Pense em um filme triste. Pense em um filme bom. Casey Affleck (bem melhor que o irmão Ben) é Lee Chandler, um zelador que mora sozinho em Boston fazendo trabalhos diversos. Um dia ele recebe uma ligação urgente e vai até Manchester, onde descobre que o irmão, Joe (Kyle Chandler) morreu de uma rara doença do coração. Lee é um cara de (bem) poucas palavras e é dado a explosões violentas. A trama, não linear, nos mostra flash backs de uma época em que ele era casado e tinha três filhos pequenos. O que teria acontecido com eles, onde eles estão? No presente, Lee tem que lidar com a logística de contatar funerária, advogados, ler o testamento e descobrir que o irmão lhe deixou a responsabilidade de ser guardião do filho adolescente, Patrick (Lucas Hedges, muito bem).
É um filme lento e bastante frio, quase tão frio quanto as paisagens cobertas de neve mostradas pela ótima fotografia de Jody Lee Lipes. O comportamento ausente e violento do personagem de Casey Affleck, aos poucos, vai sendo explicado por um evento trágico em seu passado. O sobrinho, agora órfão, precisa de uma figura paterna mas Lee está mais do que relutante em assumir a responsabilidade. Várias pessoas na cidade sequer o querem por perto.
"Manchester à Beira-Mar" não está muito interessado em mostrar aquelas grandes cenas de redenção que costumamos ver em dramas deste tipo. Casey Affleck está maravilhosamente contido e todos os personagens, na verdade, parece que estão precisando de um abraço. Não é um filme fácil, mas lentamente ele te conquista e, como na vida, mostra que não há respostas simples para os problemas cotidianos.
Apesar de algumas similaridades, é difícil imaginar que o mesmo diretor/roteirista de "Whiplash: Em busca da Perfeição", o jovem Damien Chazelle, tenha dirigido "La La Land". Os dois filmes falam sobre música (especificamente, jazz), mas enquanto "Whiplash" era sobre obsessão e perfeccionismo, "La La Land" é um filme sobre sonhos e amor. É também uma grande homenagem à era de ouro dos musicais da MGM, em que figuras como Gene Kelly dançava em Paris, e Fred Astaire bailava elegantemente com Ginger Rodgers.
Mia (Emma Stone) é uma aspirante a atriz que trabalha na cafeteria de um estúdio de Hollywood. Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista de jazz que luta contra um mundo que acha que seu gênero musical está morto e enterrado. Como em todo bom romance, Mia e Sebastian se esbarram pela cidade e apesar das faíscas voarem cada vez que os dois estão na tela (Gosling e Stone nasceram um para o outro), a princípio eles fingem não estarem interessados. Mas esta é a Hollywood dos musicais, em que os pores de sol são maravilhosamente coloridos e Chazelle coloca Gosling e Stone para dançar em frente de um em um belo plano sequência. Quase todos os números musicais, aliás, são filmados de forma muito elegante por Chazelle (esqueça os exageros de Baz Luhrmann). Mesmo na sequência mais imaginativa do filme, em que os dois namorados são vistos dançando entre as estrelas do planetário de Los Angeles, Chazelle mantém a câmera fluida mas sem exageros nos ângulos e cortes.
As canções, todas inéditas, são de Justin Hurwitz, com letras de Benj Pasek e Justin Paul. Este não é daquele tipo de musical em que as pessoas cantam o tempo todo (felizmente), e as canções de Hurwitz estão bem integradas nos diálogos. O musical sempre foi o gênero mais escapista de Hollywood e é necessária boa vontade do público em aceitar que alguém simplesmente saia cantando e dançando no meio da rua, mas Chazelle consegue manter um bom equilíbrio entre os diálogos e músicas. Não sei até que ponto Ryan Gosling é responsável pelas várias cenas de virtuosismo em que o vemos ao piano, mas há também momentos calmos e emocionantes proporcionados pelas poucas notas da canção que é o carro chefe do filme, "City of Stars".
A mensagem, claro, é piegas e simples do tipo "siga seus sonhos", mas nem tudo é lindo e maravilhoso no roteiro, que vai em um crescente até algumas das cenas mais agridoces do cinema dos últimos anos. "La La Land" é colorido, vibrante, belo e emocionante. Tornou-se o queridinho de todos os festivais por onde passou, venceu um recorde de sete troféus no último "Globo de Ouro" e, provavelmente, vai repetir o feito no próximo Oscar. Para se assistir de coração aberto.
"Moana" é dirigido pelos lendários Ron Clemments e John Musker, que foram responsáveis pelo ressurgimento da Disney nos anos 1980 e 1990 com filmes como "A Pequena Sereia" (1989), "Alladin" (1992) e "Hércules" (1997). Eles dirigiram outros filmes juntos mas "Moana" é a primeira animação da dupla na era da computação gráfica e do 3D. Musker e Clemments trouxeram muitas das técnicas tradicionais da animação da Disney (da época em que ainda se desenhava com lápis e papel) e adaptaram ao novo processo em computação gráfica e o resultado é visualmente impressionante.
A trama, por outro lado, não é muito inovadora. Moana é uma garota que vive em uma ilha da Polinésia. Ela é filha do chefe da tribo e está destinada a ser a líder do grupo quando crescer. Mas (adivinhem?) ela sente que o destino dela está em outras paragens, além do horizonte infinito do mar, para onde ela sempre se sente atraída. Lendas também falam de um semi-deus chamado Maui que teria roubado uma pedra que seria o coração da criadora do mundo. Quando a colheita e os peixes começam a ficar escassos, Moana parte em um barco em busca de Maui para devolver a pedra à sua origem e trazer a fartura de volta ao seu povo.
Este primeiro ato, em minha opinião, é a melhor parte do filme. Os personagens são muito envolventes e há momentos bastante tocantes e mesmo épicos como quando Moana, auxiliada pela avó, descobre em uma caverna escondida na montanha que seu povo era originalmente formado por exploradores. No presente, no entanto, seu pai a proíbe de ir além dos recifes próximos.
Curiosamente, o filme perde um pouco do encanto quando Moana deixa seu lar e encontra Maui em uma pequena ilha no meio do oceano. Na versão original em inglês (boa sorte em tentar encontrar uma sessão que não seja dublada) Maui é interpretado por Dwayne Johnson, o "The Rock", o que deve fazer muita diferença na forma como o personagem é visto. Maui é convencido e orgulhoso, o que é interessante por alguns minutos, mas depois se torna repetitivo. O que havia de épico na jornada de Moana no primeiro ato se dilui com a chegada de Maui e o filme perde bastante do seu ritmo. Maui e Moana passam o resto do filme discutindo constantemente ou trocando piadas em longas cenas que, repito, chegam a cansar, o que é uma pena. Apesar disso, "Moana" ainda é uma animação acima da média e um filme bastante bonito e divertido.
"HELL OR HIGH WATER" ("A Qualquer Custo", no Brasil) é um western moderno dos bons. Ele é lindamente fotografado por Giles Nuttgens (o filme abre com um plano sequência belíssimo), dirigido por David Mackenzie (de "Sentidos do Amor") e escrito por Taylor Sheridan (do matador "Sicario").
Chris Pine e Ben Foster são dois irmãos que acordam cedo, entram no carro e vão assaltar bancos em pequenas cidades das vastas paisagens texanas. Pelo caminho vemos a decadência da economia local; anúncios de casas, negócios à venda e ofertas de empréstimos estão por toda parte. Só os bancos e as bombas de petróleo parecem estar rendendo bem.
Aos poucos o roteiro vai nos informando o porquê dos assaltos feitos pelos irmãos e o filme é bastante eficaz na humanização dos personagens. Há também o outro lado, protagonizado pelo grande Jeff Bridges como o policial velho que está para se aposentar e quer resolver um último caso antes de pendurar o distintivo. Sim, é um clichê, mas o roteiro e Bridges são tão bons que você perdoa. Um policial mestiço de índio com mexicano (interpretado muito bem por Gil Birmingham) é o parceiro de Bridges na investigação dos assaltos. O personagem de Jeff Bridges se refere a ele o tempo todo através de insultos racistas, mas aos poucos percebe-se que há grande respeito e amizade entre os dois.
O roteiro traça bons paralelos entre as ações dos irmãos e dos policiais, com cenas que se espelham (há duas cenas envolvendo garçonetes que são muito bem escritas). Sempre gostei de Ben Foster (que está brilhante aqui), mas a interpretação de Chris Pine me surpreendeu bastante, ele nunca esteve tão bem nas telas. E quando você acha que já sabe como tudo vai terminar as coisas ficam bastante sérias e o filme te pega de surpresa. As ações tanto dos irmãos quanto dos policiais trazem consequências sérias que levam o filme a um nível mais amargo e soturno. Assim como em Sicário, o roteiro de Sheridan mostra personagens moralmente ambíguos em uma trama que não é simplesmente a luta do "bem" contra o "mau". Grande filme.
Primeiro, aviso de SPOILERS. MUITOS SPOILERS. ESTEJA AVISADO.
Segundo, assisti "Rogue One" no dia da estreia aqui no Brasil mas, curiosamente, não consegui escrever a respeito do filme. Eu o achei fantástico, mas teria sido apenas resultado da baixa expectativa? Resolvi que só escreveria quando o assistisse novamente, o que foi hoje. O que me leva a....
Terceiro: estava a caminho da sala de cinema para rever o filme quando chega uma mensagem enviada por um amigo: "Morreu Carrie Fisher". E lá vou eu rever "Rogue One" com mais esta informação na cabeça. De repente, a cena final toma um significado todo especial. De repente, todas as mortes neste filme (e são muitas) se tornam mais marcantes.
"Rogue One", sem exagero, é um dos melhores filmes já feitos da franquia "Star Wars". O diretor Gareth Edwards (do apenas razoável "Godzilla") e vários roteiristas (Chris Weitz, Tony Gilroy, John Knoll, Gary Whitta) conseguiram a façanha de transformar aqueles títulos iniciais de "Star Wars: Uma Nova Esperança" (1977) em um filmão de guerra e aventura. "É um período de guerra civil. Espaçonaves rebeldes, atacando de uma base escondida, obtiveram sua primeira vitória contra o malvado Império Galáctico", dizia o famoso texto inicial de "Guerra nas Estrelas" (como, por muitos anos, era conhecido o filme). Pois bem, "Rogue One" trata exatamente sobre este feito dos rebeldes em roubar os planos secretos para a famosa "Estrela da Morte", a "destruidora de planetas", como cita um dos personagens. O roteiro vai além, ao explicar até o que sempre foi considerada uma falha na história original de George Lucas, que era a famosa fraqueza na estação espacial, o duto em que (SPOILER, caso você não tenha crescido neste planeta) Luke Skywalker atira um torpedo e manda pelos ares a "arma final do Império". A fraqueza teria sido colocada lá de propósito pelo construtor da Estrela da Morte, Galen Erso (o grande Mads Mikkelsen), como uma vingança contra o Império que matou sua esposa Lyra e o afastou da filha, Jyn (Felicity Jones).
Não que o filme seja perfeito, veja bem. O começo, principalmente, quando os personagens estão sendo apresentados, patina bastante. É fato que o roteiro passou por grandes mudanças mesmo em estágios avançados da produção. O roteirista Tony Gilroy (dos filmes de Jason Bourne) teria recebido mais de 5 milhões de dólares para reescrever e refilmar grande parte da produção, fazendo mudanças que alteraram vários aspectos da trama, inclusive o final. Quem compara os trailers que foram lançados antes do lançamento com o filme final vai perceber que não só muitas falas foram cortadas como cenas inteiras estão diferentes.
O que importa, claro, é o produto final, e "Rogue One" faz a alegria não só dos novos fãs como dos antigos conhecedores da saga. Esqueça a lenga lenga política e conversas sobre "midichlorians" inventadas por George Lucas nos famigerados Episódios I, II e III. "Rogue One" resgata o ritmo acelerado da estonteante sequência final de "Uma Nova Esperança" e "O Retorno de Jedi" com o lado sombrio e trágico de "O Império Contra Ataca". É melhor até que o bom "Episódio VII", lançado ano passado por J.J. Abrams. Felicity Jones não é grande atriz mas ela está competente como Jyn Erso, uma personagem dividida cujo pai é, aparentemente, um colaborador do Império enquanto a Aliança Rebelde procura sua ajuda. Diego Luna interpreta um rebelde de moral também bastante duvidosa, como se vê em uma cena inicial em que ele mata a sangue frio um companheiro. Há também, claro, espaço para o humor; Alan Tudyk interpreta o robô K2SO, que pode não ser nenhum C3PO, mas tem algumas das falas mais engraçadas do filme. Há também dois atores chineses, Donnie Yen e Wen Jiang, que emprestam ao filme um lado oriental que já estava subliminar nos primeiros filmes de Lucas, fortemente influenciados pelos samurais de Arika Kurosawa. Há diversas sequências tiradas diretamente de filmes sobre o "Dia D", no final da 2ª Guerra Mundial; até o uniforme dos rebeldes lembram o desembarque dos Aliados na Normandia em 1944.
E temos que falar, claro, da volta de Darth Vader (com a poderosa voz de James Earl Jones); ele faz apenas algumas cenas neste filme, mas o cinema literalmente vem abaixo quando ele luta com os os rebeldes na espetacular sequência final. Quem também está de volta é Grand Moff Tarkin, interpretado além túmulo por um Peter Cushing digital que nem sempre funciona direito, mas impressiona. O compositor Michael Giachinno, que eu sempre considerei o sucessor de John Williams, usa e abusa dos temas originais do mestre mas vai além, criando novos temas em uma das melhores trilhas sonoras de toda saga.
Em suma, "Rogue One" é um grande filme, que serve tanto de homenagem a uma das franquias mais famosas do cinema como também funciona com méritos próprios. As cenas finais, quando testemunhamos o sacrifício dos personagens em prol de "uma nova esperança", são tocantes e muito bem feitas. Curioso que é com uma Carrie Fisher digital, jovem e sorridente, que o filme termina e nos joga em um mar de estrelas, prenunciando o que está por vir.
Em 15 de janeiro de 2009, um Airbus 320 partiu do aeroporto de LaGuardia, em Nova York, carregando 155 passageiros e tripulantes. Apenas 208 segundos depois, com as duas turbinas destruídas por pássaros em voo, o avião pousou gentilmente sobre as águas geladas do Rio Hudson. Helicópteros e barcos da guarda costeira conseguiram resgatar todos com vida. A cidade de Nova York, ainda sofrendo os efeitos dos ataques ao World Trade Center em 2001, transformou o caso em uma grande celebração. O capitão do avião, Chesley "Sully" Sullenberger, foi transformado em herói nacional, fez inúmeras entrevistas e era abraçado por estranhos na rua; mas será que ele, ao pousar na água, teria tomado a decisão certa?
É esta questão que "Sully", o mais novo filme do veterano diretor Clint Eastwood, tenta responder. Sully é interpretado por ninguém menos que Tom Hanks, que aos 60 anos é, provavelmente, o ator mais amado desta geração (há vinte anos, provavelmente, o próprio Eastwood teria interpretado o papel). Hanks, desnecessário dizer, está ótimo e a produção é mais do que competente como entretenimento adulto. Falta, no entanto, um pouco mais de garra ao filme.
Clint Eastwood está com 86 anos e já fez desde obras primas (Os Imperdoáveis, Sobre Meninos e Lobos) a filmes divertidos, mas descartáveis (Cowboys do Espaço) até bobagens (Além da Vida). "Sully" se agarra às costas de Tom Hanks para se manter, literalmente, acima da água. Há alguns vícios antigos que chamam a atenção, como o fato dos burocratas que estão analisando o incidente terem todos cara de "mau" e agirem de forma desagradável. Laura Linney, brilhante em "Sobre Meninos e Lobos", está aqui reduzida à mulher "do lar" que fica apenas chorando no telefone com Tom Hanks ou falando sobre problemas financeiros. Uma trilha sonora açucarada é ouvida cada vez que testemunhamos um ato heroico ou tocante.
Por outro lado, fica claro que estamos diante de um diretor que, em grande parte do tempo, sabe o que está fazendo. Eastwood usa de efeitos criados em computação gráfica de forma discreta e muito eficiente. A direção de atores (a não ser com os "vilões") é boa e Aaron Ekhart, particularmente, está ótimo como Jeff Skyles, o espirituoso co-piloto de Sully. Os 208 segundos do voo são recriados de forma precisa e repetidos por diversas vezes durante o filme, de diferentes pontos de vista. Eastwood optou por contar a história de forma não linear, começando após o acidente e retornando a ele de tempos em tempos, durante o transcorrer da investigação.
A sequência final se passa em uma daquelas "cenas de tribunal" que, se não fossem os talentos envolvidos, caberiam melhor em um telefilme de sábado à noite. O que fica de Sully é que pessoas são mais importantes do que simulações de computador, e bons atores como Tom Hanks, por enquanto, ainda batem qualquer computação gráfica. O produto final é um filme que merece ser visto, mas está longe de ser memorável.
A Netflix está com "THX 1138" (1971) disponível no catálogo. É uma ficção científica distópica, claramente baseada em 1984, de George Orwell, e conta a história de um trabalhador chamado THX 1138 que vive em uma sociedade controlada por um Estado ditatorial em que as pessoas são mantidas na linha por calmantes e diversos outros tipos de drogas. Pode ser surpresa para alguns saber que este filme sério e depressivo foi escrito e dirigido por ninguém menos que George Lucas, que seis anos depois lançaria um dos filmes mais "pipoca" de todos os tempos, STAR WARS.
Lucas havia se formado em cinema pela USC e era protegido de Francis Ford Coppola, que estava fundando a própria companhia, a American Zoetrope. Há quem diga que Coppola usou Lucas para conseguir 300 mil dólares da Warner Brothers para fundar sua empresa em troca da promessa de um longa metragem, que seria THX 1138. A Warner teria odiado o filme, exigido o dinheiro de volta e editado o filme contra a vontade de Lucas.
A versão que está na Netflix é uma "edição especial" feita por Lucas em 2004. A imagem está maravilhosamente limpa, mas Lucas, como fez com Star Wars, modificou várias sequências com efeitos especiais digitais que aumentaram cenários, acrescentaram pessoas, trens, etc. Mas são mudanças menos invasivas do que as feitas em Star Wars e o resultado não muda tanto o filme original.
Engraçado notar que, apesar de THX e Star Wars serem tematicamente tão diferentes, há várias semelhanças técnicas entre os dois filmes. Note como as conversas ouvidas pelo rádio dos controladores da cidade em THX são quase idênticas às mensagens trocadas pelos rebeldes pelo rádio quando estão atacando a Estrela da Morte, por exemplo. Semelhante também o fato de que Lucas usou cenários reais de estúdios de televisão e processamento de dados para simular um ambiente futurista nos dois filmes (o controle da Estrela da Morte, que destrói planetas, nada mais é do que um manche de uma controladora de estúdio de TV).
Cerebral, lento e depressivo, THX 1138 não é para o gosto da maioria, mas é um filme bastante interessante. Robert Duvall está ótimo no papel principal. O elenco ainda conta com Donald Pleasense como um rival. O plano final deste filme é das coisas mais lindas já feitas no cinema. Disponível na Netflix.
"FOR THE LOVE OF SPOCK" é um documentário dirigido por Adam Nimoy, filho de Leonard Nimoy, que ficou famoso internacionalmente por ter interpretado o personagem Spock, da série Star Trek (Jornada nas Estrelas, no meu tempo).
O documentário foi produzido via crowdfunding no Kickstarter e conta com uma série de depoimentos de atores que contracenaram com Nimoy na série de TV e nos filmes de cinema, como William Shatner, George Takei, Nichelle Nichols e George Koenig, além dos atores dos novos filmes de cinema Simon Pegg, Chris Pine, Zoe Saldana, Karl Urban e Zachary Quinto. O filho de Nimoy narra e conduz as entrevistas com os atores e também com membros da família, fãs, diretores e produtores em geral.
Para quem é fã nível avançado (como eu, rs) o documentário não traz muitas novidades. Quem já leu os livros a respeito de Star Trek ou sobre Nimoy vai reconhecer as histórias de sempre, do começo humilde em uma comunidade judaica de Boston ao estrelato em Los Angeles nos anos 1960, a carreira bem sucedida no teatro, os filmes de cinema de Star Trek e uma competente carreira como diretor ("Três Solteirões e um Bebê", dirigido por Nimoy, foi o campeão de bilheteria de 1987).
De novidade mesmo é saber sobre a relação de Leonard Nimoy com o filho Adam, que visitava o pai nos sets de filmagem quando criança mas, com o tempo, acabou se afastando dele até perto do final da vida, quando retomaram o contato. Nimoy acabou morrendo em 27 de fevereiro de 2015, de complicações no pulmão causadas pelo fumo. "For the love of Spock" está disponível na Netflix.
Basta que os primeiros acordes de "On the Nature of Daylight", de Max Richter, comecem a tocar para que diretor canadense Denis Villeneuve estabeleça o tom de seu "filme de invasão extraterrestre". Esqueçam "Independence Day", este é um filme muito mais sobre conflito interno do que externo. As gigantescas naves alienígenas em forma de semente que descem dos céus parecem falar diretamente com uma mulher chamada Louise Banks (Amy Adams, ótima), uma linguista especializada em idiomas estranhos (como o Português, como ela fala para seus alunos em cena no início do filme).
Louise não é uma heroína tradicional. Enquanto o mundo está assustado à sua volta, carros trombam e caças fazem rasantes nos céus, Louise caminha calmamente da Universidade em pânico até o estacionamento, depois para casa. Ela carrega uma tragédia, a perda de uma filha por uma doença rara que acompanhamos nos primeiros minutos de filme. Para uma mulher especializada em línguas, Louise é uma mulher de poucas palavras. Não demora muito, porém, para que ela seja requisitada pelo exército americano (na figura de Forest Whitaker) para viajar até o estado de Montana tentar estabelecer um contato com os alienígenas.
O que se segue é uma mistura de "Contato", livro de Carl Sagan adaptado para filme de Robert Zemeckis em 1997 com "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", que Steven Spielberg escreveu e dirigiu em 1977. Há também elementos de "A Árvore da Vida" (2011), de Terrence Malick. Acima de tudo, há o toque todo especial de Villeneuve, diretor canadense que, em sua breve filmografia, já fez algumas das obras mais interessantes dos últimos anos, como "Incêndios" (2010), "Os Suspeitos" (2013), "O Homem Duplicado" (2013) e "Sicário" (2015). A gente até o perdoa pela ousadia de estar filmando a continuação de "Blade Runner" (dedos cruzados).
As melhores cenas do filme são as tentativas de Amy Adams e Jeremy Renner de se comunicar com os extraterrestres. Como estabelecer um diálogo entre espécies completamente diferentes? Os sons que eles produzem são palavras ou apenas ruídos? Eles entendem os conceitos de "eu", "você", "pergunta" e "resposta"? Quando os aliens finalmente começam a responder, em intricados desenhos que se formam no ar, é tão bem feito e intrigante que, por um momento, até esquecemos que estamos vendo uma obra de ficção e não uma língua extraterrestre de verdade.
Enquanto isso, mundo afora, o diálogo entre as nações está cada vez mais difícil. Há os que olham para as naves com desconfiança e medo, mas a verdadeira ameaça, pelo jeito, está no perigoso jogo de poder entre as diversas facções aqui mesmo na Terra.
(ATENÇÃO, A PARTIR DE AQUI ALGUNS DETALHES MAIS IMPORTANTES DA TRAMA SERÃO CITADOS. AVISO DE SPOILER)
Tudo isso leva para um terceiro ato um tanto confuso em que, por um momento, achamos que o roteiro não sabe para onde está indo. Até que somos lembrados novamente de que este não é um filme sobre o externo, mas sobre os dramas internos, principalmente femininos, vividos pela personagem de Adams. Há até lugar para uma revelação que muda o modo como podemos ver o filme todo. As memórias de Adams, apresentadas como flash backs por toda narrativa, de repente se tornam circulares (assim como a linguagem dos aliens), sendo difícil, por um momento, saber se eles vieram do passado ou do futuro. A mudança na direção do tempo também mostra o enorme sacrifício enfrentado por Louise, que resolve ir em frente na concepção da filha mesmo sabendo da tragédia que a espera. É um tanto messiânico e, talvez, pretensioso, mas o filme termina de forma poderosamente melancólica, ligando conceitos como maternidade, salvação e morte. Estamos todos aqui para nascer, crescer e morrer, não necessariamente nesta ordem. Mas precisamos, sempre, nos comunicar.
PS (enviado em 01/12/2016)
Li "Story of your Life", de Ted Chiang, o conto que deu origem ao
filme "A Chegada", de Denis Villeneuve.
Muito, muito interessante o conto. A princípio, diria que
gostei mais do filme, que é mais emocional, mais trágico, mais
envolvente. O conto me deu a impressão de ser uma tese de linguística
transformada em tema de ficção científica. Há páginas e páginas
descrevendo conceitos linguísticos, fonética, escrita, idiomas,
aquisição de conhecimento, etc. O pano
de fundo é o mesmo, a Terra foi visitada por extraterrestres batizados
de "Heptapods" por causa do formato do corpo. Louise Banks, uma
linguista, é chamada para fazer parte da equipe que vai tentar entrar em
contato com eles. Ela me pareceu uma mulher bem centrada e tranquila,
ao contrário da (maravilhosa) Amy Adams que, no filme, carrega a dor
pela perda da filha a cada respiração, a cada olhar. A história da filha
e da morte dela também estão no conto mas me pareceu serem parte de uma
discussão científica sobre o tempo, determinismo, livre arbítrio, etc,
tudo de forma ordenada e um tanto "fria" (o que não é ruim, é só
diferente).
Resumindo, o
filme puxa pela emoção, pelo mistério, pela grandiosidade. O conto puxa
para o intelecto e para discussões científicas. Ambos são muito bons à
sua maneira.
"Mais forte que bombas" começa com o nascimento de um bebê. Curiosamente, é um filme muito mais sobre morte do que sobre nascimentos. Ou, talvez, seja a respeito de como as memórias fragmentadas da vida de uma pessoa podem gerar a criação de outra.
O bebê é filho de Jonah (Jesse Eisenberg), um professor de sociologia que perdeu a mãe recentemente. Ela era uma grande fotógrafa de guerra chamada Isabelle, encarnada por ninguém menos do que outra Isabelle, a Huppert (de "Elle"). Isabelle morreu em um acidente de carro e deixou para trás o marido Gene (Gabriel Byrne, sempre competente) e os filhos Conrad (Devin Druid) e Jonah.
Uma agência fotográfica de Nova York está organizando uma exposição em homenagem a Isabelle e um antigo colega fotógrafo (interpretado por David Strathairn) vai escrever um artigo sobre ela no "The New York Times". "Eu pretendo escrever a verdade sobre a morte dela", informa o fotógrafo ao marido de Isabelle. Qual verdade? Teria sido a morte dela realmente acidental ou ela teria jogado seu carro contra um caminhão?
O anúncio do artigo gera turbulência na já conturbada família de Gene, Jonah e Conrad. O último era muito jovem quando a mãe morreu e não sabe em detalhes como tudo aconteceu. Tímido e extremamente introvertido, Conrad passa os dias com um fone de ouvido espetado na orelha ou jogando videogames. O pai sofre silenciosa e violentamente tentando achar um meio de se conectar com o filho adolescente. Há uma bela cena em que ele conta para a amante (e professora de Conrad) que ele criou um "avatar" dentro do jogo online onde o filho passa grande parte do dia para se comunicar com ele.
O filme é dirigido por Joachin Trier e escrito por Trier e Eskil Vogt. É uma obra de silêncios e muita observação. "É tão difícil assim falar comigo?" perguntam dois personagens em diferentes partes do filme. A montagem é não linear e mistura o presente com diversos flashbacks, memórias e passagens de sonhos. Há diversas narrações que tentam passar o que realmente acontece dentro daqueles personagens, tão fechados e tão sofridos. Huppert passa pelo filme como um verdadeiro fantasma, uma memória que as pessoas ainda tentam manter viva em suas mentes mas que, com o tempo, vai mudando. Em um momento ela parece forte e decidida, em outro uma garota assustada. Há um plano belíssimo em que a câmera apenas fica filmando o rosto de Huppert de frente, que nem mesmo pisca por vários segundos. "Quem sou eu?", a imagem parece perguntar. "Mais forte que bombas" está disponível na Netflix.
O Dr. Stephen Strange surgiu nos quadrinhos em 1963, criado a quatro mãos pelo "mago" Stan Lee e pelo desenhista Steven Ditko (os mesmos que criaram o Homem Aranha). As tramas do Dr. Estranho eram passadas em "multiversos" e mundos paralelos que ecoavam o psicodelismo dos anos 1960. Foi tão influente que o Pink Floyd não só citou o doutor nas letras de uma canção (Cymbaline, do álbum "More", 1969) como os quadrinhos serviram de base para a capa do segundo álbum da banda, "A Saucerfull of Secrets" (1968). Em troca, podemos escutar "Interstellar Overdrive", do Floyd, em cena chave do filme atual.
Strange chega à tela grande na forma de Benedict Cumberbatch e baseado em efeitos especiais tão mirabolantes que deixariam Christopher Nolan zonzo. Há cenas impressionantes (que lembram algumas cenas de "A Origem", de Nolan) em que os magos da Industrial Light & Magic retorcem não só ruas, mas cidades inteiras. "O que você colocou no meu chá?", Cumberbatch pergunta a Tilda Swinton no primeiro encontro entre eles, no Nepal.
Cumberbatch interpreta Strange com a competência de sempre, misturando um pouco a genialidade (e arrogância) de seu Sherlock Holmes com outros papéis que interpretou, como o matemático Alan Turing. No início do filme encontramos Strange como um cirurgião que é a estrela do hospital em que trabalha. Sua habilidade na mesa de cirurgia só não é maior que seu ego. Tudo parece perdido em uma noite em que Strange sofre um acidente de carro que deixa graves sequelas. Inconformado por não encontrar a cura na medicina tradicional, Strange parte para o Nepal onde vai se encontrar com a "Anciã" (Swinton, divertida, cuja escalação causou polêmica pelo fato de terem escolhido uma mulher branca para interpretar uma oriental). O filme pisa fundo na psicodelia e a Anciã mostra a um cético Strange os "multiversos" e suas ramificações.
Mads Mikkelsen interpreta Kaecilius, um ex-pupilo da Anciã que mudou "para o lado negro da Força" e está tentando conjurar um feitiço para atrair um grande vilão que vive em um mundo além do Tempo. O elenco ainda conta com Chiwetel Ejiofor como um seguidor da Anciã e uma desperdiçada Rachel McAdams como uma médica que é o interesse amoroso de Strange.
A trama segue o mesmo padrão "vilão-maluco-que-quer-poder-eterno" de tantos outros filmes, misturado a muita filosofia de biscoito da sorte, viagens astrais, loops temporais e cenas visualmente interessantes. Nem tudo funciona, o filme poderia ser mais curto e mais focado, por exemplo. A trilha sonora de Michael Giacchino lembra muito os temas que ele criou para os últimos filmes de Star Trekm as ainda é inspirada.
Com altos e baixos e em meio a tantos filmes de super heróis, "Doutor Estranho" é uma viagem e tanto.
"O Contador" é o tipo de filme que eu costumo chamar de "bobagem divertida". Imagine um personagem que é um gênio matemático como o John Nash interpretado por Russell Crowe em "Uma Mente Brilhante" (2001), ou o Will Hunting de Matt Damon em "Gênio Indomável" (1997); acrescente a isso o autismo de Dustin Hoffman em "Rain Man" (1988). Para finalizar, imagine que este personagem também é um mestre em artes marciais e um sniper capaz de acertar uma mosca a um quilômetro de distância. Este é Christian Wolff (Ben Affleck), um rapaz discreto e metódico que o resto do mundo conhece como um pacato contador do sul de Chicago.
Acontece que o chefe do Departamento do Tesouro americano (o grande J.K. Simmons) está atrás dele. Wolff aparece anonimamente como uma figura misteriosa em diversas fotos de traficantes e outros criminosos famosos mundo afora e estaria ligado ao massacre de um grupo de mafiosos. Simmons recruta uma jovem analista (Cynthia Addai-Robinson) para descobrir quem é este misterioso "contador" que, milagrosamente, ainda não foi morto por nenhum destes criminosos.
O roteiro (divertidamente absurdo) empilha uma série de tramas e subtramas nos confusos vinte minutos iniciais do filme. Flashbacks nos mostram a infância sofrida do personagem de Affleck, uma criança problemática que acaba afugentando a mãe e provocando no pai (um rigoroso homem do exército) uma forte reação: ele treina o filho autista, mais seu irmão pequeno, em artes marciais, técnicas diversas de defesa e, na escola, a não levar desaforo para casa. "Todo mundo que é diferente acaba assustando as pessoas", recita o pai.
No presente, Ben Affleck é contratado por uma firma de robótica para analisar os livros de contabilidade. Uma jovem funcionária, Dana (Anna Kendrick, que já está um pouco velha para o visual adolescente), havia desconfiado de um desvio no dinheiro da empresa e Affleck é chamado para descobrir se é verdade. Isso dá ao filme a desculpa para mostrar aquelas cenas clichês de gênios matemáticos trabalhando, escrevendo furiosamente fileiras de números nas paredes de vidro de uma sala gigante e fazendo contas impossíveis na cabeça. Quando Affleck descobre que, de fato, alguém estava fazendo "caixa dois" na firma, uma série de assassinatos estranhos começam a acontecer, e logo o filme muda para a fase "Jason Bourne" e Ben Affleck pode mostrar as outras habilidades de seu personagem em grandes cenas de ação.
É tudo, como disse, uma grande bobagem, mas uma bobagem divertida. Há a participação especial de bons atores como John Lithgow, Jeffrey Tambor, Jean Smart e o já citado J.K. Simmons. Jon Bernthal chama a atenção como um assassino contratado para pegar o personagem de Affleck. Uma série de clichês culminam com um grande tiroteio no terceiro ato, em que revelações "surpreendentes" serão feitas. Se você entrar no jogo, pode se divertir com o filme. Se começar a pensar demais, os rombos de lógica vão por tudo a perder. Eu, confesso, me diverti.
A violência parece cercar Michèle Leblanc (Isabelle Huppert, ótima como sempre). Logo na primeira cena do filme testemunhamos, aparentemente, Michèle sendo estuprada por um homem que invadiu sua casa. As atitudes dela após o fato, no entanto, não parecem condizentes com uma mulher que acabou de ser violentada. No trabalho dela, mais violência, agora virtual. Michèle é dona de uma empresa que cria viodeogames, e o mais novo produto da casa mostra, com detalhes, uma mulher sendo violentamente atacada por um monstro. "Precisa ser mais forte", ela diz para um grupo de jovens desenvolvedores. No campo familiar, a mãe de Michèle fica insistindo para que ela vá visitar o pai na cadeia, preso há muitos anos por um crime bárbaro.
"Elle" é dirigido pelo lendário cineasta holandês Paul Verhoeven (78 anos), que depois de alguns sucessos na Europa, no começo dos anos 1980, foi conquistar a América com filmes como "Robocop" (1987), "Total Recall" (1990) e "Instinto Selvagem" (1992). O fracasso veio com a bomba "Showgirls" (1995) e outros filmes pouco vistos que levaram o diretor de volta à Europa. Verhoeven mostra toda sua competência neste filme em que mistura drama familiar com cenas de suspense à Alfred Hitchcock.
O roteiro é bastante francês. Michèle convive com o ex-marido, faz questão de conhecer a jovem namorada dele e tem um caso com o marido da melhor amiga. No corpo de qualquer outra atriz a personagem provavelmente passaria por fria, mas Huppert a interpreta com tanto carisma que Michèle, ao invés de ser uma mulher traumatizada e esmagada pelo passado, parece até conformada e pragmática com a série de fatalidades que acontecem na sua vida. Há uma curiosa ligação entre violência e intimidade no filme de Verhoeven que também é bastante européia. Sobre a trama não se pode falar muito sem acabar revelando detalhes. Assim como Hitchcock, Verhoeven entende que o bom filme de suspense não é o que guarda segredo por muito tempo, mas sim o que o revela no meio da trama e deixa o espectador ainda mais interessado no que vai acontecer.
"Elle", marquem aí, é boa aposta para o Oscar de melhor filme estrangeiro ano que vem. (e pode até sobrar uma indicação para Huppert).
Havia o Robin Williams comediante, com sua performance acelerada, as frases saindo como uma metralhadora, os movimentos ágeis, as dezenas de vozes diferentes, o humor ácido e contundente, de filmes como "Bom dia, Vietnam", "Alladin", "Uma Babá Quase Perfeita" e "Jumanji". Havia também outro Robin Williams, de voz suave e paternal, o olhar triste e introspectivo, que interpretava o professor de "Sociedade dos Poetas Mortos", o psiquiatra de "Gênio Indomável", ou o viúvo trágico de "Amor Além da Vida". E havia ainda outro Robin Williams, pouco conhecido do grande público, que era o ator que se arriscava em filmes independentes como "Retratos de uma Obsessão", "Violação de Privacidade" e "O Melhor Pai do Mundo". Todos estes personagens encontraram um fim trágico em agosto de 2014, quando o corpo do comediante foi encontrado em sua casa, aparentemente vítima de suicídio.
Um de seus últimos filmes, "Boulevard" (a Netflix exibe o filme com o título de "Avenida") traz Williams em um de seus papéis arriscados. Ele interpreta Nolan Mack, um bancário que trabalha há 26 anos na mesma agência, almoça sempre no mesmo lugar e está casado com a mesma mulher (a ótima Kathy Baker) há décadas. Ele parece o marido ideal. É carinhoso com a esposa, lhe leva café na cama, prepara jantares e até lava a louça. Nolan cuida do pai doente em uma casa de repouso e é tão profissional que o gerente do banco está preparando uma promoção para ele.
As coisas, porém, não são exatamente o que parecem. Nolan esconde de todos, até dele mesmo, um segredo; Nolan é gay. Uma noite, voltando da casa de repouso do pai, ele para em um semáforo e é atraído por um garoto de programa chamado Leo (Roberto Aguire). Ele leva o rapaz até um motel mas, apesar da disposição do garoto, Nolan quer "apenas conversar". Os dois começam um "relacionamento" baseado não só na enorme carência de Nolan mas também no seu dinheiro. Leo tenta manter as coisas de forma "profissional" mas, aos poucos, parece corresponder ao interesse de Nolan, que é uma mistura de desejo físico (apesar de quase platônico) e uma preocupação paternal pelo rapaz. A esposa, em casa, finge que não sabe o que está acontecendo, apesar deles dormirem em quartos separados e do marido tratá-la com muito respeito e carinho, mas nenhum (por falta de uma palavra melhor) "tesão".
O filme, escrito por Douglas Soesbe e dirigido por Dito Montiel, é lento e melancólico. Robin Williams carrega o filme nas costas, auxiliado pelo competente elenco (que também conta como Bob Odenkirk, de "Better Call Saul"). O fato de sabermos que foi o último papel de Williams empresta ao personagem ainda mais melancolia e peso. Robin Williams fala pouco, se movimenta devagar e está bem diferente do que se espera dele, mas é uma bela interpretação. O roteiro vai em um crescendo que, infelizmente, leva a um final que me pareceu fácil demais.
Um filme pequeno, bem dirigido e interpretado, que talvez será mais lembrado pela despedida precoce de Williams do que por sua trama. Disponível na Netflix.
Em algum lugar dentro do meu armário está perdida uma fita VHS. Em algum ponto desta fita há uns cinco, seis minutos de uma gravação feita com uma câmera VHS da SHARP cuja bateria pesava mais do que a maioria das câmeras de hoje. A gravação mostra um riacho de onde sai uma fumaça misteriosa, feita com gelo seco, e pela "floresta" (um bosque na cidade de Vinhedo) anda um rapaz de uns quinze, dezesseis anos vestindo um chapéu de Indiana Jones (comprado na Chapéus Cury, em Campinas, que segundo a lenda forneceu o material para o chapéu original de Indy), uma jaqueta de couro e uma bolsa marrom pendurada no pescoço.
Este rapaz era eu.
Confesso que não sei se estas imagens realmente existem ainda ou se a tal fita está entre as dezenas de VHS que estão guardadas no meu armário; mas me lembrando daquele dia em que eu e um amigo fomos criar uma cena de Indiana Jones fica fácil entender a obsessão de três garotos americanos. Depois de terem assistido a "Caçadores da Arca Perdida" no cinema, Chris Strompolos, Eric Zala e Jayson Lamb resolveram que iriam refazer o clássico de Steven Spielberg cena a cena. O projeto, gravado em VHS no porão e nos arredores da casa de um deles, acabou durando mais de sete anos e os meninos foram crescendo em frente às câmeras. A adolescência e os problemas da vida adulta acabaram afastando os três. O filme, porém, foi terminado e, sem o conhecimento deles, ganhou fama no submundo dos festivais de cinema até que a fita foi parar nas mãos do ator e diretor Eli Roth, de filmes de terror como "O Albergue". Ele entrou em contato com os rapazes e organizou sessões que lotaram de cinéfilos e nerds em geral. Steven Spielberg em pessoa tomou conhecimento do filme e chamou os rapazes para conhecê-los.
Tudo isso está em "Raiders!", documentário que a Netflix está exibindo em sua programação. Os fatos citados acima são bastante interessantes e o que o documentário tem de melhor. Há outro aspecto do filme, porém, que me deixou dividido. Os três rapazes são agora adultos com mais de quarenta anos, esposas, filhos, empregos, e eles resolvem que vão produzir uma sequência que não haviam conseguido fazer nos tempos de criança: a cena em que Indy luta com um mecânico grandalhão sob um avião em forma de asa. Se ver um grupo de crianças brincando de ser Steven Spielberg era divertido, fica bem menos interessante (e até um pouco bobo), porém, ver adultos tentando fazer o mesmo. As ótimas cenas de arquivo das crianças refazendo Indy são entrecortadas por longas sequências e entrevistas de quarentões negociando prazos, tentando levantar dinheiro ou simplesmente tentando manter o emprego. Há também aqueles momentos bregas (tipicamente americanos) em que a esposa diz que quer ver o marido feliz e que ele deve "seguir seus sonhos". Há também confissões sobre problemas com drogas, divórcios e os problemas da vida pessoal deles que, pessoalmente, não me interessavam.
No geral, porém, o documentário é bastante divertido e mostra como um filme pode mudar a vida de um grupo de garotos. "Caçadores da Arca Perdida" sempre foi meu filme preferido (não significa que seja "o melhor filme da História do Cinema", entendam a diferença) e perdi as contas de quantas vezes vi em VHS, DVD e, recentemente, em uma reprise na telona do cinema. É fácil ver como o filme fascinou aqueles garotos e os colocou para trabalhar. Quando eles crescem e ficam gritando uns com os outros, porém, fica menos interessante.