terça-feira, 30 de junho de 2009

Sombras de Goya

O diretor de origem tcheca Milos Forman tem um currículo invejável. Dirigiu clássicos modernos como “Um Estranho no Ninho” (1975) e se especializou em cinebiografias de personagens como o músico Mozart (“Amadeus”, 1984), o editor pornográfico Larry Flynt (“O Povo Contra Larry Flynt”, 1996) ou o comediante americano Andy Kaufman (“O Mundo de Andy”, 1999). Em 2006 resolveu levar a vida do pintor espanhol Francisco Goya para as telas em “Sombras de Goya”, usando do mesmo artifício que usou em “Amadeus”, isto é: ver o personagem principal através dos olhos de um secundário. O recurso funcionou magnificamente em “Amadeus”, contado a partir dos olhos invejosos de um compositor concorrente, Salieri. Já em “Sombras de Goya”, infelizmente, o resultado está aquém do esperado.

O verdadeiro Goya teve uma vida difícil, marcada por uma doença que o deixou quase cego e totalmente surdo. Teve que enfrentar a Inquisição e problemas com vários monarcas. O filme preferiu se concentrar na figura do Padre Lorenzo (Javier Barden), membro da Inquisição Espanhola que tem uma queda pelas artes e que encomendou a Goya um retrato. A Inquisição está incomodada com umas gravuras feitas por Goya que mostram cenas grotescas da Espanha, e quer chamá-lo. O Padre Lorenzo alega que o problema não está nas gravuras, mas na própria realidade, e propõe um endurecimento por parte da Inquisição. Ele diz aos outros padres que eles precisam procurar por “sinais do demônio” em todo lugar, o que leva a situações absurdas. Uma jovem garota chamada Inês (Natalie Portman), por exemplo, é presa pelo “santo ofício” porque foi vista recusando porco durante um jantar. A Inquisição viu nisso suspeita de que ela poderia ser judia e, por meio de tortura, conseguem tirar dela uma “confissão”. A tortura, claro, não tinha esse nome. Era chamada de “o interrogatório”, e a Igreja acreditava que, se a pessoa fosse realmente inocente, Deus lhe daria forças para suportar a dor e passar por ele. Por esta lógica, quem confessasse alguma coisa era culpado. O Padre Alonzo também acreditava nisso, até que o pai de Inês, um rico comerciante de Madrid, lhe faz passar por uma “experiência” que lhe faz mudar de idéia.

Tudo isso é mostrado por Forman com uma fotografia deslumbrante (de Javier Aguirresarobe), que tenta emular o estilo das pinturas de Goya (interpretado por Stellan Skarsgard). O problema é que o roteiro é incapaz de abarcar todo o momento histórico tratado pelo filme (o final do século 18, a Revolução Francesa, as mudanças sociais e políticas que estavam ocorrendo na época). Além disso, o personagem do pintor em si não é interessante o suficiente para despertar a atenção. Menos importância são dadas a suas obras do que ao roteiro tortuoso, que passa por vários anos e mostra o antes e depois da Revolução Francesa, que derrubou a monarquia e causou reflexos em toda e Europa. A trama se concentra no padre Alonzo, que fugiu para a França e se tornou um revolucionário, e em Inês, que passa 15 anos presa nos porões da Inquisição e tem uma filha que é de Alonzo. Há uma série de coincidências e encontros e desencontros improváveis, enquanto Goya se resume a uma figura sem muito relevo. De onde ele veio? Que ideais ele defende? Suas gravuras são realmente um desafio à Igreja e aos “bons costumes” ou apenas desenhos para serem vendidos? Onde está sua família? Ele é casado? É solteiro? Todas estas perguntas ficam sem resposta. A única coisa que vemos é um artista que simplesmente sobrevive à passagem do tempo e à queda de reis e rainhas, mas não sabemos exatamente o porquê. Assim, falta a “Sombras de Goya” a profundidade de “Amadeus”. Falta explorar mais o gênio por trás das pinturas e o homem por trás dos quadros.




sábado, 27 de junho de 2009

Jean Charles

"Jean Charles" poderia ter sido vários tipos de filme. Poderia ter sido um filme-denúncia ao estilo de Oliver Stone, acusando abertamente a polícia londrina pelo assassinato do brasileiro, com imagens chocantes e teorias conspiratórias. Poderia ter sido um filme sobre um herói brasileiro, que não desiste nunca e que foi buscar a felicidade no estrangeiro e foi brutalmente assassinado sem motivo. "Jean Charles", dirigido por Henrique Goldman, não é nada disto. É um filme honesto, direto, contado em tom quase documental a vida de Jean Charles de Menezes (o onipresente Selton Mello), um eletricista mineiro que, confundido com um terrorista pela Scotland Yard em 2005, foi morto com 8 tiros no metrô de Londres. É um filme simples, mas muito bem feito, produzido em co-produção com a Inglaterra.

Rodado em Londres, o filme mostra a chegada à cidade da prima de Jean Charles, Vivian (Vanessa Giácomo) que, como milhares de brasileiros, está à procura de uma vida melhor e da chance de poder enviar dinheiro ao Brasil para a mãe doente. Interessante que Goldman tenha decidido contar a história de Jean Charles do ponto de vista dela. Jean é mostrado como um rapaz ambicioso, que sabe falar inglês e que consegue conquistar as pessoas com sua franqueza e entusiasmo. Selton Mello, felizmente, o interpreta sem os trejeitos que ele usa quando quer ser engraçado, e está bastante natural. A câmera de Goldman acompanha os personagens pelas ruas de Londres também de forma natural, que lembra um documentário. Há centenas de brasileiros trabalhando de forma legal e ilegal na cidade, e muitos são mostrados fazendo todo tipo de serviço; são cabeleireiros, taxistas, vendedores de roupas, camelôs e, no caso de Jean Charles, trabalham na construção civil. Jean era um eletricista que também fazia bicos como encanador, pintor ou qualquer tipo de serviço. O filme mostra como ele se dá bem passando a perna no patrão, aceitando fazer "por baixo dos panos" um serviço para um oriental. Também vemos ele se dar mal quando tenta arrumar vistos permanentes para dois colegas brasileiros.

Entre uma cena e outra, o "fantasma" do terrorismo ronda a cidade. A Inglaterra, seguindo os Estados Unidos, enviou tropas para o Iraque e está sofrendo com ameaças de várias formas. A mídia lança uma série de reportagens que refletem, e de certa forma fomentam, a paranóia e o medo contra os supostos terroristas que estariam na cidade. Em julho de 2005, Jean Charles foi seguido ao metrô por agentes que o confundiram com um suposto terrorista que estava sob investigação. Até hoje não se sabe com exatidão o que aconteceu. O fato é que um brasileiro desarmado, com um jornal na mão, foi baleado 8 vezes pela Scotland Yard. A cena em que suas primas Vivian, Patrícia e seu amigo Alex (Luís Miranda, excelente) recebem a notícia é tão bem feita que, repito, parece que estamos assistindo a cenas reais.

Estive nas filmagens de algumas cenas do enterro de Jean Charles, realizadas em Paulínia, São Paulo, em outubro de 2008. Uma produtora me colocou como figurante e posso dizer que, por quase um segundo inteiro, minha mão segurando um gravador aparece no filme. Seria bom se todos os brasileiros que estão lotando os cinemas para ver "A Mulher Invisível" também fossem dar uma chance a "Jean Charles". Os letreiros finais informam que até hoje ninguém foi culpado pela morte do brasileiro. O filme não tenta dar uma explicação, mas serve para nos lembrar como, em época de guerra e paranóia, todos somos vítimas.


terça-feira, 23 de junho de 2009

Sinédoque, Nova York

Um diretor de teatro. Um ator que interpreta este diretor. Uma esposa. Não, duas esposas. Duas filhas pequenas, quase idênticas. Uma psicóloga que parece estar exatamente no lugar certo o tempo todo. Uma casa permanentemente em chamas, mas ninguém parece notar. Nova York. Um cenário de Nova York, dentro de Nova York. E assim por diante. Sinédoque, me informa o dicionário, é "tomar a parte pelo todo". Cinco cabeças de gado. "Cabeça" no lugar de boi. O que nos leva a "Sinédoque, Nova York", filme de estréia na direção do roteirista Charlie Kauffmann. Ele é o responsável pelos roteiros menos convencionais feitos pelo cinema americano nos últimos anos. Suas histórias têm algumas características em comum, como a metalinguagem, os personagens masculinos geniais mas confusos, a presença do fantástico no dia a dia e assim por diante. Ele escreveu filmes como "Quero ser John Malkovich", "Adaptação", "Confissões de uma mente perigosa" e "Brilho Eterno de uma mente sem lembranças".

Ele chega agora à direção em um filme (escrito por ele, naturalmente) que carrega todas estas características e as leva ao extremo absoluto. Por um lado, parece genial. Por outro, ao chegar ao final da longa sessão de cinema (são 124 minutos que, francamente, parecem mais) fica difícil chegar à uma conclusão sobre o filme. Resumo rápido: Um diretor de teatro hipocondríaco que ganha um prêmio em dinheiro resolve fazer uma peça que embarque toda a sua vida e o mundo à sua volta. Ele contrata um ator não só para interpretá-lo, mas para segui-lo 24 horas por dia e saber todos os detalhes de sua vida. Há também atrizes que substituem sua segunda mulher, Claire (Michelle Williams) e sua assistente, Hazel (Samantha Morton). Dentro de um galpão enorme em Nova York, aos poucos ele vai recriando seu apartamento, os prédios em volta, finalmente chegando a recriar Nova York dentro de Nova York. É a idéia de que "a vida é uma peça de teatro" elevada à décima potência. A idéia é ótima, mas é tudo tão demorado e "solene". Há viagens para a Alemanha, para onde a primeira esposa (a ótima Catherine Keener) se muda com a filha pequena. Há vários enterros, reais, imaginários e recriados. Há obras de arte pintadas no tamanho de um selo. Há um momento em que não temos certeza nem sobre o gênero dos personagens. E uma sensação de que tudo vai dar errado, e da maneira mais demorada e dolorosa possível.

Basicamente, não é um filme sobre a vida, mas sobre a morte em vida. Um monumento à inércia e à grandes idéias que nunca se tornam realidade. O que me incomodou mais é que a parte humana da história acaba enterrada nas loucuras do Kauffman. E há um lado humano nos primeiros trinta minutos do filme, aproximadamente, enquanto "Sinédoque, Nova York" ainda é um filme sobre seres humanos. Sobre Caden Cotard (o sempre ótimo Philip Seymour-Hoffman), um diretor de teatro casado com uma artista chamada Adele Lark (Catherine Keener). Os dois estão em terapia de casal e sofrem aquela crise que chega no casamento quando os desapontamentos se tornam maiores do que a admiração mútua. Eles têm uma filha chamada Olive que é um pouco precoce e faz todas as perguntas difíceis. Caden é frequentemente assediado pela moça que trabalha na bilheteria do teatro, Hazel (Samantha Morton), mas nunca cede às insinuações dela. Até que um dia a esposa vai à Alemanha com a filha para uma esposição de arte e, aparentemente, nunca volta. E então o filme deixa o lado humano de lado e embarca nas bizarrices de Charlie Kauffman.

Há uma porção de idéias fantásticas por todo o filme. Há lances brilhantes e a sensação de que algo "genial" está para acontecer. Mas, em minha opinão, Kauffman caiu na armadilha do diretor que não consegue cortar o próprio texto. É tudo lento demais e, francamente, infindável.


domingo, 21 de junho de 2009

Intrigas de Estado

"Intrigas de Estado" segue a linha de produções que mostram jornalistas investigando casos que envolvem conspirações entre grandes empresas, o poder e subserviência da mídia e o envolvimento de políticos em escândalos. Pode-se citar "Todos os Homens do Presidente" (de Alan J. Pakula), ou "O Informante" (de Michael Mann) como outros exemplos do gênero. Adaptado de uma série da televisão britânica, "Intrigas de Estado" é dirigido por Kevin MacDonald ("O Último Rei da Escócia") e foi escrito por Matthew Michael Carnahan ("Leões e Cordeiros") e Tony Gilroy, ótimo roteirista de toda a série "Bourne" e diretor de "Conduta de Risco" (Michael Clayton). Essa equipe classe "A" é acompanhada por um grande elenco, composto por Russell Crowe, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Rachel McAdams, Jeff Daniels e Ben Affleck.

A trama envolve um deputado chamado Stephen Collins (Affleck) que está encabeçando uma CPI sobre a terceirização do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Baseado em fatos reais, a "vilã" do filme é uma empresa chamada Pointcorp, empregada pelo governo americano para agir no Iraque e que fatura bilhões de dólares. Fundada e operada por ex-militares, a empresa é acusada de abusos no campo de batalha e por falcatruas internas. No início do filme, vemos três crimes aparentemente não relacionados que chamam a atenção de um repórter da velha guarda do "Washington Globe", Cal McAffrey (Crowe). Ele e Collins estudaram na faculdade juntos, e quando a principal investigadora de Collins é morta de forma suspeita no metrô, a imprensa cai em cima dele ao descobrir que o deputado estava tendo um caso com a garota. Cal estava investigando o assassinato de um morador de rua e de um simples entregador de pizza e descobriu que estes crimes estão ligados à morte da pesquisadora de Collins. Tudo aponta para uma conspiração da Pointcorp, que estaria interessada em desmoralizar Collins na Comissão de Inquérito.

O filme também toca na questão dos rumos do jornalismo neste milênio. Há uma demanda crescente dos donos do jornal para vender a qualque custo, e Cal torce o nariz para uma novata da redação, Della Frye (McAdamns), que escreve para a parte online do diário. Mas os dois acabam se tornando parceiros na investigação, e Russel Crowe mais uma vez se mostra um grande ator. Seu personagem é um jornalista das antigas, sempre com uma caneta e bloco na mão, com contatos em todo lugar e conhecido de policiais e políticos. Sua mesa na redação é aparentemente uma bagunça, assim como o carro velho que dirige. Interessante que a direção de arte tenha feito a redação do jornal com uma aparência que me lembrou um presídio. Há linhas verticais cortando a tela que lembram barras e o ambiente é escuro, mas Cal ainda acredita que a "verdade" tenha de ser buscada lá fora, nas ruas. Há uma complicação adicional no fato de que ele e a esposa de Collins, Anne (a bela Robin Wright Penn), terem tido um caso que vem desde a época da faculdade, e há um estranho triângulo amoroso entre o jornalista, o congressista e sua esposa, em que todos aparentemente sabem da situação mas nunca a comentam.

O filme é bem escrito, bem interpretado e dirigido. Há bons momentos de suspense e uma idéia de que ainda vale a pena lutar por alguma coisa.


domingo, 14 de junho de 2009

Budapeste

Para começar, o aviso obrigatório: não li o livro de Chico Buarque que deu origem a este belo filme de Walter Carvalho. Mas, terminada a sessão, uma visita à livraria mais próxima me permitiu folheá-lo e tirar algumas dúvidas sobre como, no livro, certas situações foram resolvidas, ou o quanto elas ficaram diferentes na tela.

Adstringente. Saudade. Pão de açúcar. Andorinha.

Este é um filme sobre palavras. É daquele tipo de obra que desafia um simples resumo de seu enredo. Nas competentes mãos de Carvalho, excelente diretor de fotografia (Central do Brasil, Cazuza, Lavoura Arcaica), ele se torna um filme sobre momentos, sobre sensações. José Costa (Leonardo Medeiros) é um ghost writer, aquele tipo de escritor que produz um livro anonimamente para os outros, que acabam levando a fama. Como diz um de seus clientes, para quem Costa escreve uma autobiografia, se ele tivesse tempo para escrever não teria tido tempo para viver. Costa é casado com Vanda (Giovanna Antonelli), uma apresentadora de telejornal que gosta da fama e que não entende a posição aparentemente subalterna do marido. Os dois têm um filho que tem problemas para falar. Parece o pai que, apesar de talentoso com as palavras, não consegue se expressar na própria voz.

Costa se apaixona por Budapeste, capital da Hungria, que conheceu quando o voo em que estava teve uma pane e teve de pousar. Ele diz que a cidade é "amarela", e a magnífica fotografia de Lula Carvalho (filho de Walter) a mostra em suaves tons dourados. Costa também se apaixona pela língua, tão difícil que dizem que até o Diabo a respeita. Ele assiste à televisão e tenta aprender algumas palavras, sem sucesso. É difícil saber quando uma termina e a outra começa. É então que ele conhece Kriska (Gabriella Hámori), uma bela húngara que resolve ensiná-lo a língua, mas não da forma tradicional. Há uma bela cena em que ela, de patins, corre pela cidade apontando as coisas e dizendo seus nomes, enquanto Costa corre atrás e vai repetindo. Fica claro que ele consegue se comunicar muito melhor com Kriska do que com a própria esposa, apesar deles não falarem a mesma língua. Isso tudo é visto no filme em húngaro e com legendas, o que me parece uma vantagem com relação ao livro (em que tudo era escrito em português). Há uma sonoridade estranha no incompreensível húngaro e o espectador se sente tão perdido quanto o personagem, apesar das legendas.

Como não poderia deixar de ser, o filme é magnificamente fotografado, e Carvalho faz um jogo de luzes e sombras que por vezes lembram seu documentário "Janelas da alma", em que explorava os limites da visão e sua diferente percepção entre as pessoas. Há uma grande quantidade de cenas de sexo e mulheres nuas, o bastante para chocar algumas moças que estavam no cinema comigo. Mas não é nada explícito nem necessariamente gratuito. É parte do espetáculo sensorial que é o filme. Para representar o distanciamento de Costa de sua esposa, por exemplo, há uma cena em que o vemos como que fora do próprio corpo, assistindo a si mesmo transando com a mulher. Já com Kriska é diferente, ao menos no início, quando eles ainda não entendem as palavras um do outro.

É um filme lento, provavelmente lento demais para o gosto médio do público que foi ver "A Mulher Invisível", por exemplo. Mas repare nos vários detalhes espalhados pelo filme. Veja com o tema do "contrário", do estar do avesso, ou nos bastidores da ação, é representado por várias imagens por toda produção. No relógio visto no espelho, ou em um mapa visto por trás, em uma vitrine, com as palavras ao contrário, da mesma forma como o biografado de Costa supostamente escrevia no corpo das mulheres. Ou reparem como o nome dele, José Costa, é pronunciado ao contrário na Hungria. Como a estátua de Lenin que se afasta até deixar o mundo, literalmente, de cabeça para baixo.


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Appaloosa

Ed Harris dirigiu, atuou, co-escreveu e co-produziu este faroeste à moda antiga. Harris já provou em vários filmes que é um ator excelente, e em "Pollock" (2000) que também podia ser um ótimo diretor. Neste filme ele volta à direção em um personagem bem mais comedido e centrado que em seu trabalho anterior. Em Appaloosa ele é Virgil Cole, uma figura quieta, introspectiva e mortal quando contrariado. Ele tem um parceiro de aventuras com quem trabalha há doze anos, Everett Hitch (Viggo Mortensen), que é seu comparsa, seu amigo e seu anjo da guarda quando as coisas esquentam. Os dois são contratados para livrar a cidade de Appaloosa de um cruel minerador chamado Randall Bragg (Jeremy Irons), que matou o delegado anterior a sangue frio e está aterrorizando a cidade. Cole e Hitch não passam de matadores contratados, mas é o oeste americano em 1882, e a lei era feita sempre pelo mais forte, ou o mais rápido no gatilho. Os dois mal tem tempo de se instalar na cidade e a matança começa. Há uma cena muito boa em que Bragg e seu bando vem conversar com Cole e Hitch e por um momento achamos que a guerra vai acontecer naquele momento, mas o roteiro é muito bom e tem um respeito enorme pelas palavras.

Chega então à cidade uma mulher chamada Allie French (Renée Zellweger), que atrai a atenção de Hitch mas é Cole quem a conquista rapidamente, prometendo um lugar para ficar e um emprego como pianista no hotel da cidade. Já imaginamos o velho clichê em que a mulher vai terminar com a amizade dos dois homens mas, repito, o roteiro é mais inteligente do que isso. Allie é uma mulher que sabe usar sua suposta vulnerabilidade para conquistar o coração dos homens e pode ser vista como uma manipuladora ou simplesmente como uma mulher tentando sobreviver. Mas a ligação entre Cole e Hitch é tão grande que não é fácil de ser quebrada. Ed Harris dirige de forma brilhante e sua performance ao lado de Viggo Mortensen é ótima. Os dois são homens de poucas palavras, e em algumas cenas diálogos inteiros são substituídos por apenas um olhar rápido entre os dois. Seu relacionamento me lembrou o de Henry Fonda e Anthony Quinn em "Minha Vontade é a Lei" (Warlock, 1959), de Edward Dmytryk, em que Fonda era o pistoleiro famoso enquanto Quinn era seu guarda costas.

A fotografia de Deam Seamler, fotógrafo veterano que já havia feito faroestes como "Dança com Lobos", e que neste filme voltou a trabalhar com película depois de uma série de filmes rodados em suporte digital. A tela em widescreen é usada para capturar as largas paisagens americanas ou para enquadrar os poucos, mas eficientes, duelos do filme. Percebe-se um grande cuidado na reconstituição de época, figurinos, detalhes e na cenografia da cidade fictícia de Appaloosa, construída para a produção. O filme foi lançado em DVD e contém extras muito bons sobre os bastidores, entrevistas com o elenco e equipe técnica.


quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Exterminador do Futuro: A Salvação

A série de filmes "O Exterminador do Futuro" começou em 1984, quando um jovem e ambicioso diretor/roteirista chamado James Cameron lançou um filme de ficção científica feito com relativamente pouco dinheiro e muita imaginação. A história, "absurda", falava sobre uma hecatombe nuclear acontecida no futuro (que era 1997, na época), causada pela ascenção das máquinas ao poder. Uma figura messiânica, que respondia pelas iniciais J.C. (não Jesus Cristo, mas John Connor), traria inspiração para o que restou da humanidade. As máquinas, então, enviaram Arnold "Exterminador" Swarzenegger para o passado para matar sua mãe, Sarah Connor (Linda Hamilton), e impedir seu nascimento. O filme não passava de uma série bem feita de perseguições e efeitos especiais mecânicos baratos mas eficientes, e ganhou status de "cult". Em 1991, com muito mais dinheiro e inovando no uso dos primeiros efeitos em computação gráfica do cinema, James Cameron voltou com "O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final", um espetacular filme de ficção científica que é considerado o definitivo dentre as produções da série. Mesmo assim, os produtores lançaram em 2003 o terceiro exemplar, claramente um caça-níqueis, ainda com Swarzenegger no seu melhor papel.

Nesta era de refilmagens, recriações e filmes baseados em história em quadrinhos que povoam os cinemas, era de se esperar o retorno do Exterminador à telona. É o que acontece agora com "O Exterminador do Futuro: A Salvação". dirigido por um tal de McG (seria uma máquina?). O filme é surpreendentemente bom. Christian Bale está no papel de um John Connor um pouco menos carismático do que se poderia esperar do "futuro líder da resistência". Mas quem rouba a cena mesmo, e é o trunfo do roteiro, é um personagem novo chamado Marcus Wright (Sam Worthington). Marcus é um condenado à morte que, no início da trama, é visitado por uma mulher estranha (Helena Bonhan Carter) que lhe pede que doe o corpo para experiências. Anos mais tarde, em 2018, Marcus "volta à vida" depois que John Connor e os rebeldes invadem uma base da Skynet (a rede de computadores que controla as máquinas). Marcus revive para descobrir que seu mundo foi destruído e encontra, em uma Los Angeles abandonada, um rapaz chamado Kyle Reese (Anton Yelchin, o Checkov do novo Star Trek). Reese, para quem acompanha a série, é ninguém menos que o pai de John Connor, só que ele ainda não sabe. Após uma série de perseguições, o jovem Reese é capturado pela Skynet e Marcus Wright vai à procura de Connor. Há apenas um porém: Marcus não come, não se machuca, é quase indestrutível, pois é uma máquina.

Em um filme cujo principal objetivo é mostrar coisas explodindo e grandes cenas de perseguição, o "Exterminador" consegue injetar uma boa dose de humaninade neste conflito entre homens e máquinas. Marcus não sabe de sua natureza robótica, e seu olhar de terror quando vê suas próprias entranhas metálicas é marcante. John Connor, ensinado desde criança a desconfiar e lutar contra as máquinas, não sabe direito como lidar com Marcus; ele é um amigo ou uma ameaça? O recurso funciona bastante bem, embora, em contrapartida, acabe tirando muito da humanidade do próprio John Connor. Christian Bale é um ótimo ator mas seu personagem, infelizmente, não tem muito a oferecer a não ser gritar ordens furiosas e lutar com andróides assassinos. Bryce Dallas Howard, linda, é sua esposa e está grávida, mas também é inexpressiva. Em compensação, Marcus consegue a amizade de uma rebelde vivida intensamente por Moon Bloodgood.

Os efeitos especiais, da consagrada Industrial Light & Magic, são muito bons e misturam bem efeitos mecânicos com computação gráfica. O estúdio original de Stan Winston, o mago dos efeitos especiais que morreu ano passado, está a cargo de fazer os exterminadores e os moldes originais de Arnold Swarzenegger foram usados para recriá-lo em uma cena do filme. "O Exterminador do Futuro: A Salvação" pode não ser um clássico como "Terminator" e "Terminator 2", mas é um bom filme que certamente vai agradar aos fãs da série.


domingo, 7 de junho de 2009

A Mulher Invisível

Estranho esse tipo de cinema comercial que tem se tentado fazer no Brasil. Após o enorme sucesso de "Se eu fosse você 2", chega agora às telas "A Mulher Invisível". O filme com Tony Ramos e Glória Pires já seguia a cartilha da troca de gêneros tão usada na comédia americana e replicada aqui com inesperado sucesso. Agora o filme de Cláudio Torres, com Selton Mello e Luana Piovani, também segue uma fórmula usada à exaustão: a do homem solitário que, por algum motivo, começa a ver alguém que ninguém mais consegue enxergar. Foi assim com Steve Martin em "Um Espírito Baixou em Mim" ("All of Me", 1984), ou com Robert Downey Jr em "Morrendo e Aprendendo" ("Heart and Souls", 1993), entre vários outros exemplos.
Em "A mulher invisível", Selton Mello (figura carimbada do cinema brasileiro) é Pedro Albuquerque, um controlador de tráfego no Rio de Janeiro, que é abandonado pela esposa Marina (Maria Luisa Mendonça, em aparição relâmpago), no início do filme. Ele entra em parafuso, deixa o emprego e se tranca no apartamento por meses seguidos. Um dia uma mulher estonteante (Luana Piovani, com pouca roupa) aparece à sua porta com uma xícara na mão. Sim, é o velho clichê da vizinha que foi pedir açúcar emprestado. Ela acaba se revelando a mulher "ideal"; é bonita, gostosa, arruma a casa, não liga se Pedro chega de madrugada depois de uma noitada e está sempre pronta para sexo. O problema é que ela não existe, sendo fruto da imaginação de Pedro. E este é o filme. Não é difícil imaginá-lo em Nova York ou Los Angeles, com Ben Stiller como Pedro e Cameron Diaz como a mulher de seus sonhos.
A julgar pelas gargalhadas ouvidas na platéia, a produção agradou ao público e, de fato, ela tem seus momentos. Selton Mello, com uns quilos a mais, faz uso de seus trejeitos e voz para tentar arrancar risadas mesmo nas cenas não muito bem escritas. Há também a personagem da vizinha real de Pedro, Vitória (Maria Manoella), que por anos escutou a vida dele através da parede da cozinha. Casada com um policial durão e indiferente, ela é apaixonada por Pedro mas nunca conseguiu se declarar. E a vida dela fica bem mais complicada quando a "mulher invisível" de Pedro começa a aparecer para ele.
O filme, assim, é produção descartável e destinado a diversão rápida, e está bem longe da produção anterior do diretor, "Redentor". No máximo, pode-se observar superficialmente como o perfil de homens e mulheres mudou na sociedade. Pedro é um homem "moderno", o que significa perdido. Sua idéia de mulher ideal ainda carrega um monte de machismo, mas pode-se notar também uma grande carência e necessidade de afeto. Desde o advento da libertação sexual e do feminismo, a mulher moderna é um ser muito mais prático. Quando a esposa de Pedro o troca, no início do filme, por um "modelo" importado alemão, ela lhe diz que as mulheres "nunca são felizes quando estão felizes", que ela quer aventura, risco. Selton Mello, na melhor frase do filme, responde: "Eu posso te fazer infeliz se isso te fizer feliz".


domingo, 31 de maio de 2009

Um ato de liberdade

Filmes do diretor Edward Zwick são sinônimo de bela fotografia, roteiro com tendências épicas, longa duração e uma dose a mais de açúcar do que o recomendado, mas são bons trabalhos. Foi assim com Tempo de Glória (1989), Lendas da Paixão (1994), O Último Samurai (2003) e Diamante de Sangue (2006).

Zwick está na direção agora de "Um ato de liberdade" (Defiance, 2008), em que retrata a resistência russa diante da invasão nazista em 1941, na II Guerra Mundial. Curiosamente, há algumas semanas passou em Campinas "Katyn", de Andrzey Wajda, também enfocando os russos na II Guerra Mundial, e está em cartaz "Falsários", outro drama a respeito da guerra. Sem falar em "Milagre em Santa Anna", de Spike Lee. Será que depois de tantos anos de guerras inglórias e injustas como a do Iraque o cinema está com saudade dos tempos mais "honrosos" da II Guerra?

"Um ato de liberdade" conta a história dos quatro irmãos judeus da família Bielski, Tuvia (Daniel Craig), Zus (Liev Schreiber), Asael (Jamie Bell) e Aron (George MacCay), que tiveram os pais mortos pelos nazistas e, se refugiando na floresta, se tornaram ponto de referência e a salvação de centenas de refugiados. O cabeça do grupo é o justo e controlado Tuvia (Craig, em bom trabalho) que tenta controlar o temperamento quente do irmão Zus (Schreiber, curiosamente repetindo o papel de "irmão complicado" que fez em "Wolverine"), que só pensa em vingança e em fazer os alemães pagarem na mesma moeda. Escondidos nas florestas da bielorússia, os irmãos se tornam guardiães de um grupo cada vez maior de refugiados judeus que, fugindo dos guetos, lutam para sobreviver ao frio e à fome. Como acontece com praticamente todo filme americano que trata de estrangeiros, os atores usam do recurso de falar com um sotaque russo nem sempre convincente. Em outras sequências, no entanto, eles se comunicam em russo, com legendas em inglês. Não entendi muito o critério para a escolha desses momentos (estaria Zwick simulando a situação de que os judeus se comunicavam entre si com uma língua e em russo com os não judeus?).

A bela fotografia é do português Eduardo Serra, que já trabalhou com Zwick em filmes anteriores. O impiedoso inverno russo é filmado em belas tomadas em que o branco da neve contrasta com o sangue da guerra e com a desolação dos refugiados que, famintos, não sabem o que é pior: o frio e a fome ou enfrentar os nazistas. O roteiro (de Zwick e Charles Frohman) é baseado em uma história real e o filme, felizmente, vai melhorando conforme se desenrola. Os refugiados têm que passar por dilemas morais e sobre decisões de vida e morte provocadas pela guerra. A diáspora judaica encontra ecos na história de Moisés e a libertação dos escravos no Egito. A trilha sonora de James Newton-Howard me lembrou seu ótimo trabalho em "A Vila", pelo qual foi indicado ao Oscar.


domingo, 17 de maio de 2009

Katyn

Em setembro de 1939, a Polônia foi invadida pela Alemanha nazista, dando início à II Guerra Mundial. Na época, a União Soviética ainda não estava do lado Aliado, pois mantinha um pacto de não-agressão com a Alemanha. Só quando Hitler avançou Europa adentro que os soviéticos cortaram relações com a Alemanha. Em 1939, os poloneses se encontravam divididos entre os nazistas, que invadiram pelo oeste, e pelos soviéticos, que vieram pelo leste.

Na primeira cena do filme "Katyn", do veterano diretor polonês Andrzej Wajda (que está com 83 anos), vemos um grupo de refugiados poloneses sobre uma ponte, enfrentando a difícil decisão: fugir para o leste ou para o oeste? Uma delas é Anna (Maja Ostaszewska) que, com a filha Veronika, está à procura do marido, Andrzey (Artur Zmijewski), um oficial polonês prisioneiro dos soviéticos. Ele e outros oficiais são removidos para campos de prisioneiros na região de Smolensk, na União Soviética. Andrzei mantém um diário e envia várias cartas à esposa enquanto está preso. Entre quinze e vinte mil oficiais poloneses foram mantidos em campos soviéticos até que, misteriosamente, eles "desaparecem". As cartas pararam de chegar após abril de 1940, e milhares de corpos foram encontrados enterrados na floresta de Katyn. Os nazistas acusaram os soviéticos de um massacre; os russos, por sua vez, disseram que foram os nazistas os culpados.

O pai do diretor Andrzey Wajda era um dos oficiais mortos nesse massacre, no início da II Guerra Mundial. Wajda tem uma extensa carreira cinematográfica, que inclui filmes como "Danton" (1983), sobre a Revolução Francesa, com Gerárd Depardieu, e várias obras feitas sob a ocupação soviética na Polônia. Em "Katyn" ele filma com frieza e sobriedade, revelando aos poucos o drama das famílias polonesas que ficaram sem receber notícias de seus entes queridos por anos. Há cenas muito bonitas, como uma em que o exército polonês, trancafiado durante a véspera de Natal, se reúne para cantar com seu general. A câmera de Wajda sobe e a configuração dos prisioneiros entre os beliches do alojamento formam uma cruz. Pequenas histórias também são contadas, como a do oficial soviético que, usando de sua influência, consegue impedir que Anna e sua filha sejam presas pelo exército russo; há até lugar para um romance que dura apenas alguns minutos, quando uma garota salva um rebelde polonês da polícia soviética. Eles combinam de se encontrar no dia seguinte mas, em período de guerra, poucas promessas podiam ser cumpridas.

O filme não é linear e as cenas que descrevem o massacre foram deixadas para o final. Filmadas do ponto de vista dos soldados executados, elas são extremamente realistas e cruas, mostrando como cada soldado foi morto com um tiro na cabeça e jogado em uma vala comum pelos oficiais soviéticos. O massacre de Katyn foi motivo de debate por vários anos, sobre quem teria sido o verdadeiro autor. Tendo Hitler e um lado e Stalin do outro, fica realmente difícil imaginar quem foi pior para a Polônia. Wajda dá sua versão do massacre, baseada em estudos realizados no pós-guerra.



quinta-feira, 14 de maio de 2009

Milagre em Santa Anna

O pelotão “Búfalo” (um grupo de soldados negros combatentes na 2ª. Guerra Mundial), trava uma feroz batalha com os nazistas em um rio na região da Toscana, Itália. Eles estão enfrentando dois inimigos. Na frente, as metralhadoras nazistas fazem os soldados atingidos em pedaços; atrás, sofrem com o “fogo amigo” da própria artilharia americana. Quatro deles conseguem atravessar o rio e vão se refugiar perto de um celeiro. O recruta Sam Train (Omar Miller), um negro de físico enorme, mas com uma personalidade infantil, acaba resgatando um garoto italiano que está preso nos destroços provocados pelo bombardeio. O garoto está ferido e falando de forma incoerente, e Train acha que ele é uma espécie de “santo”. Os quatro soldados acabam se refugiando em uma vila por perto, na casa de um velho fascista e sua família.

O filme é dirigido por Spike Lee que, obviamente, ficou interessado em contar a história deste pelotão de soldados negros lutando em uma “guerra de brancos”, como declara um deles. O filme tem co-produção italiana e é falado em três línguas, inglês, italiano e alemão, conforme a trama acompanha cada lado envolvido na guerra. Baseado no livro de James McBride (que assina o roteiro), “Milagre em Santa Anna” é muito bem feito tecnicamente e tem o foco voltado para os personagens. O problema é que, por vezes, o tom “panfletário” de Spike Lee acaba atrapalhando. É fato que os negros que lutaram na 2ª. Guerra Mundial raramente são lembrados; os filmes dedicados ao gênero, em sua grande maioria, são estrelados apenas por atores brancos e pouco se fala da participação negra no conflito. Mas há alguns “discursos” no filme fora de lugar, fora o fato de que os poucos brancos retratados geralmente são apenas idiotas estereotipados.

O lado lúdico do filme, justamente o tal “milagre” do título, acaba sofrendo em um filme que mistura cenas panfletárias com outras extremamente violentas e realistas. As cenas de batalha são muito bem feitas e mostram todo horror da guerra. Os italianos se encontravam entre o fogo cruzado dos americanos, dos nazistas e dos próprios compatriotas, que se dividiam entre os dois grupos. Quando tudo isso se junta em cena é um verdadeiro massacre, mostrado com detalhes pela câmera de Lee. Em meio a isso tudo (é um filme longo, 166 minutos) há cenas muito interessantes e calmas entre o garoto, que se chama Ângelo (Matteo Sciabordi) e o recruta Train. Os dois não entendem a língua um do outro, mas conseguem se comunicar por gestos e expressões. A atriz italiana Valentina Cervi interpreta Renata, uma mulher que não sabe se o marido está vivo ou não e que se torna o motivo de atração (e discórdia) entre o Sargento Bishop (Michael Ealy) e o Sangento Stamp (Derek Luke). Há também um líder dos partisans (a resistência italiana) que chega à vila com um prisioneiro nazista. Em seu grupo está um traidor, responsável por uma tragédia revelada no final do filme.

Como se não bastassem todos estes personagens e tramas, o filme infelizmente ainda tenta fazer uma ponte com uma época 40 anos depois, quando um dos soldados apresentados no filme, agora já velho, mata a queima-roupa uma pessoa em uma agência dos correios. Estas cenas, passadas na década de 80, começam e terminam o filme de forma irregular e desnecessária. Spike Lee poderia ter se concentrado em fazer apenas um filme na 2ª. Guerra Mundial, com uma duração menor, menos panfletagem e mais atenção ao lado lúdico da trama.


sábado, 9 de maio de 2009

Star Trek

"Space, the final frontier"... por qual outra frase começar um texto sobre "Jornada nas Estrelas" que não esta? Star Trek não é apenas uma série de ficção científica. Surgida nos anos 60, em plena corrida espacial, a série intergaláctica criada pelo ex-piloto militar e civil Gene Roddenberry se tornou um ícone. Roddenberry quebrou vários tabus, não só colocando uma mulher (uma mulher negra, ainda por cima) como membro de uma tripulação espacial, mas também um russo. Sua criação mais famosa, o vulcano Sr. Spock, com suas orelhas pontudas e sobrancelhas demoníacas, foi perseguido por várias instituições tradicionais, como a Igreja. Enquanto americanos e soviéticos brigavam em terra e no espaço durante a Guerra Fria, a tripulação mista da USS Enterprise semanalmente enfrentava dilemas morais (nos melhores episódios) ou, no mínimo, era uma boa e velha série de aventura espaço afora, a "última fronteira". A série original durou apenas três temporadas (entre 1966 e 1969), quando foi cancelada pela rede NBC. Mas com o sucesso de "Guerra nas Estrelas", de George Lucas, em 77, o elenco original da série partiu para a telona dos cinemas, rendendo lucros fabulosos para o estúdio Paramount e gerando vários outros produtos e novas séries de televisão. Os "trekkers", como são chamados os fãs do universo Star Trek, a tratam quase como uma religião e realizam convenções no mundo inteiro, muitas delas com a presença dos atores da série e dos filmes originais.

Com o envelhecimento e morte de vários destes atores e uma queda na popularidade dos filmes feitos para o cinema, decidiu-se por uma reformulação da franquia e por uma manobra ousada; Star Trek voltaria à origem dos personagens da série clássica, agora interpretados por atores jovens, repaginados e prontos para o século XXI. A idéia, a bem da verdade, não é nova. Em seu livro "Memórias dos Filmes", William Shatner (o capitão James T. Kirk original) revela que após "Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira" (1989), o produtor Harve Bennet começou a desenvolver um filme em que atores jovens viveriam os personagens antes de se tornarem membros da Enterprise. Mas a idéia foi abandonada e a tripulação original voltou em "Jornada nas Estrelas VI: A Terra Desconhecida" (1991). Depois disso os membros da série "A Nova Geração" passaram a habitar a telona e a idéia de Bennet foi posta de lado pelos produtores.

Coube ao criador da série "Lost", J.J. Abrams, a missão de retomar a franquia do zero. O resultado é um filme ótimo, que consegue não só mostrar a origem dos personagens como, através de um "truque" da ficção-científica, dar ao roteiro uma trama surpreendente. Ao contrário do caráter previsível que atrapalhou séries como "Star Wars" ou o novo "Wolverine", no "Star Trek" de Abrams tudo pode acontecer, graças a uma "mudança temporal" que ocorre no início. Esse recurso cria uma espécie de universo paralelo em que o destino dos personagens clássicos Kirk, Spock, McCoy, Sulu, Chekov, Uhura e Scott pode ser reinventado ao gosto dos roteiristas. James T. Kirk (Chris Pine, substituindo William Shatner) é mostrado como um rapaz revoltado de Iowa, órfão do pai que morreu heróicamente durante uma batalha com os Romulanos. Spock (Zachary Quinto, incrivelmente parecido com Leonard Nimoy) sofre com sua genética mista, humana (emocional) e vulcana (lógica). Os dois vão parar na Academia da Federação dos Planetas Unidos, onde vemos como Kirk consegue passar no teste do "Kobayashi Maru", uma simulação teoricamente impossível de vencer criada pelo jovem Spock. Ao longo da trama vemos também Leonard McCoy (Karl Urban) e uma bela e sexy Uhura (Zoe Saldana), que vai mexer com o coração mulherengo de James Kirk. E é surpreendente ver como o novo elenco consegue recriar uma das chaves do sucesso da série clássica, a "química" existente entre William Shatner, Leonard Nimoy, DeForest Kelley e os outros membros da Enterprise.

"Star Trek" é suficientemente bom para interessar a quem não tem conhecimento anterior da série. O próprio J.J. Abrams não era profundo conhecedor do universo trekker. O que não significa que os fãs não irão reconhecer dezenas de ótimas referências, desde o design dos uniformes, naves e armas aos efeitos sonoros inconfundíveis como o teletransporte, o comunicador, o sinal de alerta e outros. A produção tem um curioso design que mistura modernidade com o ar "retrô" dos episódios dos anos 60. Mas a cereja do bolo realmente é participação especial de Leonard Nimoy, o Spock original. Nimoy se tornou mundialmente conhecido por causa do personagem, o que inclusive lhe causou problemas profissionais e psicológicos no início da carreira. Ele chegou a escrever um livro chamado "Eu não sou Spock" e foi o último ator a aceitar voltar ao elenco quando a série passou para o cinema, nos anos 70. Com o passar dos anos, no entanto, Nimoy se tornou o "portador da chama" de Star Trek, tendo inclusive dirigido dois dos melhores filmes para o cinema, "Jornada nas Estrelas III: À Procura por Spock" (1984) e "Jornada nas Estrelas IV: A Viagem para Casa" (1986). Sua presença no novo "Star Trek" é como o "selo de qualidade" que faltava para dar autenticidade ao filme e desejar sorte ao novo elenco.

Assim, "Star Trek" ressurge como um dos melhores filmes de ficção-científica dos últimos anos, homenageando o passado com respeito e pavimentando o caminho para uma nova série de filmes. Vida longa e próspera.

Câmera Escura

quinta-feira, 7 de maio de 2009

X-Men Origens: Wolverine

Com o sucesso dos longas metragens da série X-Men (dirigidos por Brian Singer e Brett Ratner), a Fox resolveu apostar em um filme baseado no mutante mais popular da saga, “Wolverine”, interpretado por Hugh Jackman. A trama é baseada em uma série de quadrinhos que explicava a origem de James Logan, um mutante com capacidade de se curar de todos os ferimentos e que tem garras retráteis que saem de seus punhos. Infelizmente, “X-Men Origens: Wolverine” é bem inferior aos filmes originais da série, e é fácil perceber porque.

“Wolverine” começa no século 19, no Canadá, quando os poderes de Logan aparecem pela primeira vez. Ele testemunha a morte do homem que julga ser seu pai e, em um ataque de fúria, lâminas de osso crescem de suas mãos e ele as usa para matar o assassino. Após o crime, ele foge do Canadá com seu meio irmão, “Dentes de Sabre” (Liev Schreiber), e eles vão para os Estados Unidos. Em uma ótima seqüência de abertura (a melhor cena do filme, diga-se de passagem), vemos como os dois passaram por uma série de guerras ao longo dos anos, como a Guerra de Secessão, as duas guerras mundiais e a Guerra do Vietnã. Descobrimos, assim, que além de indestrutíveis eles são também praticamente imortais, o que é um dos problemas do filme. O que fazer com um personagem imortal e indestrutível? Como sabemos que nada vai acontecer ao herói, como atrair o interesse e a empatia da platéia? Infelizmente, isso é feito com diversos clichês, como a inevitável namorada que vai ser morta e provocar a ira de Wolverine, o desejo de vingança, e assim por diante.

Outro problema é que os produtores, com medo de que uma censura alta pudesse prejudicar as bilheterias, insistiram para que o filme não fosse muito violento. O que provoca cenas francamente ridículas em que, após alguma luta em que deveria haver sangue e pedaços de corpos para todos os lados, vemos no máximo alguns hematomas e suor no rosto de Logan. Após a morte da namorada e sedento de vingança, ele aceita passar por um procedimento doloroso em que seus ossos são trocados por uma liga metálica indestrutível, o “Adamantium”, que veio do espaço em um meteoro. O processo na verdade é parte dos planos do Coronel Striker (Danny Huston), de construir a arma perfeita mas, como sabiamente diz um personagem, eles gastam um dinheirão para deixar Wolverine indestrutível só para passar o resto do filme tentando matá-lo? Esse tipo de “lógica” talvez funcione em uma HQ, mas não em um filme com pretensões sérias como este. E que saudade do elenco dos filmes anteriores, que contavam com atores do quilate de Ian McKellen, Patrick Stewart, Famke Janssen, Halle Berry, Anna Paquin, só para citar alguns. “Wolverine” está povoado de atores desconhecidos e fracos, interpretando uma série de mutantes igualmente desinteressantes.

Assim, “Wolverine” tenta se segurar só no carisma de Hugh Jackman para se manter de pé. Jackman é bom ator e está em casa interpretando Logan/Wolverine, mas só isso não garante o sucesso do filme, que inclusive apela para o físico do ator (que chega a aparecer nu em algumas cenas rápidas e sem camisa em várias, para agradar o lado feminino da platéia). Para finalizar (e se você não assistiu “Wolverine” sugiro que pare de ler por aqui, alerta de SPOILER), o final é extremamente decepcionante. Qual a razão de se fazer um filme que mostre o passado de um personagem se ele não vai aprender nada com ele? Sim, já sabíamos em X-Men que Logan não se lembrava do passado, mas isso só comprova que este filme não tinha razão de ser. Novamente, não há como ter muita empatia com um personagem indestrutível, imortal e que, depois de tudo, ainda se esquece de tudo o que aconteceu.


domingo, 3 de maio de 2009

A Janela

O velho escritor Antonio (Antonio Larreta) tem um sonho. De algum lugar de sua memória, ele revê uma imagem que não via há 80 anos: uma figura feminina que estava tomando conta dele, criança, enquanto uma festa acontece no andar de baixo. Onde estaria escondida essa memória? Por que lembrar dela justo hoje? Antonio se encontra em uma cama, se recuperando de um ataque recente do coração. Ele vive em uma casa antiga, em uma fazenda no interior da Argentina, tão afastada que sequer tem um telefone. Duas criadas tomam conta dele, Maria Del Carmen e Emilse, e o velho está ansioso porque o filho, um renomado pianista que mora na Europa, está vindo visitá-lo.

A Janela é dirigido por Carlos Sorin. É um filme pequeno, curto, que é uma contemplação sobre a chegada da morte. Com poucos atores e feito todo em uma locação, Sorin se baseia em um elenco sólido, na bela fotografia de Julián Apezteguia e em um som impressionante. Como praticamente não há música (a não ser na cena do sonho), o som tem uma importância fundamental em nos transportar para aquele mundo privado e instrospectivo do escritor. Há uma cena muito bonita em que Antonio foge de seu quarto para dar uma volta pela fazenda e quase podemos sentir o cheiro do mato, da pequena horta e das flores por onde Antonio anda, tal a perfeição das imagens e da recriação sonora. A figura de um velho piano também é importante para a trama e para o estado de espírito do filme. Como o filho está vindo da Europa, Antonio contrata um afinador para olhar o instrumento, e há um paralelo interessante entre a visita do médico, com suas agulhas e instrumentos, para examinar Antonio, e a figura do afinador tentando trazer o piano à velha forma.

O filho chega ao final do dia, trazendo uma namorada que não se conforma com o fato de seu celular não ter sinal. Os sons da natureza, grilos, sapos, pássaros noturnos e do vento, vão se tornando cada vez mais fortes enquanto a noite cai, trazendo com ela uma escuridão que nós, habitantes do mundo moderno, já nos desacostumamos. Sorin, com seu filme, nos reapresenta a certas verdades esquecidas pelo mundo moderno. O dia é claro, a noite é escura e a morte chega a todos um dia. Aos seres humanos resta saber transformar o tempo entre o nascer e o pôr do sol em algo útil e belo, através do trabalho, da cultura e da arte.



domingo, 26 de abril de 2009

O visitante

Curioso este momento de transição pelo qual passamos. Os oito anos de governo Bush deixaram um gosto amargo na política internacional dos EUA, única potência do mundo e mais xenofóbico e assustador do que nunca. A chegada de Barack Obama à Casa Branca vem carregada de esperança para o futuro, mas ainda há muita desconfiança entre os países do mundo e o fantasma do 11 de setembro ainda permanece na memória recente das pessoas. Com Bush ou sem, o fato é que há uma enorme desigualdade social no Brasil e no mundo, o que força cada vez mais as pessoas a fugirem de seus países em busca de uma vida melhor em outro lugar. E Nova York ainda mantém o posto não oficial de capital do mundo, com a Estátua da Liberdade dando boas vindas aos imigrantes famintos, desde que eles consigam fugir da imigração americana. É neste cenário que se passa "O Visitante", produção sensível escrita e dirigida por Thomas McCarthy.

Walter Vale (Richard Jenkins, perfeito) é um professor universitário cuja vida está estagnada. Ele repete a mesma aula há anos sem muito interesse tanto de sua parte quanto de seus alunos. Tenta sem sucesso, nem muito esforço, aprender a tocar piano, tendo trocado várias vezes de professor. Viúvo de uma pianista, ele agora passa seus dias sozinho, dando poucas aulas e reservando tempo para escrever um livro. Sua vida muda ao ter que ir para Nova York falar em um congresso. Ao chegar ao apartamento que tem na cidade, mas que não visitava há anos, ele encontra um casal de imigrantes morando lá. Tarek (Haas Sleiman) é um percussionista da Síria, e sua mulher Zainab (Danai Gurira) é do Senegal e vende bijuterias. Os dois foram enganados por um homem que se dizia dono do apartamento e já estavam morando lá há dois meses. Inicialmente Walter os manda embora, mas muda de idéia e acaba deixando que eles permaneçam ali até encontrarem outro lugar. Uma improvável amizade se estabelece entre Walter e Tarek, que têm um amor em comum, a música. Richard Jenkins, que concorreu ao Oscar de melhor ator por este filme, é minimalista ao fazer de Walter Vale um senhor aparentemente sem nenhum atrativo. Aos poucos, porém, percebemos que ele não é má pessoa. Apenas passou muito tempo sozinho e sem desafios. O encontro com o jovem casal de imigrantes desperta nele as memórias da própria esposa e a vontade de fazer algo diferente da vida. Aos poucos Walter começa a ter aulas de tambor com Tarek e há cenas muito engraçadas dos dois batucando.

Acontece, no entando, de Tarek ser preso injustamente pela polícia de Nova York. Como está no país ilegalmente, ele é enviado a um presídio da imigração no Queens, bairro afastado de Nova York. Walter está tão envolvido com o percussionista que passa a visitá-lo na prisão e tenta encontrar uma saída para o problema. Ele também tem que lidar com a mãe de Tarek, Mouna (Hian Abbass, do belo "Lemon Tree"), que vem de Michigan procurar pelo filho. Aos poucos Walter descobre como é difícil a vida para um imigrante ilegal nos Estados Unidos quando este é preso pela imigração. Tarek pode ser enviado para qualquer parte do país ou mesmo deportado sem aviso prévio, e os oficiais da imigração não estão dispostos a dar muitas informações.

O filme poderia cair em um drama fácil ou em um protesto político superficial, mas mantém o foco no lado humano dos personagens. Walter, ao se envolver com os imigrantes, percebe como sua vida tem sido vazia, e a presença feminina de Mouna também desperta sentimentos há muito esquecidos. A trama me lembrou do filme que Peter Weir fez em 1990, "Green Card, Passaporte para o Amor", em que Gerard Depardieu simulava um casamento com Andie MacDowell para tentar ficar nos Estados Unidos. As duas produções tem a música como um dos focos principais (o personagem de Depardieu também era músico) e em ambos aparece um músico de rua que toca percussão em uma lata. "O visitante", porém, é um filme mais sério e mais realista sobre as condições de vida nos Estados Unidos. Digamos que "Green Card" seja uma fantasia dos tempos anteriores ao 11 de setembro, enquanto que "O Visitante" mostre como o mundo mudou, infelizmente para pior, nesse período.