domingo, 21 de setembro de 2014

Transcendence

A foto de Johnny Depp ao lado o mostra, provavelmente, assistindo a este filme.

"Transcendence" marca a estréia na direção de Wally Pfister, competente diretor de fotografia conhecido principalmente por sua parceria com Christopher Nolan. É compreensível que a convivência com Nolan (que não faz nada pequeno) o tenha levado a arriscar seu primeiro longa metragem em um filme ambicioso e cheio de grandes ideias. O roteiro também foi escrito por um iniciante, Jack Paglen, o que só ajuda a explicar os problemas do filme.

As boas credenciais de Pfister conseguiram trazer um elenco de peso, composto quase todo por atores da "trupe" habitual de Nolan, como Morgan Freeman (da série "Batman"), Cillian Murphy (também de Batman e de "A Origem") e Rebecca Hall (de "O Grande Truque"). O britânico Paul Bettany está no lugar de Michael Caine e o papel de Johnny Depp, se fosse em um filme de Nolan, provavelmente seria interpretado por Christian Bale ou Hugh Jackman.

Johnny Depp interpreta Will Caster, um cientista que está desenvolvendo uma I.A. (Inteligência Artificial) que, se bem sucedida, poderia resolver os problemas da Humanidade. O caso é que um grupo de ativistas anti-tecnologia (chefiados por uma inexpressiva Kate Mara, de "House of Cards") realiza uma série de atentados em que diversos cientistas são mortos e Caster é envenenado por uma substância radioativa. A esposa de Caster, Evelyn (Rebecca Hall, o único sopro de humanidade em todo o filme), dedica as últimas semanas de vida do marido a fazer um "upload" das memórias dele para a Inteligência Artificial. (leia mais abaixo)


Há uma porção de boas ideias aqui. Seria possível transferir todo o conteúdo do cérebro de uma pessoa para um computador? Em caso positivo, este conjunto de memórias seria considerado um "ser vivo"? A personalidade seria mantida? Ela seria "humana"? Imortal? Estas questões são aludidas no filme de Pfister, mas de forma tão rasa que ficam enterradas sob uma trama absurda e incoerente. Fica patente a inexperiência do diretor em dar vida ao material, que é visualizado em belas, mas frias, imagens.

Johnny Depp está particularmente ruim. Seu cientista, enquanto humano, já não tinha muito a mostrar. Depp mantém uma expressão única por todo o filme e um tom de voz mais inexpressivo que o do tradutor do Google, e quando é transferido para o computador fica pior ainda. Rebecca Hall, Paul Bettany e mesmo Morgan Freeman tentam inserir um pouco de vida a personagens vazios e mal desenvolvidos. Cillian Murphy, coitado, anda pela tela sem saber direito o que está fazendo por lá.

E em quê, na verdade, se transformou Will Caster? O roteiro, indeciso, ora dá a entender que o "ser" que habita o computador se trata do mesmo homem que ele era em vida, ora mostra que se trata de outra consciência. Aparentemente, nem o roteirista sabe o que está acontecendo. 

"Transcendence", ao invés de levantar questões, gera dúvidas. Chega-se ao final da mesma forma com que se começou. Com nada.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Terms and conditions may apply (Netflix)

Quando Osama Bin Laden morreu, um menino americano de sete anos ficou preocupado com a segurança do presidente Barack Obama. Ele expressou esta preocupação nas redes sociais, dizendo que Obama deveria "tomar cuidado". Poucas horas depois, a escola em que o garoto estudava foi invadida por homens do Serviço Secreto, que levaram o menino para ser interrogado. Um irlandês, pouco antes de viajar para os Estados Unidos, mandou um tweet para os amigos dizendo, metaforicamente, que iria "destruir a América". Ao chegar aos EUA, foi detido no aeroporto e passou horas sendo interrogado sobre a suposta "ameaça terrorista". Um comediante, após passar horas em um fila na loja da Apple, chegou em casa e reproduziu no Facebook trechos do filme "Clube da Luta" (David Fincher) que falavam sobre armas e destruição. O FBI e a SWAT derrubaram sua porta minutos depois, procurando as armas e questionando sobre o "atentado".

O documentário "Terms and conditions may apply" (disponível no Brasil pela Netflix) mostra como estas e outras situações, no limite, foram causadas por nós mesmos ao renunciarmos à privacidade toda vez que aceitamos os "Termos e Condições" de serviços online gratuitos como Google, Facebook, Apple, Microsoft e centenas de outros. Quem lê aqueles contratos? Aparentemente, ninguém, e há um motivo para isso.

O documentário compara as políticas de privacidade do Google e Facebook desde o começo do século até hoje, e muita coisa mudou. Um dos principais motivos (ou a principal justificativa/desculpa) foi o atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. O governo Bush lançou o "Ato Patriótico" que, na prática, permitia às agências vasculhar a vida online e telefônica dos cidadão americanos (e do mundo), sob a justificativa de prevenir ataques terroristas. Um de seus principais opositores era o então Senador Barack Obama que, ao se tornar presidente, não fez nada para mudar esta situação. Na verdade, a maioria dos escândalos envolvendo a NSA (a agência nacional de segurança americana) explodiu durante a administração Obama. (leia mais abaixo)


O mais assustador é que a grande maioria das informações pessoais disponíveis online foram colocadas lá voluntariamente pelas pessoas, ou melhor, por nós mesmos. Por mim e por você que está lendo estas linhas. Este blog, por exemplo, está hospedado no Blogger, que faz parte do Google. Meu login e senha me dão acesso não só ao blog, mas também a uma conta de e-mail, um canal no youtube e dezenas de outros serviços. Ao mesmo tempo que tenho estas comodidades, acabo expondo centenas de informações pessoais que, sinceramente, não sei onde estão armazenadas ou para o quê podem ser usadas.

Um executivo do Google diz, basicamente, que "quem não deve não teme", mas não é tão simples. Uma análise das palavras chave das buscas de alguém pode chegar a uma conclusão completamente equivocada. Por exemplo, uma pessoa que procure por "decapitações", "esposa morta" e "facas" no Google está planejando um assassinato, certo? Cullen Hoback, o diretor do documentário, foi atrás destas informações e descobriu que quem estava por trás delas era um escritor de uma série de televisão, e não um assassino em potencial.

Assim como no filme "Minority Report", de Steven Spielberg, pessoas estão sendo presas ou questionadas por crimes que elas (ainda?) não cometeram, apenas baseadas no que procuraramm ou publicaram online. Este é um mundo mais seguro por causa disso, ou trocamos nossa liberdade por uma suposta proteção de um Big Brother moderno?

Câmera Escura

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O Mercado de Notícias

O premiado diretor e roteirista gaúcho Jorge Furtado volta às telas com um documentário em que analisa o Jornalismo. E o faz de forma tão didática que não é difícil imaginar que o filme seja adotado em breve por faculdades pelo país. Furtado, famoso pelo estilo multimídia e metalinguístico que o consagrou desde o curta "Ilha das Flores" (1989), mistura linguagens aqui novamente ao mesclar cinema com teatro (em ótima montagem do habitual colaborador Giba Assis Brasil).

"O Mercado de Notícias" (The Staple of News, 1631) , segundo explica o próprio Furtado no início do filme, é uma peça de teatro escrita no século 17 pelo dramaturgo inglês Ben Jonson, que era contemporâneo de Shakespeare. Usando atores, Furtado intercala as tradicionais "cabeças falantes" do documentário com cenas da peça de Jonson, encenadas a caráter em um palco de teatro. A técnica lembra a usada pelo grande documentarista brasileiro Eduardo Coutinho (que morreu no início do ano) em filmes como "Jogo de Cena" e "Moscou".

O lado mais tradicional do documentário conta com uma série de entrevistas feitas com jornalistas como Mino Carta, Janio de Freitas, Cristiana Lobo, José Roberto de Toledo, Luís Nassif, entre outros. Discute-se a importância das fontes e os perigos de um jornalista se tornar amigo delas. Fala-se sobre Ética e sobre a complicada relação entre a integridade jornalística e a necessidade da empresa de fazer dinheiro. Joga-se por terra a mítica imparcialidade jornalística, afinal toda empresa e todo indivíduo têm seu viés.

Há uma sequência que investiga o caso do "objeto" que teria acertado o candidato à presidência da república José Serra durante a campanha de 2010. Apesar de tanto Serra como parte da imprensa ter em tentado passar a notícia de que ele havia sido atingido por um objeto pesado, Furtado mostra por cinco ângulos diferentes que uma bolinha de papel foi arremessada contra a cabeça do candidato; o documentário inclusive chega a mostrar um possível culpado pela suposta agressão. "Qual a porcentagem de certeza que um jornalista precisa ter para acusar alguém?", pergunta Furtado. (leia mais abaixo)


Há também espaço para o humor. O cineasta investiga uma matéria publicada pela Folha de S. Paulo sobre um suposto quadro de Picasso que estaria em uma agência do INSS em Brasília. Mesmo o quadro original se encontrando em Nova York e o de Brasília ser claramente uma reprodução barata, jornais como a Folha, Estadão e revistas como a Isto É publicaram matérias sobre o "Picasso do INSS". Furtado chega a ir a Nova York para gravar o quadro verdadeiro. Pior, ele descobre que o quadro (uma mera cópia) que está no INSS foi usado para quitar uma dívida com a União. Nenhum jornalista investigou o caso.

Paira por todas as entrevistas o "fantasma" do futuro do Jornalismo, supostamente ameaçado pela rapidez na internet e pelo imediatismo da vida moderna. O que fica é que, apesar de tudo, o Jornalismo ainda será necessário nos tempos que virão. Resta aos jornalistas, e ao público consumidor de notícias, decidir seu caminho.

O site oficial tem muito material extra e informações sobre o filme.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Os Escolhidos

Filmes de terror têm vários clichês. O mais irritante, provavelmente, seja aquele em que uma família se recuse a sair de casa quando algo muito estranho e perigoso está acontecendo. Eles não têm família? Amigos? Eles não têm...medo? Claro que se as pessoas agissem de forma racional em filmes deste tipo eles simplesmente deixariam de ser feitos; e há provavelmente certo prazer sádico na platéia em ver, na segurança do cinema, pessoas pagarem por seus erros estúpidos na tela.

"Os Escolhidos" está mais para a ficção-científica, embora utilize de todos os truques e sustos de um filme de terror. Um dos problemas deste filme é a total falta de originalidade. Substitua os fantasmas de "Poltergeist" (1982, oficialmente dirigido por Tobe Hooper, dirigido de fato por Steven Spielberg) por aliens, pegue os subúrbios americanos de "E.T." (1982, Spielberg novamente), com garotos andando de bicicleta e bandeiras americanas nas sacadas, misture com várias pitadas de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977, sim, de Steven Spielberg), adicione "Sinais" (2002, M. Night Shyamalan, inspirado por Spielberg) e qualquer episódio genérico de "Arquivo X" e você tem "Os Escolhidos".

O casal Daniel (Josh Hamilton) e Lacy (Keri Russell) Barrett estão a um passo de uma crise conjugal. Ele está desempregado e ela é uma corretora de imóveis que tenta vender uma casa (um elefante branco) sem sucesso. A falta de dinheiro começa a se fazer sentir no relacionamento, as pressões aumentam e as brigas se tornam frequentes. O casal tem dois filhos; Jesse (Dakota Goyo, o bom ator mirim de "Gigantes de Aço") está com 13 anos e demonstra os problemas da adolescência. Ele tem um amigo mais velho que não é flor que se cheire e uma paixão confusa (embora correspondida) por uma garota da vizinhança. (leia mais abaixo)


Os problemas começam quando Sam (Kadam Rockett), o filho mais novo do casal, começa a ter alguns pesadelos estranhos com um "ser" desconhecido. Seriam mesmo pesadelos? A mãe acorda durante a noite e encontra comida espalhada pelo chão. Em outra noite, alguém ou alguma coisa montou formas geométricas sobre a mesa da cozinha. Todas as fotos desaparecem dos porta retratos. Os alarmes da casa disparam de forma errática e a polícia está cética. Certamente um dos garotos está fazendo tudo isso?

Apesar da total falta de originalidade, é fato que o diretor/roteirista Scott Stewart, auxiliado por um bom elenco (Keri Russell está particularmente bem) consegue criar um suspense eficiente durante a longa exposição que estabelece a trama do filme. Há cenas bem feitas e os sustos são garantidos. O problema é que o filme começa com uma citação do escritor Arthur C. Clarke sobre extraterrestres (dizendo que tanto o fato deles existirem ou de estarmos sozinhos é assustador), então o espectador não tem que pensar muito sobre "quem" está causando os fatos estranhos experimentados pelos Barrett. E quando um "especialista" (vivido pelo ótimo J.K. Simmons, na melhor cena do filme) explica à família sobre "Greys" e outros tipos de "homenzinhos verdes", Stewart não sabe o que fazer com sua história. O final, apesar de uma tentativa do roteirista de criar uma "surpresa", não consegue salvar o filme. Melhor passar em uma locadora ou abrir a Netflix e assistir a todos os filmes que serviram de inspiração para este.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lucy

Imagine uma mistura de "A Árvore da Vida", de Terrence Malick, com "Kill Bill", de Quentin Tarantino. Adicione umas pitadas de "Matrix", um pouco de "Watchmen" e fartas doses de animê e você tem "Lucy", o novo filme do francês Luc Besson.

Lucy (Scarlett Johansson) é uma americana que mora em Taipei, China. Não sabemos exatamente o que ela está fazendo por lá, mas o filme começa com ela e o namorado parados em frente a um hotel da cidade.

O namorado quer que ela entre no prédio e entregue uma mala para um tal de Sr. Jang (Min-sik Choi), em troca de quinhentos dólares. Lucy pressente que algo de errado está para acontecer, mas ela nem imagina o tamanho da encrenca.

Tudo o que podemos dizer é que, vários minutos depois, Lucy é escoltada para fora do prédio com um saco na cabeça e um quilo de drogas introduzidas cirurgicamente em seu abdômen. O Sr. Jang planeja enviar Lucy e outras três "mulas" para várias cidades da Europa, onde pretende distribuir a droga, que é experimental e é chamada simplesmente de CHP4.

O caso é que a tal droga começa a vazar dentro do corpo de Lucy que, sob seu efeito, se torna uma espécie de super-humana. Estas cenas são convenientemente intercaladas com uma palestra ministrada em Paris por Morgan Freeman; com sua "Voz de Deus", ele explica o que aconteceria se os humanos usassem mais do que 10% do cérebro, como popularmente se acredita.

O roteiro, do próprio Luc Besson, é claramente absurdo, mas o filme é bem dirigido e Johansson abraça o papel de tal forma que o espectador mal tem tempo de pensar durante os curtos 90 minutos de projeção. (leia mais abaixo)


Besson sempre gostou de papéis femininos fortes e desde a década de 1990 criou personagens como a assassina profissional Nikita ("Nikita - Criada para Matar", 1990), interpretada por Anne Parillaud, ou Leelloo (Mila Jovovich), que ajudava Bruce Willis a salvar o universo em "O Quinto Elemento" (1997), sem falar da jovem Natalie Portman em "O Profissional" (1994).

A Lucy de Scarlett Johansson é uma mistura da assassina de Nikita com o misticismo misturado com ficção-científica de "O Quinto Elemento". Há também estranhas cenas que mostram o passado do planeta Terra e do próprio Universo que, por um momento, lembram imagens em "A Árvore da Vida", de Malick. Em versão pop, claro.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Grande Truque (Netflix)

AVISO: Este é um filme com muitos segredos e reviravoltas; fica difícil escrever a respeito sem revelar alguns. Assim, esteja avisado da possibilidade de SPOILERS.

Entre "Batman Begins" (2005) e "Batman: O Cavaleiro das Trevas" (2008), Christopher Nolan fez este sombrio retrato da rivalidade entre dois mágicos. Curiosamente, ele foi lançado com apenas alguns meses de diferença de "O Ilusionista" (2006), outro filme sobre mágicos, passado mais ou menos na mesma época, estrelado por Edward Norton e dirigido por Neil Burger.

"O Grande Truque" sofre do problema de quase todo filme de Nolan: ele peca pelo excesso. O que não impede que ele seja intrigante, inteligente e interessante de se assistir (novamente, como quase toda produção do diretor). O roteiro (de Nolan, escrito em parceria com o irmão Johathan) fala não só sobre a mágica como um ofício, mas também sobre obsessão, show business, ciência, ciúmes e rivalidade. Robert Algiers (Hugh Jackman, de "X-Men: Dias de um futuro esquecido") e Alfred Borden (Christian Bale, de "Império do Sol") são assistentes de um mágico na Inglaterra do final do século 19. Uma rivalidade surge entre os dois quando a mulher de Robert morre durante um truque em que ela deveria escapar de um tanque de vidro cheio de água. Robert culpa Alfred por ter apertado muito forte o nó que amarrava a esposa e os dois iniciam uma disputa que vai durar o resto da vida deles.

Michael Caine ("O Último Amor de Mr. Morgan") faz seu tradicional papel de figura paterna como o engenheiro de Hugh Jackman, Cutter, mas ele também faz as vezes de narrador do filme. Ele explica que todo bom truque de mágica precisa ter três partes ("apresentação", "virada" e "truque", em tradução livre para "the pledge", "the turn" e "the prestige"), o que basicamente segue toda cartilha de roteiro de Hollywood, com primeiro, segundo e terceiro atos. Não basta mostrar um passarinho e fazê-lo desaparecer. É necessário trazê-lo de volta. O que "O Grande Truque" quer mostrar é que nem tudo é tão inocente. No caso do canário, Nolan mostra que é necessário matar um animal a cada apresentação, o que não só mostra que truques de mágica podem ser cruéis como também dá o tom para os eventos do próprio filme (que discutiremos mais à frente).



Quando vi este filme nos cinemas, em 2006, confesso que não gostei muito do que vi. Ou, talvez, eu simplesmente não estivesse olhando direito, o que é um dos temas do filme. Revendo agora pela Netflix, me surpreendi como ele funciona muito melhor da segunda vez e creio que haja uma explicação para isto. Na primeira você tenta descobrir o segredo da trama e, quando chega o final (que tem vários problemas), há grandes chances de você se decepcionar. Na segunda vez, livre do peso de tentar decifrar o filme, você fica mais livre para perceber como o roteiro é engenhoso. É um filme sobre duplos, sobre truques e sobre mágica. E também sobre sacrifícios enormes em nome da fama, ou simplesmente da satisfação de ser melhor do que o outro. O personagem de Christian Bale é frio e metódico. Já Hugh Jackman é sanguíneo e apaixonado. Há uma cena em que os dois vão assistir à apresentação de um mágico chinês que consegue fazer coisas impossíveis para a idade dele. Depois do show, Bale e Jackman o veem saindo do teatro, velhinho, caminhando lentamente em direção à carruagem, e Bale diz: "Este é o verdadeiro truque". Os irmãos Nolan também fazem um truque com o personagem de Bale durante todo o filme, mas poucos percebem. Seu personagem, Bolder, cria um show do "Homem Transportado" que atrai multidões e leva Robert à loucura, tentando descobrir como ele o realiza. Nolan já havia dado a dica antes de que o personagem de Bale estaria interpretando um papel a vida toda. Um papel duplo que leva até ao suicídio da  esposa, interpretada por Rebecca Hall.

A busca de Robert o leva aos Estados Unidos, onde procura o cientista Nikolas Tesla (figura real interpretada por um surpreendente David Bowie), que conseguia feitos com a eletricidade que podiam passar por mágica. Há uma bela cena noturna em que Hugh Jackman está com Andy Sekis (sim, o ator do Gollun de "O Senhor dos Anéis" e do César de "Planeta dos Macacos") em um campo e Tesla acende centenas de lâmpadas espalhadas pela paisagem. Robert quer que Tesla lhe construa uma máquina que o faria o melhor mágico do mundo. Tesla lhe pergunta se ele estaria disposto a pagar o preço. "Dinheiro não é problema", responde Robert. "Mas você está disposto a pagar o custo?", pergunta Tesla.



Novamente, aviso de SPOILERS.

O caso é que tanto Bolder quanto Robert estão fazendo jogos duplos. Bolder tem um irmão gêmeo que só é revelado nos instantes finais, apesar de haver várias pistas durante o filme. A mulher de Bolder, por exemplo, diz que há dias em que ela acredita no "eu te amo" do marido. Em outros dias, não. O mesmo vale para a amante dele(s), interpretada por Scarlett Johansson. Quanto ao "duplo" de Robert é que o filme é mais ousado (e onde, ao mesmo tempo, peca mais). O crítico americano Roger Ebert chega a dizer que o "segredo" do filme é uma trapaça, e ele pode ser encarado desta forma. Eu acho que, se não é uma trapaça, é no mínimo uma contradição. Cenas como a morte do canário, no início do filme, mostram como um truque de mágica não tem nada de "mágico". Já o segredo do truque de "teletransporte" que Hugh Jackman apresenta - usando a máquina construída por Tesla - acaba sendo que não há nenhum segredo. A máquina realmente funciona, é "mágica" de verdade (ou, no máximo, ficção-científica). Há apenas um porém; a máquina não transporta Jackman de um lugar para outro, mas o duplica. O que faz com que ele crie um sistema que representa o sacrifício final de um performer para com sua platéia. Toda noite, ao entrar na máquina, ele tem consciência de que seu duplo vai continuar vivendo, mas ele não. Interessante que o modo como ele escolheu para morrer todas as noite seja afogado, assim como aconteceu com sua esposa. Interessante notar também o paralelismo entre os duplos de Robert e os gêmeos de Bolder. Há uma cena em que Bolder perde dois dedos da mão esquerda quando um truque dá errado, o que significa que seu duplo também teria que perder estes dois dedos. Até que ponto vai o compromisso com a arte?

É um conceito e tanto, embora conduzido pela mão pesada e séria de Nolan. E só funciona, repito, se o espectador conseguir aceitar a "trapaça" de que o truque de Tesla é real. Creio que teria sido mais interessante se a revelação do truque fosse outra. Ou, talvez, eu esteja apenas reagindo da forma que Michael Caine diz em uma parte do filme: a partir do momento em que um truque é revelado, ele não vale nada. "O Grande Truque" está disponível na Netflix.

Câmera Escura

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Robin Williams (1951-2014)

O comediante e ator Robin Williams foi achado morto esta manhã em sua residência em Tiburon, Califórnia. Tudo indica que o ator cometeu suicídio por asfixia. Williams batalhava há anos com o vício em drogas e álcool e havia se internado em uma clínica de reabilitação recentemente.

Apesar de comediante, Williams ganhou um Oscar em 1998 pelo drama "Gênio Indomável", de Gus Van Sant, escrito pela dupla Matt Damon e Ben Affleck, e fez vários outros papéis dramáticos. Um dos mais famosos foi em "Sociedade dos Poetas Mortos" (1989), de Peter Weir, papel pelo qual foi indicado ao Oscar. A figura do professor de poesia que inspirou um grupo de jovens alunos em uma escola preparatória nos anos 1950 marcou Williams como uma figura inspiradora que foi reaproveitada  em vários outros filmes, como "Tempo de Despertar" (1990), "O Pescador de Ilusões" (1991), "Patch Adams" (1998), "Amor Além da Vida" (1998), "Um Sinal de Esperança" (1999), o já citado "Gênio Indomável", entre vários outros filmes.

O ator também estreou papéis mais sombrios (e pouco vistos), como o técnico de um laboratório fotográfico que fica obcecado por uma cliente interpretada por Connie Nielsen em "Retratos de uma Obsessão" (2002), de Mark Romanek. Interpretou um serial killer no suspense "Insônia" de Christopher Nolan (com Al Pacino). Em 2004 fez o intrigante "Violação de Privacidade" em que interpretava um "editor de memórias" em uma distopia dirigida por Omar Naim e estrelada por Jim Caviezel. Um de seus papéis mais ousados foi na comédia de humor negro "O Melhor Pai do Mundo", escrito e dirigido pelo também comediante Bobcat Goldthwait. Uma curiosidade macabra é que, neste filme, o filho do personagem interpretado por Williams também morreu por asfixia.

O estilo maníaco de Williams como comediante não era do gosto de todos e ele usou e abusou tanto dos talentos cômicos quanto dramáticos. O filme que talvez tenha melhor capturado o modo de ser do ator foi "Bom Dia, Vietnã" (1987), comédia de Barry Levinson em que Williams interpretava o locutor de uma rádio americana durante a Guerra do Vietnã. Williams recebeu sua primeira indicação ao Oscar pelo papel do radialista Adrian Cronauer, que inspirava as tropas americanas no front com sua seleção de rock ´n roll e piadas afiadas.

Descanse em paz, Robin Williams.







terça-feira, 5 de agosto de 2014

Império do Sol e o Cinema de Steven Spielberg

A Rede Cinemark está exibindo vários filmes clássicos e "Império do Sol", de Steven Spielberg, foi o escolhido neste final de semana (ele também será exibido na quarta-feira, 6 de agosto, às 19:30).

"Império do Sol" é um dos filmes em que Spielberg mais investiu na emoção, ao ponto do excesso. Antes dos Oscars e do prestígio atual com  a crítica, Steven Spielberg era sinônimo de filme "pipoca", de puro entretenimento. Após uma série de mega sucessos como "Tubarão" (1975), "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977), "Caçadores da Arca Perdida" (1981), "E.T. - O Extraterrestre" (1982) e "Indiana Jones e o Templo da Perdição" (1984) - e até um fracasso, "1941 - Uma Guerra Muito Louca" (1979) - Spielberg resolveu enfrentar temas mais sérios em "A Cor Púrpura" (1985) e "Império do Sol" (1987). Em termos de Oscar, não funcionou, pois ele continuou sendo ignorado até 1993, quando finalmente ganhou o seu por "A Lista de Schindler". Grande parte da crítica caiu em cima de "Império do Sol", considerando-o longo (como, de fato, é), piegas (sem dúvida) e auto indulgente (idem). O caso é que Spielberg é um cineasta nato e se alguém é culpado por querer gritar CINEMA em cada plano de "Império do Sol", este alguém é Steven Spielberg. Em meio aos excessos, porém, há cenas de extraordinária beleza.

Garotos perdidos

O garoto Jim Graham (Christian Bale, estreando de forma impressionante no cinema aos 13 anos de idade) é o típico "garoto perdido" de Steven Spielberg. Separado da família quando da invasão japonesa a Shanghai, China, no início da 2ª Guerra Mundial, Jim passaria a guerra internado em um campo de prisioneiros japoneses. O tema da busca pela família é caro a Spielberg, que viu os pais se divorciarem quando era jovem e replicou seu trauma em vários filmes; em "E.T. - O Extraterrestre", o garoto Elliot vive em uma família em que o pai se separou da mulher e deixou os filhos com ela. O próprio "E.T." é um "garoto perdido" que foi deixado para trás e passa o filme tentando voltar para o planeta natal. Em "Inteligência Artificial" (2001), o garoto robótico David é abandonado na floresta pela "mãe" humana e também passa o filme tentando reencontrá-la. Situações semelhantes podem ser vistas em "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977), "Hook" (1991), "Prenda-me se for capaz" (2002), "O Terminal" (2004) e em vários outros filmes do cineasta. O roteiro de "Império do Sol" (de Tom Stoppard) é baseado na história real do escritor J. G. Ballard, mas são claras as influências pessoais de Spielberg na trama.

A busca pela empatia

Esta busca pelos pais acaba se revelando também em uma grande carência afetiva, que Spielberg expressa em sua necessidade de se comunicar com a platéia. Há uma constante busca pela empatia do público, que Spielberg sabe manipular brilhantemente. Isso pode ser visto tanto quanto um elogio quanto um defeito, mas é inegável o talento do diretor em causar um efeito no espectador. Spielberg agora criar diálogos cinematográficos, seja na conversa musical entre os cientistas terrestres e os alienígenas em "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", ou na ligação física que existe entre Elliot e E.T.. Já explorei esta característica dos personagens dos filmes de Spielberg no vídeo abaixo:



Império do Sol em três cenas

Esta carência e a busca pela família (e por ele próprio) podem ser vistas por toda longa e dura jornada do garoto Jim em "Império do Sol", mas é mais explícita em três cenas do filme.

O avião caído

Jim morava com a família em Shanghai na Concessão Internacional, território ocupado principalmente pelos britânicos na China desde o século 19. Spielberg ilustra as diferenças sociais e culturais entre os britânicos e os chineses em uma ótima cena que mostra vários carros de luxo levando os ingleses até uma festa à fantasia. Em meio ao trânsito caótico e ruas apilhadas de gente podemos ver os britânicos (vestidos como marinheiros, palhaços ou piratas) dentro de carros de luxo, alheios ao caos exterior. Jim é fascinado por aviões, principalmente os lendários caças japoneses "Zero", e leva um planador para a festa. Ele se afasta da casa e encontra um caça derrubado em um campo nos arredores. A cena, apesar de se passar no mundo "real", é claramente montada do ponto de vista fantasioso do menino. Ele ainda está com a família e vive em berço de ouro, em uma casa cheia de empregados e luxos. Jim lança o planador no ar, entra no caça derrubado e, acompanhado pela trilha de John Williams,  enfrenta o avião de brinquedo, fingindo atirar com as metralhadoras do caça. É uma guerra de mentira, uma fantasia do garoto transformada em realidade através da competência de Spielberg em lidar com os fundamentos do cinema, criando uma batalha aérea através de movimentos de câmera (fotografia de Allen Daviau), edição cuidadosa (do colaborador habitual, Michael Kahn) e da música de John Williams. A fantasia termina quando, ao ir buscar o planador do outro lado de um monte, Jim dá de cara com um grupo de soldados japoneses de tocaia. A cena é tensa, mas Jim não consegue ver o japoneses como inimigos, tamanha é sua admiração por eles. A batalha de fantasia entre Jim e seu avião de brinquedo representa a inocência do garoto, ainda querido por pai e mãe e com tudo a seu favor.

Logo após o bombardeio a Pearl Harbor (dezembro de 1941), os japoneses saíram da tocaia e avançaram sobre Shanghai, expulsando milhares de estrangeiros que ainda estavam na cidade. Entre eles estavam os pais de Jim, que acabam se separando do filho no meio da multidão. A perda da infância de Jim é representada pelo simples plano de um aviãozinho de metal caindo ao chão; o garoto se abaixa para pegá-lo e se solta da mãe. Em desespero, Jim vagueia por Shanghai em busca dos pais, depois vai até sua casa, que foi abandonada às pressas e saqueada pelos empregados. Em longas e elaboradas cenas, Spielberg mostra como o garoto tenta manter alguma "normalidade" dentro casa vazia, comendo o que restou dos mantimentos sentado civilizadamente à mesa. Quando o "tic-tac" do relógio para, porém, um close no rosto do garoto mostra que uma parte da vida dele morreu para sempre. É hora de crescer.

Ele volta a Shanghai, onde conhece Basie (o grande John Malkovich), um aventureiro americano que fica impressionado com a educação do menino, que usa palavras rebuscadas ("Opulence", repete Malkovich, rindo sozinho). A atenção do americano, porém, não pode ser confundida com amizade. Ele tenta vender o garoto no mercado negro, mas ele está tão fraco que ninguém o quer. Jim e Basie acabam capturados pelos japoneses e enviados a um campo de prisioneiros, onde acontece a segunda cena chave do filme.

Outro avião

A chegada de Jim ao campo de prisioneiros é outra sequência cuidadosamente encenada por Spielberg. O que poderia ser um momento trágico para o garoto acaba sendo visto pela mente do menino como um momento mágico. O campo de prisioneiros fica ao lado de uma pista de onde partem vários caças "Zero", e a visão de um deles atrai Jim como uma mariposa a uma lâmpada. Spielberg aumenta a carga visual e emocional da cena colocando centenas de faíscas saindo do avião, do qual Jim se aproxima com reverência. Ele estende as mãos mas mal consegue tocá-lo. O Sargento Nagata (Masato Ibu) grita com o garoto e chega a destravar a arma, quando sua atenção é desviada pela chegada de três pilotos kamikaze, vestindo seus uniformes. É um momento especial para Jim, que faz continência para os pilotos, que se perfilam e respondem à saudação. Ao fundo, pode-se ver o Sol vermelho no horizonte.



Algumas cenas antes, Jim corria pelas ruas de Shanghai gritando "eu me rendo" aos soldados japoneses que ele encontrava. Não era só um pedido de ajuda, mas de atenção. O menino que tinha tudo, de repente, era invisível em meio ao caos da guerra. A continência trocada entre Jim e os pilotos japoneses é a típica cena "spielberguiana" de ação e reação, mensagem e feedback. De elicitar a empatia do público. Para Jim, significa ser aceito entre os ases da aviação que ele tanto venerava.

Cadilac dos Céus

Jim passa três anos no campo de prisioneiros, procurando se manter ocupado. Ele auxilia o Dr. Rawlins (Nigel Havers) no hospital do campo, ajuda o Sr. Maxton (Leslie Phillips) na fila das refeições e cuida de diversas tarefas para Basie, que se tornou uma espécie de líder informal dos americanos internados no campo. A relação de Basie e do garoto continua ambígua. Jim admira a esperteza do americano, que retribui tratando o garoto não como uma criança, mas (aparentemente) como a um igual. Jim rouba sabonetes do Sargento Nagata, alimentos da horta do hospital e cuida da roupa do americano, que retribui não só com revistas "Life", mas permitindo que o garoto participe da sua zona de influência. Quando Basie quer descobrir se o campo além da cerca é minado, no entanto, ele não hesita em enviar Jim em uma missão potencialmente suicida, sob o pretexto de instalar umas "armadilhas" para apanhar pássaros. Outra figura importante para Jim é a Sra. Victor (Miranda Richardson), que Jim vê como um misto de mãe e figura sexual. Há uma cena rara na carreira de Spielberg em que ele mostra Jim, à noite, espiando a Sra. Victor fazendo amor com o marido.

Com a aproximação do final da guerra, aviões americanos são vistos com frequência cada vez maior sobrevoando o campo de prisioneiros. Uma das sequências mais famosas e ambiciosas do filme começa com o nascer do Sol, símbolo do Império do Japão que Spielberg faz questão de enquadrar em momentos chave da trama. Jim havia sido expulso por Basie do alojamento americano; triste e ressentido, ele assiste a uma cerimônia de graduação de pilotos kamikaze do outro lado da cerca. Ele então começa a cantar uma música dos tempos do coral na escola (Suo Gan, tradicional cantiga de ninar do País de Gales), que John Williams mescla à trilha do filme. Os caças japoneses parecem bailar no céu, em frente ao Sol, quando começa o ataque americano.



Jim sobe em um dos prédios abandonados para ver de perto os Mustang P-51, os elegantes caças americanos que realizam o ataque. Spielberg rodou a sequência em um take, utilizando várias câmeras rodando ao mesmo tempo (segundo o documentário "Uma Odisseia na China", que conta o making of do filme, Christian Bale ficou tão impressionado com os aviões que se esqueceu de interpretar; seus closes foram filmados pelo próprio Spielberg rapidamente, em seguida, para se aproveitar da fumaça e do fogo do cenário).

A liberação do campo é, também, a libertação de Jim. Sua devoção pelos ases japoneses é transferida para os pilotos americanos e seus poderosos P-51, que o garoto chama, aos gritos, de "Cadilac dos céus". E aqui também, claro, Spielberg faz um diálogo cinematográfico. Quando Jim está no alto do prédio ele vê um P-51 vindo em sua direção. O piloto, de dentro do avião, também o vê e acena para ele. Jim grita em puro êxtase cinematográfico.




É, também, o momento em que ele volta à realidade; ao ser confrontado pelo Dr. Rawlins, Jim confessa que não se lembra como eram seus pais. Vale lembrar que Christian Bale, que se tornaria um astro no futuro, tinha apenas 13 anos na época e apresenta uma interpretação impressionante.

The End

O filme, provavelmente, deveria ter terminado por aqui, ou um pouco mais para frente. Mas este é um filme de excessos, lembram-se? "Império do Sol" ainda estica por um longo tempo, mostrando o êxodo dos prisioneiros pela China, a descoberta de um estádio cheio dos artigos de luxo saqueados das casas dos britânicos, a morte da Sra. Victor, a explosão da bomba de Nagazaki, a volta de Jim para o campo e assim por diante. Spielberg estava inspirado. Quando finalmente Jim encontra com os pais e a mãe lhe dá um abraço, um close nos olhos do garoto não mostram uma criança, mas um homem velho, que passou pelo inferno para conseguir sobreviver e, finalmente, voltar ao lar.

"Império do Sol" pode não ser tão redondo como "E.T.", divertido como os filmes de Indiana Jones ou relevante quanto "A Lista de Schindler" mas, em meio a todos os seus excessos, é um dos trabalhos mais impressionante da carreira de Steven Spielberg. A perda da inocência tanto de Jim quanto de Steven Spielberg (que passaria a fazer filmes considerados mais "sérios" dali para a frente) é lenta e dolorosa, mas cinematograficamente espetacular.

Câmera Escura

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Guardiões da Galáxia

Como é, outro filme da Marvel? Sim, outro filme da Marvel. Aceite e divirta-se, ou seja banido dos cinemas pelos próximos anos, aparentemente, pois o gigante dos quadrinhos se transformou em uma máquina de fazer filmes e muito, muito dinheiro.

Sim, este é o filme do guaxinim disparando uma metralhadora, da mulher verde, da árvore falante que parece ter fugido do set de "O Senhor dos Anéis", do grandão que parece o "Coisa" sem as pedras no corpo e do terráqueo espertinho. É tudo aquilo que você estava esperando; é barulhento, colorido, tem um 3D dispensável e quase tanta gente na equipe de efeitos especiais quanto o número de heróis criado por Stan Lee. Está sendo chamado de o filme mais "arriscado" da Marvel, o que é discutível. É fato que nerd que é nerd leva o universo dos super-heróis muito a sério e pode achar que o estúdio que lançou três "Homem de Ferro", dois "Thor", "Os Vingadores", dois "Capitão América", entre outros, estaria indo longe demais com o tal guaxinim falante. Afinal, não são filmes para crianças pequenas, mas para garotões que não têm vergonha de ter um boneco de Tony Stark na prateleira. (leia mais abaixo)


Assim, "Guardiões da Galáxia" é, talvez, o filme que mais apele para os jovens adultos (e adultos não tão jovens assim) da platéia, explorando um lado vintage bastante forte, principalmente no personagem de Peter Quill (Chris Pratt). Ele vaga pela galáxia sempre acompanhado de um walkman com músicas pop do século XX, faz várias citações ao século passado e Pratt parece estar emulando Han Solo, da saga Star Wars, o tempo todo. Ele é um contrabandista da Terra que foi abduzido ainda garoto no final dos anos 1980, justo no dia em que a mãe morreu. Já crescido, seus problemas começam quando ele encontra, em um planeta, uma esfera metálica chamada de Orbe. A tal esfera é cobiçada por várias pessoas (ou raças), principalmente por Ronan (Lee Pace), um vilão da raça Kree que quer usar a Orbe para destruir o planeta Xandar. Ele envia Gamora (Zoey Saldana, de "Star Trek") para recuperar a esfera, mas ela tem planos próprios. Atrás de Quill também estão dois caçadores de recompensas, o guaxinim Rocket (voz de Bradley Cooper, de "O Lugar onde tudo termina") e Groot (uma árvore andante com voz de Vin Diesel). Completa o time de criminosos Drax (Dave Bautista), que quer usar Gamora para se vingar de Ronan. Se você já se perdeu em meio a tantos nomes estranhos, não é o único.

Como de praxe em filmes da Marvel, há vários atores famosos em papéis coadjuvantes, como Glen Close, John C. Reilly e Benicio Del Toro. "Guardiões da Galáxia" é dirigido por James Gunn, com roteiro de Gunn e Nicole Perlman. Apesar do humor também ser presente nos outros filmes do estúdio, neste é visível o esforço em fazê-lo ainda mais nonsense, com toques que me lembraram um pouco a série de livros de Douglas Adams, "O Guia dos Mochileiros das Galáxias". A censura livre impediu que se fizessem cenas um pouco mais ousadas (inclusive algumas de Zoe Saldana que estão nos trailers mas não no corte final). O vilão Ronan é muito genérico e desinteressante, ainda mais porque há um outro vilão mais poderoso escondido nos bastidores (Thanos, interpretado por Josh Brolin). Provavelmente ele voltará nos próximos filmes. "Guardiões da Galáxia" entrega o que promete e tem seu charme, embora não seja exatamente memorável. A certeza de sucesso é tão grande que um letreiro ao final já avisa que os guardiões voltarão em breve.

Câmera Escura

domingo, 27 de julho de 2014

Planeta dos Macacos: O Confronto

O primeiro nome a aparecer nos créditos ao final de "Planeta dos Macacos: O Confronto" é o de Andy Serkis. É impressionante, uma vez que Serkis nunca é visto "em carne e osso". Ele interpreta novamente o personagem principal, o macaco evoluído César. O ator ficou famoso depois de dar vida a Gollun na trilogia do "Senhor dos Anéis" e se tornou uma espécie de ator símbolo de um novo tipo de interpretação cinematográfica, tornada possível graças a uma tecnologia chamada de performance capture, uma evolução no processo de motion capture (em que os movimentos do ator são capturados pelo computador e transformados em computação gráfica).

"O Confronto" é a continuação de "Planeta dos Macacos: A Origem" e é, sob todos os aspectos, muito superior. Passado dez anos após os eventos do primeiro filme, "O Confronto" mostra como quase toda a Humanidade foi aniquilada pela "gripe símia", doença criada artificialmente em laboratório na mutação de uma droga contra o Mal de Alzheimer. A droga foi também responsável pela evolução extraordinária de macacos usados como cobaias, que se rebelaram e fugiram para as florestas próximas à cidade de São Francisco, Califórnia. O grupo, liderado por César (Serkis), construiu uma sociedade razoavelmente evoluída, que sabe usar o fogo, montar em cavalos, se comunica por meio da linguagem de sinais e voz e conhece até os rudimentos da escrita. Os Humanos estavam desaparecidos há anos e tudo ia bem na comunidade dos macacos até que um grupo de sobreviventes de São Francisco entra na floresta em busca de uma usina hidroelétrica. Eles são liderados por Malcolm (Jason Clarke, muito melhor do que James Franco, do filme anterior), que tenta dialogar com César. O problema é que tanto entre os humanos quanto entre os macacos há os que acham que a convivência pacífica é impossível. Os macacos são fisicamente superiores mas os humanos têm armas de fogo. (leia mais abaixo)


Dirigido por Matt Reeves, o filme é tanto um assombro técnico quanto é uma narrativa extremamente competente. Tenho certa ressalva com o modo como os macacos se comunicam, com uma linha de raciocínio que me pareceu humana demais. O uso de legendas, em vários momentos, é redundante (é necessário escrever "Pare" quando um macaco vira para o outro e levanta a mão?). O roteiro, de Mark Monback, Rick Jaffa e Amanda Silver, aliado aos ótimos efeitos especiais, é bem sucedido em criar tanto a comunidade dos macacos quanto a dos humanos sobreviventes, assustados e sem recursos, que se aglomeram em São Francisco. Gary Oldman, como o líder dos humanos, não é o vilão maniqueísta que se poderia esperar, mas um homem que perdeu muito e tem que proteger os seus. Quando a diplomacia fracassa e o confronto do título se inicia, há uma série de cenas épicas de luta entre os macacos, empunhando armas e cavalgando cavalos, e os humanos barricados em uma São Francisco destruída pelos anos de abandono.

"Planeta dos Macacos: O Confronto", é muito superior ao anterior e eleva os efeitos especiais a outro nível. Há quem diga que Andy Serkis deveria ser indicado ao Oscar por sua interpretação, mesmo que virtual. Se formos levar em conta que filmes construídos quase todos no computador como "Gravidade" e "Avatar" já ganharam o Oscar de Melhor Fotografia, talvez tenhamos chegado à era em que personagens virtuais deveriam ser premiados por suas interpretações. O sucesso deste filme, com certeza, vai gerar continuações, que vão ter que se esforçar muito para se igualar a este capítulo.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Sentidos do Amor

Ninguém sabe onde a doença surgiu, ou o que a causa. Os sintomas incluem depressão intensa, choro e desespero, seguidos da perda do olfato. O fenômeno se espalha lentamente pelo mundo, forçando a mudança de hábito das pessoas. O sabor dos alimentos passa a ser mais forte, para compensar a falta de aroma. Quando tudo parece ter voltado ao normal, outra crise começa a atacar as pessoas, agora com uma fome insaciável. Depois disso, todos perdem o sentido do paladar.

"Sentidos do Amor" (tradução boba para o título original, "Perfect Sense") é um tipo diferente de "filme catástrofe". Embora eventualmente testemunhemos cenas de revoltas, saques, destruição e outras comuns ao gênero, o filme do diretor David Mackenzie está mais interessado em focar no como a perda dos sentidos afeta psicologicamente a vida de pessoas comuns. Uma destas pessoas é Susan (Eva Green, "Cassino Royale", "Sonhadores"), uma epidemiologista que é uma das primeiras a tomar contato com a doença. Outro é Michael (Ewan McGregor, "Escritor Fantasma"), um chef de cozinha que é ótimo no serviço mas péssimo nas relações pessoais. Michael e Susan têm um caso, mas Michael é insensível a ponto de, depois da primeira transa, pedir para ela ir embora porque ele não consegue dividir a cama com outra pessoa. (leia mais abaixo)


Conforme a doença vai se espalhando e os personagens principais começam a perder os sentidos (no início, apenas olfato e paladar), o roteiro do dinamarquês Kim Fupz Aakeson abre espaço para mostrar como o resto do mundo está enfrentando o problema, seja na Inglaterra (onde se passa a ação principal), no Kenya, México ou Índia. A princípio, o filme pinta um quadro otimista. Privadas do paladar, as pessoas ainda assim não deixam de frequentar restaurantes, onde passam a explorar outros sentidos. A comida não é mais classificada pelo sabor, mas pela temperatura, textura, consistência. Susan e Michael são aproximados pela crise e passam a buscar outros prazeres no tato, no sexo, na intimidade física e psicológica.

Ao saber que o sentido da audição provavelmente será o próximo a ser perdido, há uma ótima cena em que Michael e Susan ficam apenas sentados no carro, janelas abertas, escutando o barulho dos sinos, dos carros e do grito das pessoas. A perda total dos sentidos, aparentemente, é inevitável, mas as pessoas tentam viver com algum grau de normalidade, enquanto é possível. Ewan Mcgregor e Eva Green são ótimos atores e nos interessamos pelo casal. Poucos fazem uma trilha sonora tão triste a angustiante como Max Ritchter (de "Valsa com Bashir" e "Ilha do Medo"). "Sentidos do Amor" (lançado em 2011) está disponível no Brasil via Netflix.

Câmera Escura

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Homem Duplicado

Adam (Jake Gyllenhaal) é professor de História em Toronto, no Canadá. Ele tem um olhar permanentemente triste e dá suas aulas com interesse cada vez menor. A vida sexual com a namorada Mary (Mélanie Laurent, de "Trem Noturno pra Lisboa") é intensa mas, fora da cama, os dois parecem levar a vida no piloto automático. Um dia Adam está assistindo a um filme e repara que um dos atores é muito parecido com ele. Adam faz uma pesquisa e descobre que o ator se chama Anthony; intrigado, Adam entra em contato com Anthony e eles descobrem que são idênticos até o último fio de cabelo. Enquanto isso, uma gigantesca aranha é vista andando pelas ruas da cidade. Sim, uma aranha.

Este é um filme bem peculiar. O roteiro de Javier Gullon é baseado em uma história de José Saramago; o diretor canadense Denis Villeneuve é um mestre em criar suspense, como se pode ver no ótimo "Os Suspeitos" (também com Gyllenhaal). Toronto é mostrada como uma cidade fria, silenciosa e quase desabitada. O ritmo é tão lento que chega a ser sufocante, acompanhado pela trilha de Danny Bensi e Saunder Jurriaans. Anthony, o ator, é casado com Hellen (Sarah Gadon), grávida de seis meses e, de certos ângulos, é bem parecida com Mary, namorada do professor. O espectador é convidado a um jogo de adivinhação cada vez que Jake Gyllenhaal aparece na tela. Estamos vendo Adam ou Anthony? As únicas diferenças entre eles são as roupas e a aliança de casado que Anthony tem no dedo. Em diversas ocasiões, porém, parece que nem mesmo Adam e Anthony sabem quem eles são. (leia mais abaixo)


O clima bizarro lembra um pouco a obra de outro canadense, David Cronenberg, que em 1988 fez um filme bem estranho chamado "Gêmeos - Mórbida Semelhança", em que Jeremy Irons também fazia um papel duplo. Há várias cenas de bons efeitos especiais em "O Homem Duplicado", mas este não é um blockbuster de super heróis. É um bom suspense psicológico em que tentar adivinhar o que está acontecendo nem é tão difícil (e nem faz tanta diferença). A cena final vai ficar na memória por um bom tempo.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Último Amor de Mr. Morgan

Para um filme que passa quase duas horas falando sobre como enfrentar a depressão, passar por cima do passado e voltar a viver, "O Último Amor de Mr. Morgan" tem um final completamente incoerente e inacreditável. É uma pena, porque durante a primeira hora assistimos a um filme charmoso e interessante.

Michael Caine, sempre ótimo, é Matthew Morgan, um professor aposentado de Filosofia que mora em Paris. Desde a morte da esposa Joan (a veterana Jane Alexander), que ele venerava, ele vagueia pela cidade imaginando a mulher ao seu lado, tendo conversas imaginárias com ela ou passeando de mãos dadas. Um dia, no ônibus, ele conhece uma jovem e doce francesa chamada Pauline (Clémence Poésy), que imediatamente simpatiza com ele. Os dois engatam uma amizade que é uma mistura de companheirismo, amor paternal e, talvez, algo mais. É interessante o modo como nenhum dos dois questiona ou discute o que está acontecendo; eles apenas gostam de estar juntos e passear por paisagens idílicas de Paris e arredores, acompanhados por uma trilha suave de Hans Zimmer. (leia mais abaixo)


É então que o personagem de Michael Caine acha que é hora de "voltar para casa", e ele tenta se suicidar tomando uma overdose de pílulas para dormir. Ele falha, e é visitado no hospital não apenas por Pauline (que lhe diz que "tomou uma decisão") mas pelos filhos que voaram dos Estados Unidos para a França para ver o pai. Eles são Miles (Justin Kirk), um rapaz extremamente ressentido (e chato) com o pai e Karen (uma surpreendente Gillian Anderson, a eterna Dana Scully da série "Arquivo X"). De repente, o filme sai totalmente dos trilhos. O que começou como uma bonita história de amor e redenção entre um viúvo e uma jovem se torna uma discussão interminável entre Matthew e seus filhos (principalmente Miles) que não têm motivos para achá-lo um grande pai. Pauline, colocada no meio de uma discussão de família, perde qualquer traço da personalidade que tinha até então. O tal "último amor do Sr. Morgan" dá lugar a cenas intermináveis em que Miles acusa o pai de tê-lo castrado quando criança,  discussões sobre quem vai herdar o dinheiro de uma casa de campo, problemas no casamento de Miles e outras coisas que, francamente, o espectador não está interessado.

O final, repito, vai contra tudo o que se construiu durante a narrativa. "O Último Amor de Mr. Morgan" é escrito e dirigido por Sandra Nettelbeck; o filme vale pela interpretação de Michael Caine e por algumas belas cenas durante a primeira hora. Quando os filhos entram em cena, porém, se torna um filme enfadonho e sem direção. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O lugar onde tudo termina

Este é daqueles filmes em que a inevitabilidade do destino parece ditar cada passo, cada respiro dos personagens. É, ao mesmo tempo, opressor e liberador. Sobreviver ou não depende do quanto se aceita ou se luta contra a própria sorte.

Luke (Ryan Gosling, de "Drive", em personagem estranhamente parecido) nasceu para pilotar motos. Ele tem o corpo todo tatuado e leva uma vida errante, acompanhando um parque de diversões como piloto no Globo da Morte. Ao retornar para a pequena cidade de Schenectady, Nova York, descobre que um caso passageiro que teve no ano anterior resultou em um filho, Jason. A mãe, Romina (Eva Mendes), trabalha como garçonete e está morando com um homem honesto e trabalhador, Kofi (Mahershala Ali, de "House of Cards"). Ao saber do filho, Luke sonha em reconquistar Romina e prover para o garoto, mas a única forma que ele consegue imaginar para fazê-lo é roubando bancos da região, dos quais foge, como raio, em sua motocicleta. (leia mais abaixo)


Avery Cross (Bradley Cooper, diferente dos papéis em "Trapaça" e "O Lado Bom da Vida") é um policial que é ferido ao trocar tiros com um bandido também na cidade de Schenectady. Os meses de recuperação colocam pressão sobre seu casamento e o expõem a um lado corrupto da polícia que ele não conhecia. É só a figura do grande ator Ray Liotta aparecer como policial para que o espectador saiba que há algo de muito errado na corporação. Avery tem que decidir se embarca nos esquemas de corrupção ou tenta sair deles. Quem sabe ele não poderia usar da oportunidade para se promover politicamente?

O filme acompanha também as vidas de dois adolescentes de 16 anos, Jason (Dane DeHaan, de "O Espetacular Homem-Aranha 2") e A.J. (Emory Cohen). Os dois frequentam a mesma escola, em Schenectady, e começam a se envolver com drogas e pequenos delitos. Jason não sabe quem é seu pai de verdade. A mãe diz que ele morreu em um acidente de carro.

Não vou revelar o modo como estas três histórias se ligam. O fato é que o roteiro do diretor Derek Cianfrance ("Namorados para Sempre") é ambicioso e não foge de grandes decisões. Causas nem sempre são acompanhadas por consequências de forma imediata. Um espaço de 15 anos separa a primeira cena (um ótimo plano sequência mostrando Ryan Gosling caminhando para o Globo da Morte) da última (outro personagem partindo em uma moto). Com 140 minutos de duração, "O lugar onde tudo termina" é grande cinema, para ser visto com atenção. Disponível na Netflix.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste

"O Grande Hotel Budapeste" é como uma daquelas bonecas russas, ricamente decoradas, que se abrem revelando outras bonecas dentro delas. A cada nova camada se descobre outra obra de arte ainda mais elaborada do que a anterior. É também uma declaração de amor à etiqueta, às boas maneiras, ao profissionalismo e uma Europa que, provavelmente, nunca existiu na verdade, a não ser como um ideal na cabeça de personagens como M. Gustave (Ralph Fiennes, extraordinário), concierge do "Grande Hotel Budapeste". Dizer que foi escrito e dirigido por Wes Anderson ("Moonrise Kingdom") se torna redundante a partir do primeiro frame do filme, que tem todas as características do estilo do diretor.

Anderson cria uma espécie de conto de fadas adulto, um roteiro francamente literário que começa com o busto de um "Autor" (interpretado por Tom Wilkinson quando velho e Jude Law quando mais moço). Ainda usando a imagem da boneca russa, a trama é contada em várias camadas, começando pelo Autor em 1985, passando por Jude Law na década de 1960 e finalmente retrocedendo até a década de 1930, no período entre guerras. Cada época é filmada em uma proporção diferente (2.35: 1, 1.85:1 e 1.37:1), em boa e velha película cinematográfica com ótima direção de fotografia de Robert Yeoman (habitual colaborador de Wes Anderson).


A parte principal da trama se passa nos anos 1930, quando o "Grande Hotel Budapeste" estava no auge do luxo e clientela. M. Gustave (Fiennes) é responsável não só por manter o hotel funcionando impecavelmente como também atende às hóspedes mais velhas com uma atenção especial; "Eu durmo com todas as minhas amigas", diz ele em dado momento. Uma das suas conquistas é a Madame D. (uma irreconhecível Tilda Swinton), que morre de forma misteriosa e deixa um quadro de valor inestimável a Gustave. Isso causa a ira do filho da Madame D., Dimitri (Adrien Brody), que conspira para enviar M. Gustave para uma prisão de segurança máxima, de onde ele vai tentar escapar com a ajuda de seu protegido, um mensageiro do hotel chamado Zero (o ótimo estreante Tony Revolori). É praticamente impossível falar muito sobre a trama, que envolve regras de etiqueta, o crescimento de uma nação fascista na Europa, honra entre ladrões, um elaborado plano de fuga e uma série incrível de personagens secundários. O elenco impressiona, com papéis coadjuvantes interpretados por nomes como F. Murray Abraham, Mathieu Almaric, Jeff Goldblum, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Edward Norton, Bill Murray, Bob Balaban, Saoirse Ronan, Léa Seydoux, Jason Swartzman, Owen Wilson e vários outros atores.

É um filme de Wes Anderson, o que significa qualidade técnica impecável, quase obsessiva. A direção de arte é brilhante, fazendo bom uso de locações reais (filmadas na Alemanha e Polônia), estúdio e cenas de efeitos especiais envolvendo miniaturas e animação. A trilha sonora de Alexandre Desplat vai mudando e se adaptando praticamente a cada plano, acompanhando a narração. Wes Anderson tem tanto admiradores quanto detratores, e com este filme não vai ser diferente. Para mim, "O Grande Hotel Budapeste" é seu melhor filme, impecavelmente bem feito, divertido e inventivo ao extremo.

Câmera Escura