Há cenas muito bem feitas neste novo lançamento da DreamWorks Animation. A animação em computação gráfica, por vezes, parece feita com bonecos "de verdade", e não pixels de computador. É mais um filme a aproveitar a onda de produções em 3D que invadiu o mercado, contando a história de um jovem chamado "Soluço", que não é exatamente o que seu pai viking queria. Ao contrário de seus companheiros, Soluço não tem a mínima vontade de seguir a tradição de sua vila, que é lutar contra os dragões que os atacam regularmente. Um dia, no entanto, em um golpe de sorte, Soluço consegue ferir o dragão mais terrível de todos, chamado de "Fúria da Noite", que cai na floresta. Ao ir até ele, ao contrário de matá-lo, como seria o esperado, acaba fazendo amizade com o dragão.
A animação foi dirigida pela mesma dupla de "Lilo & Stich" (2002), Chris Sanders e Dean Deblois, e o visual dos dragões herdou muito daquele filme. Soluço batiza o dragão de "Banguela" e constrói uma "prótese" para um pedaço da cauda dele, que havia sido perdida. Os dois passam então a se ver todos os dias. "Banguela" leva o garoto para voar em cenas que fizeram a alegria da garotada que lotava o cinema, fazendo uso muito bom da tecnologia em três dimensões (lembrando cenas similares de "Avatar", em menor escala). O ritmo não tem a pressa normalmente encontrada em animações recentes mas, infelizmente, o roteiro não chega a gerar muito interesse. O fato de ser um filme infantil impede que a ameaça dos dragões seja levada muito a sério pelo espectador, já que ninguém morre ou mesmo fica muito ferido nos ataques. Há apenas uma cena muito bem feita em que Banguela leva Soluço até o ninho dos dragões e ele descobre o porquê deles roubarem comida dos humanos.
Fora esta cena e alguns momentos interessantes que mostram a integração de Soluço com Banguela, "Como treinar seu dragão" não tem muito mais a oferecer. Mas é bonito, bem feito e não ofende a inteligência de ninguém.
O Oscar é um prêmio contraditório. Um filme "pequeno" e independente como "Guerra ao Terror" derrotou a maior bilheteria de todos os tempos, "Avatar". Ao mesmo tempo, um filme ruim como "Um Sonho Possível", improvável sucesso de Sandra Bullock, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, e a própria Bullock foi considerada a Melhor Atriz do ano (sendo que, no dia anterior ao Oscar, ela havia sido "premiada" como Pior Atriz no "Framboesa de Ouro").
"Um Sonho Possível" tem todas as características de um "feel good movie", em que valores tradicionais americanos como perseverança, família e culto à vitória são defendidos. Uma das principais características da História americana, lamentavelmente, é o racismo, e fica difícil assistir a este filme sem imaginar que ele prega exatamente o oposto do que defende. Sandra Bullock é Leigh Anne Tuhoy, uma mulher rica, cristã e poderosa do sul dos Estados Unidos. Sua família de comercial de televisão é composta por um marido bondoso, uma filha estudiosa e um garoto "esperto". Uma noite fria Leigh Anne vê um jovem negro andando na calçada e pede para o marido parar o carro. Ele é "Big Mike" (Quinton Aaron), um rapaz pobre que conseguiu uma bolsa de estudos para frequentar a mesma escola católica que os filhos de Leigh. Mike é o típico "negro inofensivo" dos filmes (racistas) americanos. Ele é alto e forte, mas tem o coração de uma criança. E, claro, precisa ser salvo por um branco para ser alguém na vida. Sem qualquer objeção do marido ou dos filhos, Leigh Anne convida o rapaz para passar a noite na casa deles, e ele vai ficando. Sem dúvida o filme quer passar valores como solidariedade e amor ao próximo, mas a sensação que o ele passa é a de que Big Mike não passa de um cachorrinho perdido, levado para cima e para baixo pela dona, que o leva para comprar roupas e separa um quarto para ele na casa.
A não ser por alguns comentários das companheiras "dondocas" de Leigh Anne, a transformação instantânea de Big Mike em filho adotivo da família Tuhoy acontece na maior tranquilidade. Não há problemas de adaptação de nenhum dos dois lados, nenhum sinal de revolta por parte de Mike ou de racismo por parte dos Tuhoy. Na escola, apesar de Mike nunca ter tirado notas boas, uma professora encontra, inacreditavelmente, um texto dele no lixo, em que descreve, em prosa e gramática perfeitas, como ele se sente perdido em meio aos "muros brancos" que o cercam. Escrito e dirigido por John Lee Hancock, o filme é "baseado em fatos reais", o que não impede que ele seja completamente inverossímil. Big Mike é adotado legalmente pela família e começa a praticar futebol americano, devido à sua força e tamanho. Mas, novamente, ele é visto como se fosse um portador de necessidades especiais, incapaz de entender o jogo ou o que o técnico quer dele. O que não o impede, milagrosamente, de se tornar a grande atração do time e futura promessa entre os profissionais.
Por tudo isso, "Um Sonho Possível" é formuláico, retrógrado e mau cinema. A interpretação de Bullock não tem nada de excepcional e sua vitória no último Oscar é tão inacreditável quanto o roteiro deste filme.
"Nenhum homem é uma ilha", diz o ditado. Mas quem estuda um pouco de psicologia sabe que, na verdade, somos todos ilhas. Não há nada mais individual do que o modo como cada um vê e interpreta o mundo ao seu redor. O que é a realidade se não o modo como percebemos e interpretamos as coisas?
O novo filme de Martin Scorsese se passa integralmente em uma ilha, Shutter Island, no leste dos Estados Unidos. É uma ilha sanatório, para onde são enviados os pacientes mais perigosos e violentos. A trama também se passa em outra "ilha", nas memórias do personagem principal, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio, em mais uma parceria com Scorsese), traumatizado pela morte de sua esposa em um incêndio e pelas lembranças terríveis de quando libertou um campo de concentração nazista, na II Guerra Mundial. Teddy é um agente federal que é enviado à Shutter Island com seu parceiro Chuck (o sempre competente Mark Ruffalo) investigar o misterioso desaparecimento de uma paciente. Eles são recebidos pelo doutor Cawley (Ben Kingsley), que tem teorias próprias quanto ao modo de tratar os pacientes.
"Ilha do Medo" é um filme de suspense com toques de terror, e vai se tornando cada vez mais sinistro conforme a trama avança. Nem sempre o roteiro funciona, mas a competência impecável de Scorsese na direção e a boa interpretação do sólido elenco (que conta ainda com nomes como Max von Sidow e Emily Mortimer) contornam eventuais problemas. Scorsese é genial em mostrar que nem tudo é o que parece com pequenos detalhes, como a rápida cena em que um personagem "toma água" com um copo inexistente, ou um farol de navegação que não parece estar duas vezes no mesmo lugar. DiCaprio pode não ser um substituto à altura de Robert DeNiro (o antigo colaborador habitual de Scorsese), mas é bom ator e, aos poucos, vai passando ao espectador a sensação de que há algo errado com seu personagem. Ou será que o problema não é com ele? Será que Teddy é apenas paranóico ou há realmente um plano sombrio por trás do Dr. Cawley e os médicos da ilha? Ou, como diz uma piada de humor negro, "meus remédios para a paranóia estão tramando contra mim". Há, claro, ecos de Hitchcock em vários momentos do filme, de "Um Corpo que Cai" à "Psicose". E alguns toques de "O Iluminado", de Stanley Kubrick.
Dependendo de como se encara a trama (e o que é real ou não), o final pode ser tanto absurdo quanto aceitável. Não é um filme perfeito, e Scorsese já teve dias melhores. Mas, enquanto se desenrola, "Ilha do Medo" cumpre seu papel de intrigar e assustar o espectador.
PS: A trilha de "Ilha do Medo" foi organizada por Robbie Robertson. O tema principal do filme é a Sinfonia número 3 de Penderecki, que pode ser ouvida aqui:
Esta é uma "anti-comédia-romântica". E é nesse fato que reside sua originalidade. Summer (Zooey Deschanel) é uma garota linda, jovem, solteira, desimpedida. Tom (Joseph Gordon-Levitt) se apaixona à primeira vista por ela. Mas há um problema: Summer é daquelas garotas que acham que podem sair com um cara, passear com ele, ter encontros com ele e mesmo transar com ele, sabendo que ele está apaixonado, e ainda assim dizer que "não é nada sério". Tom, claro, até concorda com o "esquema" da garota, até porque é a única alternativa para poder continuar com ela. Mas há certo sadismo em acompanhar o sofrimento do pobre Tom conforme ele fica cada vez mais apaixonado, e Summer cada vez menos "séria".
Dirigido por Marc Webb, o filme conta a história de "não-amor" de Tom e Summer de forma não linear, separando as sequências por um letreiro que mostra em qual dos "500 dias" estamos. É triste ver como o relacionamento entre os dois está leve e tranquilo nos primeiros dias, com os dois rindo das coisas mais banais e, no momento seguinte vê-los cansados, frios e distantes um do outro. O roteiro (de Scott Neustadter e Michael H. Weber) é muito observador no modo de ser de homens e mulheres "modernos". O comediante Jerry Seinfeld disse em um de seus shows que, para um homem, não importa a profissão de uma mulher, ele pode se apaixonar por ela do mesmo modo. O contrário, segundo Seinfeld, não é verdadeiro, a mulher tem que gostar da profissão do homem para se apaixonar por ele. Em "500 dias com Ela", Tom é formado em Arquitetura, mas trabalha escrevendo frases de amor em uma daquelas firmas que criam cartões de "Dia dos Namorados", "Dia das Mães", etc. Ele é muito bom nisso, talvez pelo fato de que realmente acredite que o Amor exista, ao contrário de Summer. Os dois se conhecem na firma de Tom, e é ela quem se aproxima dele. Mas fica patente que, quanto mais Summer acha que Tom está perdendo tempo na firma de cartões, menos ela o respeita. Tom, por sua vez, por mais que Summer declare que "não quer nada sério", menos acredita nela, visto que os dois estão constantemente saindo juntos, indo ao cinema e fazendo amor (?) juntos.
Interessante como, no mundo moderno, um filme como este seja possível. E que seja tão correto em observar como os papeis masculinos e femininos estão mudando, e o que se espera de cada gênero. É o homem que está querendo uma mulher por quem se apaixonar e um relacionamento sério. Já Summer se justifica dizendo simplesmente que está "feliz", e não quer mais complicações. Será que é assim mesmo? O final do filme acaba mostrando que não é bem assim, mas sem dúvida as histórias de amor de hoje estão bem diferentes.
“O Segredo dos seus olhos” surpreendeu ao ganhar, no último dia 7 de março, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O favorito era “A Fita Branca”, de Michael Haneke, premiado com a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro. Mas o filme do argentino Juan José Campanella tem méritos suficientes para merecer o prêmio. Campanella já havia sido indicado a um Oscar por “O Filho da Noiva” (2001) e está construindo uma carreira sólida e competente tanto na Argentina quanto nos Estados Unidos, onde dirigiu episódios para várias séries de televisão, como “Law & Order” e “House”.
Campanella, é verdade, segue uma “fórmula” em suas histórias. Há o homem de meia idade (representado por Ricardo Darín), inseguro quanto ao próprio talento e apaixonado por uma mulher por quem ele não consegue se declarar. Há o amigo engraçado (geralmente, Eduardo Blanco), mas com algum tipo de problema, como o alcoolismo. Há um fundo político ancorado na conturbada história da Argentina. Foi assim em “O Mesmo Amor, a Mesma Chuva” (1999), em que Ricardo Darín era um escritor que se apaixonava por uma mulher (Soledad Villamil), mas não conseguiu se declarar por anos. Darín e Villamil voltam agora em “O Segredo dos seus olhos”, que acrescenta o elemento do suspense à fórmula de romance de Campanella. Darín é Benjamin Espósito, um oficial de justiça que fica obcecado em solucionar o cruel assassinato de uma moça. São os anos 1970 e a Argentina está às voltas com instituições corruptas e incompetentes. Espósito e o colega Sandoval (Guillermo Francella, substituindo Eduardo Blanco) tentam driblar as dificuldades burocráticas para solucionar o caso, como invadindo a casa do principal suspeito, Isidoro Gómez (Javier Godino), antigo namorado da moça. Eles também são auxiliados por Irene (Villamil), colega de trabalho por quem Espósito é apaixonado.
Campanella, que também é o editor do filme, por vezes o deixa se estender demais. E o final, apesar de coerente com o exposto durante a trama, é muito fantástico. Mas a direção é primorosa, aulixiada pelo competente elenco. Ricardo Darín, que já trabalhou com Campanella em "O Mesmo Amor, a Mesma Chuva" (1999), "O Filho da Noiva" (2001) e "Clube da Lua" (2004), é muito bom em passar as nuances de seu personagem dividido em conquistar Irene e descobrir o assassino da moça. Villamil e Darín, na tela, são sempre verdadeiros, como um velho casal com muita história para contar. Tecnicamente, Campanella consegue o feito de um plano sequência espetacular no ponto chave do filme, um jogo de futebol em que o suspeito é localizado. Uma câmera aérea focaliza um estádio de futebol lotado, se aproxima, entra na platéia e se mistura aos torcedores em um único plano, que continua por cinco minutos ininterruptos, com o suspeito tentando fugir dos oficiais de justiça e da polícia. É um plano fantástico e, o que é mais importante, não é gratuito, passando ao espectador a emoção de estar em um estádio lotado de futebol.
Falando em futebol, o sucesso do filme argentino e a vitória no Oscar causou certa polêmica entre os cinéfilos e críticos brasileiros, revivendo a velha rixa entre os dois países. Pura bobagem. "O segredo dos seus olhos" é um belo filme e deve ser apreciado como tal.
É possível fazer um exercício interessante ao se comparar dois filmes que estão em cartaz, “Preciosa” e “Educação”. Ambos são baseados em relatos de garotas de 16 anos às voltas com os problemas da vida e com os rumos da própria educação, mas tratadas de modo tão distinto que parecem ser de planetas diferentes.
Jenny (Carey Mulligan), em “Educação”, vive em uma família razoavelmente equilibrada, com pai e mãe que lhe deram apoio, carinho e valores. Ela é destaque na escola e está estudando para ser aceita na renomada Universidade de Oxford, Inglaterra. Já a vida de Claireece “Precious” Jones (Gabourey Sidibe) está no lado oposto do espectro. Negra, pobre e muito obesa, ela vive no Harlen (bairro negro de Nova York) com a mãe, e está grávida do segundo filho. Na escola, ela gosta de Matemática e até tem notas boas, mas é apática, quieta e, quando provocada, violenta. A diretora a questiona sobre a segunda gravidez, perguntando o que aconteceu. “Eu fiz sexo”, responde ela. Não é assim tão simples. Precious é freqüentemente violentada pelo próprio pai, que a engravidou pela segunda vez. A diretora decide expulsá-la da escola comum para ser aceita em um projeto chamado “Each One Teach One”, que cuida de alunos que tem potencial, mas são problemáticos.
“Preciosa” é baseado em “Push”, primeiro livro de uma escritora chamada Saphire, que era professora em Nova York. A personagem de Precious é baseada em várias alunas reais que ela teve, e nas experiências delas. O filme, dirigido por Lee Daniels, não faz concessões em sua frieza em mostrar a vida difícil de Precious. Sua mãe, Mary (Mo'Nique) a odeia por causa da “atenção” que o marido passou a dar à filha. Mary é extremamente cruel, quase caricata em sua monstruosidade, que passa o dia vendo televisão, maltratando a filha e vivendo da renda de programas do governo. Quando uma assistente social visita a família para decidir se o benefício deve continuar, Mary age como uma pessoa amável e “responsável”, até que ela vá embora.
Na escola nova, Precious encontra apoio na professora Rain (Paula Patton), que faz os alunos escreverem todos os dias em um diário (assim como visto no filme “Escritores da Liberdade”, com Hillary Swank). O método dá a Precious a chance não só de se alfabetizar, mas de se expressar. O filme tem um tom documental no modo como a câmera enfoca as personagens, quase todas femininas. Este é um mundo cruel, machista e violento, em que pais abusam dos filhos, que repetem o ciclo com suas próprias crianças. A mãe de Precious não é má por natureza, mas alguém que também foi brutalizada e não sabe mais a diferença entre o certo e o errado. A comediante Mo'Nique foi merecidamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo seu desempenho, e é a favorita. Há uma cena em que ela, Precious e uma assistente social (interpretada pela cantora Mariah Carey, irreconhecível) estão conversando que é de uma força e verdade tocantes. Notem como a mãe tenta justificar seu silêncio diante dos abusos sexuais praticados pelo namorado, em uma mistura de amor maternal com ciúme e desejo de também ser amada. Também digna de nota é a interpretação da novata Sidibe como Precious (indicada ao Oscar de Melhor Atriz). "Preciosa" concorre também a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Montagem e Melhor Roteiro Adaptado.
Um filme americano pesado, difícil e com coisas para dizer. Raridade.
Ela está parada no ponto de ônibus, debaixo da chuva, segurando um violoncelo. Ele pára seu carro esporte e, extremamente educado, lhe diz que ela seria louca de aceitar a carona de um estranho, mas deveria ao menos proteger seu violoncelo. Ela é Jenny (Carey Mulligan), 16 anos; ele é David (Peter Sarsgaard), 35 anos. O filme é “Educação”, dirigido pela dinamarquesa Lone Scherfig, e pode ser classificado como uma “comédia romântica”, sob o risco de ser colocado na mesma prateleira, na locadora, ao lado de bobagens estreladas por Cameron Dias e Julia Roberts. Felizmente, está longe disso. O roteiro, baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber, foi escrito por Nick Hornby, autor dos ótimos “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”.
Jenny é uma estudante exemplar que está se preparando para entrar na Universidade de Oxford, e atrai a atenção deste homem com o dobro da sua idade. David tem charme de sobra, e consegue convencer os pais dela que é confiável, levando-a a concertos, jantares e leilões de arte. Estamos no começo nos anos 60, antes da revolução cultural e sexual que revirou o mundo no final da década, de modo que Jenny ainda é pouco mais que uma criança. No entanto, ela demonstra maturidade e bom senso além de seus anos, e dá gosto ver um filme que confia na inteligência não só de seus personagens, mas de seus espectadores. O que David quer com Jenny? Sexo? Isso seria simplificar demais a relação entre os dois. Jenny, claro, está deslumbrada com a oportunidade de freqüentar círculos inéditos para sua idade e ser tratada como uma adulta. De volta, David compartilha do bom gosto e classe da garota. Interessante também notar como, para os pais de Jenny, a chance dela talvez ter encontrado um “bom partido” seja tão importante quanto entrar em Oxford. Mas será que David não é bom demais para ser verdade?
Todo elenco está muito bem, em particular Alfred Molina como o pai de Jenny, mas é Carey Mulligan quem leva o filme com charme e graça. Sua interpretação recebeu muitos elogios e críticas, além de uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz de 2010. Ela tem sido comparada a Audrey Hepburn e está cotada para a refilmagem do musical “My Fair Lady”. Scherfig, que participou do movimento “Dogma” do cinema dinamarquês, dirige com leveza e dignidade. Seria fácil transformar esta história entre um homem mais velho e uma garota mais nova em um dramalhão ou em algo escandaloso. Mas, repito, é um filme de rara inteligência, em que temas como sexualidade, o papel da mulher (e do homem) e a importância da educação formal e informal são levantados e discutidos com seriedade. “Educação” também está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado.
Segundo o site icasualties.org, 4.698 soldados americanos morreram no Iraque desde 2003 (mais de 100 mil iraquianos foram mortos no mesmo período, segundo várias fontes). Um dos serviços do exército americano é o de informar as famílias das vítimas. O sargento Will Montgomery (Ben Foster) acabou de voltar do Iraque, onde foi ferido, e foi designado para este serviço sob a supervisão do Capitão Tony Stone (Woody Harrelson). Um veterano da primeira guerra do Iraque (em que não trocou nenhum tiro), Stone é um alcoólatra que ensina Montgomery a fazer tudo segundo as regras. "Siga o script", diz ele, "fale somente com o familiar do morto, nunca toque ou abrace ninguém". Montgomery não mostra entusiasmo com seu novo trabalho mas, ao acompanhar Stone em algumas visitas, percebe que comunicar a morte de um ente querido pode ser tão doloroso quanto um combate no campo de batalha.
"O Mensageiro" é mais um produto da Guerra do Iraque, que já se tornou um subgênero do cinema. Os soldados americanos retratados nestes filmes geralmente são brancos, jovens, escutam música pesada e são marcados pelos conflito. Montgomery segue este estilo, mas a interpretação de Ben Foster lhe dá nuances que o tornam extremamente humano. Ele tem um caso com uma namorada de infância, Kelly (Jena Malone), que arrumou outro namorado quando ele partiu para o Iraque. Ela agora está noiva, o que não a impede de transar com Montgomery quando volta da guerra. Will Montgomery parece um jovem frio e distante, mas as visitas às vítimas vão revelando sua empatia por elas e a quebrar as regras impostas por Stone. Um caso especial é o de Olívia (Samantha Morton), que reage de forma inusitada quando Montgomery e Stone a informam da morte do marido: "Deve ser difícil para vocês também", diz ela. Montgomery se interessa por ela e passa a vê-la, discretamente a princípio, depois com mais frequência. Ele está apenas tentando se aproveitar do luto dela ou apenas querendo curar a própria carência? Provavelmente os dois, mas isso não significa que o "relacionamento" entre os dois não tenha substância. Há uma ótima cena, extremamente bem interpretada por Foster e Morton, em que os dois atuam em um único take de mais de oito minutos, passados na cozinha da casa dela. Os dois se aproximam, tentam se beijar, depois se repelem, depois conversam sobre o marido morto e sobre o filho pequeno dela, se aproximam novamente... tudo sem cortes de câmera, sob a direção de Oren Moverman.
Um filme independente, "O Mensageiro" conquistou os críticos e duas indicações ao Oscar, de Roteiro Original (de Alessandro Camon e Oren Moverman) e de Ator Coadjuvante, para Woody Harrelson. Ele está muito bem, mas pessoalmente prefiro a interpretação de Ben Foster e Samantha Morton. Há alguns momentos não muito bem resolvidos, como na sequência em que Foster e Harrelson aparecem na festa de casamento de Kelly. E o Capitão Stone tem algumas opiniões contrárias à guerra que não soam muito verdadeiras, partindo de um oficial. Mas é um bom filme, centrado nos personagens e nas interpretações, mostrando que não é possível simplesmente "brincar" de guerra. Pessoas vão morrer de forma violenta, deixando para trás pais, mães, esposas e filhos.
Há um curioso ar de “tranquilidade” no último filme produzido por Hayao Miyazaki, o mestre japonês da animação. “Ponyo”, feito em 2008 no Japão, mas sem previsão de chegar às telas brasileiras, é o décimo longa animado de Miyazaki, e dos mais tranqüilos e infantis de sua carreira. Baseado levemente em “A Pequena Sereia”, o desenho conta a história de uma “peixe dourado” chamada Ponyo, que é encontrada por um garoto de cinco anos presa em um pote de vidro. Ao quebrar o vidro para soltá-la, o garoto Sosuke (voz de Hiroki Doi) corta o dedo e uma gota de sangue cai na boca da peixinho, o que lhe dá o poder de se transformar em humana. Sosuke vive com a mãe Lisa (Tomoko Yamaguchi), que vive sozinha em uma casa à beira mar, e sente falta de Koichi, o pai de Sosuke, que é capitão de um navio. Lisa toma conta de umas senhoras em um asilo chamado Himawari (Girassol), e Sosuke vai à uma escola vizinha. O problema é que, ao retirar Ponyo do mar, Sosuke acaba causando um desequilíbrio ecológico que eleva o nível das águas e engole grande parte da cidade. O “pai” de Ponyo, um humano chamado Fujimoto (Jôji Tokoro), tenta a todo custo trazê-la de volta à água. Miyazaki conta esta história de forma predominantemente visual, em um saudoso estilo de animação feito à mão. Ao contrário de seus seguidores da Pixar (assumidamente fãs do mestre japonês, e responsáveis pela verão em inglês do filme), o mundo animado de Miyazaki não é fotorrealista como o mostrado em “Procurando Nemo”, por exemplo. Seu mundo tem tons coloridos que parecem quadros feitos em aquarela.
A seqüência inicial é bela e surrealista, mostrando o “pai” de Ponyo criando uma série de animais aquáticos através de uma espécie de poção mágica. Miyazaki não se preocupa em explicar muito quem é Fujimoto; o que saberemos durante o filme é que ele gerou Ponyo com uma deusa do mar. Assim como em “Totorô” (1988), no filme não há vilões. O tsunami e alagamento da cidade são mostrados não como uma catástrofe, mas como uma oportunidade para Miyazaki criar belas seqüências subaquáticas, cheias de peixes pré-históricos, que surgem sem muita explicação. Há uma sensação de sonho permeando toda a animação, sublinhada pela bela trilha sonora de Jou Hisaishi, tradicional colaborador de Miyazaki. A princípio, não parece um filme tão memorável como nos bons tempos de “Naushica do Vale dos Ventos” (1984), “Láputa, Castelo no Céu” (1986) ou “Totorô” (1988), clássicos de Miyazaki e do estúdio Ghibli. Mas é uma animação que "fica" com o espectador. E é sempre bom ver que Miyazaki está em atividade (ele já ameaçou se aposentar várias vezes), fazendo animações poéticas e mágicas como esta, que não tem apenas a intenção de vender brinquedos ou incitar a violência.
A propósito, "Ponyo" não foi indicado ao Oscar de Melhor Animação agora em 2010. Lamentável.
Este ótimo filme de ficção-científica, lamentavelmente, não foi exibido nos cinemas do Brasil, sendo lançado direto em DVD. "Lunar" ("Moon", no eficiente título original) é dirigido por Duncan Jones, filho do cantor David Bowie, e é seu primeiro filme. O clima, design de cenários e roteiro remetem ao clássico maior do gênero, "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick. Embora o diretor, em entrevista nos extras do DVD, diz que o filme é "baseado em filmes baseados em 2001".
Em um futuro indeterminado, os problemas de energia da Terra foram solucionados pela coleta, no lado distante da Lua, de Hélio 3, tirado diretamente da areia. Para extrair o gás, a empresa "Lunar" mantém uma base remota operada por um computador chamado Gerty (voz de Kevin Spacey) e apenas um ser humano, sob contrato de trabalho de três anos. Ele é Sam Bell (o ótimo Sam Rockwell) que está a apenas duas semanas do final do contrato. Cansado e solitário, Bell está no limite da sanidade mental após passar três anos sozinho na Lua. Além das tarefas de rotina, ele passa o tempo construindo uma maquete de sua cidade natal, cuidando de plantas, fazendo exercícios e recebendo mensagens em vídeo da esposa Tess (Dominique McElligott) e da filha Eve. Sua única companhia é o computador/robô Gerty, cuja voz calma de Kevin Spacey lembram muito o tom assustadoramente contido de HAL 9000, de "2001". Coisas estranhas começam a acontecer. Sam tem visões de uma garota vestida de amarelo e, mais assustador ainda, de si mesmo em outras situações. Um dia ele sofre um acidente grave fora da base e acorda, são e salvo, na enfermaria da estação, sob os cuidados de Gerty. Mas quem é aquela outra pessoa na sala? Por que ela se parece tanto com ele mesmo?
É complicado falar de "Lunar" sem revelar certos detalhes (o próprio trailer entrega o "segredo" do filme). Basta dizer que Sam Rockwell, auxiliado por algumas fantásticas tomadas de efeitos especiais, tem uma performance extraordinária. Formado em Filosofia, o diretor/roteirista Duncan Jones levanta questões muito interessantes e pertinentes, principalmente no que se relaciona à política de exploração de trabalho das grandes corporações. Também é interessante pensar sobre o que nos torna realmente humanos, e quão confiáveis são nossas lembranças e julgamento de valores. O físico de Sam vai decaindo a olhos vistos conforme seus três anos de "contrato" vão chegando ao final, enquanto o novo responsável pela estação, atônito, assiste a tudo.
O DVD vêm com bons extras detalhando a criação dos efeitos especiais, uma eficiente mistura de computação gráfica moderna com os bons e velhos modelos em escala usados anteriormente no cinema. O filme custou apenas 5 milhões de dólares e foi milimetricamente planejado para caber no orçamento.
A pequena sala 3 do Cine Topázio, em Campinas (o único da região a exibir os chamados "filmes de arte"), estava cheia. Ao final da sessão, muitos espectadores, confusos, sussurravam comentários a respeito do filme que acabara de terminar. Uma senhora se virou para a colega e, em voz alta, declamou: "Eu sou feliz e não sabia!".
A nova obra do diretor austríaco Michael Haneke (de "Violência Gratuita" e "Caché"), de fato, não é um filme de entretenimento. Haneke é um realizador frio como gelo, preciso, metódico em seus movimentos de câmera, e misterioso em seus roteiros. "A Fita Branca" se passa no início do século XX, às vésperas da I Guerra Mundial, em uma pequena vila na Alemanha. Tem uma bela fotografia em preto e branco de Christian Berger, que infelizmente não estava boa na cópia digital apresentada no cinema, cinza e sem contrastes. A trama é narrada pelo professor primário da vila (Ernst Jacobi na narração, como um idoso, e interpretado por Christian Friedel como jovem) que, a bem da verdade, não conhece todos os fatos da história que está contando. O caso é que estranhos "acidentes" começam a acontecer na vila. Um médico se fere gravemente quando seu cavalo tropeça em um arame colocado entre duas árvores. O filho do Barão, o empregador de metade dos habitantes da vila, é sequestrado e surrado por desconhecidos, e encontrado vivo na floresta. Karli, um garoto portador de síndrome de Down e filho da parteira, também é atacado e quase fica cego. Quem estaria por trás destes crimes? Quem teria motivo para cometê-los? Por que, em todas as ocasiões, as crianças da vila são vistas por perto?
O desenvolvimento da trama pode sugerir um filme de suspense, em que o espectador tem que descobrir o "culpado", mas não é tão simples. Assim como no enigmático (e, para alguns, insolúvel) enigma de "Caché", Haneke não está preocupado em entregar respostas prontas. Os crimes são pontos culminantes de longas sequências de acontecimentos aparentemente cotidianos que vão montando um quadro de abusos, autoritarismo e fanatismo religioso. O pastor da vila (o ótimo Burghart Kasner) amarra os braços do filho durante a noite para que ele "não ceda às tentações de seu corpo jovem". O médico, quando volta do hospital, trata com crueldade extrema sua amante, a parteira, e aparentemente abusa sexualmente da filha. O Barão trata mal sua esposa e empregados. A todo momento há a sensação de que algo terrível está para acontecer. Há quem diga que este "algo", na verdade, é a própria história da Alemanha no século XX, prestes a entrar em duas guerras mundiais e viver para sempre com o estigma do Nazismo. O elenco orquestrado por Haneke é ótimo, e vale ressaltar a interpretação das crianças. O que dizer do diálogo em que a irmã mais velha tenta explicar o que é a morte para seu irmão mais novo? Ou o pavor da garota que conta a seu professor um sonho premonitório que ela teve? Ou a felicidade de um garoto ao conseguir convencer seu pai de que pode cuidar de um passarinho doente? Poderiam estas crianças, símbolos tradicionais de pureza e esperança, serem capazes do que o filme sugere?
Haneke não responde. Apenas mostra, no último plano, a vila reunida na igreja, os adultos em baixo, confusos e, no balcão acima, confiantes e cantando uma canção, os alemães do futuro. Eles eram felizes e não sabiam.
Por décadas, os grandes estúdios de Hollywood, Paramount, MGM, Universal, 20th Century Fox, entre outros, mandavam e desmandavam nos filmes criados sob seus domínios. Os diretores eram considerados apenas uma engrenagem na longa lista de técnicos responsáveis por uma produção, não mais importantes do que uma figurinista, e o produtor era a principal figura em um set. Com a chegada dos anos 60 tudo isso mudou. O público já estava cansado das fórmulas prontas dos estúdios, e fatos históricos como o festival de Woodstock e a Guerra do Vietnã pediam dos filmes uma visão mais realista do mundo. Os jovens cineastas americanos viam com inveja a liberdade desfrutada por diretores europeus como François Truffaut e Jean-Luc Goddard, e queriam fazer o mesmo nos Estados Unidos. Segundo o jornalista Peter Biskind, deste cenário teria nascido a última "era de ouro" do cinema americano. Jovens como Francis Ford Coppola, Brian de Palma, Peter Bogdanovich, Paul Schrader, George Lucas, Martin Scorsese e Steven Spielberg, entre outros, chegaram ao poder em Hollywood, mudaram as regras e produziram a última safra de filmes inteligentes e desafiadores do cinema americano, antes que a era dos "blockbusters" destruísse tudo novamente.
O livro é extremamente detalhista. Biskind se baseou em dezenas de entrevistas feitas por ele mesmo e coloca o leitor em contato direto com os bastidores de uma Hollywood distante do glamour costumeiro. A Hollywood de Biskind é habitada por pessoas talentosas mas extremamente egocêntricas, viciadas em vários tipos de drogas e capazes de tudo para ter seu nome nas telas. O título do livro faz menção a "Easy Riders", que no Brasil se chamou "Sem Destino", filme dirigido pelo ator Dennis Hopper, estrelando Peter Fonda, Jack Nicholson e o próprio Hopper. A produção foi uma bagunça. Hopper não tinha idéia de como se fazia um filme, era extremamente violento e egocêntrico e tão viciado que tinha marcado, no roteiro, que tipo de droga usaria para interpretar cada cena. Hopper não conseguia finalizar o filme e os financiadores tiveram que tirá-lo dele, cortando-o para uma duração apropriada. O filme acabou sendo um sucesso inesperado e deixou os estúdios sem saber o que fazer. Peter Fonda diz que os executivos antes pareciam confusos e faziam "não" com a cabeça. Depois do sucesso, eles passaram a fazer "sim" com a cabeça, mas continuavam confusos. Hopper se tornou cada vez mais viciado e fora de controle e nunca mais repetiu o sucesso.
"Ego" é uma palavra que aparece muito no livro. Peter Bogdanovich, que era um "nerd" viciado em cinema e crítico, dirigiu "A Última Sessão de Cinema" e foi chamado de "novo Orson Welles". Ele seguiu a carreira com outro sucesso, "Essa Pequena é uma Parada", com Barbra Streisend, e a fama lhe subiu à cabeça. Tornou-se igualmente odiado por toda a indústria, mas achava que era invencível. Acabou indo à falência após uma série de fracassos e por se envolver com uma coelhinha da Playboy que foi violentada e morta pelo ex-namorado.
Outros exemplos de cineastas destruídos pelo ego foram Francis Ford Coppola e William Friedkin. Coppola se achava um "artista", mas o diretor de fotografia Haskell Wexler o chama de "ladrão". Coppola é famoso por gastar muito o dinheiro dos outros, tendo como filosofia deixar os estúdios tão endividados que eles não poderiam mais cancelar seus filmes. Recusou fazer "O Poderoso Chefão" por diversas vezes, porque achava que estava "se vendendo" ao adaptar um livro comercial para o cinema. Fundou uma companhia chamada American Zoetrope e "emprestou" 300 mil dólares da Warner Brothers, dinheiro que nunca pagou de volta. Apesar de vários Oscars e filmes como a trilogia "O Poderoso Chefão" e "Apocalipse Now", Coppola acabou se tornando uma sombra de si mesmo. Hoje prefere fazer vinhos na Califórnia e assinar autógrafos para quem o visita na fazenda. Já William Friedkin ficou famoso com "Operação França" e teve como próximo projeto adaptar o livro "O Exorcista" para as telas. Friedkin era tão perfeccionista que passou dias e gastou milhares de dólares em uma cena em que tinha que filmar um pedaço de bacon fritando. Quando um padre de verdade, que estava atuando no filme, não conseguia transmitir a emoção que ele queria, Friedkin lhe perguntou: "Você confia em mim?". Quando o padre disse "sim", Friedkin lhe deu um tapa na rosto, conseguindo a interpretação que queria. "O Exorcista" foi um sucesso, mas Friedkin nunca mais conseguiu fazer nenhum filme bom.
Martin Scorsese era um garoto católico e asmático de Nova York que aprendeu com o professor a fazer filmes pessoais, sobre coisas que conhecia. "Caminhos Perigosos" deu ao mundo Robert DeNiro, com quem fez vários filmes juntos, como "Taxi Driver" e "Touro Indomável" (Raging Bull, também citado no título do livro). Scorsese se tornou viciado em cocaína e teve que ser internado vários dias em um hospital após ter um colapso nervoso. Está na ativa até hoje, talvez o melhor diretor americano das últimas décadas, mas longe da forma de outrora.
E há George Lucas e Steven Spielberg. É patente o esforço do autor em desacreditar estes dois cineastas e até em culpá-los pelos problemas do cinema americano dos anos 80. Pessoalmente, acho isso um pouco injusto. O caso é que Spielberg e Lucas não tinham tantas ambições "artísticas" quanto seus companheiros. Spielberg, especificamente, era um "nerd" que fazia filmes desde os 13 anos de idade, quando convocava os colegas da escola para fazer pequenos épicos em 8 mm. Um amigo emprestou dinheiro suficiente para que ele fizesse um curta em 35mm chamado "Amblin´", que impressionou tanto Sid Sheinberg, executivo na Universal, que ofereceu a Spielberg um inédito contrato de sete anos. "Encurralado", um filme feito para a televisão, era tão bom que foi exibido nos cinemas do mundo todo e levou Spielberg a fazer "Tubarão", o primeiro filme a arrecadar mais de 100 milhões de dólares na bilheteria. George Lucas até tinha idéias artísticas em seu primeiro longa, "THX 1138", uma ficção científica "cabeça" que poucos entenderam e o estúdio detestou. Lucas mudou de estratégia e fez "Loucuras de Verão", um filme leve sobre os anos 50 que rendeu muito dinheiro e agradou aos críticos. E foi então que Lucas fez um "pequeno" filme de ficção científica sobre um garoto que se junta a uma rebelião para lutar contra o Império, na figura de um vilão chamado Darth Vader. Quando Lucas apresentou um corte inicial para os amigos, Spielberg foi o único a lhe dizer que ele iria fazer muito dinheiro. Até a mulher de Lucas, Marcia, achava o filme bobo e infantil. Era "Guerra nas Estrelas", ou Star Wars, que quebrou todos os recordes de bilheteria. Quando foi relançado 20 anos depois, ainda arrecadou 250 milhões de dólares nos cinemas do mundo e já era parte da cultura popular.
O autor sugere que as obras de Lucas e Spielberg transformaram o cinema americano em uma fábrica de filmes infantilizados, sem nenhuma pretensão artística, focados apenas na bilheteria. Até certo ponto é verdade, mas é complicado culpar os dois por terem feito filmes tão bons e populares. É verdade que, depois, Lucas e Spielberg acabariam se tornando caricaturas deles mesmos. Lucas adulterou a própria obra nas "edições especiais" de Star Wars e cometeu três filmes anteriores da série que em nada lembravam os originais. Spielberg ainda fez bons filmes, mas tem a tendência a terminar todos com o inevitável final feliz hollywoodiano.
O fato é que o cinema dos anos 70 acabou sendo destruído por seus próprios criadores. O ego inflado e o acesso a grandes quantidades de dinheiro, sexo e drogas acabou com as idéias libertárias daqueles jovens e os transformaram em tiranos piores do que os estúdios contra os quais lutavam. Hoje, infelizmente, a maioria dos filmes americanos almeja apenas a bilheteria, baseando-se em histórias em quadrinhos ou antigas séries de televisão, sem se arriscar muito e lançados em milhares de salas ao mesmo tempo. Mas ainda há espaço para cineastas como Tarantino, os irmãos Coen, Soderbergh, Jason Reitman, entre outros.
Livro: "Easy Riders, Raging Bulls - Como a geração sexo-drogas-e-rock-´n-roll salvou Hollywood". Autor: Peter Biskind Editora: Intrínseca. 502 páginas. Tradução de Ana Maria Bahiana.
Abaixo, video realizado por mim em 2006 sobre Martin Scorsese e o cinema dos anos 70, similar ao tema do livro:
O mundo de um garoto pode ser um lugar bastante assustador. Nada foi feito para o tamanho dele, os adultos estão muito ocupados com "coisas de adultos", irmãos mais velhos podem ser cruéis e os professores vivem dizendo que o planeta vai ser destruído de diversas formas diferentes, isso se o Sol não morrer antes. Assim é a vida de Max (o excelente ator infantil Max Records), um garoto comum, filho de pais separados, que tenta dia a dia sobreviver neste mundo complicado. Ele ama a irmã mais velha mas, como toda adolescente, ela está mais preocupada com o telefone e com os amigos que com ele. Sua mãe (Catherine Keener) vive as agruras de ser uma mulher separada que tem que equilibrar carreira, vida amorosa e filhos. Um dia Max veste uma fantasia de lobo e começa a aprontar pela casa, até ser repreendido pela mãe. Ele foge, entra em uma floresta e, de repente, está à beira do mar. Ele pega em barquinho que está na praia e parte mar adentro, indo parar em uma estranha ilha habitada por monstros. A princípio eles querem devorá-lo mas, esperto, ele consegue convencê-los de que é um Rei de uma terra distante, e que agora é rei daquele lugar também.
Esta história simples, baseada em um livro de Maurice Sendak, foi transformada em filme por Spike Jonze (de "Quero ser John Malkovich"), um diretor considerado "alternativo" que fez um filme que os executivos em Hollywood devem ter quebrado a cabeça para classificar. Por um lado, é para todos os efeitos uma história infantil. Há um garoto, há monstros, há canções e cenas de ação. Por outro, é um filme feito com extremo "realismo" por um exército de técnicos em efeitos especiais, misturando bonecos com computação gráfica. Os monstros Carol (voz de James Gandolfini), Judith (Katherine O´Hara), Ira (Forest Whitaker), Douglas (Chris Cooper), Alexander (Paul Dano), KW (Lauren Ambrose) e uma espécie de "Touro" gigante (Michael Berry Jr) são uma mistura de animais diferentes, cada um com sua personalidade. O "chefe" Carol me lembrou muito "Totorô", o monstro bom criado por Hayao Miyazaki em animação de 1988. Um pouco como no "ET, O Extraterrestre" de Steven Spielberg, a história infantil é tratada por Jonze com seriedade, da mesma forma como as crianças levam suas brincadeiras extremamente a sério. Há momentos de pura diversão, quando o "rei" Max ordena que todos caiam na bagunça, destruindo árvores, rolando pelo chão e pulando, misturados com cenas ternas como quando todos pulam em cima uns dos outros e acabam dormindo juntos, como as crianças gostam de fazer.
Mas, como disse, é um filme difícil de classificar. Aqui no Brasil, para complicar mais as coisas, o filme foi lançado apenas em algumas cidades e com cópias legendadas, o que indica claramente que é considerado um filme adulto. Creio que nenhum garoto teria problemas em se identificar com Max e suas fantasias na ilha dos Monstros. Tecnicamente é um filme muito bem feito, com bela fotografia de Lance Acord (o mesmo de "Encontros e Desencontros") e trilha sonora inspirada de Karen O e Carter Burwell. Os efeitos especiais conseguem o feito de criar monstros que são, ao mesmo tempo, falsos mas realistas, uma mistura que só poderia sair da imaginação de uma criança.
Para os americanos, estar em uma guerra é algo tão presente em suas vidas que praticamente toda geração teve a "sua" guerra (e seus filmes a respeito). Foram vários os filmes sobre a II Guerra Mundial, sobre a Guerra da Coréia, do Vietnã e assim por diante. A atual Guerra do Iraque já dura tempo suficiente para ter se tornado um novo "gênero" de filme. O mais recente exemplar, e um dos melhores, é "Guerra ao Terror" (The Hurt Locker, 2009), dirigido por Kathryn Bigelow. Esta obsessão tão americana pela guerra é explicada em uma frase que abre o filme: "O furor da batalha é um vício potente e frequentemente letal, porque a guerra é uma droga".
Em "Guerra ao Terror", este "furor" não é representado por cenas cheias de ação, pelo contrário. O filme foca nas atividades de um esquadrão antibombas trabalhando em Bagdá. A adrenalina, no caso, é resultado do fato de que cada pedaço de papel, cada caixa largada em uma rua da cidade iraniana pode esconder uma bomba, e os homens responsáveis por desativá-las são altamente especializados e, frequentemente, viciados nessa adrenalina. É o caso do sargento William James (Jeremy Reneer, indicado ao Oscar de Melhor Ator, merecidamente), típico "caipira" do interior dos Estados Unidos. Ele faz parte de um trio composto pelo experiente e cauteloso Sargento Sanborn (Antonhy Mackie) e o jovem Especialista Eldridge (Brian Geraghty). O grupo acabou de perder um líder querido e competente (na fantástica sequência que abre o filme) e não vê com bons olhos as atitudes irresponsáveis e temerárias de James. Ele não obedece ordens, corre riscos desnecessários e coloca todos em perigo, mas é inegável que ele é bom no que faz (até porque, como ele mesmo diz, a melhor maneira de fazer este serviço é não morrendo).
Bigelow, a diretora, e o roteirista Mark Boal deixam de lado as questões políticas envolvidas no conflito e focam nos homens que o vivem dia após dia. O elenco tem participações especiais e surpreendentes de atores como Guy Pierce, Ralph Fiennes, Evangeline Lili e David Morse, e é interessante como Bigelow brinca com o fato deles terem rostos conhecidos. Quando um (ou mais, não vou revelar quem) deles morre como se fosse um figurante qualquer, o choque é ainda maior para o espectador. Isso ajuda a mostrar como a vida, em uma guerra, é frágil. O roteirista acompanhou pessoalmente várias missões destes esquadrões antibomba e as transformou na trama do filme, com grande realismo. Bigelow por vezes abusa do recurso da "câmera nervosa" tão usado ultimamente, mas ela consegue criar sequencias de suspense ou emoção primorosas, com poucos recursos. Há uma ótima sequência que envolve um duelo entre atiradores "sniper", trocando tiros a centenas de metros de distância, que transformam a guerra em uma espécie de jogo de xadrez, metódico, paciente e sangrento. A sequência também serve para aproximar os personagens de forma inesperada.
Mas talvez a cena mais interessante do filme é a que se passa em um supermercado americano. Um soldado, de volta para casa, fica parado diante de uma gôndola enorme, com diversos tipos e marcas de cereais matutinos, e não sabe o que fazer. Uma ação tão cotidiana, após a vivência de uma guerra, se torna estranha e acaba revelando a futilidade de alguns dos "confortos" a que estamos acostumados. Como se milhares de vidas estivessem sendo destruídas inutilmente, apenas para defender os supermercados cheios de produtos do ocidente.
"Guerra ao Terror" está indicado a nove Oscars, com Kathryn Bigelow despontando como favorita ao prêmio de direção.