segunda-feira, 18 de julho de 2022

Passado Violento (Clean, 2022)

 
Passado Violento (Clean, 2022). Dir: Paul Solet. Netflix. O filme é o típico "vanity project", aquele tipo de projeto feito por algum ator para exibir seu talento ou mostrar como é sério e relevante. Adrien Brody, no caso, assina interpretação, roteiro, produção e, vejam só, até a trilha sonora deste filme sombrio e violento. Brody é conhecido como Clean ("limpo"), um cara que trabalha como lixeiro (entendeu?) durante a noite. Quieto e com a cara fechada, ele esconde um passado violento (como explica o título) e um lado de bom samaritano; ele usa as horas vagas para pintar e limpar as casa abandonadas da vizinhança. Também é o protetor de uma garota negra chamada Dianda (Chandler DuPont), para quem cozinha e leva para a escola. Todos os dias ele acorda do mesmo pesadelo/flashback, em que o vemos mais novo, abraçado a uma garotinha negra, sua filha.


Como se vê, o filme é cheio de clichês. A inspiração óbvia é "Taxi Driver", de Scorsese; Brody até narra algumas partes, enquanto dirige pelas ruas desertas (dá quase para escutar De Niro falando sobre como ele deseja que, um dia, uma chuva lave toda a sujeira da cidade). Outra inspiração é aquele filme com Joaquin Phoenix em que ele também parte para a violência para proteger uma garota, "Você nunca esteve realmente aqui" (2017). Reconhecendo tudo isso, até que não é um filme ruim. A direção de fotografia (de Zoran Popovic) faz bom uso das sombras. A sequência final é um banho de sangue que, também, faz referência a Scorsese. Tá na Netflix.

domingo, 17 de julho de 2022

Casa Gucci (House of Gucci, 2021)

 
Casa Gucci (House of Gucci, 2021). Dir: Ridley Scott. Amazon Prime Video. Tragicomédia de Ridley Scott baseada em uma história real, este filme foi bastante criticado pelo exagero nas interpretações, pelos sotaques italianos em atores americanos e ingleses e pela ridícula interpretação de Jared Leto. Tudo isso, de fato, existe em "Casa Gucci", mas o filme está longe de ser ruim. Pelo contrário, diria que são essas coisas que fazem o filme mais interessante.

Ridley Scott é um mestre visual. Ao adaptar a história real de uma empresa ícone da moda, envolvendo intrigas familiares, personagens histéricos, traições e crimes, Scott resolveu apresentá-la como uma ópera cômica, uma farsa. Veja como Lady Gaga está ótima como Patrizia Reggiani, a filha do dono de uma empresa de caminhões, que se apaixona pelo refinado Maurizio Gucci (Adam Driver, ótimo). Patrizia é um furacão, sempre vestida com roupas provocantes e a certeza de que veio ao mundo para vencer. Scott recria o final dos anos 70 em Milão, Itália, com belíssima fotografia, direção de arte e sucessos da época na trilha sonora. O elenco é uma surpresa atrás da outra, Jeremy Irons como o pai de Maurizio, Al Pacino como um tio. Salma Hayek é uma trambiqueira que "vê o futuro" de Patrizia e alimenta seus sonhos. Jared Leto está irreconhecível como Paolo, um designer de moda incompetente que sonha em criar uma linha de roupas para a Gucci. Leto está tão exagerado e ridículo que, estranhamente, até funciona para seu personagem.

O maior problema com "Casa Gucci" é a duração, longa demais. Não há razão para esta estranha comédia de erros ter duas horas e trinta e oito minutos de duração. Os exageros, que no começo são divertidos e bem vindos, com o (longo) tempo se tornam irritantes e fora de lugar. A paródia acaba se tornando uma tragédia e a graça termina. O filme, porém, nunca perde a beleza visual e o apuro técnico. Teria sido muito melhor com quarenta minutos a menos. Disponível na Amazon Prime Video.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Louca Obsessão (Misery, 1990)

 
Louca Obsessão (Misery, 1990). Dir: Rob Reiner. Amazon Prime Video. A notícia da morte de James Caan me fez procurar este filme, que achei na Prime Video. É um bom suspense de Rob Reiner baseado em um livro de Stephen King (os dois já haviam colaborado no ótimo "Conta Comigo", de 1986). James Caan é Paul Sheldon, um escritor que ficou famoso por uma série de livros sobre uma personagem chamada Misery; só que ele estava cansado da personagem e resolveu "matá-la" em seu livro mais recente. Dirigindo durante uma nevasca, Sheldon sofre um acidente e é resgatado, vejam só, por sua "fã número um", Annie, interpretada por Katy Bates.

A não ser por pequenos papéis secundários, o filme é quase todo dos dois atores. A mulher leva o escritor para a casa dela e o mantém em cárcere privado. Ela quer que ele escreva outro livro ressuscitando a personagem de Misery. Katy Bates ganhou um Oscar pelo papel de Annie, o tipo de fã que é o pesadelo de todo escritor. O filme é de 1990 mas é curioso como ela se parece com a maioria dos fãs "tóxicos" que existem hoje na internet, falando mal de seus ídolos e ficando bravos quando suas franquias favoritas não seguem seus desejos.

James Caan, que morreu hoje, está muito bem como Paul Sheldon, que provavelmente é baseado em alguma história pessoal de Stephen King (ele deve ter alguns fãs bem estranhos). Assim como James Stewart em "Janela Indiscreta", de Hitchcock, Caan passa grande parte do filme preso a uma cadeira de rodas ou deitado em uma cama. O final é bastante violento. O roteiro é do veterano William Goldman, de clássicos como "Butch Cassidy" e "Todos os Homens do Presidente". Disponível na Amazon Prime Video.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Arremessando Alto (Hustle, 2022)

 
Arremessando Alto (Hustle, 2022). Dir: Jeremiah Zagar. Netflix. Não é segredo que eu abomino Adam Sandler, mas reconheço que o cara é bom quando ele quer. O que dá ainda mais raiva quando se lembra das comédias preguiçosas que ele faz. Em filmes mais dramáticos, no entanto, ele se dá muito bem. É o caso deste "Arremessando Alto", filme de basquete que é bastante "assistível", principalmente pela boa direção, visual e edição. Há um bocado daquelas montagens mostrando treinos de basquete, mas não só isso.

Há três editores listados nos créditos e eles mantém a trama sempre em movimento; Sandler é visto pulando de avião em avião ou entrando e saindo de hotéis enquanto viaja pelo mundo atrás do próximo astro da NBA. Ele acredita que achou o "cara" na Espanha, na figura de um rapaz chamado Bo Cruz (Juancho Hernangomez). Ele leva o grandalhão para os EUA mas tem que enfrentar não só a oposição do dono do time (Ben Foster, sempre competente) como também o temperamento explosivo do espanhol. Há várias sequências clichês mostrando o rapaz correndo pelas ruas da Filadélfia (só falta a trilha de "Rocky" ao fundo) ou treinando nas quadras, mas a energia do filme é boa e, reconheço, Adam Sandler está honesto no papel. O elenco é completado por Queen Latifah e o grande Robert Duvall aparece nos primeiros dez minutos. Tá na Netflix. 

domingo, 26 de junho de 2022

Obi-Wan Kenobi (2022)

 
Obi-Wan Kenobi (2022). Dir: Deborah Chow. Disney+. Se fosse lançado há alguns anos, provavelmente "Obi-Wan Kenobi" teria sido um filme para cinema, nos moldes de "Rogue One" ou "Solo". O fracasso deste último, a pandemia e o crescimento do streaming, no entanto, acabaram levando o projeto à telinha. O que é uma pena, porque a trama é esticada (e enfraquecida) para seis episódios redundantes, em que claramente se vê que o que realmente importa foi deixado para os dois últimos capítulos. Isso, aliás, tem sido comum nas produções da Disney (vide "Cavaleiro da Lua" ou mesmo "The Mandalorian"). AVISO DE SPOILERS à frente.


Pois bem, a série mostra os eventos que aconteceram com Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) depois de "Episódio III – A Vingança dos Sith" e o Star Wars original de 1977, depois conhecido como "Episódio IV - Uma Nova Esperança". McGregor está muito bem no papel que, originalmente, pertenceu ao grande Alec Guinness. A série também traz de volta Hayden Christensen ao papel de Anakin Skywalker/Darth Vader, pelo qual foi muito criticado nas "prequels". Pode ser nostálgico, mas o principal problema com esta série é que acaba enfraquecendo um dos melhores momentos do Star Wars original, o reencontro de Obi-Wan Kenobi com Darth Vader na Estrela da Morte. Há também outra complicação: a série cria um nova ligação entre Kenobi e uma jovem Princesa Leia, com dez anos de idade, interpretada por Vivien Lyra Blair. A menina é uma graça e é interessante ver a relação entre o velho Obi-Wan e a garota, mas isso muda (ou deveria mudar), também, o encontro entre eles nos filmes originais anos depois.

Colocando estas questões de lado, o que fica da série Obi-Wan Kenobi? Somos apresentados aos "inquisidores" (que já eram conhecidos de quem viu a série animada "Clone Wars", não é o meu caso) e à personagem Reva (Moses Ingram). Muito se falou do racismo de parte do público com relação à atriz, o que é lamentável, mas o problema é que a personagem dela é muito mal escrita. Fora o fato de que ela é aparentemente imortal, tendo sobrevivido DUAS vezes a ser atravessada por um sabre de luz tanto pelo jovem Anakin quanto por Darth Vader. O próprio Darth Vader é visto tão poderoso, capaz de segurar uma nave decolando a todo vapor só com o poder da Força, que faz com que o personagem dele fique inverossímil. Para quê ele se incomoda com lutas corpo a corpo, com sabres de luz, se ele é capaz de derrubar uma nave?

A melhor parte, assim, fica entre a relação entre Obi-Wan e seu antigo aprendiz, Anakin. Há um belo duelo entre os dois no último capítulo e um momento interessante quando Obi-Wan revela metade do rosto de Anakin/Vader com um golpe de sabre de luz. O problema é que essa rivalidade já havia sido exposta ao final do Episódio III. Pior, fica a questão: por que Obi-Wan Kenobi deixa Vader vivo ao final da série? Vader admite que Anakin "está morto" e Obi-Wan sabe que ele vai ser um grande instrumento para o Império, por que poupá-lo? É como se ele soubesse que, em alguns anos, o Episódio IV precisa acontecer, então vamos deixar as coisas como estão. A verdade é que, no fundo, isso não importa muito para o estúdio, que quer ganhar seu dinheiro e, provavelmente, para a grande maioria dos fãs, que só quer rever estes personagens, independente de lógica ou das consequências. Disponível na Disney+.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Spiderhead (2022)

Spiderhead (2022). Dir: Joseph Kosinski. Bom elenco e competência técnica desperdiçados em um roteiro preguiçoso típico de "filme da Netflix". Chris Hemsworth é o dono de uma empresa farmacêutica que administra uma espécie de prisão laboratório. Com óculos no rosto (hey, não se engane pelos meus músculos, eu sou um cientista) e um gosto por músicas pop dos anos 1980, Hemsworth usa prisioneiros como cobaias para testar uma droga nova. Miles Teller é um deles. A partir de um app no celular, Hemsworth injeta a quantidade certa de drogas que causam excitação, fobia, pânico e até a habilidade de se expressar melhor. Para quê? Algum objetivo genérico do tipo "vamos salvar muitas vidas", diz ele o tempo todo.


O filme vai bem até a metade. O diretor, Joseph Kosinski, já fez coisas melhores como "Tron: O Legado", "Obliviom" e o mega blockbuster "Top Gun: Maverick". O design de produção e a trilha sonora são bons, assim como o elenco. Logo, porém, fica nítido que a trama não tem para onde ir. O orçamento não deve ser muito alto (quase tudo se passa dentro de um laboratório) e a motivação dos personagens é confusa; se Hemsworth é claramente um vilão, por que exigir que as cobaias deem consentimento antes de cada aplicação da droga? Ao final, fica aquela sensação de ideia (e tempo) desperdiçados. Tá na Netflix.

terça-feira, 21 de junho de 2022

A Escada (The Staricase, 2022)

 
A Escada (The Staricase, 2022). Dir: Antonio Campos. HBO Max. Minissérie em oito capítulos baseada na história real de Michael Paterson (Colin Firth), um escritor americano acusado de matar a esposa. Em dezembro de 2001, Paterson chamou uma ambulância para socorrer a mulher, que encontrou caída na escada; ela estava em uma poça de sangue e Paterson foi acusado de assassinato, apesar de jurar que a esposa havia simplesmente sofrido um acidente. A minissérie é muito bem produzida e tem um elenco e tanto; Colin Firth, Toni Collette, Juliette Binoche, Michael Stuhlbarg, Sophie Turner, Rosemarie DeWitt, Parker Posey, entre muitos outros.

A trama faz um vai e vem entre várias linhas de tempo, informadas por letreiros na tela ou indicadas por mudanças no visual dos personagens. A série também é metalinguística; uma equipe de documentaristas acompanhou a história real (o documentário está na Netflix, aliás) e a equipe técnica (diretor, produtor, editora) estão presentes como personagens. Colin Firth está muito bem como Paterson, uma pessoa difícil de decifrar, mas que tem um ego enorme e gosta de estar no centro das atenções (quem aceitaria a presença de câmeras durante uma investigação de assassinato?).

Independentemente de ser um assassino ou não, Paterson é bem contraditório, aquele tipo de pessoa que pode elogiar a esposa ou os filhos em uma frase e, em seguida, falar alguma coisa horrível. O ritmo é bem lento, são oito capítulos de uma hora de duração e o roteiro dá espaço para revelar as facetas de várias personagens. Toni Collette, como a esposa Kathleen, é uma personagem trágica, sempre exausta, lutando para manter o trabalho, a casa, os filhos e o marido, que mais parece outro filho. As várias teorias sobre a morte dela são mostradas em cenas bastante sangrentas. Binoche, uma das maiores atrizes do cinema, também é uma figura trágica como uma mulher que acredita em Paterson, mas nunca consegue realmente compreendê-lo. A direção é de Antonio Campos, americano nascido em Nova York filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes. Harrison Ford estava escalado originalmente para viver Paterson, mas desistiu. A série me lembrou muito “O Reverso da Fortuna” (1990), de Barbet Schroeder, em que Jeremy Irons era acusado de matar a esposa. "A Escada" está disponível na HBO Max.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Contrato Perigoso (The Contractor, 2022)

 
Contrato Perigoso (The Contractor, 2022). Dir: Tarik Saleh. Amazon Prime Video. Filme que está longe de ser ruim, mas... também não é bom. Vale pela terceira parceria entre Chris Pine e Ben Foster (que já estiveram juntos em "Horas Decisivas" e "A Qualquer Custo", ambos de 2016). Aqui eles são ex soldados de operações especiais dos EUA, super treinados, patriotas até o último fio de cabelo e, no caso de Pine, desempregado; ele foi dispensado do serviço por causa de um joelho ruim. Para sustentar a família ele se junta a uma "empresa de segurança" particular (liderada por Kiefer Sutherland) e é enviado à Alemanha.

A grana é boa mas o serviço é, no mínimo, moralmente suspeito. Pine e equipe vigiam um cientista que estaria trabalhando com armas biológicas, uma "ameaça à segurança nacional" (mas talvez não seja bem isso). Claro que o cocô é jogado no ventilador e o filme se transforma em uma série de cenas de ação e tiroteio bem competentes, estilo Jason Bourne. O problema do filme está em querer ser mais do que um filme de ação. A questão ética e moral levantada pelo roteiro é interessante, mas o filme não sabe direito o que fazer com isso. Chris Pine é bom ator (Ben Foster melhor ainda) e há boas cenas de ação, mas o final parece ter sido escolhido no cara ou coroa. Disponível na Amazon Prime Video.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

A Coleção Invisível (2012)

A Coleção Invisível (2012). Dir: Bernard Attal. Netflix. Hmmmm, não vale a visita. Vladimir Brichta é Beto, filho de um antiquário que comprava e vendia obras de arte em Salvador. Um alemão aparece na loja em busca de umas gravuras antigas, que valeriam uma fortuna. Beto investiga nos documentos do pai e descobre que ele teria vendido estas gravuras para um fazendeiro no interior do estado. Ele vai até lá e tenta entrar em contato com o fazendeiro (interpretado por Walmor Chagas), mas tanto a mulher (Clarisse Abujamra) quanto a filha (Ludmila Rosa) do homem reagem violentamente às tentativas de aproximação de Beto. Por que tanto mistério? O título do filme (baseado em um conto de Stefan Zweig) meio que já dá a dica.

Filme lento, com cenas que não levam a lugar algum (no começo, por exemplo, Beto escapa da morte ao sair de um carro que se envolve em um acidente fatal). Há uma cena entre Brichta e Paulo César Peréio em que este último promete que vai levá-lo ao fazendeiro no dia seguinte, mas não se fala mais no assunto. A mãe de Brichta tenta se matar e o faz voltar a Salvador. Em outra cena estranha, Brichta começa a chorar, por nada, no meio da floresta. "A Coleção Invisível" se parece muito com aqueles curtas metragens de faculdade, cheios de "semiótica" mas pouco cinema. Tá na Netflix.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Stranger Things 4 (2022)

Stranger Things 4 (2022). Dir: Irmãos Duffer. Netflix. A criançada cresceu. Millie Bobby Brown, que interpreta 11, já está com dezoito anos. Os garotos, provavelmente, fazem a barba antes de subir nas bicicletas. Da escala hollywoodiana à longa duração dos episódios, tudo soa meio exagerado; mas é inegável que "Stranger Things" ainda tem aquele charme nostálgico que conquistou o mundo desde a primeira temporada, em 2016.

Esta quarta temporada (que foi dividida em duas partes) volta bem mais violenta e assume de vez o cinema de terror como influência. Como diria o Heath Ledger, "Why so serious?". Ao contrário da terceira temporada, talvez a mais leve e divertida, a série volta às origens de 11 (Millie Bobby Brown) em longas sequências de flashbacks sangrentos. Também são bastante violentas as mortes provocadas por um monstro chamado "Vecna", que ataca jovens que têm alguma culpa no passado e os destroça de forma bastante gráfica.

O garoto Will (Noah Schnapp) não é mais a vítima da vez. Aliás, ele pouco aparece nesta temporada, que separou os vários personagens em diversos "núcleos" (como nas novelas) distribuídos em cidades, estados e até países diferentes. Alguns desses núcleos são divertidos (as cenas passadas na cidade de Hawkins são as melhores); outros, porém, não funcionam direito. O coitado do David Harbour (que interpreta Jim Hopper) apanha a temporada inteira em uma prisão na antiga União Soviética. Quem ganhou destaque é a personagem Max (a ótima Sadie Sink), que protagoniza o melhor episódio da temporada, o quarto. Há um lance de ter uma "música favorita" que trouxe Kate Bush de volta às paradas de sucesso com a faixa "Running up that Hill", de 1985 (procurem no YouTube a versão ao vivo em que ela é acompanhada por David Gilmour, é sensacional).

Como veredito, diria que a série ainda é boa, mas talvez tenha crescido demais. Os episódios têm mais de uma hora de duração, alguns são como longa metragens, e nem sempre isso é necessário. Tecnicamente, é incrível a recriação fiel dos anos 1980, seja pelo figurino ou pela trilha sonora. A série volta em julho (e espero que termine de vez). Tá na Netflix.

sábado, 28 de maio de 2022

Top Gun: Maverick (2022)

Top Gun: Maverick (2022). Dir: Joseph Kosinski. "Tom Cruise: Maverick" talvez fosse um título mais apropriado. Digam o que quiserem sobre Cruise, seu egocentrismo, perfeccionismo em fazer cenas de ação e, provavelmente, um pacto para parecer jovem eternamente. O fato é que ele construiu seu lugar como o último astro de cinema. Mais de 30 anos depois do sucesso dos anos 1980, Top Gun, Cruise volta parecendo quase o mesmo, embora mais maduro, seguro e determinado em entregar um filme anti-Netflix, um espetáculo audiovisual para ser visto no telão do cinema.

"Top Gun: Maverick" não tem nada de memorável e bebe abertamente da fonte da nostalgia de onde tantos buscam "inspiração" hoje. Mas, caramba, como é eficiente. É também um filme "para meninos", não espere grandes mensagens inclusivas ou coisas do gênero; no máximo, entre os garotões cheios de testosterona que aparecem na tela há também uma mulher no cockpit de um dos caças. É tecnicamente bonito de se ver, com bela fotografia e uma edição que consegue o feito de não deixar o espectador perdido entre tantos aviões passando pela tela.

O roteiro? Bom, há uma missão que lembra muito o clímax de Star Wars (que já havia copiado filmes de aviação da 2ª Guerra Mundial); um inimigo não identificado está para colocar uma usina nuclear clandestina em funcionamento em poucas semanas. Maverick tem que treinar uma equipe de pilotos para voar por um desfiladeiro estreito, desviando de baterias antiaéreas e acertar um alvo com apenas três metros. "Use a Força, Cruise". As cenas aéreas são brilhantes e foram feitas dentro de caças de combate de verdade. Fica nítida a sensação de realidade na expressão dos atores quando enfrentam altas "forças G" e tem o rosto distorcido pela velocidade.

Há também o lado humano da trama, representado pela presença de Miles Teller interpretando o filho de "Goose", parceiro de Maverick que morreu no primeiro filme. Jennifer Connelly não tem muito o que fazer além de ser Jennifer Connelly como o "interesse amoroso" de Cruise (no lugar de Kelly McGillis que, aos 64 anos, está sendo vítima de várias postagens maldosas na internet). Jon Hamn, ainda tentando se encontrar pós Mad Men, é um almirante. O grande Val Kilmer, que interpretou o antagonista de Maverick em 1986, tem uma participação especial em uma cena realmente comovente com Cruise. Ao final, não tem como não se empolgar pelas cenas de batalhas e pela "vibe" geral do filme. Não sei se vai ter o status de "clássico", mas é bastante bom. Nos cinemas.

domingo, 22 de maio de 2022

Love, Death and Robots, 3ª Temporada (2022)

 

Love, Death and Robots, 3ª Temporada (2022). Netflix. Volta a série animada criada por Tim Miller, com produção executiva de David Fincher. Tive a impressão de que esta temporada veio ainda mais violenta e perturbadora. São nove episódios, com várias técnicas de animação. Há ao menos uma obra prima e vários episódios bons; por vezes, fica aquele gosto de algo inacabado, como se não fossem curtas-metragens com começo, meio e fim, mas como se pegássemos uma história no meio e saíssemos antes do final.


1 - Os três robôs. Direção de Patrick Osborne, é uma espécie de continuação de um episódio da primeira temporada, creio, em que três robôs falam sobre os antigos mestres do planeta, os seres humanos. Engraçado, mas bobinho.

2 - Viagem Ruim. Direção de David Fincher, é meu segundo favorito desta temporada. Um grupo de marinheiros luta contra uma espécie de caranguejo gigante e carnívoro que quer ser levado a uma ilha povoada. Lento e bem dirigido por Fincher, é também um dos mais violentos.

3 - O mesmo pulso da máquina. Diração de Emily Dean, tem um visual incrível e é passado em Io, um dos satélites de Júpiter. Uma astronauta (voz de Mackenzie Davis) tenta sobreviver a um acidente enquanto arrasta o corpo de uma companheira por quilômetros. Os mesmos remédios que a mantém viva iniciam uma série de alucinações psicodélicas. Bem interessante.

4 - Noite dos minimortos. Direção de Robert Bisi & Andy Lyon. É o episódio mais engraçado; tecnicamente é muito interessante. Um apocalipse zumbi visto em miniatura, com situações clichês deste tipo de filme visto como se estivesse acontecendo em um minimundo.

5 - Matança em grupo. Direção de Jennifer Yuh Nelson. Falando em clichês, este tem todos os clichês do filme militar, em que um grupo de soldados machões enfrentam uma arma secreta da CIA. Muito sangue, vísceras e frases de efeito.

6 - Enxame. Direção de Tim Miller. Computação gráfica fotorrealista mostra dois seres humanos em uma espécie de colônia de cupins espacial. Para quem tem problemas com insetos pode ser um tanto nojento.

7 - Ratos de Mason. Direção de Carlos Stevens. Animação cartunesca sobre a luta de um fazendeiro contra os ratos que invadiram seu celeiro. Há um bocado de pedaços de rato voando pela tela.

8 - Sepultados na caverna. Direção de Jerome Chen. Outro curta militar; um grupo de soldados entra em uma caverna em busca de um refém e encontram uma série de coisas estranhas, que vão se tornando cada vez mais sombrias. Pesadão.

9 - Fazendeiro. Direção de Alberto Mielgo. É o melhor de todos, de longe. O visual é impressionante, confesso que fiquei em dúvida se era computação gráfica ou uma técnica mista com imagens reais. Um grupo de conquistadores espanhóis, nas Américas, enfrentam uma espécie de sereia do lago, coberta de escamas de ouro. Simplesmente maravilhoso, tanto no visual quanto no roteiro, uma alegoria à invasão europeia na América. O curta foi feito por uma produtora espanhola que já havia feito outro episódio impressionante chamado "A Testemunha", em uma das temporadas anteriores. Este vale pela terceira temporada toda. Tá na Netflix.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Pai Nosso? (Our Father, 2022)

Pai Nosso? (Our Father, 2022). Dir: Lucie Jourdan. Netflix. Documentário com uma história tão bizarra que um dos produtores é Jason Blum, especializado em filmes de terror, "Pai Nosso?" começa com o depoimento de Jacoba Ballard. Loira de olhos azuis, ela desconfiou que não fosse filha biológica de seus pais e descobriu que a mãe havia passado por um tratamento de fertilidade com um especialista chamado Donald Cline. Até aí, tudo bem. A coisa começou a ficar estranha quando ela fez um teste de DNA que apontou que ela teria outros sete meio irmãos listados no banco de dados de um site especializado em árvores genealógicas. O especialista em fertilidade havia assegurado à mãe de Jacoba que os doadores de esperma eram usados em, no máximo, três fecundações. Investigando mais a fundo, Jacoba e seus meio irmãos chegaram à uma suspeita assustadora; tudo indicava que eles compartilhavam o mesmo DNA do Dr. Cline, o médico que havia feito o "tratamento" de fertilidade nas mães deles.

O documentário entrevista vários destes meio irmãos, todos bastante parecidos fisicamente, que descobriram que não eram filhos biológicos de quem chamavam de pais. As mães, horrorizadas, se deram conta de que foram inseminadas não com o esperma dos maridos, ou doadores anônimos, mas do próprio médico. Há um "contador" que aparece de tanto em tanto tempo na tela mostrando o número, cada vez maior, de pessoas que se descobriram filhos do médico. Para piorar, a comunidade em que eles viviam era relativamente pequena, o que aumentava a chance de que pessoas que nem sabiam serem irmãos haviam se conhecido, talvez até mesmo namorado ou tido filhos.

O áudio original das conversas do Dr. Cline com Jacoba, que o denunciou publicamente, é ouvido diversas vezes. Ela levou o caso às autoridades mas, bizarramente, os promotores não encontravam na lei uma forma de condenar o médico; o que ele fez foi estupro? Fraude? Ou as mães haviam apenas conseguido o que foram buscar, ou seja, uma gravidez bem sucedida? O documentário poderia ser mais aprofundado nos motivos que levaram o médico a fazer o que fez. Há menções a uma sociedade religiosa que prega que as pessoas tenham o maior número de filhos possível. O Dr. Cline era frequentador da igreja e benquisto na comunidade. Andava, também, com uma arma na cintura. Assustador. Tá na Netflix.
 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Moonfall: Ameaça Lunar (Moonfall, 2021)

Moonfall: Ameaça Lunar (Moonfall, 2021). Dir: Roland Emmerich. Amazon Prime Video. O diretor alemão Roland Emmerich adora um "filme catástrofe", e fez alguns dos melhores (e piores) dos últimos 25 anos. Os roteiros são geralmente bem absurdos mas, perto deste "Moonfall", "Independence Day" pode ser considerado um documentário. A boa notícia é que, se você conseguir passar pela primeira hora do filme, bastante ruim, até que ele fica melhor mais para o final.

Imagine que a Lua saia da sua órbita e comece a cair em direção à Terra. Pior, imagine que a Lua, na verdade, não seja um satélite natural, mas uma superestrutura criada por uma civilização avançada. Imagine que Halle Berry e Patrick Wilson interpretem astronautas que vão tentar salvar a Terra. Os dois são ajudados por John Bradley (de "Game of Thrones") que faz aquele personagem que, em outros filmes de Emmerich, já foi interpretado por James Spader (em "Stargate"), Matthew Broderick (em "Godizilla") e Jeff Goldblum (em "Independence Day"): o cientista que descobre que algo terrível vai acontecer, mas ninguém acredita nele.

A trama segue os clichês habituais de filmes catástrofes, como cenas de cidades sendo destruídas por tsunamis e terremotos, pessoas fugindo a pé de grandes ondas e diálogos ridículos como "eu te amo mais do que todas as estrelas do céu". O nível dos atores coadjuvantes é bastante ruim, assim como a maioria das cenas de efeitos especiais. "Moonfall" é ruim? Sim. É divertido? Com certeza. Disponível na Amazon Prime Video.

sábado, 14 de maio de 2022

Nem tudo é o que parece (Layer Cake, 2004)

Nem tudo é o que parece (Layer Cake, 2004). Dir: Matthew Vaughn. Netflix. Eita que faz quase um mês que não escrevo por aqui (faltou inspiração). Pensar que este filme tem quase 20 anos. "Layer Cake" é daqueles filmes de crime britânicos que até são bons, mas que quase colocam tudo a perder com um estilo cheio de cenas "espertas" e cacoetes. Não é coincidência que Matthew Vaughn, o diretor, produziu alguns filmes de Guy Ritchie, o campeão de filmes estilosos, mas geralmente vazios.

Daniel Craig, às vésperas de se tornar James Bond, aqui é um traficante de cocaína que pretende se aposentar. Como geralmente acontece com personagens à beira da aposentadoria, as coisas não saem como ele espera. A trama é bem confusa e envolve a procura pela filha de um chefão do crime e a venda de 1 milhão de pílulas de ecstasy roubadas da máfia sérvia. No elenco encontramos um jovem Tom Hardy, além de Michael Gambon, Sally Hawkins, Colm Meany, Burn Gorman, entre outros. Sienna Miller, coitada, aparece em duas, talvez três cenas, como a "loira gostosa" do filme.

Como disse, tudo é cheio de estilo, com efeitos especiais colando planos sequência que acompanham a narração do personagem de Craig (que, curiosamente, não tem nome). É bem feito, violento às vezes e com aquele tipo de humor bem britânico. Está mais par Guy Ritchie, porém, do que para Scorsese. Tá na Netflix.