domingo, 2 de janeiro de 2022

Vingança e Castigo (The Harder They Fall, 2021)

Vingança e Castigo (The Harder They Fall, 2021). Dir: Jeymes Samuel. Netflix. Western revisionista da Netflix que me surpreendeu. Quando o filme começou, com abertura estilizada, música moderna de hip hop e cenas em câmera lenta, achei que fosse ser mais uma daquelas produções que tentam emular filmes de Tarantino, cheias de estilo mas (ao contrário de Tarantino) sem nada a mais. O diretor, Jeymes Samuel, é um músico negro de Londres que faz aqui sua estreia como diretor e roteirista; o resultado é um filme vibrante, estilizado até a última gota, sim, mas que não é só uma longa piada com o gênero Western, mas um Western "de verdade". A influência de Tarantino está em todos os planos, lembrando que o próprio Tarantino já havia "emprestado" esses planos do italiano Sergio Leone (que os havia roubado dos mestres americanos, e assim por diante).

É um filme de vingança. Na cena de abertura, um cruel bandido entra em uma casa e mata o pai e a mãe de um garoto a sangue frio. O bandido ainda puxa um canivete e marca uma cruz na testa do garoto. Anos depois, o menino cresceu para se tornar Nat Love (Jonathan Majors), o líder de uma gangue. Nat está atrás do homem que o marcou quando criança, Rufus Buck (o grande Idris Elba). Idris Elba, aliás, só é visto depois de uns vinte minutos de filme, mas sua mera presença já é suficiente para causar medo e respeito. Rufus Buck é chamado várias vezes de "Demônio", e seu personagem é realmente assustador.

O elenco é ótimo e praticamente todos os personagens são negros. A gangue de Nat Love tem Delroy Lindo e Zazie Beetz (da série "Atlanta" e do filme "Coringa"). A gangue de Rufus tem Regina King (roubando todas as cenas) e Lakeith Stanfield (também de "Atlanta" e "Judas e o Messias Negro"). A trilha é do próprio diretor e conta com canções de Seal, Miss Lauryn Hill, Jay Z, entre outros. O filme está na Netflix, mas a tela larga e enquadramento foram claramente pensados para uma telona de cinema. Com duas horas e dezenove minutos, poderia ter umas cenas a menos (há uma sequência de assalto em uma "cidade branca" que poderia ter sido descartada, apesar de uma "revelação" engraçada sobre um dos personagens). É bastante violento, com tiros na cabeça, sangue voando, dentes arrancados, etc, embora seja uma violência (também) estilizada. Tá na Netflix.

O Lobo Atrás da Porta (2013)

O Lobo Atrás da Porta (2013). Dir: Fernando Coimbra. Netflix. Bom suspense brasileiro na Netflix, o filme trata do desaparecimento de uma menina, Clarinha, na porta da escola. A investigação policial inicia uma série de flashbacks (nem todos confiáveis) que contam a mesma história de diversos pontos de vista. O pai da menina, Bernardo (Milhem Cortaz), tem certeza que a culpada pelo sequestro da filha é Rosa (Leandra Leal), sua jovem amante de 25 anos. Fabíula Nascimento completa o elenco como Sylvia, esposa de Bernardo.

Fernando Coimbra, que fez sucesso com vários curtas antes de estrear na direção e roteiro deste filme, dirige com maestria o bom elenco, auxiliado por uma direção de fotografia inspirada de Lula Carvalho (Tropa de Elite, Bingo). Há vários planos estáticos longos, em que os atores interpretam por vários minutos, sem cortes. Quando a câmera se movimenta, porém, é em elegantes planos que acompanham os personagens pelas ruas do Rio de Janeiro. A edição de Karen Ackerman consegue criar sentido a partir dos vários pontos de vista que contam a história. O final pode ser um pouco clichê, mas é potente e apropriado a um filme de gênero como este. Tá na Netflix.

Duna (Dune, 2021)

Duna (Dune, 2021). Dir: Denis Villeneuve. Não ia ao cinema desde janeiro de 2020. Em pandemia, havia prometido a mim mesmo que só "Duna" me faria arriscar uma sala de cinema, e isso no ano passado; o filme foi adiado em um ano e chegou finalmente às salas de todo mundo. Nos EUA, "Duna" estreou simultaneamente na HBO Max (o que causou protestos de Denis Villeneuve e de vários outros diretores). Mas é definitivamente para ser visto no cinema, e troquei a TV de casa por um IMAX maravilhoso.

Qualquer um que me conheceu desde os quatorze anos de idade já me viu com "Duna" debaixo do braço. A versão que David Lynch cometeu em 1984 é bem ruim e nunca vi inteira. Ai o grande diretor canadense Denis Villeneuve ("A Chegada", "Sicario", "Blade Runner 2049") assumiu o projeto e o filme que chega às telas agora é, com ressalvas, bastante bom. É daqueles filmes com visual impressionante (tudo em uma ESCALA gigantesca) ótimos figurinos, fotografia, trilha sonora, etc. Não faço ideia de como o filme é recebido por alguém que não leu o livro mas, do meu ponto de vista, o roteiro (de Villeneuve, Erik Roth e Jon Spaihts) fez um bom trabalho de adaptação do "tijolo" que é a obra original de Frank Herbert.

O elenco é de primeira; Timothée Chalamet, Oscar Isaac, Rebeca Ferguson, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Jason Momoa, Zendaya, Javier Bardem, Charlote Rampling, entre outros. Chalamet está bastante bem como Paul Atreides, o herdeiro da Casa Atreides que descobre que também foi criado para ser uma espécie de "messias" pelas Bene Gesserit, uma ordem de mulheres da qual a mãe de Paul, Jessica (Rebeca Ferguson) faz parte. Tudo isso está ligado à uma trama complicada envolvendo política imperial, maquinações da corte, traições, golpes de estado, etc. Apesar de algumas mudanças, Villeneuve conduz algumas sequências de forma bem próxima ao livro original, e foi emocionante ver como as imagens dele eram parecidas com as que imaginei na cabeça durante todos esses anos.

Uma crítica que se pode fazer é que, por questão de tempo, o filme simplesmente termina lá pelo meio do livro. Toda a promessa épica do começo do filme termina com um final que, apesar de fiel a um trecho do livro, me pareceu meio apressado. Nessa época de séries épicas de TV como "Game of Thrones", "Fundação", etc, é de se perguntar se um livro longo e complicado como este não funcionaria melhor como uma minissérie, mas (grande) parte de mim está feliz que não tenham ido por este caminho. O futuro de Duna no cinema, porém, é incerto. Ao contrário de "O Senhor dos Anéis", que foi produzido como uma trilogia desde o início, Villeneuve não filmou a segunda parte do livro ainda. "Duna" foi bem recebido pelos críticos, mas ainda não se sabe se a bilheteria justificaria o investimento de uma continuação. Ironicamente, talvez a continuação seja "salva" justamente pela HBO Max, que provavelmente gostaria de tê-lo no catálogo. Enquanto isso não acontece, eu pretendo rever este aqui.

O Espião Inglês (The Courier, 2020)

O Espião Inglês (The Courier, 2020). Dir: Dominic Cooke. Amazon Prime. Bom filme de espionagem baseado na história real de um vendedor chamado Greville Wynne (Benedict Cumberbatch). Ele era um inglês que vendia peças para máquinas em países do leste europeu nos anos 1950 e 1960. Um dia ele é convidado para almoçar com um agente do MI-6 (Angus Wright) e uma agente da CIA (Rachel Brosnahan). Eles querem que o personagem de Cumberbatch comece uma "transação comercial" em Moscou com um homem chamado Oleg Penkovsky (Merab Ninidze); ele é um coronel soviético do alto escalão que, preocupado com as manobras do premier Nikita Kruschev com armas nucleares, decide compartilhar informações com o Ocidente. Segundo ele, o premier soviético quer provocar os americanos a começar uma guerra nuclear.


O vendedor interpretado por Cumberbatch não é um espião, mas é um vendedor com muita lábia; apesar do perigo, ele consegue se aproximar de Penkovsky e começa a trazer de Moscou fotos e documentos secretos. É um filme de espionagem à moda antiga, com os soviéticos cumprindo seu papel de vilões, embora os americanos não sejam vistos como os bonzinhos de sempre (a agente da CIA interpretada por Rachel Brosnahan é muito manipuladora).

Além da trama de espionagem, há também o lado humano dos personagens. O coronel soviético é interpretado por um ótimo ator russo chamado Merab Ninidze e seu personagem cria uma grande amizade com o vendedor britânico. Há também cenas mostrando as famílias dos dois espiões (Jessie Buckley interpreta a esposa de Cumberbatch) e como o trabalho os afeta. É um bom filme, que lembra um pouco "Ponte dos Espiões", de Steven Spielberg. Disponível na Amazon Prime.

Anos 90 (Mid 90s, 2018)

Anos 90 (Mid90s, 2018). Dir: Jonah Hill. HBO Max. Estreia na direção (e roteiro) do ator Jonah Hill (O Lobo de Wall Street), "Anos 90" é uma visão bem pessoal de um modo de vida anterior às redes sociais (e pré-11 de setembro) dos EUA. Hill fez o filme em 16mm, em formato 4:3, o que lhe dá um ar nostálgico e "cru", que parece um documentário.

Stevie (Sunny Suljic, excelente) é um garoto de 13 anos, de Los Angeles, que mora com a mãe solteira (Katherine Waterston) e o irmão mais velho (Lucas Hedges). A mãe faz o que pode para educar os garotos, mas ainda está meio perdida na vida, e o irmão mais velho surra Stevie sempre que pode. O garoto então passa a frequentar uma loja de skate em que faz amizade com um grupo de "garotos perdidos", alguns bem mais velhos que ele; os rapazes acabam aceitando o garoto no grupo e o iniciam em uma vida que consiste em andar de skate, experimentar drogas, álcool e ir a festas em que Stevie não deveria estar.

O filme foi criticado pela quantidade de palavrões que os garotos falam e até classificado como racista e homofobico (em uma cena, um garoto fala para Stevie que ele parece "gay" por dizer "obrigado" o tempo todo), mas este é um filme passado nos anos 90, retratando um bando de skatistas... imagino que diálogos politicamente corretos eram bastante raros. É um "filme independente" até a medula, com trilha sonora composta por canções da época e fotografia que lembra algo que Gus Van Sant poderia ter feito (pensei também em "Kids", o polêmico filme de Larry Clark sobre adolescentes nos anos 1990).

É curtinho, uma hora e vinte e cinco minutos, e bastante honesto. Disponível na HBO Max. 

Tempo (Old, 2021)

 

Tempo (Old, 2021). Dir: M. Night Shyamalan. Depois de tantos "filmes Netflix" ou similares, que bom ver um filme começando com a vinheta da Universal e com um diretor que, aos trancos e barrancos, sabe o que está fazendo. "Tempo", de M. Night Shyamalan, está longe de ser perfeito, mas enquanto ele é bom, ele é bom (e então fica
genericamente ruim).

Uma família modelo chega a um resort de luxo (que me lembrou muito a série "The White Lotus", da HBO). Eles são Gabriel Garcia Bernal (Guy) e Prisca (Vicky Krieps), acompanhados por um filho e uma filha. O casamento, apesar de parecer feliz, está com problemas, e talvez esta seja a última viagem deles como uma família. O gerente do hotel lhes oferece um dia em uma praia exclusiva e eles são levados para lá em uma van guiada por M. Night Shyamalan em pessoa (ele gosta de fazer pontas em seus filmes). Eles não estão sozinhos, no entanto. Na praia também estão um médico (Rufus Sewell), a esposa mais nova, a mãe idosa e outra criança. O grupo também é formado por um enfermeiro, uma psicóloga e um rapper.

Não demora muito para eles perceberem algo assustador. As crianças estão crescendo a olhos vistos. Todos, na verdade, estão envelhecendo rapidamente. Quando alguém tenta fugir da praia, a pessoa acaba acordando de volta nela, com dor de cabeça. É um cenário de "Além da Imaginação" que Shyamalan filma muito bem. A câmera, inquieta, faz vários movimentos entre os personagens e, por vezes, as crianças já são vistas interpretadas por outros atores mais velhos (como a ótima Thomasin McKenzie). Os adultos tentam achar uma explicação racional para o que está acontecendo. As crianças procuram nos pais um porto seguro (e não encontram).

Todos nós ficamos mais velhos, um dia de cada vez, então é fácil se identificar com o terror dos personagens, envelhecendo anos em questão de horas. O filme funciona muito melhor nestas sequências em que ninguém sabe o que está acontecendo. O problema é que Shyamalan tenta jogar para a plateia (que gosta de tudo mastigado) e termina com uma "explicação" decepcionante (qualquer explicação seria, provavelmente). Mas, como disse, enquanto é bom, o filme é bom. Há uma bela sequência na praia, quando as crianças estão brincando, em que câmera para sobre uma delas, brincando de "estátua", como se quisesse parar o tempo. Filme lançado só nos cinemas (mas já estão circulando cópias boas internet afora).

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Tokyo Trial (2016)

Tokyo Trial (2016). Dir: Rob W. King e Pieter Verhoeff. Netflix. Minissérie em quatro capítulos que encontrei por acaso no catálogo da Netflix, "Tokyo Trial" é uma coprodução da NHK (TV Japonesa) com a Holanda e o Canadá. O roteiro trata de um período da História que, apesar de muito importante, não é muito falado; ao contrário do famoso julgamento de Nuremberg, que condenou os nazistas ao final da 2ª Guerra Mundial, o julgamento de Tokyo é pouco conhecido. Após a rendição do Japão, o país foi ocupado por forças aliadas lideradas pelo General McArthur (Michael Ironside). Um tribunal internacional composto por 11 juízes foi formado para julgar políticos e militares japoneses por crimes de agressão e contra a humanidade. Planejado para durar inicialmente seis meses, o julgamento levou dois anos e meio e os resultados foram mais complexos e dissidentes do que os de Nuremberg.

A minissérie não é um documentário mas, aparentemente, se mantém bem próxima dos fatos. Em vários momentos são usadas imagens reais do julgamento da época, entrecortadas com imagens dos atores. Textos e até um narrador completam a parte mais "documental" da série. Creio que os episódios se destinem mais a pessoas interessadas em História (e/ou Direito) do que como simples diversão.

Apesar de, inicialmente, se acreditar que o julgamento iria seguir Nuremberg e levar à condenação rápida dos japoneses, o julgamento de Tokyo levantou vários questionamentos sobre as acusações ou mesmo sobre a validade do tribunal. Irrfan Khan interpreta o Juiz Pal, indiano que não acreditava que os japoneses pudessem ser condenados por ações que, na época, não eram consideradas crime. O juiz holandês (interpretado por Marcel Hensema) também tinha suas dúvidas. Grande parte dos episódios se passa em uma sala de reuniões em que os juízes debatem seus argumentos. Os japoneses seriam culpados por atrocidades só por terem iniciado a guerra? E quanto às milhares de vítimas japonesas que morreram em bombardeios americanos (incendiários ou pelas bombas atômicas)? E o Imperador japonês, poderia ser responsabilizado? A pena de morte deveria ser aplicada? São quatro episódios de 45 minutos. Tá na Netflix.

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Kate (2021)

Kate (2021). Dir: Cedric Nicolas-Troyan. Netflix. Comecei a ver achando que iria parar depois de uns dez minutos, mas "Kate" é bem melhor do que esperava. Passado no Japão moderno, parece que estamos vendo um "anime" em live action. O roteiro é uma bobagem, mas o diretor francês tem bastante estilo e entrega alguns planos bem feitos seja em cenas de correria pelas ruas de Tokyo ou nas várias lutas corpo a corpo em restaurantes, ruelas escuras ou arranha-céus. A fotografia noturna usa luzes neon, projeções em prédios e luminosos que lembram um pouco "Akira" ou "Ghost in the Shell".

Mary Elizabeth Winstead cresceu e não é mais (faz tempo) aquela adolescente de "Scott Pilgrim". Aqui ela é uma assassina profissional chamada Kate, que trabalha para uma espécie de figura paterna interpretada por Woody Harrelson, que a treinou desde criança. (Meio spoiler, mas é a premissa do filme>>) Kate acaba envenenada mortalmente após assassinar o membro de um clã da Yakuza. Com apenas alguma horas de vida, ela parte para se vingar pelas ruas de Tokyo, matando um bocado de gente mesmo com a saúde se deteriorando a olhos vistos.

Winstead está bem no papel. Ela é boa atriz e se garante tanto nas cenas dramáticas quanto nas de ação. Há bastante violência em cenas de tiroteio, lutas com facas e até katanas. Kate acaba formando uma parceria (meio forçada) com uma adolescente (Miku Martineau) que é a sobrinha do chefão que ela pretende matar. Eu acho que o filme poderia terminar uns 15 minutos antes (como sempre) mas há um clímax bem feito, com muita pancadaria e tiros em um arranha-céu. Bobagem clichê divertida. Tá na Netflix. 
 

The White Lotus (2021)

The White Lotus (2021). Dir: Mike White. HBO Max. Minissérie em 6 capítulos que mistura o belo visual do Havaí com o retrato do pior que existe no ser humano, "The White Lotus" é deliciosamente perversa. A série é passada em um resort exclusivo de alta classe que só pode ser acessado por barco. A cena da chegada dos hóspedes, aliás, me lembrou o começo dos episódios de "Ilha da Fantasia". O hotel é frequentado pela "nata" dos turistas internacionais, quase todos brancos, ricos e acostumados ao melhor.

O hotel é gerenciado por Armond (Murray Bartlett, excelente), um alcoólatra que está sóbrio há cinco anos. Ele é cortês e competente, mas está no limite da paciência. Nesta semana, ele vai ter que lidar com: a) um casal em lua de mel formado por Shane Patton (Jake Lacy) e a esposa, Rachel (Alexandra Daddario). Shane é o típico "filhinho da mamãe", milionário que está passando férias em um paraíso, mas não se conforma que o hotel errou e o colocou na SEGUNDA maior suíte do hotel. Ele não vai se esquecer desse erro, nem que, com isso, estrague a lua-de-mel e as férias. A esposa, Rachel, vem de uma família com menos dinheiro e, aos poucos, percebe que entrou em uma roubada (embora ela não saiba direito o que quer da vida).

b)a família Mossbacher é formada por uma executiva bem sucedida, Nicole (Connie Britton), o marido Mark (Steve Zahn), a filha insuportável Olivia (Sydney Sweeney) e o filho Quinn (Fred Hechinger). Olivia trouxe uma amiga, Paula (Brittany O'Grady), e as duas têm um estoque de remédios e drogas capaz de dopar um exército. Nicole é workaholic e passa as férias em chamadas com a China. O pai, Mark, é um coitado que tenta se aproximar dos filhos mimados das formas mais idiotas do mundo. Os adolescentes, quando não estão no celular, só sabem mostrar como estão revoltados com as injustiças do mundo (enquanto aproveitam as férias em um resort dez estrelas).

c) Jennifer Coolidge é Tanya, uma "perua" de meia idade que traz na bagagem as cinzas da mãe, que ela pretende jogar no oceano. Ela bebe muito e está sempre com dores; em uma visita ao spa do hotel ela recebe uma massagem "milagrosa" de Belinda (Natasha Rothwell). Tanya se "apaixona" por Belinda e a convida para jantares e passeios, além de prometer financiar uma clínica particular para a massagista, que realmente acredita na promessa.

Todos estes personagens se cruzam pelos corredores luxuosos do hotel e pelas praias paradisíacas do Havaí mas, pelo jeito, nunca estão felizes. A série tem um humor muito sarcástico e há algumas cenas bastante fortes, que contrastam com a direção de fotografia maravilhosa e a trilha sonora composta por canções tradicionais do Havaí. Disponível na HBO Max.
 

Voyagers (2020)

Voyagers (2020). Dir: Neil Burger. Amazon Prime. Ficção-científica adolescente que foi bastante criticada, mas que não achei tão ruim (assisti com zero expectativas). A principal crítica é que o roteiro é basicamente uma versão espacial de "O Senhor das Moscas", livro de William Golding que mostrava o que acontecia a um grupo de crianças que naufragou em uma ilha deserta. Sem orientação de adultos e entregues à "natureza humana", o resultado era bem ruim.

Neste filme, 30 crianças são criadas desde bebês para partir em uma viagem sem volta; eles vão embarcar em uma nave que vai viajar por 86 anos até chegar a um planeta distante, em uma "nave geracional". Se tudo correr bem, só seus netos, nascidos na nave, chegarão ao destino. Richard (um competente Colin Farrell) é o único adulto a bordo. Dez anos depois, a nave é mantida pelos 30 (agora) adolescentes e por Richard. Só que alguns problemas começam a acontecer; os adolescentes descobrem que uma bebida azul, que eles tomavam depois das refeições, era uma droga que inibia o desejo sexual, entre outras coisas (as futuras gerações seriam criadas em laboratório, se dependesse dos cientistas). Eles param de tomar a droga e, aos poucos, começam a agir de forma desinibida, o que gera conflitos, revoltas, ciúmes e atração sexual.

O elenco adolescente é bom (Lily-Rose Depp, filha de Johnny Depp, está no elenco) e o filme tem bom visual e efeitos especiais competentes. O roteiro é um tanto previsível (mesmo para quem não leu "O Senhor das Moscas") mas, como disse, não é um filme ruim. Ele poderia, sim, ser bem mais ousado. A impressão que dá é que o diretor não pode (ou não quis) chocar o público, então o filme fica no meio do caminho quando trata de sexualidade ou violência. Disponível na Amazon Prime. 

Madame (2017)

Madame (2017). Dir: Amanda Sthers. Amazon Prime. Comédia dramática que poderia ter rendido bem mais, "Madame" lembra um pouco "Que horas ela volta?", filme brasileiro em que Regina Casé interpretava uma empregada "da família" em uma casa de São Paulo. Aqui, uma família americana rica tem uma casa enorme em Paris. O casal principal é interpretado pelos grandes Harvey Keitel e Toni Collette, excelentes. A empregada é Rossy de Palma, espanhola vista em vários filmes de Almodóvar.

A americana organiza um jantar de gala em que até o prefeito de Londres estará presente, mas há um problema: o filho de Harvey Keitel, Steven (Tom Hughes) aparece de surpresa, o que faz com que a mesa tenha 13 convidados. Para fazer um número par, a patroa pede que a empregada coloque um vestido e se sente à mesa ("fale pouco, beba pouco"). Só que um convidado, um vendedor de arte inglês (Michael Smiley), acaba se apaixonando pela espanhola (que ele acredita ser da realeza da Espanha).

Está armada uma comédia de erros em que o rico inglês começa a sair com a empregada espanhola, acreditando que ela é uma rica excêntrica, enquanto que a patroa americana não se conforma que a empregada tenha uma vida amorosa melhor do que a dela. Toni Collette está muito bem como uma mulher rica mas mal amada, que acha que a empregada deve voltar "ao seu lugar". O tom cômico se torna mais dramático conforme o ciúme da patroa aumenta e ela começa a interferir no romance da empregada. Harvey Keitel está divertido e Rossy de Palma está muito bem. É um filme bem europeu, com produção francesa mas falado em inglês. O tema poderia ter rendido mais, mas não é um filme ruim. Disponível na Amazon Prime.
 

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Quanto Vale (Worth, 2021)

Quanto Vale (Worth, 2021). Dir: Sara Colangelo. Netflix. O filme vale pelas interpretações de Michael Keaton, Stanley Tucci e Amy Ryan. Baseado na história de real dos acontecimentos após os atentados de 11 de setembro de 2001, Keaton interpreta o advogado Ken Feinberg; ele foi o responsável por chefiar uma comissão que iria determinar o valor das indenizações que os sobreviventes e suas famílias receberiam do governo americano. A comissão foi criada, também, para evitar que milhares de pessoas abrissem processo contra as companhias aéreas usadas pelos terroristas para derrubar o World Trade Center, em Nova York, e atacar o Pentágono, em Washington.

As melhores cenas envolvem o embate entre Michael Keaton e Stanley Tucci (excelente), que interpreta Charles Wolf; ele havia perdido a esposa no WTC e criado um grupo civil independente que não concordava com os valores determinados pela comissão oficial. Quanto vale uma vida? O valor da indenização deveria ser igual a todos ou variar dependendo da riqueza (ou pobreza) da família da vítima? É possível colocar um valor financeiro da perda de um pai, marido, esposa ou filho? O personagem de Michael Keaton tenta ver tudo de forma racional e matemática enquanto que Stanley Tucci quer que as vítimas sejam vistas como seres humanos, e não números.

O filme não chega a responder direito a estas questões, mas, como disse, vale pelas interpretações. Amy Ryan (sócia de Michael Keaton na firma de advocacia), entrevista pessoalmente dezenas de vítimas e suas famílias e se envolve de forma mais pessoal com seus dramas. O tema ainda é atual. Os atentados completam 20 anos este mês e centenas de bombeiros ainda lutam para receber indenizações por doenças adquiridas durante as operações de salvamento. Tá na Netflix.


Cowboys do Espaço (Space Cowboys, 2000)

Cowboys do Espaço (Space Cowboys, 2000). Dir: Clint Eastwood. HBO Max. Clint Eastwood era um jovem de 70 anos quando produziu, dirigiu e estrelou este filme. A premissa de “Cowboys do Espaço” é difícil de engolir, mas o filme é gostoso de ver e o elenco é ótimo. 40 anos depois de ter sido trocado por um macaco no programa espacial americano, Frank Corvin (Eastwood) é chamado pela NASA para consertar um satélite russo que estava caindo de volta para a Terra. O personagem de Eastwood havia desenhado o sistema de um satélite americano e seu programa havia sido roubado pelos soviéticos em plena Guerra Fria. Ele consegue convencer (chantagear, na verdade) os chefões da NASA que ele e sua antiga equipe eram os únicos capazes de consertar o satélite russo antes que ele queimasse na atmosfera. E que equipe; James Garner (72 anos na época), Donald Sutherland (65 anos) e Tommy Lee Jones (que só tinha 54 anos, mas sempre teve “cara de velho” e interpreta um piloto que teria a mesma idade de Eastwood).

O filme é bem divertido, dirigido com leveza por Eastwood e com interpretações bem humoradas dos outros atores veteranos. Há várias sequências que brincam com a idade dos personagens, como sequências de treinamento e exames médicos. James Cromwell (na época com 60 anos) faz seu tradicional papel de babaca burocrático como um dos diretores da NASA. A agencia espacial americana, aliás, deve ter apoiado o filme, pois várias sequências foram feitas em instalações da NASA, que na época ainda mantinha os ônibus espaciais funcionando. O clímax do filme, em órbita terrestre, ainda abre espaço para uma trama envolvendo fantasmas da antiga União Soviética e cenas de sacrifício e heroísmo. Divertido. PS: o ator Jon Hamm, da série Mad Men, aparece rapidamente como um piloto na cena em que Tommy Lee Jones é visto pela primeira vez. Revisto na HBO Max.
 

20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea, 1954)

20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea, 1954). Dir: Richard Fleischer. Disney+. Sempre bom rever este clássico da Disney, baseado no livro de Júlio Verne. O roteiro de Earl Felton não é muito fiel ao livro, mas este é dos raros exemplos em que o filme é até melhor que o original. James Mason está inspirado como o Capitão Nemo, um homem que se rebela contra a sociedade e vai para o mar em um submarino que é uma maravilha tecnológica. O Nemo do livro era bem menos obcecado e vingativo que o do filme, mas a mudança é boa. O grande Kirk Douglas interpreta o marinheiro Ned Land, que é contratado para matar o "monstro marinho" que estaria atacando navios no final do século 19. O monstro acaba se revelando ser o submarino Nautilus, do Capitão Nemo; Ned Land (Douglas), o Professor Aronnax (Paul Lukas) e seu assistente (Peter Lorre) se tornam seus prisioneiros.

Os efeitos especiais, feitos com miniaturas e pinturas, ainda impressionam, mesmo para um filme feito em 1954. Um dos pontos altos é o combate com uma lula gigante que ataca o Nautilus. Nunca havia percebido como algumas cenas podem ter servido de inspiração para "Caçadores da Arca Perdida" (1981); quando um homem do governo americano vem recrutar o Professor Aronnax para uma expedição, a cena lembra o momento em que os agentes americanos recrutam Indiana Jones para achar a Arca Perdida antes dos nazistas. Outra cena parecida é quando Kirk Douglas sai correndo de uma floresta, perseguido por dezenas de índios, assim como Harrison Ford no começo de "Caçadores". E o clímax de "20 mil Léguas Submarinas" se dá em uma ilha remota, assim como o final de "Caçadores da Arca Perdida" (Indiana Jones vai até a ilha em um submarino, falando nisso). Destaque para as belas cenas submarinas e para a trilha sonora de Paul Smith. O filme está na Disney+ e continua ótimo. 

Greystoke: A Lenda de Tarzan, o Rei da Selva (Greystoke: The Legend of Tarzan, Lord of the Apes, 1984)

Greystoke: A Lenda de Tarzan, o Rei da Selva (Greystoke: The Legend of Tarzan, Lord of the Apes, 1984) . Dir: Hugh Hudson. HBO Max. Fuçando entre os filmes "antigos" da HBO Max, encontrei este, que acho que assisti há muito tempo em VHS ou na TV; mas foi como ver pela primeira vez. Ele fez relativo sucesso na época do lançamento e trouxe ao mundo Christopher Lambert e Andie McDowell, em seus primeiros papéis.

É um filme que envelheceu mal. O roteiro original foi escrito por Robert Towne (de "Chinatown"), mas era longo e não terminado. O projeto foi passado a Hugh Hudson (de "Carruagens de Fogo") que terminou o roteiro com Michael Austin. Visto hoje, os gorilas são claramente pessoas vestindo fantasias, mesmo tendo sido feitas pelo mestre Rick Baker. A visão da África e dos habitantes locais também se tornou bem arcaica. Christopher Lambert (que disputou o papel com Viggo Mortensen, vejam só) está bem como o "rei da selva", mas sua imitação de macaco acaba se tornando mais engraçada do que realista. Andie McDowell era uma modelo e sua voz teve que ser dublada por Glenn Close, por causa do sotaque sulista. O grande Ian Holm interpreta um explorador belga que é salvo de um ataque de pigmeus por Tarzan (que nunca é chamado por esse nome, aliás).

A parte passada na África é a mais interessante. As filmagens foram feitas em Camarões, mas várias cenas da floresta foram recriadas em estúdios na Inglaterra. Lambert não fala (ao menos em inglês) até a segunda parte do filme, passada na Europa, para onde Tarzan é levado. Há algumas observações interessantes sobre o contraste entre a sociedade civilizada versus a natureza selvagem mas, como disse, o filme envelheceu mal e tudo é carregado demais. A boa fotografia foi feita por John Alcott (que trabalhou com Kubrick) e a edição é da veterana Anne V. Coats (Lawrence da Arábia, O Homem Elefante e... 50 Tons de Cinza?). Vale pela curiosidade. Disponível na HBO Max.