terça-feira, 25 de maio de 2010

O que resta do tempo

O diretor Elia Suleiman conseguiu um feito. Uma comédia extremamente sutil lidando com a delicada situação entre israelenses e palestinos. Tão sutil, na verdade, que demora para o espectador perceber o humor da situação. O filme começa com um tom fantasioso, quando um taxista desconfiado pega um passageiro no aeroporto, à noite, e ruma para a estrada. No caminho, uma forte tempestade o faz parar no meio fio e o motorista, claramente assustado, se pergunta o que está acontecendo. A situação parece um sonho e abre uma janela para o passado e para as lembranças de Suleiman, o passageiro do táxi. Voltamos para 1948, ano da criação de Israel e da ocupação da cidade de Nazaré. O pai de Suleiman, Fuad (Saleh Bakri) faz parte da resistência palestina e é um fabricante de armas. Ele é preso e torturado pelos israelenses, e imaginamos que estamos para ver um filme pesado de guerra.

Curiosamente, não é o que acontece. Em saltos para frente no tempo, o filme deixa de lado a ação inicial e se torna uma espécie de contemplação do equilíbrio frágil que se instala na região. Suleiman faz uma delicada homenagem ao pai e à mãe na forma de episódios cuidadosamente dirigidos e enganadoramente simples. O espectador acompanha situações cotidianas da família Suleiman e da vizinhança, tudo maravilhosamente fotografado por Marc-André Batigne. Há um vizinho "maluco" que se encharca de gasolina e ameaça se queimar toda semana. Há a tia que faz um prato de lentilha tão intragável que o pequeno Elia Suleiman sempre joga o conteúdo do prato no lixo. Na escola, Elia é frequentemente repreendido por ter falado alguma coisa contra os Estados Unidos. À noite, seu pai e um amigo gostam de pescar em frente ao mar, tendo que explicar para a polícia, todas as vezes, de que não estão fazendo nada suspeito.

É um filme extremamente contemplativo, talvez até demais. A terceira parte mostra o próprio diretor voltando para Nazaré para visitar a mãe doente. Suleiman faz uma espécie de filme mudo (aos moldes de Buster Keaton, que nunca sorria), nos mostrando o lado engraçado de situações absurdas, como um homem que sai para jogar o lixo e parece nem notar o gigantesco tanque de guerra que o mantém sob a mira constante; ou o guarda de trânsito que dança uma coreografia com os carros que passam, ou a mulher com o bebê que, por um momento, para um tiroteio entre a polícia israelense e os palestinos. Suleiman faz sua declaração de amor ao cinema em pequenos momentos, como na exibição de "Spartacus" (de Kubrick) em seus tempos de escola, ou no rapaz que passa na rua assobiando a trilha de "O Poderoso Chefão" (de Francis-Ford Coppola) ou "Três Homens em Conflito" (de Sergio Leone). Uma das melhores cenas, no entanto, é a que envolve o impassível Suleiman, o muro construído por Israel para separar judeus de palestinos e uma vara olímpica.

Uma comédia em que o espectador nunca solta uma gargalhada, mas está sempre sorrindo. A não ser em uma cena inacreditável de karaokê, que vale o filme.


segunda-feira, 24 de maio de 2010

LOST - The End

Acabou. Após seis anos de mistérios, especulações, viagens reais e imaginárias, mortes, renascimentos, mudanças no tempo e no espaço, a história dos passageiros do Vôo 815 da Oceanic finalmente chegou ao fim. O final, a bem da verdade, não explica muito (ou não explica tudo) o que realmente aconteceu nestas seis temporadas. E não poderia ser diferente. "Lost" sempre foi muito mais sobre os mistérios do que sobre as explicações, sobre as perguntas deixadas no ar que faziam a delícia (e agonia) de milhões de fãs no mundo todo.

"Lost" já foi muito bom e muito ruim. Em seu melhor, a série levantava questões sobre a natureza humana, sobre o poder do destino, sobre a validade da ciência contra o poder da fé, o valor da amizade e do companheirismo. Em seu pior, era uma história "nerd" que misturava civilizações egípcias com seres imortais vindos não se sabe de onde e uma "luz da vida" convenientemente criada nos últimos episódios para ajudar a "explicar" tudo. Em suma, "Lost" era uma série ótima quando tratava dos personagens, mas derrapava quando tentava explicar seu lado "nerd". Uma das melhores sacadas dos roteiristas, sem dúvida, foi saber usar do recurso do flashback como nunca. Ao jogar um grupo de personagens em uma ilha, a saída genial de dar cor e vida à série foi mostrar a vida pregressa de cada um deles através de uma série de engenhosos flashbacks, que não só mostravam quem era cada uma daquelas pessoas, como também criava curiosas conexões entre elas. A primeira (e melhor) temporada explorou como nunca o recurso, que ganhou uma "virada" também genial algumas temporadas depois, ao inverter a linha do tempo para o futuro na forma de flashforwards que mostravam os personagens fora da ilha. E que personagens. Jack (Mathew Fox), Kate (Evangeline Lilly), Sawyer (Josh Holloway), Sayid (Naveen Andrews), Hugo (Jorge Garcia), Jin (Daniel Dae Kim), Sun (Yunjin Kim), Locke (Terry O´Quinn), Claire (Emilie de Ravin), Charlie (Dominic Monagham), Desmond (Henry Ian Cusick)... nomes que, ano após ano, se tornaram parte do imaginário dos fãs e parte da "família" de "Lost".

Fica claro também que, ao contrário do que alguns fãs defendem, os roteiristas iam decidindo o caminho da série conforme o trilhavam. E mais, o próprio feedback dos fãs, em um volume inédito nesta era da internet, moldou o futuro da série. Mais do que espectadores, os fãs se tornaram verdadeiros co-autores de "Lost" ao discutirem, semana após semana, o que estava acontecendo e o que viria a acontecer com os personagens. É possível notar alguns caminhos experimentados pelos roteiristas conforme a série se desenrolava. Fica claro que, nas primeiras temporadas, "Lost" tinha tudo a ver com a "Iniciativa Dharma" e sua tentativa de "salvar o mundo" através da exploração dos "números malditos" (4, 8, 15, 16, 23, 42). Havia um clima que lembrava algum projeto secreto estilo "Projeto Manhattan" ou os anos paranóicos da Guerra Fria, principalmente na figura de Benjamin Linus (Michael Emerson) e sua vila. Mais tarde o rumo da série mudou para a figura misteriosa de "Jacob", que ninguém sabia exatamente quem era, mas que definitivamente não era a mesma "pessoa" que mostrariam depois. A série abraçou seu lado "nerd" de forma mais forte ao apresentar não só Jacob mas um "irmão" misterioso e, depois, uma "mãe" inexpicada e inexplicável. Pode ter funcionado para tentar solucionar vários mistérios da série mas, infelizmente, Jacob e companhia acabaram tirando perigosamente o foco dos personagens principais e, o que é pior, dava a impressão que eles eram indiferentes ao passado, presente e futuro da ilha.

Especulações, teorias, suposições, apostas... como explicar, afinal, "Lost"? A melhor saída, na verdade, é não explicar. Assim, me arrisco a dizer (e que caia a ira de vários fãs) que Damon Lindelof e Carlton Cuse, os produtores e roteiristas principais (apesar da publicidade concedida a J.J. Abrams) acertaram no capítulo final. Não, não há uma "explicação" definitiva. Entre o lado "nerd" e o lado humano, venceu este último, e o episódio final de mais de uma hora de duração é praticamente uma celebração aos personagens. Acabamos descobrindo que o tal "mundo paralelo", na verdade, não passava de um "não-lugar" que era fruto da imaginação dos personagens, todos mortos. Não significa, atenção, que eles estivessem mortos durante a série (uma das várias teorias sobre "Lost"). Como explica o pai de Jack, Christian, eles não morreram todos ao mesmo tempo, mas estão ali para "se lembrarem...e para deixarem para trás". É assim, na verdade, que deve ser encarado este último episódio da série. Ou mesmo, talvez, toda a sexta temporada. Foi uma temporada para que os fãs pudessem se lembrar dos personagens, de suas histórias, dos que morreram, renasceram, aprenderam a falar outra língua, voltaram a andar, se amaram ou se odiaram...e os deixar para trás.

Sim, é brega, é new age, é produto pop cultural disfarçado de filosofia barata. Mas assim foi "Lost" durante todos estes anos. Se não foi a melhor série de todos os tempos (para mim, o título pertence à "Jornada nas Estrelas" original dos anos 60), chegou bem perto. Com todas suas contradições e buracos do tamanho de crateras, "Lost" contou com histórias intrigantes e, muitas vezes, extremamente inteligentes. Misturou filosofia, antropologia e religião ("Christian Shephard?" pergunta Kate, irônica) com viagens no tempo, sexo, drogas e rock ´n roll, um bocado de violência e atores acima da média (marcados, provavelmente, para o resto de suas carreiras pelos personagens). Mas tudo chega ao fim.

É hora dos fãs deixarem "Lost" para trás.


domingo, 23 de maio de 2010

Vencedores em Cannes

Segundo Kleber Mendonça Filho, direto de Cannes

Palma de Ouro: (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives) directed by Apichatpong WEERASETHAKUL
Grand Prix: DES HOMMES ET DES DIEUX (OF GODS AND MEN), de Xavier Deaubois
Ator: Javier Bardem, por Biutiful.
Atriz: Juliette Binoche
Roteiro: Poetry
Prêmio do Júri: Un Homme qui Crie
Curta: Micky Bader e Chienne D'Histoire.

http://cinemascopiocannes.blogspot.com/

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Um Homem Sério

Lawrence Gopnik (Michael Stuhlbarg) está revoltado. Ele é um “homem sério”; mora nos subúrbios, em uma daquelas vizinhanças planejadas dos Estados Unidos do pós-guerra, com a esposa e um casal de filhos. Ele também tem sido um bom judeu, matriculando os filhos na escola hebraica e se preparando para o “bar mitzvah” do caçula. Por que, então, Hashem tem sido tão duro com ele? A esposa (Jéssica MacManus) quer o divórcio. A filha só pensa em penteados e o filho está sempre fumando maconha no banheiro da escola. “Um Homem Sério” é a última produção dos irmãos Ethan e Joel Coen. Os dois têm uma invejável produção que consegue se manter dentro da linha tênue entre o cinema comercial e os produtos intelectuais, destinados a platéias mais exigentes. Os irmãos Coen escrevem, produzem, dirigem e editam os próprios filmes, e têm na carreira títulos como "Barton Fink" (1991), "A Roda da Fortuna" (1994), "Fargo" (1996), "O Homem que não estava lá" (2001) e "Onde os Fracos não Têm Vez" (2007). Por este último, ganharam o Oscar de melhores roteiristas e diretores, além do prêmio de Melhor Filme. O estilo deles é uma equilibrada mistura de um humor fino com bela técnica cinematográfica, além de roteiros provocativos.

“Um Homem Sério” tem todos os ingredientes de um trabalho pessoal dos irmãos. Situado no final dos anos sessenta (1967, para ser exato), o ambiente judaico e as situações vividas pelos personagens têm tons autobiográficos. Não é difícil imaginar os irmãos Coen aprendendo hebraico ou se escondendo para fumar maconha. Lawrence é um professor de física e matemática em uma escola secundária e, apesar de judeu praticante, tem muita fé na Razão e na certeza dos números. Sua vida organizada e “normal” é virada de pernas para o ar com o anúncio da esposa de que ela quer o divórcio. “Mas o que foi que eu fiz?”, pergunta ele, incrédulo. “Nada”, diz ela, “você não fez nada”. O choque do anúncio como que abre os olhos de Lawrence para os problemas de sua vida. Seu irmão Arthur (Richard Kind) mora de favor na casa dele, dorme no sofá e fica horas no banheiro, para desespero da filha de Lawrence. Para complicar, a esposa está tendo um caso com um viúvo (Fred Melamed) que insiste em ser extremamente gentil e compreensivo com Lawrence, que conforme vai ficando cada vez mais desesperado, imaginamos o que mais pode dar errado na vida dele. Como o roteiro dos Coen vai nos mostrar, muita coisa.

O final é abrupto e, assim como em “Onde os Fracos não Têm Vez”, totalmente aberto, o que deve revoltar muitos espectadores. Aparentemente, “Um Homem Sério” pode parecer uma simples comédia excêntrica, mas é muito mais do que isso. O choque enfrentado pelo personagem principal, na verdade, é o experimentado por toda sociedade americana (e também o mundo), nos turbulentos anos sessenta. Lawrence representa o americano médio, religioso, otimista, classe média, que acreditava na prosperidade econômica experimentada pelo país no pós-guerra. De repente, ele tem que enfrentar fatos como a revolução sexual, o feminismo, as drogas e a guerra do Vietnã. Sua fé na Matemática e em Deus (In God We Trust), de repente, não dá conta de enfrentar todas estas mudanças sociais e culturais. Os irmãos também fazem uma brincadeira bem humorada com a imagem do Deus tirano e vingativo do “Torá” (e do Velho Testamento), pronto para castigar aquele que sai do “caminho do bem”. Justo quando as coisas pareciam estar melhorando para o pobre Larry Gopnik. Indicado para os Oscars de Melhor Roteiro e Melhor Filme em 2010.


sábado, 15 de maio de 2010

Robin Hood

A figura mítica de Robin Hood já foi mostrada no cinema em diversos filmes. Já no cinema mudo, em 1922, Douglas Fairbanks encarnou o "príncipe dos ladrões", imortalizado depois por Errol Flynn em filme de 1938. Uma das versões mais modernas trazia Kevin Costner no papel, em 1991, sem se preocupar com o sotaque americano. Até "007", Sean Connery, viveu um Robin Hood de meia idade, contracenando com Audrey Hepburn como Lady Marion, em filme dirigido por Richard Lester em 1976.

Agora é a vez da dupla formada pelo diretor Ridley Scott e o ator Russell Crowe (que juntos fizeram "Gladiador", "Um Bom Ano", "O Gângster" e "Rede de Mentiras") de darem sua visão da história. Robin Hood é uma lenda com várias versões. Algumas o mostram como um valente cruzado que lutou ao lado do rei Ricardo Coração de Leão e se tornou protetor dos pobres na Inglaterra. Outras o colocam como simples fora-da-lei que se refugiava na floresta de Sherwood, era bom com o arco e flecha e era apaixonado por Lady Marian. Crowe e Scott tentaram criar uma versão diferente para a lenda, mais realista e mostrando o que teria acontecido antes de Robin ser considerado um fora-da-lei. A intenção pode ter sido boa, mas falta foco ao produto final.

Nesta versão, Russell Crowe é Robin Longstride, um arqueiro do exército de Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), um decadente rei da Inglaterra no caminho de volta das Cruzadas, após dez anos de campanha. O exército inglês se encontra na França e eles saqueiam tudo que encontram pela frente. As cruzadas (mostradas pelo próprio Ridley Scott em outro filme) são criticadas em um discurso de Crowe, que descreve como os ingleses massacraram mais de duas mil mulheres e crianças muçulmanas em uma cidade. Ricardo Coração de Leão morre de forma estúpida, atingido pela flecha de um cozinheiro francês, e sua coroa deve ser levada para a Inglaterra pelo cavaleiro Robert Loxley. Só que ele morre em uma emboscada de um traidor inglês, Godfrey (Mark Strong, de "Sherlock Holmes") e, por um golpe do destino, a coroa inglesa vai parar nas mãos de Robin Longstride, que assume a identidade de Robert Loxley e parte para a Inglaterra. Lá ele conhece Lady Marian (Cate Blanchett), esposa do verdadeiro Loxley, e Sir Walter Loxley (Max von Sidow), o pai dele.

Robin acaba tomando o lugar de Robert Loxley no coração de Marian e como filho substituto de Sir Walter, mas a situação nunca convence. E, a bem da verdade, será que tudo isso importa? Os personagens "tradicionais" das lendas de Robin Hood estão ali, como João Pequeno (Kevin Durand), o gordo Frei Tuck (Mark Addy), o Sherife de Nottinghan (Matthew MacFadyen) e o Príncipe João (Oscar Isaac), mas a trama, ao invés de focar no herói Robin Hood, envereda por intrigas políticas, longas discussões na corte inglesa e francesa e em um contexto "social" que tenta discutir a opressão da monarquia sobre o povo comum. Tudo muito "nobre", mas será que isso deveria ser o foco principal em um filme sobre Robin Hood?

Ridley Scott, é fato, é um artista, e fotografia, figurino, direção de arte e cenários (que parecem realmente estar lá, ao invés de serem criados em computação gráfica) são impecáveis. Mas roteiro e edição, estranhamente, cometem falhas flagrantes. Há uma gigantesca cena de batalha entre ingleses e franceses que mostra Robin no topo dos penhascos da Inglaterra e, praticamente ao mesmo tempo, cavalgando contra os franceses na praia, lá embaixo. Igualmente confusa é uma sequência em que o vilão Godfrey ataca a propriedade de Lady Marian.

Longo, com quase duas horas e meia de duração, o filme acaba deixando a platéia inquieta pelo passo lento e pelas opções do roteiro. A idéia de dar outra versão à história de Robin Hood pode ter sido boa, mas a execução, infelizmente, fica devendo.


domingo, 9 de maio de 2010

O Preço da Traição

Ok, vamos por partes. Uma ginecologista bem sucedida profissionalmente, mas passando pela crise da meia idade, Catherine (Juliane Moore, magnificamente madura) suspeita que seu marido David (Lian Neeson), um professor de música, a esteja traindo. Ele é charmoso, tem muitas alunas jovens e interessadas e, aos olhos da esposa, flerta com todas as mulheres com quem encontra. No dia do aniversário do marido, ele não aparece na festa surpresa que a esposa lhe preparou porque perdeu o vôo de Nova York para Toronto, onde o casal mora com o filho adolescente. Ou será que ele perdeu o vôo porque teve um caso com uma de suas alunas? Desesperada e insegura, Moore resolve descobrir se o marido a está traindo ou não.

É então que entra Chloe (Amanda Seyfried, também em cartaz com "Querido John"). Ela é uma garota de programa que, por coincidências criadas pelo roteiro, se torna disponível para um jogo perigoso criado por Catherine. Ela a contrata para se aproximar do marido para testar a fidelidade dele (o título brasileiro, "O preço da traição", poderia ser trocado por outro igualmente bobo, como "Teste de fidelidade"). Aparentemente Catherine consegue o que quer. Chloe começa a lhe contar os encontros com o marido, com detalhes cada vez mais íntimos, o que provoca reações estranhas em Catherine. Estaria ela excitada com o que está escutando? Será que a idéia de ser traída pelo marido é uma forma dela ter alguma coisa "íntima" com ele, nem que seja pelas histórias contadas por uma garota de programa? Os diálogos supostamente "quentes" lembram "Closer", de Mike Nichols, outro filme em que a expressão "sexo oral" ganha outra conotação, literal, por tratar do sexo como algo mais intelectual do que físico.

O início promissor dá lugar a uma trama que, infelizmente, vai se tornando cada vez mais inverossímil e, a bem da verdade, pouco inteligente. O que estaria acontecendo? Seria a proposta de Catherine a Chloe uma vontade velada de, na verdade, fazer sexo com ela? Estaria o marido realmente a traindo? Será que Chloe é quem ela diz ser? O filme, do diretor Atom Egoyan, poderia ter tratado todas estas questões de forma muito mais interessante, sem ter que partir para uma resolução clichê. De um estudo psicológico adulto, o filme muda para um thriller convencional, no estilo de "Atração Fatal". Filmado no Canadá, em formato televisivo, "O Preço da Traição" talvez seja melhor visto em uma noite de sábado, em DVD. Como cinema, é decepcionante.


domingo, 2 de maio de 2010

Homem de Ferro 2

O primeiro Homem de Ferro foi uma boa surpresa quando saiu dos quadrinhos empoeirados e se transformou em um grande filme de ação e aventura. Robert Downey Jr, que quando jovem era um ator promissor, havia aparentemente se destruído com as drogas e várias passagens pela prisão. Em um bom exemplo de renascimento, Downey Jr transformou o milionário playboy Tony Stark em um cara verossímil e humano, que descobre que armas e guerras não fazem parte do "caminho do bem". O filme foi um grande sucesso não só pelas cenas de ação e ótimos efeitos especiais, mas principalmente pelas relações humanas entre Downey Jr e bons atores como Jeff Bridges, Terrence Howard e Gwyneth Paltrow.

Sucesso estrondoso, é claro que uma continuação seria feita a toque de caixa, e o homem de lata está de volta aos cinemas. Infelizmente, como costuma acontecer, a continuação não está no nível do original. Há, claro, muito mais dinheiro envolvido. O filme é rico em cenas extravagantes que mostram o estilo playboy de ser de Stark, mais egocêntrico do que se julgava possível, abrindo uma feira mundial que leva seu nome, cheia de mulheres, luzes e bandeiras americanas. Um vilão surge na forma deformada de Mickey Rourke, ex-galã dos anos 80 que também renasceu há alguns anos no papel de "O Lutador", pelo qual foi indicado ao Oscar. Rourke interpreta um antigo fantasma da Guerra Fria, um vilão russo, com direito a sotaque carregado e corpo cheio de tatuagens, chamado Ivan Vanco. Apesar dele parecer um monstro descerebrado, o roteiro quer que nós acreditemos que ele é um físico capaz de construir um aparelho semelhante ao coração nuclear do Homem de Ferro. Vanco adiciona uns chicotes elétricos ao objeto e ataca Tony Stark em Mônaco durante uma corrida de automóveis. Stark sobrevive, claro, mas Vanco é contratado por um construtor de armas americano, Justin Hammer (o ótimo Sam Rockwell, feliz em ganhar um alto salário para interpretar uma caricatura), que quer construir réplicas do Homem de Ferro para o governo americano.

O elenco estelar ainda conta com Don Cheadle, substituindo Terrence Howard, e a presença sexy (mas não mais do que isso) de uma muda Scarlett Johansson. O diretor Jon Favreau, provavelmente apenas uma engrenagem em uma enorme máquina de marketing, brinca consigo mesmo interpretando um guarda costas de Stark. O filme nunca chega a decolar. Há uma série de cenas ensurdecedoras de ação entrecortadas por algumas tentativas de deixar o personagem mais sério. O coração tecnológico estaria contaminando seu sangue e Stark acha que está à beira da morte. A seriedade soa falsa e não combina com o estilo de Stark (muito mais verdadeiro no primeiro filme, quando se dá conta do mal que sua fábrica de armas causa).

Downey Jr ainda é a coisa mais interessante na tela, mas Homem de Ferro 2 é apenas diversão rasa, sem muito a oferecer.


segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Caixa

Difícil saber qual idéia é mais estranha: a da trama de "A Caixa" ou a própria idéia de fazer um longa-metragem deste conto de Richard Matheson (originalmente chamado "Button, Button"), transformado em um ótimo episódio da série "Além da Imaginação", nos anos 1980 (que pode ser visto aqui). Como conto e curta-metragem, "O Botão" era uma intrigante fábula moral sobre até que ponto uma pessoa comum poderia ir em troca de dinheiro. A trama foi baseada em um experimento psicológico feito nos Estados Unidos (em que voluntários, achando que estavam testando o efeito das punições na memória humana, administravam choques elétricos em outras pessoas. Os choques, na verdade, não eram reais, mas muitos voluntários aplicaram choques que seriam fatais).

O casal Arthur e Norma Lewis (Cameron Dias e James Marsden) recebem uma estranha proposta. Um homem com o rosto deformado (Frank Langella) lhes entrega uma caixa com um botão vermelho no topo. Se eles apertarem o botão, duas coisas irão acontecer: uma pessoa que eles não conhecem morrerá, e eles vão receber um milhão de dólares. Simples assim. Eles não podem contar sobre a caixa para ninguém, e têm 24 horas para decidir o que fazer. Arthur é um cientista que trabalha para a NASA e tinha esperanças de se tornar astronauta. A trama se passa em 1976, logo após as sondas americanas pousarem em Marte, e Arthur foi o designer da câmera que tira fotos em 360 graus levada ao planeta vermelho. Para sua decepção, sua inscrição para astronauta é recusada porque ele não teria passado no teste psicológico. A esposa, Norma, é uma professora de literatura que gosta de Sartre e tem um dos pés defeituosos, por causa de um acidente na infância. Os dois são educados e estão longe de serem pobres, mas um milhão de dólares é muito dinheiro, certo? A proposta da caixa, claro, é uma outra forma de contar a história da queda do paraíso terrestre. O homem deformado é a serpente que chega para Eva e lhe pede que coma o fruto proibido, o que ela faz. Não aguentando a pressão, Norma acaba apertando o botão meia hora depois de começado o filme. O conto e o episódio de TV originais terminavam mais ou menos por aqui, e a moral da história é que o homem misterioso vinha buscar a caixa e dizia que a passaria para outra pessoa... que eles não conhecem.

Já o longa metragem parte para uma trama completamente absurda envolvendo pessoas que parecem zumbis, com sangue escorrendo pelo nariz, bases secretas em Langley, Virginia (a sede da CIA), gente agindo de forma estranha, pessoas que foram atingidas por raios e portais para outras dimensões. Tudo isso é produto da mente fértil do diretor Richard Kelly, diretor do "cult" Donnie Darko, amado por alguns e odiado por muitos. É fato que, apesar de absurdo, o filme é curiosamente atraente. Kelly atira para todos os lados, misturando suspense, terror e citações do mestre da ficção-científica, Arthur C. Clarke (que dizia que "toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia"). Há cenas de suspense muito bem dirigidas, principalmente uma que se passa em uma biblioteca. Mas a idéia origial, por melhor que seja, não tem fôlego para sustentar um longa-metragem. Ainda assim, "A Caixa" não deixa de ser um exercício interessante de suspense, com fotografia digital curiosamente fora de lugar em uma ótima recriação de época dos anos 70. Vale como curiosidade.


sexta-feira, 23 de abril de 2010

A Estrada

Há muitos ecos de "Filhos da Esperança" em "A Estrada", outro daqueles filmes pós-apocalípticos tão adorados pela ficção científica. Baseado em um livro de Cormac MacCarthy, "A Estrada" alterna momentos de extremo realismo e crueldade com outros ternos, beirando perigosamente a pieguice, principalmente por culpa do piano repetitivo da tilha sonora.

Viggo Mortensen é um ator corajoso, que poderia ter explorado sua boa figura e seu sucesso na trilogia "O Senhor dos Anéis" para fazer filmes mais fáceis e lucrativos. Mas ele preferiu um caminho mais desafiador e tem trabalhado frequentemente com David Cronenberg. Aqui ele é "O Pai", um personagem sem nome que, após perder a mulher e o mundo que conhecia em um evento que destruiu a Terra (não se explica o que aconteceu), vive para seu filho único. Os dois partem para uma viagem na "Estrada", a caminho do mar, este eterno símbolo de volta ao útero materno. A relação entre pai e filho é tocante, e subverte a noção de ligação da criança com a figura da mãe. Ela é vista em flashbacks na figura de Charlize Theron que, ao contrário do Pai, não vê sentido em continuar vivendo, nem mesmo por seu filho. As memórias da esposa assombram os pesadelos de Pai e Filho na estrada, indo em frente sem saber exatamente o porquê. Há várias referências bíblicas e até uma afirmação "pró vida" no modo como o Pai trata do Filho. Embora seja uma relação complicada. Há uma clara referência ao mito bíblico de Abraão, que teria sido ordenado por Deus a matar o próprio filho. O Pai anda com uma arma com duas balas na cintura, uma para ele e outra para o filho, no caso da situação ficar insuportável.

"A Estrada" tem direção de John Hillcoat, que é corajoso o suficiente para não transformar o filme em uma simples "mensagem" de esperança. O Pai diz ao filho que eles devem continuar vivendo, e que eles fazem parte do grupo dos "bons". Os "maus" são homens que desceram ao nível mais baixo que um ser humano pode chegar, que é o canibalismo. Há várias sequências em que eles são vistos, às vezes perto demais, e há uma arrepiante cena de suspense quando o Pai vai verificar o que há no porão de uma casa. É também em um subterrâneo que Pai e Filho encontram um paraíso na forma de produtos que nós, vivendo no mundo moderno, não imaginamos a importância. O filme conta com a participação especial de coadjuvantes de alto nível. Tente reconhecer Robert Duvall ou Guy Pierce entre as poucas figuras encontradas durante a jornada de Pai e Filho em direção do mar.

É um bom filme, na mesma linha de Mad Max, Eu sou a Lenda, Filhos da Esperança e tantos outros. Mas lhe falta uma amarração melhor, algum senso de propósito ao final da jornada. É episódico e muitas vezes repetitivo. As interpretações, sem dúvida, são seu ponto forte.


domingo, 18 de abril de 2010

Soul Kitchen

Soul Kitchen é um caldeirão pop que mistura o visual de flyers de propaganda, fast-food, música soul, funk, dance, black e similares com generosas doses de comédia. O diretor Faith Aikin (de Contra a Parede e Do outro lado) usa um restaurante decadente como cenário para a mistura multicultural que é a cara da Europa de hoje, com seus valores seculares misturados à influência dos imigrantes e contaminada pela globalização.

Zinos Kazantzakis (Adam Bousdoukos) é um imigrante grego dono de um restaurante decadente em Hamburgo, chamado "Soul Kitchen". Ele vende comida barata para um público não muito exigente, e parece feliz com isso. Ele é ao mesmo tempo gerente e chef de cozinha, com dotes culinários reduzidos a comprar comida congelada no supermercado e sevir para os fregueses. Ele tem uma linda (e mimada) namorada que é a típica alemã, Nadine (Pheline Roggan), que está de mudança para a China. Não poderia haver duas pessoas mais diferentes, mas aparentemente Nadine (rica, bela, sofisticada) gosta da atenção do pobre, sujo e desleixado Zinos. Ela quer que ele a acompanhe para a China, mas ele está ocupado demais com seu restaurante. A partida na namorada, porém, parece causar uma maré de azar ao pobre Zinos, que desloca a coluna ao tentar consertar a máquina de lavar do restaurante, e passa o filme todo tentando, física e psicologicamente, endireitar sua vida.

Há também o irmão de Zinos, Iliias (Moritz Bleibtreu, de "Corra, Lola, Corra"), um presidiário que precisa que Zinos o contrate como funcionário do restaurante, para ter sua pena mudada para regime semi-aberto. Iliias é um jogador compulsivo que vive perdendo dinheiro em apostas e tem verdadeira alergia pelo trabalho. Ele se apaixona pela garçonete do Soul Kitchen, Lucia (Anna Bederke), uma moça interessada em arte, bebida e música. O restaurante perde seus clientes quando Zinos contrata um chef de cozinha excêntrico, e o lugar corre o risco de ser comprado por um antigo conhecido de Zinos, que quer destruir o restaurante para construir um shopping.

Apesar de um pouco episódico, "Soul Kitchen" encanta pelo ritmo rápido, pela trilha sonora e pelo humor do roteiro. A mistura de culturas e a influência pop me lembraram dos livros de Nick Hornby, como "Alta Fidelidade", com seus personagens que parecem adolescentes presos em corpos adultos. Há também uma bem humorada crítica à globalização e ao mundo moderno. A Grécia tem sido o "primo pobre" da comunidade européia nos últimos anos e enfrenta atualmente grave crise financeira. A China, por outro lado, representa uma grande oportunidade de negócios. Paradoxalmente, a globalização tem também sua vantagens culturais, como na influência americana na música européia e nos ritmos escutados por toda a trilha do filme. Soul Kitchen mostra que estilo pode também ter conteúdo, nem que seja na forma de fast-food de qualidade.


terça-feira, 13 de abril de 2010

LOST e Cavalo-Marinho no Céu

por João Solimeo

Um grupo de passageiros de um avião se encontra, de repente, em um lugar isolado. Um deles acorda e não sabe direito onde está. Olha em volta e vê os outros passageiros do avião na mesma situação, desorientados. Alguns gritam, outros choram. Se, ao ler estas linhas, você pensou na abertura do seriado “Lost”, da ABC, não é o único. A surpresa, talvez, esteja em descobrir que se trata da abertura de um livro de ficção científica dos anos 60 escrito por Edmund Cooper (Inglaterra, 1926-1982), chamado “Cavalo-Marinho no Céu” (“Seahorse in the Sky”, 1969).

Li este livro nos final dos anos 80, e quando “Lost” foi lançado fiquei intrigado com as semelhanças. Nestes seis anos em que a série está no ar fiquei ainda mais intrigado pelo fato de que, a não ser por poucas referências na internet, a ligação entre livro e série não foi feita. Nem mesmo o site “Lostpedia”, um dos mais completos a respeito da série, cita o livro de Cooper. Sou fã da série, embora não possa ser considerado um "expert", mas as semelhanças listadas a seguir mostram como muitas das idéias presentes no seriado, sem dúvida, foram baseadas em “Cavalo-Marinho no Céu”.


Livro versus Série
No livro de Cooper, um avião saindo de Estocolmo, com direção a Londres, nunca chega a seu destino. Não há um acidente aéreo, mas os passageiros se lembram apenas de estarem em um avião em um momento e, no outro, estarem em um lugar completamente diferente. Dezesseis pessoas, oito homens e oito mulheres, acordam deitados no meio de uma rua, no meio do nada. Eles são de países diferentes, mas conseguem se entender. Estão isolados em uma rua que começa do nada e leva a lugar nenhum. Há um “Hotel” de um lado da rua e um “Supermercado” do outro. Em redor, há apenas mato.

Em “Lost”, um avião que ia da Austrália para os Estados Unidos nunca chega a seu destino. Há um acidente aéreo, mas os passageiros, a princípio, não conseguem se lembrar de nada. Jack, um médico, acorda em uma floresta, sem saber onde está ou o que aconteceu. Anda até uma praia onde encontra os destroços do avião e um grupo de pessoas desesperadas e confusas. Eles estão em uma ilha, sem possibilidade de fugir. Há 48 sobreviventes.

No livro de Cooper, aos poucos os passageiros do avião descobrem que estão em uma “ilha” no meio do nada, cercados por uma barreira feita por uma névoa fria e estranha. Também descobrem que dois outros grupos de 16 pessoas, em estágios evolutivos diferentes, estão na “ilha”. São, assim, três grupos de 16 pessoas, em um total de 48.

Na ilha de Lost, também há três grupos de pessoas. Há os sobreviventes do avião, há o grupo da vila e há os “outros” do templo.

No livro, comida aparece misteriosamente no “supermercado” do outro lado do Hotel. Na série, em uma das temporadas, comida da Iniciativa Dharma também aparece para os sobreviventes.

Na série, várias tentativas para sair da ilha são feitas, até que um grupo consegue finalmente sair. Três anos depois, eles retornam à ilha e, na sexta e última temporada, uma “realidade paralela” é criada.

No livro, após algumas tentativas de atravessar a “névoa”, um barco é construído e um grupo foge da “ilha” através do rio. Eles retornam três anos depois.

O final (leia sob sua conta e risco)

No livro, quando um grupo sai da “ilha” de névoa, encontram uma espécie de monumento abandonado. Lá eles descobrem que não passam de “cópias” de seus corpos originais, feitos por uma raça alienígena que morreu há muitos séculos. Este povo existe apenas como “fantasmas” que lembram a forma de cavalos-marinhos (por isso o nome do livro original) e que atravessaram o Universo para fazer cópias dos humanos e recriar sua espécie. Os extraterrestres fizeram uma cópia do avião, em pleno vôo, retiraram seus ocupantes e deixaram o avião original continuar sua viagem. O que significa que, assim como em Lost, duas realidades paralelas passam a existir. O livro termina com esta revelação e não mostra o que aconteceu aos passageiros originais, mas as “cópias” acabam se desenvolvendo e criando uma nova civilização.

O final da série está guardado a sete chaves na cabeça do atual responsável pela série, Damon Lindelof. Não me surpreenderia se descobríssemos que Jacob é um extraterrestre que veio à Terra para criar uma nova civilização usando “cópias” dos passageiros de um avião. Em maio, quando a série terminar, vamos descobrir, e atualizaremos este texto.

domingo, 4 de abril de 2010

Ervas Daninhas

Escrever sobre "Ervas Daninhas" é tarefa difícil. O último filme do mestre francês Alain Resnais tem de tudo. Tem drama, tem comédia, tem suspense e romance. Tem aviões antigos e uma homenagem aos filmes hollywoodianos.

Marguerite Muir (Sabine Azéma) é uma dentista de meia idade, solteira. Ela sempre compra sapatos no mesmo lugar, em Paris, porque gosta do modo como a vendedora a atende. Saindo da loja, um dia, ela tem sua bolsa roubada, e perde todos os documentos. Sua carteira é encontrada no chão por Georges Palet (André Dussolier), um homem casado que, ao ver as fotos de Marguerite dentro da carteira, começa a fantasiar com ela. Ele tenta ligar para ela, mas não consegue encontrá-la. Leva então a carteira até a polícia, onde o policial Bernard (Mathieu Almaric) o atende, e contata Marguerite. Ela então liga para Georges para agradecer por ter devolvido a carteira, e ele pede para que ela saia com ele. Ela se recusa, e ele passa a lhe escrever e telefonar todos os dias, obcecado.

Tudo isso é mostrado por Resnais de forma extremamente fluida, com movimentos de câmera constantes e por um narrador que passa ao espectador todos os pensamentos dos personagens. Quando Georges está voltando para casa, depois de encontrar a carteira, por exemplo, nós o vemos imaginando como vai ser sua ligação para Marguerite. Assim como todos nós, seu pensamento não é linear, ele ensaia várias frases que pensa em usar quando ela atender... se ela atender. O roteiro vai se tornando cada vez mais fantástico e, em alguns momentos, imaginamos se tudo não passa de algum delírio da imaginação de Georges, ou do tal narrador que conta a história. Tecnicamente, Resnais e seu diretor de fotografia Eric Gautier mantém a câmera se movimentando constantemente em belas tomadas que, por vezes, tomam o lugar da montagem, em planos contínuos que simulam a passagem do tempo.

Interessante também como o cinema americano é tão marcante em remeter a momentos de romance clichê em filmes. Quando Marguerite, intrigada com a atenção de Georges, finalmente vai encontrá-lo, o local não poderia ser outro que não o exterior de um cinema que passa filmes clássicos de Hollywood. A fanfarra tema da 20th Century Fox também é usada em outro momento para remeter à uma cena tipicamente hollywoodiana, quando Georges e Marguerite finalmente se beijam. Mas que o espectador não se iluda, tudo não passa de uma farsa pregada por Alain Resnais no espectador incauto. O filme, classificado como "drama", na verdade é uma deliciosa comédia fantástica, uma brincadeira com os gêneros cinematográficos e com o próprio cinema. Resnais, um dos fundadores da nouvelle vague e diretor de clássicos eternos como "Hiroshima Moun Amour" (1959), está com 88 anos, e deve ter se divertido muito fazendo este filme.

ps: o trailer abaixo, que não tem nada a ver com o filme, mostra como tudo é uma farsa divertida.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Atraídos pelo Crime

Não há nada de novo em "Atraídos pelo crime", filme policial que estréia neste final de semana. O que o impede de ser dispensável, no entanto, é um bom elenco sob a direção segura de Antoine Fuqua. O filme conta a história de três policiais, em situações que você já viu antes: Eddie (Richard Gere) é um policial que está a uma semana da aposentadoria. Ele é alcoólatra e mal visto pelos colegas de farda. Sal (Ethan Hawke) é casado, tem vários filhos e a esposa está grávida de gêmeos. Para complicar, ela é asmática e sofre com o mofo nas paredes da casa velha onde vivem. Sal não é exatamente um tira corrupto, mas vem roubando dinheiro apreendido em batidas policiais para comprar uma casa nova para a família. Tango (Don Cheadle) é um policial infiltrado na comunidade negra e amigo do chefão local, Caz (Wesley Snipes), que acabou de sair da prisão. O sonho de Tango é deixar o trabalho infiltrado e ter um trabalho policial "normal", atrás de uma mesa de escritório.

Todas essas histórias são clichês do gênero policial, assim como a estratégia do roteiro de mantê-las em linhas separadas de ação, entrecortadas pela montagem. Mas, como disse, a direção e interpretação mantêm a experiência interessante. Don Cheadle, particularmente, está muito bem como o policial infiltrado que, como costuma acontecer nestas situações, não sabe mais direito a quem deve lealdade. Todas as suas cenas com Wesley Snipes são muito bem conduzidas, em diálogos rápidos e bem interpretados. Ethan Hawke é um ótimo ator, apesar de estar se repetindo. Ele já interpretou o mesmo "tipo", até com o mesmo penteado e barba, em vários outros filmes, como "Antes que o diabo saiba que você está morto", ou "Dia de Treinamento", do mesmo Antoine Fuqua. Richard Gere faz o que pode com o velho clichê do policial que está para se aposentar. As três histórias (ou quatro, contando Wesley Snipes) se cruzam em alguns momentos, mas vão em um crescendo até um ótimo (e violento) final, que vale o filme.

ps: há várias cenas neste filme em que as legendas brancas do cinema são praticamente invisíveis. Para quem entende inglês, tudo bem, mas várias pessoas estavam reclamando. As distribuidoras deveriam investir no tipo de legenda com borda ou sombra, mais visíveis.


Hanami - Cerejeiras em Flor

A cultura japonesa é, no fundo, uma cultura da morte. Uma celebração da efemeridade da vida e da passagem inexorável do tempo. O mesmo ritual estilizado com que se prepara um vaso de flores é o empregado pelo samurai antes de cortar a própria barriga. É nessa relação entre a vida e a morte que se apóia o filme alemão "Hanami - Cerejeiras em Flor", da escritora Doris Dorrie. Hanami é um festival que ocorre no Japão durante a florada das cerejeiras. As flores surgem apenas por alguns dias, colorindo a cidade em tons de vermelho e rosa, e depois desaparecem. Novamente, uma celebração da vida e da morte.

Trudi (Hannelore Elsner) recebe a notícia de que seu marido está com uma doença terminal. Os médicos sugerem que ela vá viajar com ele para aproveitar seus últimos momentos. O marido, Rudi (Elmar Wepper), é um homem sem muita imaginação, que todos os dias faz o mesmo trajeto até o trabalho, onde está há décadas, e volta para casa. Trudi, com seu jeito manso e maternal, consegue convencê-lo a ir até Berlin visitar os filhos crescidos, mas não lhe conta sobre a doença. Em Berlin, os filhos mal conseguem esconder o fato de que são pessoas ocupadas e que não têm tempo para dar atenção aos pais. Há ainda outro filho, Karl, que é o "preferido da mamãe" e que mora em Tóquio. Tanto na casa de Trudi e Rudi quanto na casa dos filhos vemos, nas paredes, gravuras japonesas e lembranças enviadas por Karl. A própria Trudi, na verdade, gostaria de ter sido uma dançarina de Butoh, uma dança japonesa, mas deixou tudo em nome da família. Há uma bela cena passada em um teatro alemão em que o dançarino Tadashi Endo se apresenta e Trudi, na platéia, mal contém as lágrimas. O velho casal então vai à praia e, inesperada e ironicamente, Trudi morre durante a noite, dormindo, deixando Rudi sozinho e sem saber que, ele mesmo, está fatalmente doente.

O filme tem um ritmo extremamente lento e, a bem da verdade, ganharia com uma edição mais enxuta. Com a morte de Trudi (a excelente Hannelore Elsner), praticamente começa outro filme, ainda mais longo, mostrando a viagem de Rudi ao Japão, onde encontra o filho Karl e fica tentando, em vão, entender a morte (e a vida) da esposa. Tóquio é, como todo Japão, um grande paradoxo, um monstro de concreto onde se escondem belos jardins e o contato com a natureza. Rudi faz amizade com uma jovem dançarina (Aya Irizuki) e, com ela, parte para tentar ver o lendário Monte Fuji e tentar se "reencontrar" com o espírito da esposa. Não é um filme fácil, fazendo parte daquela categoria fugidia dos "filmes de arte". A interpretação do elenco é impecável e o filme é um retrato interessante, para os espectadores brasileiros, da vida no primeiro mundo. Por todo o trajeto de Trudi, Rudi e família, somos testemunhas do eficiente sistema de transporte alemão e japonês, da presença marcante da Arte, da eficiência das instituições. Por outro lado, percebemos a frieza das pessoas, principalmente dos filhos em relação aos pais, considerados um estorvo depois de velhos. Bom filme atrapalhado pela longa duração, com cenas repetitivas que poderiam ter sido cortadas facilmente.


quinta-feira, 1 de abril de 2010

3D Toy Story (e o futuro da Pixar)

O primeiro Toy Story surgiu nos cinemas em 1995, há 15 anos. Era o primeiro filme feito totalmente em computação gráfica na História (apesar da controvérsia de que o brasileiro "Cassiopéia", lançado alguns meses depois, tenha sido criado primeiro), e iniciou o domínio dos estúdios Pixar no gênero. Inicialmente um braço menor da Industrial Light & Magic, a empresa de efeitos especiais de George Lucas, a Pixar foi vendida por míseros 5 milhões de dólares para Steve Jobs, o cabeça da Apple, e revolucionou o cinema de animação. Produziu uma série impecável de filmes como os dois Toy Story (1995/1999), Vida de Inseto (1998), Monstros S.A. (2001), Procurando Nemo (2003), Os Incríveis (2004), Carros (2006), Ratatouille (2007), Wall-e (2008) e Up (2009). O poder da empresa está em uma combinação perfeita de técnica com criatividade aparentemente inesgotáveis, com o talento de pessoas como John Lasseter, Andrew Stanton, Pete Docter, Brad Bird, Lee Unkrich, entre centenas de técnicos. Desde 2006, a Pixar foi comprada pela Disney, a principal concorrente, em um negócio que, na verdade, deu ainda mais poder à Pixar e a John Lasseter, que se tornou diretor criativo de ambas.

A Pixar encontra-se agora em uma encruzilhada, em que vai ter que se provar novamente. Com a moda de filmes 3D fazendo fortunas mundo afora, o estúdio relançou os dois primeiros Toy Story em versões no formato, preparando terreno para a vinda de Toy Story 3. Esta terceira parte de Toy Story foi gerada sob muita controvérsia. Quando a Pixar surgiu, eles fizeram um acordo de distribuição com a Disney para três filmes. O sucesso de Toy Story gerou uma continuação que seria originalmente lançada diretamente em home video, mas que ficou tão boa que a Disney resolveu lançá-lo nos cinemas. Só que a empresa não quis incluir este filme entre os três do contrato de distribuição com a Pixar, que queria mais liberdade. A Disney chegou até a ameaçar fazer Toy Story 3 por conta própria, sem John Lasseter, mas era provavelmente um blefe. Com a junção das empresas, o filme volta a sair do papel, com a benção de Lasseter e com a produção da Pixar por trás.

Toy Story, até agora, foi o único filme Pixar a ter continuações. A empresa sempre se notabilizou por sua filosofia de criar produtos originais de alta qualidade voltados para a família, algo que a própria Disney, com suas dezenas de continuações caça-níqueis lançadas diretamente em home video, já havia perdido. Será que agora a Pixar vai perder seu "toque" de ouro? Além de Toy Story 3, já foi anunciada a continuação de "Carros" (também de John Lasseter), que foi um filme extremamente bem feito mas, a bem da verdade, longo e pouco interessante. É esperar por Toy Story 3 e ver se ainda tem algo para contar ou se é apenas uma produção para ganhar uns trocados em cima da "franquia" e do sistema 3D.