, como na relação afetiva entre Yusuf e seu pai. O homem, apesar das feições fechadas, demonstra grande carinho pelo filho e o educa de forma espartana, mas correta. Conforme o filme vai se aproximando do final e começa a ficar claro para a mulher e o filho que o pai não vai voltar mais, sua falta na tela é mostrada em uma cena interessante em que Yusuf brinca de acender da apagar a luz da casa, na esperança de que, de repente, o pai possa aparecer. (Visto no Topázio Cinemas).


sábado, 11 de setembro de 2010

A Ressaca

Os anos 80 foram a década dos excessos. Os Estados Unidos estavam para se tornar a única superpotência do mundo, Ronald Reagan estava na Casa Branca, Wall Street ditava moda e o dinheiro era o rei. No cinema, os filmes para adolescentes reinavam absolutos, das comédias bem feitas de John Hughes e produções caprichadas de Steven Spielberg a bobagens de baixo nível como Porky´s e similares. Pena que o filme "A Ressaca", ao tentar prestar homenagem à década de 80, foi se basear justamente nesse lado baixo nível.

A trama é básica (e absurda). Um trio de velhos amigos, Adam (John Cusack, também produtor do filme), Lou (Rob Corddry) e Nick (Craig Robbinson) resolvem voltar à estação de esqui onde passaram a melhor época de suas vidas. O objetivo é tentar reanimar Lou, que foi internado no hospital sob suspeita de tentativa de suicídio (na verdade, ele apenas havia sido burro o suficiente para ficar cantando rock com o motor ligado dentro de uma garagem fechada). Os três eram melhores amigos quando adolescentes nos anos 80, mas o tempo e as obrigações fizeram deles "fracassados". Eles são acompanhados pelo sobrinho nerd de Adam, Jacob (Clark Duke), que está no filme para que a parte jovem da platéia se identifique com ele. Os três "adultos" são os típicos americanos "machos", interessados em bebidas, mulheres e outros "machos". Ao chegarem à estação de esqui, eles descobrem que o lugar está decadente e se tornou uma sombra do que era vinte anos atrás. De qualquer forma, eles resolvem confraternizar na banheira ao ar livre do hotel que, magicamente, os transporta para o passado, precisamente para o ano de 1986, quando a banda Poison estava tocando em um festival de rock na cidade.

O filme é até bem intencionado e tem várias referências e homenagens aos anos 80. O comediante Chevy Chase, por exemplo, grande figura da época, faz uma ponta como o zelador do hotel. Há também referências à MTV, aos primeiros celulares gigantes e até mesmo uma piada com "De Volta para o Futuro" na figura de Crispin Glover, o carregador de malas do hotel, que interpretava o pai de Marty McFly no clássico produzido por Spielberg em 1985. Mas o filme é voltado para o mau gosto do americano médio, com várias piadas baixas e cenas envolvendo vômito, dejetos em geral e mulheres com os seios de fora. O hotel onde eles se hospedam é tão obviamente um cenário que é vergonhoso. A questão dos paradoxos no tempo, explorados em filmes como "De Volta para o Futuro" e "O Exterminador do Futuro" também são citados aqui, mas o roteiro não se preocupa muito em ser consistente. Cada um dos amigos deveria, teoricamente, repetir exatamente o que fizeram em 1986 para que a História não seja alterada. John Cusack se lembra de ter terminado com a namorada naquela noite (e de levar um garfo no olho em troca). Lou levou uma surra de um grupo e Nick, que era o cantor de uma banda medíocre, iria se apresentar. As coisas não acontecem exatamente desta forma e o roteiro perde a chance de ser um pouco melhor explorando uma moça que se interessa por Cusack. Ela claramente está fora de lugar e, por um momento, o espectador imagina se ela também não está viajando no tempo. Mas a preguiça do roteiro não explora a situação. O filme é dirigido por Steve Pink, que foi co-roteirista do ótimo filme "Alta Fidelidade", também com John Cusack. É verdade que Pink não deve ter tido muito trabalho ao lidar com o ótimo livro original de Nick Hornby, pois nada da classe daquele filme está neste.

Por fim, também está de volta aquela coisa bem oitentista de que felicidade equivale a bens materiais. Assim, "A Ressaca" termina mostrando que felicidade é ter um barco gigante, uma esposa peituda e burra e um filho alienado. Filme para ser visto em DVD, no máximo, ou baixado da internet.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Profeta

A situação dos imigrantes, na Europa, é delicadas. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy tem implementado leis consideradas racistas contra muçulmanos e ciganos, entre outros povos. Este caldeirão cultural está muito bem representado em "O Profeta", de Jacques Audiard, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano com "A Fita Branca", de Michael Haneke, e "O Segredo dos seus Olhos", de Juan José Campanella, entre outros.

"O Profeta" é um filme longo, forte, violento e extraordinário. O jovem franco-árabe Malik El Djebena (Tahar Rahim) chega à prisão com 19 anos, após passar uma vida em reformatórios. Não sabe responder à maioria das perguntas ao guarda que preenche sua ficha, como informações sobre seus pais ou se sua primeira língua é o francês ou o árabe. Seu corpo tem as marcas de anos de maus tratos, com diversas cicatrizes. A prisão está dividida; os muçulmanos têm sua parte do pátio, os corsos outra. O "chefe" não oficial da prisão é o corso César Luciani (Niels Arestrup), mafioso que controla diversos negócios ilegais de dentro das grades. Um dia seu grupo se aproxima do recém-chegado Malik e lhe impõe uma missão: ele deve matar um árabe chamado Reyeb (Hichem Yacoubi), testemunha chave de um caso que envolve a máfia. O filme é extremamente violento e os detalhes do assassinato, envolvendo litros de sangue, são mostrados sem pudor. Após o crime, Malik passa a contar com a proteção significativa de Luciani e seus mafiosos corsos. A Córsega, ilha à oeste da Itália, é governada pela França, mas tem seus costumes próprios e até a própria língua.

Malik se encontra em uma posição ao mesmo tempo perigosa e privilegiada. Ele é meio árabe e meio francês, além de muito esperto, o que faz com que ele consiga transitar entre as diversas castas dentro da prisão, iniciando aos poucos seus negócios. Ele é visto pelos muçulmanos como um corso, enquanto os corsos o vêem como um "árabe sujo". O único que percebe seu potencial é César Luciani (em interpretação magistral de Niels Arestrup), que explora a adaptabilidade de Malik para seu proveito. O roteiro é muito inteligente e mostra o embate dentro e fora da prisão destas várias raças e povos, todos vivendo na França. Conforme o filme passa a situação ambivalente de Malik se torna cada vez maior e não se sabe de que lado ele está. O filme lembra um pouco os bons anos de Scorsese e uma de suas obras primas, "Os Bons Companheiros" (de 1990). Forte e realista, o filme assustou alguns espectadores, que abandonaram a sala. Mas é um filme corajoso e muito bem feito, mostrando um dos piores lados da delicada situação dos imigrantes na Europa.


domingo, 5 de setembro de 2010

Nosso Lar

O livro "Nosso Lar", de Chico Xavier, foi lançado em 1944 e é sua obra mais vendida. Ou, como preferem alguns, "Nosso Lar" é um livro ditado pelo espírito André Luiz a Chico Xavier em 1944 e é sua obra mais famosa. O livro agora ganha uma versão cinematográfica que entra para a história como o filme brasileiro mais caro de todos os tempos. Orçado em 20 milhões de reais, "Nosso Lar" é uma obra difícil de avaliar. Não é papel do crítico julgar seu conteúdo religioso ou se ele se trata de verdade ou ficção.

Mas não é tão simples. Retirado o conteúdo espírita de "Nosso Lar", o que sobra? Pode-se discutir os aspectos técnicos da obra, por exemplo. Os inúmeros efeitos especiais foram feitos por uma empresa canadense, "Intelligent Creatures", e contei nos créditos mais de cinquenta pessoas envolvidas. O filme segue um visual "new age" marcadamente azulado, com uma cidade construída em maquetes e pinturas que lembram uma Brasília superdesenvolvida. Ou, talvez, algum parque temático da Disney, na Flórida. Há diversos "ministérios" do mundo espiritual, como o "Ministério do Auxílio" e até um "Ministério da Comunicação" (haveria futuro para o jornalismo?).

Além da visão utópica, pacífica (e rapidamente entediante) do Nosso Lar, há também um purgatório anterior, chamado "Umbral", onde as almas ainda não preparadas têm que passar um tempo pagando os pecados. É para lá que, ao morrer, é enviado André (Renato Pietro), que durante sua vida terrena era um médico de cara amarrada e poucos amigos. Nós nunca o vemos fazer nada de realmente ruim, mas fica implícito que ele não era uma pessoa boa. A paisagem do "Umbral", também azul (mas escuro), é um lugar cheio de espíritos em agonia, sofrendo diversos tipos de tortura mental e física (embora eles sejam espíritos, certo?). André sofre por um bom tempo neste lugar, até que é resgatado por espíritos elevados que o levam até um hospital high tech e imaculado no Nosso Lar. Ele é apresentado ao lugar por Lísias (Fernando Alves Pinto), que lhe recita uma série de ensinamentos edificantes sobre o valor do trabalho, da paciência e do perdão. Há participações especiais de atores globais como Werner Schüneman (que faz outra figura conhecida do universo de Chico Xavier, Emmanuel), Othon Bastos e Paulo Goulart (um ministro que ensina André que também no mundo espiritual há burocracia e filas de espera). Ainda na parte técnica, "Nosso Lar" contém a trilha sonora de ninguém menos que o americano Philip Glass, um dos pais da moderna música orquestrada e do minimalismo. Glass está em piloto automático, com os acordes e arpegios de sempre, mas sua música dá um toque de classe ao filme.

Como cinema, "Nosso Lar" é uma experiência que tem seu interesse, mas que vai se perdendo aos poucos. O roteiro (do também diretor Wagner de Assis) é por demais "didático", cheio de lições de moral e lugares comuns, o que não é necessariamente ruim como auto-ajuda, mas como filme fica repetitivo e cansativo. Para quem não é "crente", pior são as partes que ficam descrevendo o funcionamento do Nosso Lar, com seus ministérios, sua burocracia, seus planos de reencarnação e assim por diante. Há também uma parte que é extremamente datada, falando sobre o início da II Guerra Mundial (que não havia sequer terminado no lançamento do livro). E com todo respeito à religião e aos admiradores do livro, a própria visão do mundo espiritual descrita no filme me pareceu tacanha. A idéia de uma "cidade espiritual" feita no século XVI (segundo descrição de Lísias) pairando sobre o Rio de Janeiro me pareceu muito pequena para o espírito humano (em tempo, não estou falando sobre o espiritismo).

"Nosso Lar", com toda probabilidade, será um grande sucesso nas bilheterias. É o tipo de filme que desafia críticas, já tendo seu público alvo definido e crescente no Brasil. O espiritismo está em alta no país, alavancado com o centenário de Chico Xavier, e provavelmente veremos mais filmes do gênero em um futuro próximo. (Visto no Topázio Cinemas)


sábado, 4 de setembro de 2010

Coco Chanel & Igor Stravinsky

Paris, 1913. O compositor russo Igor Stravinsky (Mads Mikkelsen) estréia sua mais nova obra, "A Sagração da Primavera". O clima é de tensão antes mesmo da música começar. Os dançarinos estão ensaiando atrás da cortina. Os músicos estão confusos com a partitura. "Esqueça a melodia e siga o ritmo", diz o maestro ao primeiro violinista. "Isso não é Tchaikovsky, Strauss ou mesmo Wagner". Quando a música começa, consternação na platéia. O ritmo forte e as notas dissonantes soam como ruídos para os franceses do início do século XX, que vaiam aquela que viria a ser uma das obras mais conhecidas da música erudita.

No teatro estava Coco Chanel (Anna Mouglalis), a estilista mais famosa da história, feminista pioneira e independente. Ela é das poucas que gostou do que ouviu e fica intrigada com o compositor. Os dois são apresentados somente sete anos depois, em 1920. Stravinsky está exilado na França por causa da Revolução Russa de 1917, e mora em um quarto de hotel com a esposa Katarina (Elena Morozova) e vários filhos. Chanel, mais bem-sudedida do que nunca, está de luto pela morte do amante, o inglês Boy Capel, e oferece a Stravinsky sua casa no campo, onde ele poderia trabalhar em paz e se instalar com a família. O que mais ela estaria oferecendo? Dois artistas geniais e polêmicos, não demora muito para que a convivência na mesma casa acabe em um tórrido romance.

O filme do holandês Jan Kounen foi produzido e lançado praticamente ao mesmo tempo que outro sobre a estilista francesa, "Coco antes de Chanel", produzido com mais recursos e estrelado por Audrey Tautou. "Chanel & Stravinsky" é um filme menos interessado na biografia e mais profundo na relação entre os personagens. A Chanel de Anna Mouglalis é mais "mulher", mais senhora de si e menos atrapalhada que a personagem criada por Tautou. É verdade que as épocas são diferentes. É como se "Chanel & Stravinsky" fosse uma continuação mais séria de "Coco antes de Chanel", tendo a morte de Boy Capel como ponto de ligação.

O ator dinamarquês Mads Mikkelsen faz de Stravinsky um homem emocional, apaixonado por sua música e talvez um pouco inseguro com as mudanças que está criando. É bom pai e tem na esposa não só uma companheira de infância como sua principal crítica. É ela quem transcreve seus rabiscos para a partitura. A estilista Chanel se identifica com o processo criativo de Stravinsky e ela tem o modo seguro de quem sempre consegue o que quer. O processo de aproximação física entre os dois artistas é muito bem conduzido pelo diretor. A câmera está sempre em movimento, circulando os personagens e revelando humores e cenários. Observe a elegância do plano que mostra Stravinsky invadindo o quarto particular de Chanel, vazio, para explorá-lo. A própria cor do filme muda sutilmente, ficando mais quente, contrastando com os tons pretos e brancos característicos da moda de Chanel. Há várias cenas de sexo que sugerem uma paixão mais carnal do que própriamente amor. Enquanto isso, pelo resto da casa, vemos a tensão aumentando entre criados, esposa e filhos. A música do próprio Stravinsky é bem usada nos momentos de suspense.

O final revela, em algumas cenas intercaladas com o presente, o final aparentemente solitário dos dois artistas, cuja obra é influente até hoje. (filme visto como cortesia no Topázio Cinemas, Campinas).


domingo, 29 de agosto de 2010

Um Segredo em Família

François Grimbert é um garoto amedrontado. Enquanto seus pais, Maxime (Patrick Bruel) e Tania (Cécile de France), são atletas, ele é um rapaz fraco e fechado, que tem um irmão imaginário. Este irmão, ao contrário dele, é forte, ágil e é o orgulho dos pais. São os anos 50 na França, captados pelo diretor Claude Miller em tons fortes e coloridos. O que há de errado com François? Por que a sensação de que há “fantasmas” na vida de seus pais?

“Um Segredo em Família” é baseado na história real de Philippe Grimbert e mostra a ferida do Holocausto de outra forma. François nasceu em uma família judaica e foi circuncidado quando criança, como pregam os ritos. Um pouco mais velho, no entanto, ele é batizado católico pelos pais. Como toda criança, ele capta trechos de conversas sussurradas pelos adultos e constrói sua própria fantasia sobre como os pais se conheceram, se apaixonaram e se casaram. A verdade, porém, é muito mais sombria, e quando adolescente François descobre que há mais verdades na história de seu irmão “imaginário” do que ele pensava.

A trama do filme é muito mais interessante do que o modo como a história é contada. Duas histórias se desenrolam na primeira parte, os anos 50 na França (em colorido) e trinta anos depois, em 1985, em um preto e branco apagado. Estas cenas nos anos 80 mostram François (o ótimo Mathieu Almaric) como um terapeuta especializado em crianças com problemas. Seu pai está desequilibrado com a morte do cachorro, que foi atropelado, e François ainda tem memórias dolorosas da infância. O meio do filme, com François já adolescente, marca o início de outra história, que se passa antes da II Guerra Mundial e revela quem era o irmão “fantasma” de François, um garoto chamado Simon. Seu pai era casado com outra mulher, Hannah (Ludivine Sagnier), mas nutria uma paixão secreta pela cunhada, Tara. A história é muito interessante, mas o filme ganharia com uma narrativa mais linear. O nazismo começa a estender suas garras e os judeus franceses são obrigados a usar a Estrela de Davi, para desgosto de Maxime, que se recusa. Interessante o espelhamento das imagens entre François, no início do filme, e Simon, nesta segunda parte. Simon é um garoto atlético como o pai, e Hannah é a típica esposa judaica perfeita. Mas a atração física cada vez maior que Maxime sente por Tara começa a ficar aparente, o que leva a uma tragédia quando a família tenta fugir dos nazistas para o outro lado da fronteira.

O diretor Claude Miller, que foi gerente de produção de vários filmes do mestre François Truffaut nos anos setenta, conduz muito bem o elenco e cria uma tensão palpável e não dita entre as duas mulheres de Maxime. A Segunda Guerra e o nazismo deixaram marcas na Europa e na Humanidade que se estendem até hoje. “Things all long gone, but the pain lingers on”, como diria uma letra de “The Wall”, do Pink Floyd. Em todas as guerras, as maiores vítimas são as crianças.



sábado, 28 de agosto de 2010

Os Inquilinos

Periferia de São Paulo. Calor insuportável. Classe média baixa. Filas se formam nos pontos de ônibus, onde homens e mulheres embarcam para horas no trânsito. À noite, na volta pra casa, ônibus queimados e comandos policiais se enfileiram no caminho. Valter (Marat Descartes) é um dos milhares de anônimos que enfrentam esta rotina todos os dias. Branco, é casado com Iara (Ana Carbatti), negra, e tem um casal de filhos. Um dia três rapazes barulhentos, encrenqueiros e com jeito de bandidos se mudam para a casa vizinha. A presença destes novos inquilinos inquieta toda a vizinhança e muda a rotina familiar de Valter.

Dirigido por Sérgio Bianchi (de Cronicamente Inviável), o filme é um ótimo exemplo de produto não comercial (e corajoso). Bianchi, que não tem nada de conformado, mostra Valter como um homem comum que é levado aos limites do que é ser um cidadão "de bem", confrontado com uma situação desesperadora. Ele é pobre, mas leva uma vida digna com a família, na casa que foi construída pelo pai tijolo por tijolo, como gosta de contar. A esposa vê os vizinhos pela janela e não gosta do barulho ou da decadência representada por aqueles homens. Ao mesmo tempo, há uma curiosa atração pelo perigo e pelo proibido, representado por Bianchi em cenas que mostram um misto de sonhos e alucinações de Iara com os homens do outro lado do muro. Valter, além de carregar caixas o dia inteiro em um subemprego, frequenta aulas à noite. A escola está sob frequente ameaça do "Partido", que tem feito atentados nos últimos dias. Cássia Kiss faz uma professora que recita poemas de hip hop ou de Carlos Drummond de Andrade, tentando mostrar aos alunos um outro lado da vida que levam.

Curioso como tanto Cássia Kiss quanto Caio Blat e Ailton Graça, que atuam no filme, também estavam em "Bróder", que Jeferson De estreou em Paulínia mês passado. "Os Inquilinos" é um filme mais angustiante. Bianchi traz a violência e o estresse da vida moderna para dentro da casa do brasileiro, independente da sua condição social. Qual o limite? Como lidar com pessoas claramente fora do convívio social? Chamar a polícia? Ou será necessário esperar até que eles façam algo realmente errado? A televisão, ligada constantemente, mostra José Luis Datena metralhando seu circo de horrores. A filha de 12 anos de Valter, mulata de olhos verdes, é precocemente sexualizada pela coreografia de danças "funk" que a faz rebolar no meio da rua, atraindo a atenção dos marmanjos. A esposa, diante da aparente letargia do marido, que não quer entrar em conflito com os vizinhos, envolve um irmão mais "esquentado", que planeja uma ação contra os baderneiros.

"Os Inquilinos" é sufocante. Há um plano fantástico que mostra uma senhora carregando uma cadeira e se instalando na calçada para assistir ao "show" do outro lado da rua, quando a história chega ao sangrento final. Ainda assim Bianchi surpreende. Este não é um filme americano, que fatalmente o transformaria em uma cruzada de um homem só, com Valter assumindo a causa da família e enfrentando os bandidos. A vida real é muito mais sutil e cruel. Depois que todo o sangue corre, há um plano que mostra o ponto de vista contrário do adotado durante todo o filme, visto da cozinha de Iara. Valter, à noite, resolve ir ver com os próprios olhos o que aconteceu na casa vizinha, e é surpreendido pelo sorriso cruel e irônico da própria esposa, o observando do outro lado do muro. Será que somos todos espectadores sádicos nesse mundo violento?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Karate Kid

Em 1984, o diretor John G. Avildsen usou sua experiência adquirida em “Rocky” (1976), com Sylvester Stallone, para fazer outro tipo de “filme de luta”. Baseado em um personagem em quadrinhos, “Karate Kid” era um bom filme “família” que contava a história de Daniel Larusso (Ralph Macchio) e sua amizade com um zelador japonês, o Sr. Miyagi (Pat Morita), que lhe ensinava karatê. O filme fez grande sucesso e gerou algumas continuações, das quais apenas “Karate Kid II” ainda tinha algo para dizer. Nos violentos anos 80, com seus “Rambos” e “Rockys”, “Karate Kid” se destacava ao falar sobre usar as artes marciais apenas para se defender.

Vinte e seis anos depois, o personagem está de volta, repaginado. Estamos no século XXI e o “futuro” agora está na China. A noção de adolescência também mudou, e o novo Karate Kid se transformou em um garoto negro de 12 anos chamado Dre Parker. Ele é interpretado por Jaden Smith, filho de Will Smith e Jada Pinkett Smith. A mãe de Dre (Taraji Henson) foi transferida para um trabalho na China e os dois partem para o país de Mao, uma surpreendente economia capitalista em um país comunista. É patente o lado “relações públicas” de algumas cenas. A vizinhança para onde Dre e a mãe se mudam é uma China idealizada, com crianças jogando basquete na praça e velhos fazendo exercícios. Não há nada culturalmente diferente na tela, e Dre já está jogando basquete alguns minutos depois que chegou ao país. Quando o zelador lhe explica que a eletricidade do chuveiro é controlada, o garoto lhe diz que isso não existe nos Estados Unidos. Ao que o zelador responde “desligue o interruptor e salve o mundo”, em uma mensagem ecológica. Vinda de um dos países mais poluidores do mundo, a frase parece ter sido escrita por algum relações públicas.

Política à parte, o filme é bastante envolvente. Jaden Smith, apesar de ter herdado vários maneirismos do pai, é basicamente um garoto comum. Atraído por uma garota, ele é atacado por um garoto valentão simplesmente por conversar com ela. Ele leva uma surra e Smith não tem vergonha de mostrar lágrimas de dor. Sua situação fica pior ao descobrir que o valentão estuda na mesma escola, e Dre passa por humilhações e surras diárias. Um dia ele é salvo pelo Sr. Han (Jackie Chan), o zelador do prédio, que se revela um mestre em kung-fu. Algumas cenas e diálogos foram tirados diretamente do “Karate Kid” original, como a cena em que o Sr. Han e Dre vão conversar com o cruel professor de kung-fu do garoto. O Sr. Han consegue uma “trégua” nas surras de Dre, desde que ele participe do torneio de kung-fu que vai ocorrer meses depois.

Sim, kung-fu. “Karate Kid” é apenas o nome da “marca” que vai atrair os fãs dos filmes originais. Jackie Chan, que já está com 56 anos, interpreta o Sr. Han de forma surpreendente. Sempre sério, Chan não se parece em nada com os personagens que costumava interpretar em seus filmes de artes marciais ou em comédias americanas. Há uma bela cena (também baseada em passagem do original), que o Sr. Han conta a Dre sobre a morte precoce da esposa e do filho pequeno. Há também boas passagens de amor adolescente entre Dre e uma garota chinesa e várias sequências turísticas mostrando as paisagens da China. É difícil acreditar que um zelador tivesse acesso à Muralha da China para treinar seu aluno, por exemplo, mas é esteticamente bonito.

A duração, com duas horas e vinte minutos, é excessiva. Produzido por Will Smith e a esposa, a sensação que dá é que nenhuma cena interpretada pelo filho deles foi cortada, e ele está em praticamente todos os planos. E quando o torneio chega, mesmo os que não viram o filme original sabem o que vai acontecer, mas torcemos por Dre da mesma forma.

domingo, 22 de agosto de 2010

Topografia de um Desnudo

Assistir a "Topografia de um Desnudo" é daquelas experiências em que, como espectador e crítico, você imagina o que é que faz um filme ser bom ou não. Ou, antes, o que faz uma série de imagens em movimento se transformar (ou não) em um filme. Será que bastam apenas atores, cenários, um roteiro e uma câmera para fazer cinema?

Primeiro filme produzido com apoio do Pólo Cinematográfico de Paulínia e contando com atores como Ney Latorraca e Lima Duarte, o filme da diretora Teresa Aguiar é um desastre. Há um amadorismo assustador na forma como o roteiro é tratado e transformado em "imagens em movimento". Passado nos anos anteriores ao golpe militar de 1964 e baseado em fatos reais, "Topografia de um Desnudo" retrata como vários mendigos teriam sido mortos pelo "Serviço de Repressão à Mendicância" para "limpar" a cidade para a visita da Rainha da Inglaterra. Os crimes foram chamados pela imprensa como "operação mata-mendigos", o que causou problemas para o governo de Carlos Lacerda.

Gravado em digital, com fotografia uniforme e sem contrastes, o filme está mais para um especial de televisão pobre do que para uma obra cinematográfica. É o primeiro filme de Teresa Aguiar, premiada diretora de teatro, e a falta de experiência é aparente. Há uma mistura de gêneros que se dá logo nos créditos iniciais, contando com entrevistas reais de pessoas falando sobre a operação mata-mendigos. Qual a importância destes depoimentos? Seria para dar mais veracidade à trama? Por que não deixar o filme falar por si próprio? Segue-se uma série de sequencias gravadas de forma teatral, com a câmera um pouco afastada, enquadrando todos os atores, que declamam suas falas de forma exagerada. De vez em quando, inserts de closes dos atores são utilizados para mascarar algum corte ou dar continuidade ao plano. Os atores estão quase sempre rindo enquanto falam uns cons os outros em um tipo de linguagem que não soa em nada como um diálogo da época. Em outros momentos embaraçosos, uma câmera lenta e um acorde pesado na trilha sonora indicam que algo "sério" está para acontecer. Todas as vezes que o personagem de Ney Latorraca aparece, por exemplo, a trilha parece gritar "ai vem o vilão".

E o que dizer da cena de tortura de Lima Duarte? Preso pela polícia, que quer informações sobre uma suposta organização comunista entre os mendigos, seu personagem é torturado em uma série de planos que tentam simular o ponto de vista de uma segunda câmera, em preto e branco e com som distorcido. Quem, nos anos 60, vê o mundo desta forma, como em um programa de televisão moderno (e ruim)? Pode-se argumentar que se tentou usar uma linguagem atual para retratar uma história de época. Mas, se é este o caso, por que os trajes de época? Os carros antigos? Por que mostrar o Rio de Janeiro através de uma série de imagens de arquivo em preto e branco, acompanhadas por uma trilha clichê de samba?

O resultado, infelizmente, é um produto pobre e amador, uma tentativa frustrada e confusa de misturar teatro com cinema, televisão e documentário.


sábado, 21 de agosto de 2010

Almas à venda

Impossível falar de "Almas à venda" sem citar o roteirista e diretor Charlie Kaufman. O filme da diretora Sophie Barthes é uma espécie de colagem dos temas de Kaufman, particularmente dos filmes "Quero ser John Malkovich" e "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças". Isso não significa que seja um filme de segunda categoria, longe disso. O extraordinário Paul Giamatti, famoso por interpretar personagens angustiados com um toque de Woody Allen, encarna um ator de Nova York envolvido em uma produção teatral de "Tio Vânia", de Anton Chekov. O nome de seu personagem? Paul Giamatti, claro. Fazendo uma versão fantasiada e exagerada dele mesmo, Giamatti encontra em um anúncio de revista o que pode ser a solução para seus problemas: uma empresa que alega conseguir tirar a "alma" da pessoa, armazenando-a em um local seguro. A vantagem, segundo a empresa, é que um sujeito "desalmado" pode viver de forma muito mais leve, sem ter problemas de consciência, por exemplo, ou outros dilemas morais.

Como se vê, Paul Giamatti interpretando ele mesmo lembra o tema de "Quero ser John Malkovich", e o processo de retirada da alma lembra "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", em que os personagens pagavam para tirar lembranças problemáticas da memória. Sophie Barthes, também autora do roteiro, no entanto, acrescenta ainda uma trama que envolve a máfia russa, que usa mulheres para fazer o papel de "mulas", contrabandeando almas entre os Estados Unidos e a Rússia. Uma delas é Nina (Dina Korzun), uma "mula" que já carregou tantas almas através do Atlântico que ela não sabe mais direito quem é. Ela vaga pelas ruas com "resíduos" das almas que já transportou, tendo flashes de lembranças que não são dela. Giamatti vai até a empresa e é convencido pelo "Dr. Flinstein" (David Strathairn) a passar pela extração de alma. Giamatti fica surpreso com o tamanho dela depois do procedimento. Sua alma, que tanto lhe pesava e atormentava, tem a aparência e tamanho de um grão de bico.

Há, obviamente, grande dose de humor negro por todo o filme. As cenas entre Strathairn e Giamatti, dois grandes atores que por anos foram coadjuvantes em Hollywood, são ricas em diálogos ácidos e irônicos entre o "cientista", frio, otimista e prático e o "artista", emocional, denso e egocêntrico. O roteiro não funciona em alguns detalhes. A personagem de Nina, principalmente, resulta em um enigma não resolvido. Giamatti "aluga" a alma que ele supõe ser de um poeta russo quando, na verdade, pertencia a uma mãe atormentada. O roteiro seria mais interessante, creio eu, se os personagens de Nina e de Olga (a mãe) fossem a mesma pessoa. Mesmo assim, "Almas à venda" é um filme muito interessante e carregado nas costas por Paul Giamatti. Há diversas piadas citando atores americanos como Al Pacino, Robert DeNiro e Johnny Depp, entre outros.


domingo, 15 de agosto de 2010

Insolação

"O Amor não foi feito para sermos felizes, e sim para nos sentirmos vivos". Assim fala Paulo José em um de seus vários monólogos durante "Insolação", filme de Daniela Thomas e Felipe Hirsch. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas, o filme é extremamente autoral e se encaixa perfeitamente naquele rótulo de "filme de arte". O roteiro, fragmentado, foi escrito por dois americanos, Will Eno e Sam Lipsyte, a pedido dos diretores, e é baseado na literatura romântica russa.

Não há uma trama no sentido tradicional, com começo, meio e fim. "Insolação" é formado por fios entrelaçados de situações e histórias baseadas no amor, suas alegrias e tristezas. Paulo José, sempre magnífico, é uma espécie de mestre de cerimônias, falando diretamente para a câmera. Seu rosto marcado e seus olhos fundos sugerem experiência e maturidade mas, principalmente, ainda a vontade de tentar aprender e desvendar a vida. Ele vai a um quiosque repetidas vezes pedir um café (que não é vendido no local) para se encontrar com os outros personagens do filme. La está Lucia (Simone Spoladore), uma mulher em busca do sentimento físico do amor, praticando sexo com diversos homens em curto espaço de tempo. Já Leo (Leonardo Medeiros) trabalha para um homem poderoso e está apaixonado por Ana (Maria Luíza Mendonça), uma jornalista que ama outra pessoa. A pequena Zoyka (Daniela Piepszyk), de 13 anos, está apaixonada por Leo. Há outra história de amor envolvendo uma criança e um adulto. O garoto Vladimir (Antonio Medeiros) está apaixonado por Liuba (Leandra Leal), paciente do pai dele.

Estas e outras histórias se passam em uma Brasília totalmente deserta. A maravilhosa direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr revela uma cidade filmada com sol a pino, com os personagens vagando aparentemente sem rumo por paisagens desoladas. A câmera de Mauro gosta principalmente de Simone Spoladore (além de Paulo José, claro), o que rendem belas imagens com muito trabalho de foco e movimento de câmera. Há um plano que vale o ingresso, quando uma chuva cai sobre o rosto de Paulo José e sobre o corpo distante de Spoladore, deitada no chão de concreto.

Não é um filme convencional, o que assustou vários frequentadores, que abandonaram a sala. O ritmo é bastante lento e cabe totalmente ao espectador o trabalho de fazer algum sentido da sequência de cenas aparentemente desconexas. A trilha sonora de Arthur de Faria dá alguma cor aos longos silêncios. Um filme que começa com a palavra "tristeza" sendo escrita no caderno de Paulo José, "Insolação" fala sobre amor e perdas, e não é um trabalho fácil de se ver.


sábado, 14 de agosto de 2010

Os Mercenários

Em uma cena de "Rambo II", de 1985, Sylvester Stallone está em um barco com uma agente vietnamita. Ela lhe pergunta o porque dele ter sido enviado para lá. Ele responde que ele é "expendable" (dispensável, desnecessário). Vinte e cinco anos depois, Stallone está de volta em um filme chamado "The Expendables" (chamado aqui de "Os Mercenários"), que é um curioso exemplo de filme anacrônico, espécie de homenagem aos filmes "macho" dos anos 1980. Stallone recentemente trouxe de volta os personagens que fizeram sua carreira, como Rocky e o próprio Rambo. Desta vez é como se ele tivesse resolvido fazer o filme "macho" por excelência, reunindo em uma só produção praticamente todos os atores de ação de hoje e de ontem. Só faltaram Jean-Claude Van Damme, Steven Seagal e Chuck Norris. Há mais testosterona (embora um tanto envelhecida) na tela de "Os Mercenários" do que em um Maracanã lotado.

Stallone também trouxe de volta um olhar xenófobo e etnocêntrico com relação a tudo que não é americano e não seja falado em inglês. No mundo preto e branco que vivíamos na Era Reagan de Rambo, não havia lugar para o meio termo. Bush Jr e o 11 de setembro recuperaram um pouco deste olhar.

"Os Mercenários" tem Sylvester Stallone como produtor, ator, roteirista e diretor, fazendo dele um dos casos mais estranhos de "cinema autoral" de todos os tempos. A seu lado temos astros da pancadaria como Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgreen, Steve Austin e Randy Couture, além de Mickey Rourke e Eric Roberts. E há uma cena que seria bem mais interessante se o trailer não a tivesse mostrado tanto, que junta na mesma tela Sylvester Stallone, Arnold Swarzenegger e Bruce Willis. Stallone e Swarzenegger eram "rivais" do cinema brucutu com seus Rambos, Comando, Conan, Rocky e Exterminador. Bruce Willis foi lançado ao estrelato com a série "Duro de Matar", também retomada recentemente.

Em meio a todo este "renascimento" oitentista fica difícil imaginar um roteiro que fosse de alguma forma original, e o que Stallone apresenta em "Os Mercenários" é rigorosamente clichê. Os mercenários do título são contratados por um homem misterioso (Bruce Willis) para derrubar (em outras palavras, matar) um ditador de uma ilha na América Central. O grupo de Stallone vai até a ilha e ele é recebido por uma bela mulher local, interpretada pela brasileira Giselle Itié. Tanto o ditador quando seus homens são patéticos, abusando da população local e servindo de capacho para um ex-agente da CIA interpretado por Eric Roberts.

E não há muito mais o que falar do roteiro. Há as perseguições, cenas de luta e tiroteio esperadas. Em alguns momentos se tenta explorar o carisma do elenco (sendo que Statham e Jet Li são os que se saem melhor). Mickey Rourke faz uma espécie de figura paterna, o homem sábio a quem Stallone recorre quando precisa filosofar sobre a vida. É na oficina de tatuagem de Rourke, aliás, que todos se reúnem para agir como "homens", falar alto, exibir os músculos e brincar com facas. Várias sequências foram filmadas no Brasil e, recentemente, Stallone cometeu uma gafe ao querer elogiar o país; muitos, sofrendo de complexo de vira-lata, ficaram ofendidos, prometendo boicotar o filme. A julgar pela sala lotada, isso foi esquecido.