sábado, 11 de junho de 2011

Um Gato em Paris

Boa surpresa esta animação francesa em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês, no Topázio Cinemas. O desenho dos diretores Alain Gagnol e Jean Loup Felicioli é estilizado e bonito, com figuras arredondadas e cores que parecem feitas com lápis de cor ou giz de cera. Há várias cenas noturnas e Paris é mostrada com muitas luzes, mas não da forma realista como, digamos, a Pixar a pintou em Ratatouille, mas como uma pintura vista por uma criança.

Zoe é uma menina que perdeu o pai durante uma ação policial. Ele foi morto pelo cruel bandido Vítor Costa, que está obsecado em roubar uma estátua famosa que vai passar pela cidade. A mãe de Zoe, Jeanne, também é policial e não tem tempo para a filha. Jeanne quer capturar Costa a qualquer preço e passa horas na delegacia, deixando a pequena Zoe com uma babá muito suspeita. Em meio a tudo isso há dois personagens que passam a noite perambulando pelos tetos de Paris, o gato Dino e o ladrão Nico, personagem que lembra aqueles ladrões "românticos" do cinema, que roubam mais pelo desafio do que para fazer mal a alguém. Há um toque de "Ladrão de Casaca", de Alfred Hitchcock, nas cenas noturnas em que as silhuetas de Nico e Dino pulam de telhado em telhado, fazendo roubos ousados. A trama se passa em apenas uma noite, com várias reviravoltas e cenas de perseguição muito bem feitas. Nico, apesar de ladrão, é bom rapaz e ajuda a salvar Zoe quando ela é sequestrada pelos capangas de Vitor Costa. Há uma cena muito boa, passada na completa escuridão, em que os personagens são apenas delineados em branco sobre o fundo preto. É bom ver uma animação que não abusa de efeitos tridimensionais feitos em computação gráfica.

A Torre Eiffel, claro, está presente no cenário, mas o clímax da história é passado no topo da Catedral de Notre Dame, em estilo de filme noir, com o embate final entre Nico e o gângster. Apesar da trama policial, a animação é apropriada para crianças que, certamente, vão se divertir com as cenas de ação e com o humor fino dos personagens, principalmente Nico e o gato Dino. Visto como cortesia no Topázio Cinemas, em Campinas.


Uma Doce Mentira

Audrey Tautou (a eterna Amélie Poulain) estrela esta divertida comédia de erros do diretor francês (de origem tunisiana) Pierre Salvadori. O filme está em cartaz no "Festival Varilux de Cinema Francês", no Topázio Cinemas, em Campinas (e em outras 22 cidades brasileiras) até o dia 16 de junho.

Tautou é Émilie, uma cabeleireira cuja mãe, Maddy (Nathalie Baye) está com depressão. Maddy ainda acredita que o ex-marido, um artista de quem está separada há quatro anos, vai voltar para ela. No salão de beleza trabalha Jean (Sami Bouajila), funcionário da manutenção que está apaixonado por Émilie. Um dia ele escreve uma carta de amor anônima e a envia para Émilie, que não lhe dá importância; só que ela decide enviá-la para a própria mãe, em uma tentativa de aumentar sua auto-estima. O plano funciona, só que as consequências vão além do que Émilie esperava. Um mal entendido faz com que a mãe acredite que Jean está apaixonado por ela, mas é muito tímido para demonstrar. Esta trama já foi explorada diversas vezes e, de fato, não há muita originalidade no roteiro de "Uma Doce Mentira" (escrito pelo diretor e por Benóit Graffin), o que não significa que o filme seja ruim. Pelo contrário, é dirigido com muita leveza por Salvadori e é bem interpretado pelo elenco. Tautou, é verdade, explora muito seu lado "gracinha", conquistando a platéia com seus grandes olhos e expressões divertidas. Bouajila está muito bem e há uma cena hilariante em que Émilie descobre que seu "eletricista" é muito mais do que aparenta.

Mas quem esbanja talento e energia neste triângulo amoroso é Nathalie Baye, misturando cenas de depressão com outras em que assume seu lado mais ousado, quando acredita estar apaixonada pelo pobre eletricista. "Uma Doce Mentira" é diversão tranquila que poderia ser mais curto. A fotografia de Gilles Henry é luminosa e explora a região enrolarada em que é passado o filme. Há uma bela cena, no início, em que Jean observa Émilie por trás de uma porta com vários vidros coloridos, e o espectador a vê banhada em diversas cores, múltipla como sua personalidade. Filme visto como cortesia no Topázio Cinemas de Campinas.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Kung Fu Panda 2

"Kunf Fu Panda 2" é um avanço considerável em relação ao primeiro filme, tanto tecnicamente quanto em roteiro. Sim, é um filme infantil do século 21, o que significa inevitáveis piadas escatológicas. Neste episódio descobrimos as origens de Po, o urso panda que se tornou mestre de kung fu e que pensava ser filho de um ganso (que surpresa, ele não é).

O malvado mestre Shen, um pavão com penas afiadas, descobriu que a pólvora pode ser usada não só para fazer fogos de artifício e criou armas de guerra que, aparentemente, podem acabar com o Kung Fu. Só há um problema; uma cabra, prevendo o futuro, disse que Shen seria destruído por uma criatura preta e branca. Em uma clara referência bíblica, Shen envia seus lobos para matar todos os ursos pandas do reino, o que força a mãe de Po a colocá-lo em uma cesta, que vai parar em um rio e, finalmente, no restaurante do Ganso. Qualquer semelhança com Moisés não é mera coincidência. Estas cenas são visualizadas em belas animações que simulam o 2D tradicional, contrastando bem com a rica animação tridimensional com que é feito o filme.

Há muita "filosofia de biscoito da sorte", dita principalmente pelo mestre Shifu (voz original de Dustin Hoffman), que ensina a Po que ele deve encontrar sua "paz interior". A animação em computação gráfica chegou a um nível de refinamento que nos faz esquecer que estamos vendo um conjunto de "pixels" se movendo na tela e, lição que a Pixar vem dando há muito tempo, o cuidado com o roteiro ajuda muito a envolver o público. Po e seus amigos (uma tigreza, um louva-deus, uma garça, um macaco e uma cobra, todos mestres em seus estilos de Kung Fu, claro) vão até Gongmen City tentar libertar a cidade das garras (ou penas) de Shen, impedir seus planos de dominar a China e, de quebra, restaurar a honra do Kung Fu.

O roteiro tem humor na dose certa, bons personagens e cenas de ação e luta que certamente farão a alegria da criançada. Os adultos podem aproveitar o visual requintado e algumas boas piadas. A produção é da Dreamworks Animation, com direção de Jennifer Yuh Nelson.


sábado, 4 de junho de 2011

X-Men: Primeira Classe

A série de filmes "X-Men" começou em 2000 em filme dirigido por Bryan Singer. A produção já mostrava que os estúdios Marvel estavam falando sério ao transpor o universo de mutantes dos quadrinhos para o cinema. O elenco, em especial, chamava a atenção. Patrick Stewart (que já havia sido o capitão Jean-Luc Piccard na série Star Trek: A Nova Geração) interpretava o mentor dos mutantes "do bem", Charles Xavier, e Ian McKellen era Magneto, o chefe dos mutantes "do mal". Hugh Jackman era o carismático Wolverine e atores e atrizes como Famke Janssem, Halle Berry, James Marsden, Brian Cox, entre outros, completavam o time. "X-Men 2" (2003) era melhor que o primeiro e avançava na metáfora de racismo e homofobia que os mutantes claramente representavam. A série ainda contou com "X-Men 3" (dirigido por Brett Ratner), que era mais do mesmo, e com um filme feito sobre Wolverine (2009), que era particularmente ruim.

"X-Men: Primeira Classe" embarca na nova fórmula descoberta por Hollywood para explorar suas "franquias", as "prequels". Ao contrário de uma "sequel" (continuação), a "prequel" é um filme que mostra eventos anteriores às histórias originais. Pelo lado bom, é uma forma de mostrar a origem dos personagens e, quando bem feito, de melhor aprofundá-los. Pelo lado ruim (como foi o caso de "Wolverine"), pode ser apenas um caça-níqueis que se aproveita dos filmes originais para se promover, além de um elenco novo, e mais barato, para o estúdio explorar. "Primeira Classe" está em um estágio intermediário entre estas duas possibilidades. Apesar de se propor a mostrar a origem dos "X-Men" como um todo, o filme está claramente focado no personagem de Erik Lehnsherr, o Magneto, interpretado pelo alemão Michael Fassbender. Sua história é contada desde 1943, quando Erik era um garoto judeu que é separado da mãe pelos nazistas. A cena, aliás, já havia sido mostrada em flashbacks dos filmes anteriores, mas a situação é estendida. O pequeno Erik, quando está com raiva, mostra ser capaz de atrair e mover objetos de metal, o que atrai a atenção de Sebastian Shaw, um nazista interpretado por Kevin Bacon. A cena em que Shaw mata a mãe de Erik retrata bem os problemas de "Primeira Classe". A boa carga emocional é atrapalhada por erros ridículos (a fúria de Erik destrói todo um laboratório, mas não quebra paredes de vidro, por exemplo). Esta combinação de seriedade com amadorismo permeia todo o filme (dirigido por Matthew Vaughn, de "Kick-Ass").

Da II Guerra Mundial, a trama pula para os anos 60 e para a "Crise dos Mísseis" entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos. Shaw, que se tornou um vilão mais ao estilo de James Bond, quer destruir todos os humanos "normais" em uma guerra nuclear entre as duas superpotências. Charles Xavier (o bom James McAvoy) é um estudioso de genética da Universidade de Oxford que é contratado pela CIA para combater os comunistas e, de quebra, encontrar e recrutar a nova raça de mutantes que está surgindo no planeta. "Primeira Classe" é muito bom quando foca na relação complicada entre Xavier e Magneto. Os dois têm inteligência acima da média e vários pontos em comum, mas são separados pela grande mágoa e sede de vingança carregadas por Erik. O filme é ruim, quase patético, no recrutamento e seleção dos outros mutantes, todos jovens, e na infeliz composição do vilão criado por Kevin Bacon; Sebastian Shaw (que, com o auxílio de outro mutante poderia ir de um ponto a outro do planeta) passa grande parte do filme navegando em um submarino que, vale repetir, parece vir diretamente de um filme de James Bond, com grandes salas decoradas e garotas mutantes em trajes mínimos. A "vida real", representada pela Crise dos Mísseis, Cuba, o Presidente Kennedy, etc, é misturada com a trama dos mutantes com resultados que variam, novamente, do ótimo ao patético, culminando com uma batalha final espetacular e absurda (que conta com a presença do ator Michael Ironside em uma ponta).

"X-Men: Primeira Classe", apesar de interessante, é bastante irregular. As inevitáveis continuações, talvez, acertem o passo.


sábado, 28 de maio de 2011

Um Novo Despertar

Fosse este um filme bizarramente genial de Charlie Kaufman ou uma comédia dos irmãos Farrelly (estrelada por Jim Carey) talvez o resultado tivesse sido melhor. Mas "Um Novo Despertar", apesar da premissa aparentemente radical, é tão quadrado quanto seu título brasileiro. O filme é estrelado e dirigido por Jodie Foster e traz no papel principal ninguém menos que Mel Gibson, que um dia já foi garantia de bilheteria; ultimamente, por conta de uma série de declarações e atitudes infelizes, o ator e diretor tem estrelado mais páginas policiais e de fofocas do que em obras cinematográficas.

Gibson é Walter Black, dono de uma empresa de brinquedos que está sofrendo de depressão. Passa os dias em um estupor constante que aliena a esposa Meredith (Foster) e os filhos Porter (Anton Yelchin, de Star Trek) e Henry (Riley Thomas Stewart). Um dia a esposa finalmente o coloca para fora de casa e Black decide se matar em um quarto barato de hotel. Ele é salvo no último minuto por uma voz estranha que, aparentemente, vem de um boneco de castor que Black havia colocado no braço, minutos antes, bêbado. O castor "fala" através de Gibson, que usa um falso sotaque britânico que me lembrou uma imitação de Michael Caine. Salvo da morte pelo castor, Walter Black volta para casa e, com a facilidade e didatismo típicos de um filme "família" americano, consegue conquistar o filho mais novo e a esposa, a quem diz que o castor é uma terapia nova implementada por seu psiquiatra.

A premissa não é ruim. A mente humana é inventiva e lida com problemas psíquicos de diversas formas. Mel Gibson, além de bom ator, já interpretou diversos "malucos" anteriormente, do policial Riggs na série Máquina Mortífera e o publicitário de "Do que as mulheres gostam" até o príncipe da Dinamarca, Hamlet, em filme de Franco Zefirelli. A idéia de um homem depressivo que só consegue se comunicar através de um boneco não é ruim, o problema é que o filme não consegue fugir do típico drama familiar americano. O personagem de Gibson, sempre falando pelo castor, faz uma reunião com os funcionários de sua empresa de brinquedos e lhes propõe uma reformulação geral. Em poucas semanas, milagrosamente, a companhia está vendendo milhões de dólares de um kit de madeira para crianças chamado, claro, de "O Castor".

Há uma subtrama, até mais interessante do que a principal, envolvendo o filho mais velho de Walter, Porter, e Nora (Jennifer Lawrence, de "Inverno da Alma") uma garota que é a primeira da sala. Ela quer pagar Porter para que ele escreva um discurso de formatura para ela. O rapaz (em outra "sacada" psicológica do roteiro) é bom em se fazer passar por outras pessoas e costuma cobrar para fazer os trabalhos dos companheiros de classe. Esta subtrama lembra um pouco "Beleza Americana"; até a mãe de Nora é interpretada pela mesma atriz que fazia a mãe fria e distante do rapaz no filme de Sam Mendes, Allison Janney.

O final chega até mais longe do que se poderia esperar de um filme como este, mas não resolve os problemas da produção. Há erros flagrantes de continuidade no roteiro e a trilha sonora de Marcelos Zarvos é melosa e soporífica. Dispensável.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tecnologia ajuda jovens cineastas

por João Solimeo




Câmeras fotográficas não servem apenas para tirar fotos. A capacidade de se gravar vídeos em alta definição representou um avanço considerável para os produtores de imagens em movimento. Rodrigo Zanotto, 32 anos, natural de São José dos Campos e morador de Campinas, foi diretor de fotografia e operador de câmera em vários trabalhos. É dono de uma Canon 5D Mark II, uma das mais avançadas e cobiçadas máquinas fotográficas do mercado, a “menina dos olhos” dos novos cineastas. A 5D tem a capacidade de gravar vídeos em alta definição e “full frame” (semelhante à película cinematográfica de 35 mm) e está sendo usada por profissionais de cinema e televisão do mundo todo, mesmo nos Estados Unidos. Zanotto foi diretor de fotografia do curta-metragem vencedor do prêmio do júri popular no último Festival de Cinema de Paulínia, Meu avô e eu, de Caue Nunes. “Os aspectos positivos da 5D, além do preço bem em conta (por volta de US$ 3.500 o kit básico), são a similaridade com câmeras de cinema, a profundidade de campo, o tamanho do frame e as texturas da imagem”, diz Zanotto.


Túlio Ferreira, 28 anos, de Valinhos, também trabalha com audiovisual. Atualmente morando em São Paulo e professor na Escola de Cinema, começou aqui na região a trabalhar com curtas-metragens, videoclipes e institucionais. O envolvimento de Túlio com o audiovisual começou no mercado de gravações de eventos como casamentos, formaturas e festas de aniversário, mas seu amor pelo cinema fez com que se aventurasse por caminhos maiores. Para ele, fazer cinema só é um hobby para as pessoas que encararam a atividade dessa maneira. “Se cinema é sua paixão”, diz ele, “e você não consegue se imaginar fazendo outra coisa, então podemos conversar”. Certa vez, durante uma palestra do diretor Claudio Assis (diretor de Amarelo Manga e Baixio das Bestas), Túlio perguntou se é possível viver de cinema no Brasil, ao que o diretor respondeu, meio furioso: “Claro que dá! É só você correr atrás!". Túlio está trabalhando como editor em um longa-metragem independente chamado Alguém Qualquer, produzido inteiramente com uma Canon 7D (modelo inferior à 5D, citada anteriormente, mas também de ótima qualidade). “O digital veio para ficar e a película cinematográfica [filme] existirá apenas para os saudosistas” – diz Ferreira - “Os custos despencam a cada dia. Gravamos um longa-metragem com uma câmera fotográfica, com imagens maravilhosas, transferidas na hora para o computador, analisadas e até montadas quase que em tempo real. Isso é esplêndido! Portanto, o digital é o melhor amigo do cineasta independente”.




Caue Nunes, 34 anos, jornalista formado pela PUC-Campinas, é um dos produtores regionais mais bem sucedidos dos últimos anos. Seu trabalho foi reconhecido em duas edições consecutivas do Festival de Paulínia, ganhando prêmios por seu documentário Quem será Katlyn? (2009), sobre a vida de uma travesti e por Meu avô e eu (2010), descrito por Nunes como “uma ficção sobre um jovem que reflete sobre sua situação enquanto passa por uma entrevista de emprego”. Este último filme teve direção de fotografia de Rodrigo Zanotto e foi gravado com uma Canon 5D. Mesmo assim, Caue é mais reservado e realista quanto ao uso do equipamento em produções cinematográficas. “Tem vantagens como o uso de lentes de câmera fotográfica, o que dá uma estética mais cinematográfica, e o CCD [sensor eletrônico que capta as imagens] tem o mesmo formato das câmeras de película de 35mm. Mas há desvantagens: o som precisa ser gravado em outro equipamento, e como as câmeras são muito pequenas, os movimentos são mais difíceis e instáveis”. Caue Nunes também levanta outro problema, o da exibição. Não basta produzir um filme, é necessário exibi-lo. “Os equipamentos profissionais ainda são caros e de difícil manuseio. Câmeras, lentes, filtros, luzes, finalização. Tudo isso ainda é muito caro. Hoje as salas de cinema têm um padrão técnico mínimo, se você estiver fora do padrão corre o risco do filme ficar na gaveta”. Nunes, que começou a produzir em 1999 em uma oficina de cinema em Campinas, conta que o fato de vencer um prêmio em Paulínia mostra que o trabalho é reconhecido pelo público. Para seu segundo curta, Nunes contou com uma pequena verba em dinheiro do FICC (Fundo de Investimentos Culturais de Campinas) e serviços de equipamento e finalização do prêmio recebido em Paulínia. Seu último trabalho, o curta chamado 3 x 4, tem sido muito bem recebido. “Na verdade, está sendo meu curta com a melhor carreira” – diz Nunes, “foi para o Gramado Cine Vídeo, Festival Amadis Du Film, na França, e agora está no circuito de festivais da Inffinito [empresa distribuidora de filmes] e será exibido em Londres, Nova York, Vancouver, Montevidéu e Buenos Aires. Vou mandar para Paulínia, espero que entre. Fora isso, tenho outros projetos de curtas e um longa-metragem que é um falso documentário”.
O próximo Festival de Cinema de Paulínia ocorre entre os dias 7 e 14 de julho, e certamente contará com várias produções feitas por aqui.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Lope

Cinebiografia do dramaturgo e poeta espanhol Lope de Vega, esta co-produção entre Espanha e Brasil conta com a direção do brasileiro Andrucha Waddington (de Eu, Tu, Eles e Casa de Areia). No final do século XVI, Lope (o ator argentino Alberto Ammann) volta da guerra para Madri, onde encontra a mãe (Sonia Braga, em uma cena rápida) à beira da morte. Lope é bom com as palavras mas a família é pobre; mesmo assim, o poeta quer dar à mãe um enterro nobre que o deixa endividado e na mão de um produtor de teatro chamado Jerónimo Velázquez (Juan Diego), a quem promete escrever cinco comédias.

A situação financeira, com o tempo, acaba se revelando o menor dos problemas de Lope de Vega. Conquistador, ele se envolve com a controladora filha de Velázquez, Elena (Pilar Lopez de Ayala) e com Isabel (Leonor Watling), que está de casamento marcado com o Marquês de Navas (Selton Mello, interpretando um personagem português). A produção de época é muito bem feita, em especial a maquiagem, os figurinos e a maravilhosa direção de fotografia do brasileiro Ricardo Della Rosa, que compõe verdadeiros quadros com seus planos. O roteiro deixa um pouco a desejar, principalmente na primeira parte. O filme se arrasta em exposição desnecessária, principalmente na morte da mãe de Lope. O próprio personagem do poeta demora a se definir e Waddington se alonga em cenas que mostram Lope "descobrindo" o teatro e se maravilhando com os bastidores.

Cinebiografias de escritores e dramaturgos são bastante semelhantes, e Lope tem vários momentos que lembram "Shakespeare Apaixonado" (nas cenas passadas no teatro) e "Cyrano de Bergerac" (Lope serve de poeta contratado para o Marquês de Navas, que tenta usar como suas as palavras de Vega). Há algumas cenas de ação, inclusive duelos de esgrima, que destoam um pouco da teatralidade presente em quase todo resto do filme. Há passagens plasticamente muito belas, principalmente as que mostram a fuga de Lope da Espanha para Portugal, onde ele pretende embarcar nas caravelas para "as Américas". Segundo o filme, Vega foi chamado por Miguel de Cervantes (autor de Dom Quixote) de "monstro da natureza", pelo enorme volume de seu trabalho. Vega teria revolucionado o teatro espanhol com sua mistura de comédia e drama. Como quase todo artista, sua vida era tão atribulada quanto sua obra apreciada.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Thor

A cultura "pop" americana é impressionante. Em que outro lugar no mundo (tirando o Japão) se imaginaria uma história tão espetacularmente absurda como "Thor"? Este é outro produto da máquina de mitos da Marvel, que redescobriu sua mina de ouro ao levar para a tela grande seus antigos heróis das histórias em quadrinhos, quase todos criações do roteirista Stan Lee. Em uma aposta ousada (mas nao tão arriscada, quando se leva em conta a falta de originalidade do cinema americano atual) a Marvel resolveu apresentar os heróis do grupo "Os Vingadores" um de cada vez, cada um com seu filme particular, antes de produzir a história com o grupo formado.

A versão cinematográfica de "Thor" é dirigida por Kenneth Branagh, conhecido pelos filmes de Shakespeare que fez no final dos anos 80 e nos anos 90 (Henrique V, Muito Barulho por Nada, Hamlet). Pode-se imaginar uma reunião de executivos discutindo o roteiro de "Thor" e pensando: "Quem poderia dirigir um filme sobre reis, rainhas, intrigas palacianas e traições?". Há até uma frase em "Thor" em que um príncipe diz que o povo não aceitaria um soberano que houvesse chegado ao trono tendo matado seu antecessor, o que basicamente é a trama de Hamlet.

Assim, da mistura da mitologia nórdica com as histórias em quadrinhos americanas surgiu Thor, o "Deus do Trovão". Ele é interpretado pelo australiano Chris Hemsworth, e Sir Anthony Hopkins interpreta o deus Odin, seu pai. O mundo dos deuses é chamado de "Asgard", uma cidade com um visual exagerado, quase brega. A direção de arte usa e abusa de dourados e enche a tela de cores brilhantes e vermelho sangue. Branagh, de formação teatral, cria cenas grandiosas como a que milhares de figurantes (digitais) assistem ao que seria a coroação de Thor como o novo rei de Asgard. Acontece que seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston) tem outros planos e consegue manipular Thor e seus amigos guerreiros a causar uma guerra com os "Gigantes do Gelo". Banido para a Terra, Thor é encontrado por uma cientista obstinada chamada Jane Foster (Natalie Portman), que estuda as "anomalias magnéticas" causadas pelo meio de transporte dos Asgardianos. O ator sueco Stellan Skarsgård interpreta outro cientista, Erik Selvig, que vai desconfiar da origem verdadeira de Thor.

Há várias piadas internas, principalmente com o Agente Coulson (Clark Gregg) da "SHIELD" (a organização por trás dos Vingadores). Quando Loki envia uma espécie de robô para a Terra, um dos agentes pergunta a Coulson se o monstro de metal era alguma criação do "Stark" (Tony Stark, o "Homem de Ferro"). Toda a trama, claro, é extremamente absurda, mas isso não importa. Chega a ser emocionante a cena em que Thor, após derrotar vários humanos, consegue finalmente chegar ao local onde está seu martelo e tenta tirá-lo da rocha. Toda sua arrogância e poder se mostram inúteis e é então que seu personagem começa a mudar. Mesmo o visual exagerado de Asgard tem um "charme" nostálgico. Kenneth Branagh faz o que pode em uma superprodução em que, provavelmente, ele não passa de uma pequena engrenagem. Surpreendentemente, "Thor" resulta em um filme divertido e, dentro do que se propõe, satisfatório.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Contracorrente

Em uma pequena vila de pescadores, no Peru, Miguel (Cristian Mercado) está casado com Mariela (Tatiana Astengo), que espera seu primeiro filho. É uma vila bem tradicional, com um padre, um bar e pequenas casas de frente para o mar. Uma figura distoa da paisagem, o pintor Santiago (Manolo Cardona), um rapaz alto, que anda pela vila bem arrumado, tirando fotos que usa para suas pinturas. O espectador descobre então que Miguel tem uma vida de aparências; o pescador, marido e futuro pai, na verdade, mantém um caso secreto com o pintor Santiago. Os dois se encontram em praias escondidas e Santiago, na verdade, está um pouco cansado de manter o romance em segredo.

"Contracorrente" é escrito e dirigido por Javier Fontes León, que conduz o filme com sensibilidade. O roteiro demora um pouco para engrenar, mas o começo expositivo serve para explicar uma reviravolta, com tons sobrenaturais, que ocorre em seguida. O que parecia ser "apenas" a história de um amor homossexual escondido, ganha contornos mais interessantes quando Miguel (e o espectador) descobrem que o pintor Santiago pode estar morto. Ele teria batido a cabeça em uma pedra, na praia, e seu corpo está perdido em alguma "contracorrente", no mar. Enquanto isso, seu "espírito" passa a aparecer para Miguel, que é o único que pode vê-lo. Isso causa uma situação interessante; Miguel, que não queria assumir sua identidade e muito menos ser visto em público com Santiago, passa a desfrutar de sua companhia o tempo todo, o que não deixa de ser conveniente; ele acredita poder manter seu "segredo" e seu casamento.

Tudo isso se passa em uma bela paisagem filmada na costa do Peru, em Cabo Blanco. O elenco é muito bom, principalmente Tatiana Astengo, que interpreta a esposa de Miguel como uma mulher forte e decidida a lutar pelo marido. A vida dos pescadores é mostrada de forma sensível e vemos seu modo de trabalhar e sua religiosidade. Como curiosidade, os moradores são fãs das telenovelas brasileiras. Em vários momentos eles estão vendo "Direito de Amar", produzida pela Globo. O roteiro, naturalmente, tem semelhanças com "O Segredo de Brokeback Mountain", mas o filme peruano é bem menos ambicioso e, talvez por isso mesmo, melhor resolvido. "Contracorrente" ganhou o prêmio de público no Festival de Sundance e foi o vencedor do Festival Mix Brasil em 2010.


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Bróder

"Bróder", de Jefferson De, foi apresentado no Festival de Cinema de Paulínia, em 2010, com boa aceitação, e agora ganha lançamento em circuito nacional. O filme foi feito no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, e acompanha um dia na vida de três amigos, Macu (Caio Blat), Jaime (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane). Jaime é um badalado jogador de futebol que estava na Espanha mas, contundido, é dúvida para a escalação da seleção brasileira. Ele está em São Paulo para uma avaliação médica e para tentar se acertar com Elaine (Cíntia Rosa), que está grávida de um filho dele. Pibe é formado em Direito e se mudou da periferia para o centro da cidade. Ele se casou e tem um filho pequeno, mas a vida não está nada boa para o casal. Macu, branco, está fazendo aniversário e sua mãe (Cássia Kiss), lhe prepara uma festa surpresa. Ele está devendo dinheiro para um traficante barra pesada e precisa fazer um trabalho para quitar a dívida. Os três amigos se reencontram no Capão Redondo em uma cena insólita, em que o carrão do jogador Jaime contrasta com a pobreza do lugar e com o fato de haver um corpo jogado na calçada, com a família aos prantos.

Jeferson De brinca com a questão do que é ser negro ou branco na periferia. Quando o filme começa, por exemplo, vemos uma silhueta falando ao celular, usando de muitas gírias, e imaginamos na hora ser um personagem negro. Quando a cortina deixa a luz entrar, vemos que é Caio Blat. Cássia Kiss, branca, interpreta uma mulher evangélica que freqüenta uma igreja cujo pastor é João Acaiabe, negro. Aílton Graça, outro ator negro, interpreta o marido de Cássia Kiss. Como se vê, a pobreza não tem cor. Mas há uma cena que mostra o preconceito ainda existente na sociedade. Quando Macu, Jaime e Pibe estão “dando um rolê” pela cidade no carrão de Jaime, a polícia os para e começa a prender os dois negros, achando que eles estavam sequestrando o branco.

A trilha sonora tem sucessos de Mano Brown e Jorge Ben Jor, entre outros, e o filme soa bastante autêntico. A produção contou com o apoio de ONGs do Capão Redondo que garantiram que quase todo o filme fosse rodado no próprio bairro. Os atores estão muito bem e Caio Blat, em especial, surpreende. Interessante também a coincidência da história de Jaime, jogador de futebol que engravidou uma moça de periferia, e as notícias do goleiro Bruno e a antiga amante. Há também similaridades com "Quatro irmãos", filme de John Singleton rodado em 2005, que também tratava de uma família adotiva formada por jovens brancos e negros. Belo filme, que muda um pouco o cenário das tradicionais favelas do Rio de Janeiro para a periferia de São Paulo, igualmente perigosa e cheia de histórias para contar.


domingo, 17 de abril de 2011

Cópia fiel

Abbas Kiarostami trata de dois temas em "Cópia Fiel": o conceito de Arte e as relações amorosas. O filme brinca o tempo todo com noções pré-concebidas do que seria uma narrativa linear, além do que é "real" ou "fictício" em uma obra cinematográfica. Como toda boa obra de arte, a trama é polissêmica, isto é, tem vários significados, que podem ser interpretados de forma diferente por cada espectador. Complicado? Tão complicado quanto são as relações amorosas.

Há um casal. Ele é James Miller (William Shimell), um escritor que vai à Toscana, na Itália, para o lançamento de seu último livro, chamado "Cópia Fiel". Ela é Juliette Binoche, que sequer tem um nome (o banco de dados IMDB a chama de "Elle", que quer dizer "ela" em francês), a dona de uma loja de antiguidades e mãe de um pré-adolescente. Binoche compra seis cópias do livro de Miller e o convida para um passeio pela Toscana, de carro, em uma bela tarde de domingo. Aparentemente, são dois estranhos que estão se conhecendo. No caminho conversam sobre o significado da arte e o tema do livro de Miller. Há uma tensão palpável no ar, partindo principalmente da personagem nervosa de Binoche. Quando os dois param para tomar um café o filme, sutilmente, muda de direção. A dona do "Café" os confunde por marido e mulher e Binoche não a corrige. Enquanto Miller está ao celular, na rua, Binoche e a mulher discutem o valor do casamento e a aparente frieza e distância dos homens. Ao saírem deste café, Binoche e Miller começam a agir como se realmente fossem casados e a relação estivesse em crise.

É aqui que o espectador é convidado para refletir sobre o que está vendo. O casal na tela está apenas representando um papel? Estaria Miller, o escritor inglês, apenas provocando Binoche e entrando no jogo dela, fingindo ser seu marido? Ou, na verdade, eles são realmente casados e a representação era anterior, quando se faziam passar por desconhecidos? As possibilidades são muitas. Os significados, também. Kiarostami joga com os conceitos de "original" e "cópia" em uma obra de arte e os transfere para a criação e manutenção de uma relação amorosa. O casal na tela é "real" ou está apenas representando? Na verdade, não importa. Encarar "Cópia Fiel" como um enigma a ser desvendado não só é perda de tempo como também limita os vários significados encontrados no filme. Binoche e James Miller passam grande parte da trama andando pela pequena vila de Lucigniano, onde dezenas de noivos e noivas vão tirar uma foto junto a uma árvore considerada abençoada. É em meio a estes novos casais, cheios de esperança e alegria, que os personagens passam por várias das situações comuns de um casal que está junto há muito tempo: cobranças, acusações e discussões entrecortadas por pequenos momentos de compreensão e amizade. A interpretação de Juliette Binoche, como sempre, é extraordinária. Falando três línguas (inglês, francês e italiano), sua presença na tela é inigualável. Binoche ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, em 2010, pelo papel

O resultado é um filme intrigante e muito bem feito. Destaque para a bela fotografia de Luca Bigazzi. Repare como o enquadramento, por diversas vezes, também brinca com o conceito de "original versus cópia", utilizando diversos espelhos para mostrar o contra-plano.


domingo, 10 de abril de 2011

Rio

Brasileiro é um povo estranho. Quando o seriado "Os Simpsons" fez um episódio em que os personagens vinham ao Brasil destilar seu humor afiado, cheio de críticas, ouviu-se a ira "patriótica" de muitos. Agora, quando o brasileiro Carlos Saldanha, um dos diretores de animação mais bem sucedidos do mundo, resolveu usar seu poder nos estúdios "Blue Sky" (produtores da série "Era do Gelo") para fazer um filme passado em um Rio de Janeiro belo e alegre, escuta-se novamente o brado de que ele estaria mascarando os problemas da cidade maravilhosa. Nas duas situações, há muita bobagem e pouca crítica séria.

Sim, "Rio" é uma animação extremamente colorida e alegre que, pecado dos pecados, mostra um Rio de Janeiro lindo, com fauna exuberante e pessoas preocupadas só com o Carnaval. Como produto de entretenimento e filme infantil, "Rio" não tinha nenhuma obrigação de ser polêmico ou mesmo verossímil. Seria como criticar "A Era do Gelo" por não ser cientificamente correto. Por uma terrível coincidência, o filme foi lançado um dia depois do massacre causado por um homem fora de controle em uma escola do Rio de Janeiro, em que 12 crianças foram assassinadas. Uma pena que o Rio de verdade não seja mais parecido com o animado mas, repetindo, não se pode julgar Paris pelo visto em "Ratatouille".

Blu é uma arara azul muito rara que, ainda filhote, foi capturado por contrabandistas de animais exóticos e levado aos Estados Unidos. Ele se torna animal de estimação de Linda, uma moça tímida que o trata como se fosse da família. Mas um dia um cientista brasileiro chamado Tulio aparece e diz que Blu é o último macho da sua espécie, e deve ser levado ao Rio de Janeiro para se acasalar com Jade, a última fêmea. Blu é tão domesticado que sequer sabe voar; ao conhecer Jade, não entende o porquê dela querer escapar e voltar para a natureza. As duas araras acabam roubadas por um garoto que trabalha para contrabandistas de animais. Estes contrabandistas moram, sim, em uma favela que, se não mostra traficantes trocando tiros, é realista e visualmente interessante o suficiente para a animação.

A cidade do Rio, claro, é a principal personagem do filme. E os animadores a mostram com grande beleza e riqueza de detalhes. As cenas noturnas são particularmente bem feitas e, estilizada ou não, não deixa de ser interessante ver a paisagem brasileira na tela. Tudo culmina com um feito técnico impressionante, o desfile de uma escola de samba em pleno carnaval carioca. Há literalmente milhares de "figurantes" tridimensionais nesta sequência, embalados pela trilha sonora criada por Sergio Mendes. Saldanha, que é carioca e migrou para os Estados Unidos para aprender animação, sem dúvida se coloca um pouco no personagem de Blu, um expatriado que volta ao Rio de Janeiro e a vê mais com os olhos maravilhados de um turista do que com o realismo de um morador local. "Rio" não é nenhum clássico, mas é diversão leve e bem feita para crianças e adultos.


sábado, 9 de abril de 2011

Sidney Lumet (1924 - 2011)

Morreu o grande cineasta Sidney Lumet. Estava com 86 anos, mas bastante ativo. Seu último filme foi "Antes que o diabo saiba que você está morto" (2007), com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Marisa Tomei, que mostrava a ousadia e força de um diretor em início de carreira.

Lumet teve uma carreira prolífica e marcante.

Em 1957 dirigiu Henry Fonda em "12 Homens e uma Sentença". A parceria com Al Pacino deu ao mundo "Serpico" (1973) e "Um dia de Cão" (1975); quem pode se esquecer de Pacino gritando "Attica! Attica!"?
Em 1976, fez um dos filmes mais corrosivos sobre o mundo do jornalismo, "Rede de Intrigas", com o famoso discurso de Peter Finch revelando, ao vivo, os "podres" da mídia televisiva. Com Paul Newman, James Mason e Charlotte Rampling fez o drama de tribunal "O Veredicto" (1982).

E mais uma série de filmes de todos os tipos, bons e ruins, sempre interessantes e com algo a dizer.

Parte Lumet, ficam seus filmes. Sua morte deixa o cinema menos inteligente.








segunda-feira, 4 de abril de 2011

Uma Manhã Gloriosa

Há muitos anos existe um debate entre o que é entretenimento e o que é notícia. Nos Estados Unidos até se criou o termo "infotainment", ou "infoentretenimento", que englobaria aqueles programas matinais como o icônico "Today Show", da rede NBC, que mistura as notícias da manhã com receitas de bolo e matérias sobre obesidade. Como vivemos em plena era da publicidade, infelizmente o jornalismo clássico tem perdido terreno para o sensacionalismo e os programas apelativos. "Uma Manhã Gloriosa" trata destes assuntos, ironicamente, de forma leve e divertida, embora seria injusto exigir algo mais profundo de um produto que é, descaradamente, entretenimento.

Rachel McAdams, mais adorável do que nunca, é Becky Fuller, uma produtora de TV workaholic que assume a produção executiva do programa "Daybreak", da fictícia emissora IBS, em Nova York. "Daybreak" está com péssima audiência e a emissora está pensando em cancelá-lo, mas Becky, com uma dedicação patológica, começa a fazer mudanças. A mais drástica é demitir o âncora do programa e, em seu lugar, colocar o lendário (e ranzinza) jornalista Mike Pomeroy (Harrison Ford, assumindo a idade). Pomeroy representa o jornalista clássico, hard news, e só se interessa pela verdade e por sua inabalável integridade. Baseado em Mike Wallace (do programa 60 Minutes), Pomeroy aceita o trabalho pelo dinheiro, mas se recusa e entrar no "clima" do programa matutino. Becky, além dos problemas de audiência, precisa também controlar a briga de egos entre Pomeroy e a outra apresentadora do "Daybreak", Collen (Diane Keaton), que já foi Miss Arizona.

Dirigido por Roger Michell, "Uma Manhã Gloriosa" parece um sitcom bem produzido e está mais para filmes como "O Diabo Veste Prada" do que para clássicos sobre jornalismo como "Todos os Homens do Presidente" (Alan J. Pakula, 1976) ou mesmo filmes mais leves como "Broadcast News" (de James L. Brooks, 1987). Mas o carisma do elenco, principalmente de Rachel McAdams, mantém "Uma Manhã Gloriosa" razoavelmente interessante. As mudanças que a produtora tem que fazer para aumentar a audiência mostram como nossa sociedade está mais interessada em coisas bizarras do que em notícias sérias. Um dos repórteres mais antigos do programa, por exemplo, começa a fazer "matérias" que mostram sua reação desesperada ao andar em uma montanha russa ou saltar de paraquedas. Mas Mike Pomeroy acaba mostrando, mais para o final, que ainda há lugar para o jornalismo sério. Mesmo que venha entre uma matéria sobre vidas passadas e uma receita de omelete.


sábado, 2 de abril de 2011

VIPs

Quase todo mundo já ouviu a história: em um carnaval em Recife, durante uma transmissão do apresentador Amaury Jr., um rapaz se fez passar pelo filho do dono da empresa aérea Gol. Ele era Marcelo Nascimento da Rocha, que já vinha de uma série de trambiques em que se fazia passar por outras pessoas. O episódio mostrou como o mundo das celebridades é frágil, em que pessoas bem falantes, em camarotes VIP, são tratados como membros da realeza. Isso daria um filme igualmente interessante mas, infelizmente, não é o caso de "VIPs", dirigido por Toniko Melo e estrelado por Wagner Moura.

Moura é um tremendo ator, mas certas decisões do filme o colocaram em situações difíceis, a começar pela caracterização psicológica do personagem. Teria sido mais acertado se o Marcelo mostrado no filme fosse mais parecido com o personagem real no qual é baseado, um rapaz basicamente irônico e muito "cara de pau". Ao invés disso, o roteiro de Bráulio Mantovani (craque de filmes como "Cidade de Deus") e Thiago Dottori tentam dar uma explicação psicológica ao comportamento de Marcelo, criando um filme irregular. Wagner Moura usa os piores penteados e perucas da sua carreira para interpretar Marcelo desde os tempos do ensino médio, em que era chamado de "Bizarro" pelos colegas e tinha conversas imaginárias com um pai aviador (Norival Rizzo). A mãe, Silvia (Gisele Fróes), é uma cabeleireira que mima muito o garoto mas, ao mesmo tempo, diz que ele não vale nada. Marcelo foge de casa e vai parar no Paraguai, onde assume o nome "Carrera" e se torna piloto de avião de um traficante.

Há várias situações interessantes em meio a erros estranhos; um amigo de Marcelo, Baña, é interpretado pelo brasileiro Juliano Cazarré, que fala o tempo todo em um "portunhol" nada convincente. E outra, o "Carrera" criado por Marcelo não é imitação de ninguém, então fica difícil acreditar que esta sua passagem como traficante (a melhor parte do filme) o levaria a fazer o que fez depois. Na "vida real" não há necessariamente uma ordem de causa e efeito, mas na dramaturgia isso é necessário, ou então se tem a impressão que o espectador está vendo dois filmes independentes. E é nisso que resulta "VIPs". Não há muita relação entre o traficante (real) vivido por Marcelo na primeira parte do filme com o "filho do dono da Gol", Henrique Constantino, que ele cria na segunda parte. O que o filme quer mostrar, que ele é um picareta querendo se aproveitar do mundo das celebridades ou que é um homem com problemas mentais? O resultado é que o personagem de Marcelo se torna muito frágil e até inverossímil.

Inevitável também comparar "VIPs" com "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg, em que Leonardo DiCaprio interpretava Frank Abagnale Jr., um rapaz inteligente que, forçado por diversas situações, se fazia passar por várias pessoas, inclusive um piloto de avião. Há várias similaridades entre os dois filmes, principalmente na relação dos personagens com suas mães complicadas e na adoração a um pai ausente. A diferença, infelizmente, está em que o roteiro de "VIPs" é tremendamente inferior, que não faz justiça a seu personagem que, na vida real, parece ser muito mais interessante.