terça-feira, 13 de abril de 2021

Sleepers: A Vingança Adormecida (Sleepers, 1996)

Sleepers: A Vingança Adormecida (Sleepers, 1996). Dir: Barry Levinson. Netflix. A última vez que vi este filme foi em VHS, ou seja, faz tempo, rs. Os créditos iniciais impressionam: direção de Barry Levinson, fotografia de Michael Ballhaus, trilha sonora de John Williams. E que elenco: Robert De Niro, Dustin Hoffman, Kevin Bacon, Brad Pitt, Jason Patrick (lembram quando ele ia ser um astro?), Billy Crudup, Minnie Driver, Vittorio Gassman, Bruno Kirby.

Quanto ao filme, ele é bem bom, embora nem tanto quanto eu lembrava. É a história de quatro garotos de 13 anos que fazem uma bobagem (tentam roubar um carrinho de cachorro quente) que quase leva à morte de um homem. Eles são condenados a 18 meses de reclusão em um reformatório barra pesada. Lá eles são constantemente abusados por um cruel guarda, interpretado por Kevin Bacon. Anos depois, nos anos 80, um crime junta os quatro amigos, agora adultos, em um tribunal. Alguns do lado da acusação, outros na defesa, e Jason Patrick no meio de campo. Estou sendo vago para não revelar detalhes.

O que mais me incomodou nesta revisão é a constante narração de Jason Patrick. O roteiro (de Barry Levinson) é adaptado de um livro e dá a impressão que Levinson não deixou nenhuma linha de fora. Não há um momento de silêncio o filme todo, a narração sempre entra para falar, muitas vezes, o óbvio, tipo "dois caras entraram no restaurante", quando estamos VENDO isso acontecer. Há um "esquema" por trás do julgamento que acho meio difícil de acreditar. Já Robert De Niro está bastante bem como um padre que tem que enfrentar uma decisão difícil. Com duas horas e vinte e sete minutos, o filme poderia seria melhor com vinte minutos a menos, fácil. Mas é bom de assistir, o elenco é afinado e muito bem feito. Tá na Netflix (onde um filme de 1996 é quase pré-histórico, rs).
 

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Quando Margot encontra Margot (La belle et la belle, 2018)

Quando Margot encontra Margot (La belle et la belle, 2018). Dir: Sophie Fillières. Amazon Prime. Este aqui me lembrou dos tempos em que assistia um monte de filmes franceses no extinto Cine Topázio, em Campinas, vendo filmes bobinhos nos Festivais Varillux, com cortesia de crítico. "Quando Margot encontra Margot" é bem gostoso de assistir, bem francês, em que pessoas fumam e ficam peladas quando dormem juntos. A grande Sandrine Kiberlain é Margot, uma professora de uns 45 anos que vai a Paris ao funeral de uma amiga dos tempos do colégio. Também conhecemos outra Margot (Agathe Bonitzer), uma jovem de 20 anos que tem vários "ficantes" por Paris e mora com a melhor amiga, Esther.
Margot e Margot se encontram em uma festa. Elas são muito parecidas fisicamente (apesar de mais baixa, Agathe é quase uma cópia de Sandrine). Elas descobrem que têm muitas coisas em comum, inclusive vão pegar o mesmo trem na manhã seguinte. De repente, a Margot mais velha começa a dar conselhos à mais nova, como se a conhecesse intimamente. "Não durma com fulano". "Você e Esther não vão mais se ver". É como aquelas comédias americanas em que mãe e filha trocam de corpos, mas de modo bem francês. Não há nenhuma explicação para o fato de que a Margot de 45 anos se encontre com a Margot de 20. Há até certa dúvida se elas são a mesma pessoa, mas o roteiro continua fazendo com que as duas se encontrem; depois de um tempo, a mais nova começa a pedir conselhos para a mais velha.
É um filme sobre a vida e sobre as decisões que tomamos. Faríamos diferente se tivéssemos uma segunda chance? Ou não poderíamos mudar nada, nem que quiséssemos? O curioso é que o filme não é sobre troca de corpos ou viagens no tempo. Margot e Margot convivem no mesmo tempo presente, apesar de uma lembrar do passado, enquanto a outra se vê no futuro. Há toques interessantes como o fato de que, no começo do filme, uma usa sempre vermelho e a outra usa azul; conforme a trama se desenrola, aos poucos elas vão trocando de cores. Roteiro e direção de Sophie Fillières. Divertido. Disponível na Amazon Prime.

sábado, 3 de abril de 2021

Blow the man down (2019)


Blow the man down (2019). Dir: Bridget Savage Cole e Danielle Krudy. Amazon Prime. Há muito dos irmãos Coen ("Fargo" é uma influência óbvia) nesta comédia de humor negro. Passado em uma pequena cidade do gelado estado do Maine, EUA, "Blow the man down" tem de tudo, até cenas musicais. As irmãs Priscilla (Sophie Lowe) e Mary Beth (Morgan Saylor) mal têm tempo de enterrar a mãe, que morreu de uma doença, quando se envolvem em um crime bizarro. Mary Beth sai com um rapaz que tenta se aproveitar dela e acaba morto pela garota. A irmã vem em seu auxílio e elas se livram do corpo (ou assim pensam), mas o crime é só a ponta do iceberg.

O roteiro (das diretoras) explora as atividades "escondidas" da cidade, como um bordel administrado pela formidável Enid (Margo Martindale), que se orgulha de ter conseguido, por anos, manter os homens do porto longe das garotas da cidade. Só que uma de suas "colaboradoras" aparece morta e as mulheres "de bem" da cidade acham que é hora de colocar ordem na casa. Uma delas é a ótima June Squibb (Palmer, Nebraska, As confissões de Schmidt) que, com outras duas amigas, parecem realmente administrar a cidade. Os diálogos são muito bem escritos e há várias sequências irônicas e engraçadas, daquele modo seco que me lembrou os roteiros de Ethan e Joel Coen. De tanto em tanto tempo, um grupo de pescadores interrompe a narrativa e canta uma canção tradicional, rs. Disponível na Amazon Prime.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Meu Pai (The Father, 2020)


O terror está nos detalhes. Na cor e posição de móveis. No tamanho de quartos, salas. Nos quadros da parede. De quem é este apartamento? Quem é essa pessoa? Quem sou...eu? "Meu pai" é, ao mesmo tempo, lindo e assustador. Ao nos colocar no lugar de um homem que, pouco a pouco, está perdendo a memória, o filme mostra como as aparências enganam e como tudo, no fundo, depende da interpretação que fazemos das coisas.

Anthony (um estupendo Anthony Hopkins) é um senhor que mora sozinho em um apartamento enorme em Londres. Sua filha, Anne (Olivia Colman, sempre certeira) vem visitá-lo todos os dias; ela está brava com ele porque ele não consegue se dar bem com nenhuma cuidadora que ela contrata. Ela também lhe diz que está de mudança para Paris porque ela conheceu um homem, com quem vai se casar. Só que, na cena seguinte, Anthony está conversando com um homem que diz ser marido da filha dele. Paris? Não, eles não vão a Paris. A filha chega das compras e Anthony não a reconhece.

"Meu Pai" é escrito e dirigido por Florian Zeller, baseado em uma peça escrita por ele. Não sei como era no teatro, mas Zeller faz um trabalho brilhante e bastante cinematográfico ao puxar o tapete debaixo de nossos pés cena após cena. Pequenas mudanças na direção de arte trocam a posição dos móveis e a cor das paredes. Assim como Anthony, ficamos perdidos espacialmente e, através da edição, temporalmente. Algumas cenas se repetem, com pequenas mudanças; a montagem não é linear.Nada disso funcionaria, porém, sem a brilhante interpretação de Anthony Hopkins, que passa toda gama de emoções através do olhar e da linguagem corporal. O elenco ainda conta com Olivia Williams, Rufus Sewell, Imogen Poots e Mark Gatiss em papéis que se alternam, dependendo da cena.

Este não é, porém, um filme "truque" tipo "Memento", de Christopher Nolan, onde o que importa é a forma. "Meu Pai" usa da técnica para criar empatia. É de cortar o coração, e assustador, ver como toda uma vida, memórias e a própria noção de quem você é vão se perdendo no final da jornada. A última imagem é muito triste, e muito bela. Por todo filme, Anthony fica obsecado por encontrar seu relógio de pulso, é como se ele tentasse segurar o Tempo com as mãos. "Meu Pai" recebeu seis indicações ao Oscar; filme, ator (merecidíssimo, para Hopkins), atriz coadjuvante (Colman), roteiro adaptado, edição e direção de arte. Disponível na Apple TV e, para quem quiser se arriscar, em breve nos cinemas.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Neve Negra

Neve Negra (Nieve Negra, 2017). Dir: Martin Hodara. Este é daqueles filmes em que os personagens, ao entrar em um quarto escuro, não acendem a luz. É como se a escuridão os protegessem de segredos muito pesados, que deveriam sempre se manter no escuro.

Marcos (Leonardo Sbaraglia) é um homem que volta da Espanha para a Argentina com a esposa grávida, Laura (Laia Costa) por causa da morte do pai. O resto da família (um irmão mais velho e uma irmã mais nova) moram em um povoado nas montanhas argentinas. Além do enterro do pai, Marcos tem que resolver uma questão importante: uma mineradora canadense quer comprar as terras da família (por nove milhões de dólares) mas o irmão mais velho, Salvador (o sempre competente Ricardo Darín) se recusa a vender sua parte. A irmã, Sabrina (Dolores Fonzi) está internada em um sanatório.

Marcos e a esposa vão até a cabana onde mora Salvador, em um lugar eternamente coberto por neve; o diretor Martin Hodara encena a viagem deles até a cabana com uma solenidade que me lembrou o começo de O Iluminado, de Kubrick. Há um bocado de subtramas e segredos por todo o filme, revelados aos poucos. Quem é Juan, um dos irmãos de Marcos, e como é que ele morreu? Por que Sabrina está internada e seus cadernos de desenho estão cheios de imagens sangrentas? Por que Marcos se recusa a empunhar uma arma quando Salvador o convida para caçar? Tudo isso é entrecortado por flashbacks bem costurados na narrativa que, a conta gotas, vão revelando o passado. É um bom filme, um tanto pretensioso, talvez, e por vezes desnecessariamente hermético. Leonardo Sbaraglia está muito bem como o complicado Marcos e Darín, sujo e barbudo, faz o bom trabalho de sempre. Em cartaz nos cinemas.


João Solimeo

Sete Minutos depois da Meia Noite

Sete Minutos Depois da Meia Noite (A Monster Calls, 2016). Dir: J.A. Bayona. Disponível na Netflix. Está classificado como "infantil", mas é um bom drama com toques fantásticos que conta a história de Connor (Lewis MacDougall, ótimo) um garoto que está passando por maus bocados; a mãe (Felicity Jones) está com uma doença terminal, mas os médicos ainda estão tentando alguns tratamentos.

Na escola, Connor é surrado diariamente pelo valentão da sala. O pai, que mora nos Estados Unidos, vem visitar e diz que não há lugar para ele nos EUA. A avó (a grande Sigourney Weaver) é rígida, exigente e quer que Connor se mude para a casa dela. Diante de tantos problemas, Connor se refugia nos desenhos que faz à noite. É então que ele começa a ser visitado por um enorme monstro que sai de uma árvore centenária que Connor vê da janela. O monstro tem a voz de Lian Neeson e começa a contar algumas histórias para Connor, lindamente ilustradas em belas sequências de animação. É verdade que, às vezes, a mensagem do filme fica evidente demais e o filme poderia ter sido mais sutil na fantasia, mas é extremamente bem feito, triste e sério.


João Solimeo

domingo, 30 de julho de 2017

Ruína Azul

Ruína Azul (Blue Ruin, 2013). Dir: Jeremy Saulnier. Ótimo “filme de vingança” feito praticamente na raça por Saulnier, que escreveu, dirigiu e fez a belíssima direção de fotografia. Jeremy Saulnier dirigia filmes comerciais e institucionais de empresas, mas tinha a ambição de dirigir um filme para cinema. Fez uma comédia de terror independente, que não deu em nada, em 2007. Resolveu se tornar câmera e diretor de fotografia de filmes independentes, juntou uma grana com o fundo de pensão próprio e da esposa, ganhou uns trocados em uma campanha no Kickstarter e fez “Blue Ruin” com pouco mais de 400 mil dólares.

O filme é estrelado por Macon Blair, um amigo de infância. Nada disso transparece no filme, que é extremamente bem feito e profissional. “Blue Ruin” acabou indo para o Festival de Cannes onde ganhou um prêmio de crítica. O filme acompanha a vida de Dwight (Macon Blair), que no início vive como morador de rua em uma cidade de praia. Ele dorme em um carro todo enferrujado e vive de restos de comida. Um dia ele fica sabendo que o homem que foi condenado por matar seus pais vai ser solto da prisão, em Virgínia. Dwight empacota suas coisas, põe o carro para funcionar, arruma uma arma e volta à sua terra natal para vingar a morte dos pais.

O que se segue é um suspense sangrento, com toques de humor negro que me lembraram dos irmãos Coen, realista e extremamente bem fotografado. Também me pareceu uma crítica à quantidade de armas que o americano comum tem. Quando tudo for “olho por olho, dente por dente”, restarão apenas cegos e banguelas.



João Solimeo
Câmera Escura

quinta-feira, 25 de maio de 2017

STAR WARS - 40 ANOS

Há 40 anos, em uma galáxia distante, um filme de ficção científica (uma fantasia espacial, na verdade) chamado "Star Wars" chegava aos cinemas americanos. O estúdio que pagou pelo filme (que custou menos que 10 milhões de dólares), a 20th Century Fox, achava que tinha uma bomba nas mãos. O filme era escrito e dirigido por um jovem chamado George Lucas, que tinha no currículo um grande fracasso (a distopia "THX 1138") e um grande sucesso (o filme juvenil "American Graffiti"). "Star Wars" havia sido rodado na Inglaterra e na Tunísia e os efeitos especiais haviam sido feitos por um bando de "maconheiros" na Califórnia, usando técnicas nunca antes testadas. Tinha tudo para dar errado.

"Star Wars", como todos sabem, se tornou não só um sucesso isolado como foi o início de uma saga cinematográfica que incluiria não só vários filmes mas milhares de produtos, bonecos, brinquedos, jogos, roupas e tudo o que se poderia imaginar com a marca.

George Lucas era um rapaz de uma pequena cidade americana chamada Modesto, na Califórnia. Até a adolescência, apesar de ler centenas de gibis e devorar histórias de aventuras, sua maior ambição era se tornar piloto de corridas. Um acidente de carro quase tirou sua vida e mudou o rumo da História. Lucas se tornou mais introspectivo e começou a se interessar por fotografia. Nos anos 1960 ele ingressou na University of Southern California (USC) e, aos poucos, começou a se interessar por cinema. Quem vê Lucas hoje, milionário por causa dos filmes "pipoca" que produziu, não imagina que ele tenha sido influenciado, quando jovem, por filmes experimentais como "21-87", de Arthur Lipsett, feito com sobras de imagens do National Film Board of Canada, em 1964.


O curioso é que o filme de Lipsett fala sobre uma "Força" que uniria os homens e a Natureza, algo que poderia ser confundido com "Deus". A edição não linear e o som fora de sincronia do filme influenciou não só os trabalhos que Lucas fez na faculdade como também seu primeiro longa metragem, a ficção científica "THX 1138" (1971), que foi produzida por Francis Ford Coppola. O número "2187" iria aparecer em "Star Wars" como o número da cela em que a Princesa Leia está presa na Estrela da Morte. "THX 1138" foi massacrado pelo estúdio e um fracasso de bilheteria, embora tenha se tornado um filme "cult" com o passar dos anos.

Deprimido com o fracasso de "THX 1138", Lucas começou a pensar em uma saga espacial baseada nos seriados de "Flash Gordon" que ele via quando criança. Ao revê-los novamente, já adulto, ele viu o quanto eles eram mal feitos e imaginou como seria um filme de aventura espacial produzido com mais dinheiro e efeitos especiais modernos, e começou a esboçar o que se tornaria "Star Wars".



Enquanto isso ele escreveu e dirigiu um filme que era uma homenagem a seus tempos de adolescência, quando passava noites guiando pelas ruas de Modesto, chamado "American Graffiti" (1973). O elenco tinha Richard Dreyfuss (que faria "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" e "Além da Eternidade" com Steven Spielberg), Ron Howard (antes de se tornar diretor) e um ator de 30 anos que também era carpinteiro nas horas vagas, Harrison Ford. "American Graffiti" foi um sucesso inesperado de bilheteria e colocou milhões de dólares no bolso de George Lucas, que ainda não tinha 30 anos.


Sem precisar se preocupar com dinheiro para sobreviver, Lucas embarcou na árdua jornada de transformar um monte de ideias desconexas e centenas de referências em um roteiro de cinema. Ao contrário da lenda que o próprio Lucas espalharia depois, ele não teve uma inspiração súbita que o fez criar uma grande saga de nove capítulos (ou três trilogias), das quais escolheu filmar primeiro a trilogia do meio. Ele escreveria quatro versões até chegar ao roteiro final, mas o começo era bem diferente do filme que chegou às telas em 1977. As fontes eram diversas; histórias de John Carter, Buck Rogers e Flash Gordon deram ao filme a figura do herói puro e inspirador, a heroína forte e dedicada e um vilão claramente delineado. Contos de fadas e o livro "O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbell, serviram para estruturar a trama de acordo com mitos antigos e a Jornada do Herói. Filmes de Akira Kurosawa e Westerns de John Ford ajudaram também na estrutura. Munido da quarta versão do roteiro e auxiliado pelas pinturas do artista Ralph McQuarrie, Lucas conseguiu convencer a 20th Century Fox a produzir o filme.


O elenco era composto, na maioria, por atores desconhecidos ou estreantes. Harrison Ford ganhou o papel de Han Solo por sorte; ele estava instalando uma porta no estúdio em que Lucas estava fazendo testes de elenco e foi convidado a participar. Lucas conseguiu convencer uma verdadeira lenda do cinema britânico, Alec Guinness, a interpretar Obi-Wan Kenobi (claramente inspirado em Gandalf, de "O Senhor dos Anéis"). Guinness receberia 150 mil dólares (o mesmo que George Lucas estava ganhando) mais uma porcentagem da bilheteria, o que lhe renderia um bom dinheiro até o fim da vida.

O filme foi um sucesso e gerou duas sequências diretas, "O Império Contra-Ataca" (1980) e "O Retorno de Jedi" (1983), ainda sob supervisão de Lucas. Já no final do século XX, início do século XXI, Lucas voltou à saga escrevendo e dirigindo as famigeradas "prequels", ou os Episódios I, II e III, que receberam críticas mistas, para dizer o mínimo. Em 2012, os estúdios Disney compraram a "Lucasfilm" por mais de 4 bilhões de dólares e investiram pesado na marca Star Wars, lançando "Star Wars - O Despertar da Força" (2015) e "Rogue One" (2016).

O livro "How Star Wars Conquered the Universe", de Chris Taylor (que serviu de base para este artigo), fala sobre como Star Wars não só se tornou um campeão de bilheteria como se tornou parte da cultura mundial.  Mesmo as poucas pessoas que nunca viram o filme já ouviram falar em Darth Vader, Han Solo, Princesa Leia, Luke Skywalker e Yoda. O sucesso do filme mudou a indústria do cinema, salvou a 20th Century Fox da falência e se tornou o modelo do blockbuster moderno. Curioso que o criador disso tudo, no início, queria apenas fazer filmes experimentais e tirar fotografias.

João Solimeo
Câmera Escura

domingo, 23 de abril de 2017

Vida (Life, 2017)

"Vida" está longe de ser original, mas é extremamente competente no que se propõe a fazer. O filme acompanha seis ocupantes da Estação Espacial Internacional que acabaram de fazer uma descoberta incrível; uma sonda espacial trouxe de Marte prova incontestável de que existe vida fora do planeta Terra. Esta vida, no início, não passa de uma célula inofensiva que é gradualmente reanimada pelo biólogo Hugh Derry (Ariyon Bakare). Com o passar dos dias, porém, "Calvin" (como é batizada a criatura) cresce em ritmo acelerado; a tripulação, composta por astronautas de várias origens e etnias, demonstra um misto de admiração e cautela. Como este é um filme de terror espacial, é claro que a fascinação vai se transformar eventualmente em pânico, sangue e mortes.

"Vida" é dirigido pelo sueco Daniel Espinosa e escrito por Rhett Reese e Paul Wernick (a dupla por trás de "Deadpool", vejam só). A influência principal, claro, é o "Alien" (1979) de Ridley Scott, mas há também ecos de outros filmes de monstros. O visual (e até um pouco da trama) lembram o recente "Gravidade" (2013). O elenco é multinacional e bastante competente. Ryan Reynolds interpreta o personagem de sempre, engraçado, passional e não muito inteligente. Jake Gyllenhaal  é um médico que está há mais de 400 dias em órbita da Terra e não tem pressa de voltar. Rebecca Ferguson é a "oficial de quarentena", responsável pelos protocolos de segurança da missão, que são constantemente testados e quebrados durante o filme. Hiroyuki Sanada é um piloto japonês que tenta usar a ciência para lutar contra a criatura. Ariyon Bakare é o Dr. Hugh Derry, o biólogo responsável pelo renascimento de "Calvin" e quem ficou mais apegado à criatura,  com consequências funestas. Olga Dihovichnaya é Ekaterina Golovkina, uma russa que é a comandante da Estação Espacial.

Direção e roteiro, aliados a uma ótima qualidade técnica, conseguem imprimir um bom ritmo ao filme, que começa lentamente, dando espaço até para questões filosóficas, antes do tradicional filme de monstros começar. Ainda assim, "Vida" consegue se manter inteligente e verdadeiramente assustador até seu final. 

João Solimeo



sábado, 8 de abril de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

Há um momento neste filme em que Juliette Binoche fala para Scarlett Johansson que os serem humanos não são definidos por suas memórias, mas por suas ações. Ok, mas então por que é que esta versão "Ghost in the Shell" foca tanto nas memórias e no suposto passado da personagem de Johansson ao invés de a revelar por suas ações? É isto que a extraordinária animação fez, muito melhor, há mais de vinte anos. A personagem da Major era muito mais intrigante e interessante na animação por que o roteiro não ficava tentando explicar quem ela é ou de onde veio a cada dez minutos. Minha cena preferida da animação, aliás, é uma sequência sem nenhuma fala em que a Major cruza a cidade de barco e, intrigada, vê uma "cópia" dela mesma calmamente tomando um café em um restaurante. O filme, provavelmente, tentaria explicar esta cena, ao invés de deixar o mistério ter tempo para se desenvolver. (continua abaixo)


Isso posto, "A Vigilante do Amanhã", a aguardada versão em filme do cultuado anime de Mamoru Oshii, é melhor do que eu esperava. É, porém, um tanto frustrante justamente por esta mania ocidental de tratar o espectador como criança. O filme já começa com um letreiro explicando que, no futuro, as pessoas têm implantes cibernéticos. A sequência de abertura (que, infelizmente, não é acompanhada da maravilhosa trilha original de Kenji Kawai) mostra o corpo de Johansson sendo construído. Como se não bastasse, quando ela acorda outra explicação é dada por uma cientista interpretada por Juliette Binoche. É por este motivo, aliás, que o filme é uns 40 minutos mais longo do que a animação, que era mais direta e, curiosamente, mais profunda e muito mais ousada.

Em uma tentativa de humanizar o personagem da Major, o roteiro faz algumas mudanças na personagem original e cria um passado para ela, que é revelado aos poucos no decorrer da narrativa. Nem sempre funciona, porque cenas de ação e a trama principal, confusa, acaba sofrendo com as crises existenciais de Johansson. O hacker "Master of Puppets" do anime foi trocado por outro hacker  chamado Kuze (vivido por Michael Pitt) que também ganhou uma "história de origem". O lendário diretor, ator e produtor japonês Takeshi Kitano interpreta o Sr. Aramaki, o superior da Major. É curioso que Kitano fale sempre em japonês, enquanto todos os outros falem inglês.

O filme demora a engrenar e funciona melhor, ironicamente, quando segue mais de perto cenas originais do anime. Há planos e sequências idênticas à animação japonesa e é nestes momentos que o filme cresce. Há inclusive o embate final entre a Major e um tanque cujo design talvez não seja muito prático no mundo real, mas é definitivamente cool. "Ghost in the Shell" foi comprado pelo estúdio "Dreamworks" (de Steven Spielberg) há vários anos e passou por um longo período de desenvolvimento para finalmente chegar às telas. Não é um filme ruim mas, infelizmente, creio que o espectador ganhe mais se assistir à animação original de 1995 (e à continuação feita em 2004, que também emprestou algumas cenas a esta versão com atores).

João Solimeo

sábado, 25 de março de 2017

Fragmentado (2017)

Lembra quando a notícia de que um novo filme de M. Night Shyamalan estava nos cinemas provocava ansiedade e entusiasmo? Pois é, houve um tempo em que as produções do indo-americano eram aguardadas e reverenciadas. Filmes como "O Sexto Sentido", "Corpo Fechado", "Sinais", "A Vila", etc. Aí vieram desastres como "A Dama da Água" ou "Fim dos Tempos" e o ex-garoto prodígio teve que fazer trabalhos por encomenda como "O Último Mestre do Ar" e "Depois da Terra". Recentemente ele foi razoavelmente bem sucedido com "A Visita" e ele retorna agora aos filmes de suspense com "Fragmentado".

"Fragmentado" segue a cartilha de Alfred Hitchcock que gostava de fazer histórias em torno de problemas mentais (ou mesmo sobrenaturais) como "Psicose", "Marnie", "Quando fala o coração" ou "Um Corpo que Cai". James McAvoy é um rapaz chamado Dennis; mas também é Kevin, Hedwig, Orwell, Patricia, Barry e várias outras personalidades diferentes habitando um mesmo corpo. Esta "entidade" sequestra três garotas adolescentes e as prende em um lugar sombrio e cheio de corredores na Filadélfia. Uma das garotas, Casey (Anya Taylor-Joy, de "Morgan") é mais inteligente e introspectiva que as outras duas, típicas "patricinhas" do colégio. Casey é a primeira a entender o que se passa na cabeça do personagem de McAvoy e ela tenta convencer as diversas personalidades do rapaz a deixá-las partir.

Paralelamente, acompanhamos a Dra. Karen Fletcher (Berry Buckley), a psiquiatra que está tratando do rapaz. Ela é uma das únicas médicas que acredita que realmente existem pessoas diferentes dentro do corpo dele e (em típica extrapolação de Shyamalan) se pergunta se ele não esconderia um segredo para o futuro da Humanidade. Seria ele sobre humano? Ela recebe e-mails diários das várias personalidades dele e percebe, alarmada, que algo está errado.

"Fragmentado" não é tão redondo quanto os primeiros roteiros de Shyamalan mas funciona como bom filme de suspense (e não tanto como filme sobre problemas mentais). As cenas passadas no cativeiro são angustiantes e há os tradicionais sustos e perseguições em corredores estreitos e escuros. Já as passagens envolvendo a psiquiatra não se sustentam bem. Há também flashbacks que mostram o passado de Casey e um problema familiar que poderia ter sido melhor explorado no final da trama. Shyamalan reserva alguns minutos até para prestar uma auto homenagem em uma "surpresa" que já foi revelada por vários meios de comunicação (e que também poderia ter rendido mais).

João Solimeo

domingo, 12 de março de 2017

Kong: A Ilha da Caveira (2017)

Há um curioso ar analógico em "Kong: Ilha da Caveira". Passado nos anos 1970, o filme está cheio de imagens de discos de vinil, gravadores de rolo, câmeras de 16mm, Super-8 e filmes fotográficos de 35mm. Estas imagens contrastam com os monstrões criados digitalmente pelos mágicos dos efeitos especiais e são bem-vindas.

"Kong: A Ilha da Caveira" é uma divertida (e completamente sem noção) volta de King Kong aos cinemas. O personagem surgiu pela primeira vez na década de 1930, subindo em uma miniatura do Empire State nos ótimos efeitos especiais em stop motion de Willis O´Brien. O macacão apareceu em alguns filmes japoneses de monstro nos anos 1960, em desenhos animados, em superprodução de Dino de Laurentis na década de 1970 e em um longo épico de três horas de Peter Jackson em 2005.

Esta versão de Kong é parte de um plano da Warner de fazer uma série de filmes de monstros culminando com um duelo entre King Kong e Godzilla. Assim, esta versão de Kong é gigantesca. Esqueça aquele gorila que subia em edifícios de Nova York; este é do tamanho de um prédio, o que é ao mesmo tempo majestoso e ridículo. O diretor Jordan Vogt-Roberts não perde tempo em revelar o monstrão quando um grupo de cientistas e soldados chega à Ilha da Caveira. Em termos de elenco, é um time e tanto: John Goodman, Samuel L. Jackson, Tom Riddleston, Brie Larson, John C. Reilly e uma dezena de coadjuvantes destinados a virar purê estão no filme, levando tudo divertidamente a sério. Não dá para falar mal de um filme que tem John Goodman e Samuel L. Jackson. O primeiro é um cientista que acredita em uma teoria da "Terra Oca", onde monstros mitológicos vivem. O segundo é um coronel que acabou de perder a Guerra do Vietnã e está com sede de vingança. John C. Reilly, ótimo, é um tenente do exército americano que está na ilha desde a 2ª Guerra Mundial (o que rende boas piadas, como ele não saber o que é rock ´n roll ou que o homem chegou à Lua em 1969).

A inspiração direta para Kong, curiosamente, é o clássico "Apocalypse Now" (1979), de Francis Ford Coppola. Quando dezenas de helicópteros (que, sinceramente, ainda não entendi de onde partiram) chegam à Ilha da Caveira, Vogt-Roberts recria a genial sequência de Coppola do ataque de helicópteros no Vietnã; a única diferença é que Wagner foi trocado por clássicos de rock. Em poucos minutos estes helicópteros estão sendo derrubados como moscas pelo gigantesco Kong, que não gosta de ver sua ilha invadida. Os sobreviventes são divididos em diversos grupos pela ilha e logo são alvo de outros monstros, como aranhas gigantes e lagartos que parecem ter saído de uma produção de J.J. Abrams.

"Kong: A Ilha da Caveira", obviamente, não pode ser levado a sério,  mas é bastante divertido como "filme B de luxo" e rende algumas ótimas sequência de luta entre monstros do tamanho de montanhas.

PS: claro que, estilo Marvel, há cenas depois dos créditos, esteja avisado.

João Solimeo


sexta-feira, 10 de março de 2017

Silêncio (2017)

A fé sempre foi um tema forte no cinema de Martin Scorsese. Logo em um de seus primeiros sucessos, "Caminhos Perigosos" (Mean Streets, 1973), o personagem vivido por Harvey Keitel questionava sua fé em diversas narrações durante o filme. O próprio Jesus é mostrado questionando seu destino em "A Última Tentação de Cristo", filmado por Scorsese em 1988. Não por acaso, Martin Scorsese estudou em um seminário antes de decidir partir para a carreira artística.

Chega finalmente aos cinemas do Brasil seu último filme, "Silêncio"; são quase três horas dedicadas ao questionamento da fé, a existência ou não de Deus e sua ausência (ou seu silêncio) nos momentos em que mais se precisa dele. Não é um filme fácil de se assistir. É longo, bastante lento e praticamente sem trilha sonora, passado no Japão do século 17, quando a religião católica foi proibida e seus seguidores, perseguidos e mortos. O filme parte do desaparecimento no Japão de um jesuíta chamado Ferreira (Liam Neeson), que havia enviado cartas preocupantes sobre o estado da Igreja em terra nipônicas. Dois de seus pupilos, os padres Rodrigues (Andrew Garfield, de "Até o Último Homem") e Garupe (Adam Driver, de "Star Wars Episódio VII") partem para o Japão para tentar encontrar Ferreira. Boatos falam que ele teria praticado "apostasia", que é a renúncia da religião e que estaria vivendo como um japonês.

"Silêncio" tem um visual arrebatador. A belíssima direção de fotografia (indicada ao Oscar) de Rodrigo Pietro se aproveita das belezas naturais da paisagem e usa cavernas para criar molduras ou utiliza da forte neblina para revelar ou esconder personagens. Como o filme quase não tem música, o som do mar, das cigarras, do vento e outros elementos naturais também estão muito presentes. Os dois padres chegam ao Japão e são recebidos como semi deuses por simples vilarejos sedentos de fé. Há algo tanto de louvável quanto de desesperado na atitude destes simples camponeses que arriscam as próprias vidas por uma religião vinda de fora.

Inquisidores japoneses aparecem de vez em quando para apurar denúncias de que a religião católica estaria sendo praticada. Eles aplicam uma série de testes aparentemente simples para distinguir os devotos dos demais. Um dos testes é pisar em uma imagem de Jesus, ou cuspir na cruz. Deus ficaria contrariado se alguém pisasse em sua imagem para salvar a vida? E do ponto de vista da igreja, tal atitude seria considerada pecado? Todas estas questões são apresentadas lentamente por Scorsese, assim como suas consequências. Há uma longa sequência de martírio de um grupo de camponeses que não passou no teste dos inquisidores em que os padres, escondidos ao longe, assistem a tudo, impotentes.

O personagem de Andrew Garfield enfrenta grande parte destes desafios na segunda parte do filme; capturado pelos inquisidores, o Padre Rodrigues assiste muitos fiéis serem torturados ou mortos de uma jaula de madeira. Tudo o que ele tem que fazer para terminar com o sofrimento deles é renegar sua religião. Isso é válido? Deus "entenderia"?

Como disse anteriormente, não é um filme fácil de se ver. As questões de fé podem parecer absurdas do ponto de vista de espectadores do século 21, talvez por isso Scorsese alongue tanto nossa imersão naquele mundo. Mostra-se muita crueldade por parte dos japoneses que querem erradicar a religião, mas fica a questão sobre até que ponto os padres resistem. É pela glória divina ou pela própria salvação?

João Solimeo

sábado, 4 de março de 2017

Logan (2017)

Há uma sequência em "Logan", o mais novo filme do Wolverine, que se passa em uma fazenda. É possível dividir o filme entre antes e depois desta sequência. A primeira é um filme excelente, adulto, muito bem escrito, dirigido e interpretado. Depois desta sequência é como se começasse outro "Logan", infelizmente inferior. Vamos por partes (como diria Wolverine)

Diz a lenda que "Logan" é o último filme estrelado por Hugh Jackman como Wolverine. Se for verdade (alguém acredita?) será uma pena, porque Jackman É Wolverine. O ator encarna o personagem desde o primeiro filme dos "X-Men", há longos 17 anos, mas você nunca o viu como neste filme. A direção é de James Mangold, competente artesão de filmes como "Cop Land", "Garota, Interrompida", "Identidade", "Os Indomáveis" e o bom filme anterior do herói, "Wolverine: Imortal" (2013). Mangold traz para "Logan" um tom adulto, grave e reflexivo. A violência (muita violência) é consequência natural de um personagem que tem garras afiadas nas mãos.

ATENÇÃO: AVISO DE SPOILERS DAQUI PARA FRENTE. NÃO LEIA CASO NÃO QUEIRA SABER DETALHES SOBRE A TRAMA.

O ano é 2029. Os X-Men são coisa do passado e os últimos sobreviventes daquela era são Logan e o Professor Xavier (o grande Patrick Stewart). Logan trabalha como motorista de limousine na fronteira com o México. O filme já mostra a que veio nas primeiras cenas, quando Logan faz em pedaços um infeliz grupo de ladrões que tentam levar seu carro. A violência é explícita como nunca antes mostrada em um filme de super heróis (a não ser, de forma cômica, em "Deadpool"). Logan está velho e aparenta estar doente. Do outro lado da fronteira ele mantém o Professor Xavier como prisioneiro, tomando pílulas que o impedem de usar os poderes mentais (um grande desastre, não explicado integralmente, teria sido causado pelo Professor no passado). Eles são auxiliados por um mutante chamado Caliban (o comediante Stephen Merchant, irreconhecível). O filme tem um visual tão árido e seco quanto a situação dos personagens. Não há nada de heroico na vida destes mutantes.

A situação de Logan se torna mais complicada com a entrada em cena de uma estranha garota mexicana chamada Laura (Dafne Keen), que está sendo perseguida por um grupo de mercenários liderados por Boyd Holbrook (da série Narcos). Há uma ótima sequência de violência quando um enorme grupo armado tenta capturar a garota e descobre que ela tem os mesmo poderes que o Wolverine. Após um banho de sangue, Logan, o professor Xavier e a garota correm pelas estradas do meio-oeste americano tentando fugir de uma multinacional que está criando novos mutantes para fins militares.

Mangold deixa explícitas suas referências do Western em uma cena em que o professor Xavier e a garota assistem ao clássico "Shane" ("Os Brutos Também Amam", 1953) na TV de um hotel. O tema se desenvolve na sequência que falei no começo deste texto, quando o trio vai parar em uma fazenda. A família que ali vive passa pelas mesmas dificuldades dos colonos do clássico de 1953, um rico dono de terras quer expulsa-los dali. As cenas passadas nesta fazenda dão um respiro bem vindo à correria das sequências anteriores (Patrick Stewart, como o Professor Xavier, está especialmente bem nessas cenas).

É então que, em minha opinião, o filme muda para pior. (REPITO, SPOILERS). Se até aqui ele havia sido, se não "realista", ao menos verossímil, o roteiro força a barra com a aparição de um "clone" de Wolverine (também interpretado por Jackman), criação de um tal Dr. Rice, interpretado por Richard E. Grant (bom ator, mas um tanto caricato). O núcleo "familiar" formado por Logan, Xavier e a garota é destruído bruscamente em uma sequência que culmina com a morte do Professor Xavier. Ou melhor, o pobre Professor Xavier, que merecia uma despedida melhor, é morto em meio a uma confusa sequência em que o clone mau de Wolverine despedaça um grupo de fazendeiros, luta com o Wolverine "do bem" e tenta sequestrar a garota. Com o fim do Professor Xavier, a garota (que não havia dito uma palavra até então) magicamente ganha não só a habilidade de falar, mas de falar em espanhol e inglês. Logan e Laura acabam indo se encontrar com um grupo de crianças mutantes (com quem não temos nenhuma empatia e, portanto, pouco ligamos para o que pode acontecer com elas). O filme termina em um embate violento entre Logan, o Wolverine "mau", dezenas de figurantes e as crianças. É um final tão confuso e clichê que pouco se parece com o filme adulto e inovador do início.

Apesar dos pesares, "Logan" ainda é superior à média dos filmes do gênero. Hugh Jackman encarna o personagem de corpo e alma e é uma pena se, de fato, este for seu último filme como Wolverine. O tom adulto, que não fica só na violência mas também nos diálogos, é bem vindo e mostra que mesmo em filmes de super heróis, ações têm consequências.

João Solimeo

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Silêncio do Céu (2016)

Bom exercício de suspense dirigido por Marco Dutra (que fez o ótimo Trabalhar Cansa). O filme é uma co-produção uruguaia e é falado quase todo em espanhol. Carolina Dieckmann é uma estilista que, no início do filme, é estuprada em uma cena bastante perturbadora. O marido dela, Mario (Leonardo Sbaraglia) é um homem que sofre de diversas fobias (praticamente de tudo). O filme mostra a sequência de estupro por outro ângulo e descobrimos que Mario assistiu a tudo, mas ficou paralisado por seus medos. Quando o estupro termina ele até tenta ir atrás dos culpados, mas não consegue alcançá-los. Começa então um curioso jogo em que a esposa não conta para o marido que foi estuprada e o marido não conta para a esposa que ele assistiu a tudo.

Dutra usa muita metalinguagem ao revelar que Mario é um roteirista de cinema. Ele começa a nos narrar a história e, enquanto tenta encontrar os estupradores da esposa, começa a criar um personagem novo para ele mesmo, um homem capaz de enfrentar suas fobias e esconder a verdade da esposa. A direção de fotografia é de Pedro Luque (O Homem nas Trevas) e a câmera (bastante estática no início do filme) vai ganhando movimento conforme Mario também se torna mais ativo. Senti toques de "Um Corpo que Cai", obra prima de Hitchcock, no roteiro de "O Silêncio do Céu". Mario, assim como James Stewart, é um homem que tem que superar uma fobia e, de certa forma, recriar uma nova mulher a partir do estupro sofrido pela esposa.

Nem tudo funciona, porém. Achei que as narrações de Mario eram, por vezes, desnecessárias. Mais para o final a personagem de Carolina Dieckmann também passa a narrar a história e, de novo, me pareceu redundante, mais para explicar pontos obscuros do roteiro do que para realmente avançar a trama. Mas é um bom filme de suspense, gênero que poderia ser mais explorado pelo cinema brasileiro. "O Silêncio do Céu" está disponível na Netflix.

João Solimeo