domingo, 25 de janeiro de 2015

A Teoria de Tudo

Albert Einstein, em seu tempo, era uma das pessoas mais famosas do planeta. Seu fascínio superava barreiras linguísticas, geográficas, religiosas, filosóficas e científicas. No entanto, quantas pessoas, de verdade, seriam capazes de dizer que entenderam a Teoria da Relatividade?

O mesmo pode se dizer de Stephen Hawking, décadas depois. O astrofísico inglês tem a fama de um astro do rock. Seu livro "Uma Breve História do Tempo" foi um bestseller avassalador, mesmo que poucos dos seus leitores faziam ideia do que ele estava falando. O que faz figuras como Einstein, Hawking, Carl Sagan ou Neil deGrasse Tyson fascinantes? Talvez seja exatamente seu mistério. Talvez seja nossa fascinação com o desconhecido, com a "mágica" que parece existir atrás de números e fórmulas que não sabemos como funcionam.

O cinema, ávido por figuras heroicas e mágicas, de tempos em tempos lança filmes sobre estes seres sobre-humanos e seu domínio sobre os números. Assim, olhamos com espanto para Matt Damon desenhando fórmulas na lousa em "Gênio Indomável" (1997) ou Russell Crowe imaginando números em pleno ar em "Uma Mente Brilhante" (1991) e esquecemos nossas dificuldades em fazer aquele cálculo simples de porcentagem.

Em "A Teoria de Tudo" é a vez de vermos Eddie Redmayne visualizando o início do Universo em uma xícara de café com leite. Ele interpreta Stephen Hawking desde os tempos em que apostava corrida de bicicletas com os colegas em Cambridge. Redmayne está muito bem como Hawking, com seus famosos óculos de aro grosso e expressão curiosa. O arco do seu personagem, aliás, é bastante parecido com o vivido por Russell Crowe em "Uma Mente Brilhante"; um matemático que conquista o amor de uma garota especial e se torna um gênio da ciência, tendo que superar um problema de saúde grave. (leia mais abaixo)


Enquanto John Forbes Nash, o matemático vivido por Crowe, sofria de esquizofrenia (fato desconhecido de grande parte do público), a atrofia nervosa apresentada por Hawking já faz parte do imaginário dos espectadores, que sempre o "conheceram" sentado naquela cadeira de rodas e "falando" com aquele sintetizador de voz robótico. Assim, não deixa de ser interessante vê-lo, através da interpretação de Redmayne, andando e correndo pelos corredores da universidade antes que os primeiros sintomas da doença se manifestem.

O roteiro, escrito por Anthony McCarten, é baseado no livro de Jane Hawking (vivida por Felicity Jones), a garota religiosa por quem Hawking se apaixonou. As cenas do primeiro encontro entre eles, em uma festa de Cambridge, são filmadas como em um conto de fadas, com bela fotografia de Benoît Delhomme. Com o perdão da palavra, o casal Hawking mostrado no filme é um dos mais "fofos" do cinema, mas há bons diálogos trocados por Redmayne e Jones a respeito do Universo e da existência (ou não) de Deus, etc. Poderia ser piegas, mas a interpretação dos dois é honesta, muito bem dirigidos por James Marsh (que fez o ótimo documentário "O Equilibrista").

O resto do filme trata da decadência física de Hawking, a quem o médico deu apenas dois anos de vida depois do primeiro ataque, e seus triunfos científicos. Não é por menos que o físico decidiu se dedicar ao estudo do Tempo, que ele conseguiu superar até os atuais 72 anos de idade. O roteiro trata de desconstruir também (embora de forma leve), o casamento de conto de fadas e Stephen e Jane. Há um professor de canto (interpretado por Charlie Cox) que se torna algo mais na vida de Jane, assim como uma enfermeira no caso de Hawking.

Não é um filme brilhante nem inovador, mas é extremamente bem feito, e a vida de Stephen Hawking é, sem dúvida, fascinante. "A Teoria de Tudo" conquistou cinco indicações ao Oscar: Filme, Ator (Eddie Redmayne), Atriz (Felicity Jones), Roteiro Adaptado (Anthony McCarten) e Trilha Sonora (Jóhann Jóhannsson).

Observação: Benedict Cumberbatch, que está concorrendo com Redmayne a melhor ator por "O Jogo da Imitação", interpretou Stephen Hawking em um especial para a BBC em 2004. O filme pode ser visto clicando aqui.

João Solimeo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dois dias, uma noite

Sandra (Marion Cotillard, de "Ferrugem e Osso") é uma mulher belga que sofre de depressão. Após passar um tempo afastada do trabalho, ela volta e descobre que está para ser demitida. Seu emprego depende de uma cruel votação sugerida pelo encarregado da empresa. Ele dá aos empregados duas opções: demitir Sandra e receber um bônus de mil euros ou abrir mão do bônus para mantê-la na equipe. A votação será na segunda-feira de manhã e Sandra tem um final de semana (dois dias e uma noite) para convencer 16 companheiros de trabalho a abrirem mão de mil euros e votarem por sua permanência na empresa.

Sandra precisa do salário para manter a casa que divide com o marido e dois filhos, mas sente-se muito mal por ter que passar pela humilhação de ir de casa em casa, no final de semana, importunar os companheiros e implorar para que não a demitam. O filme é dirigido pelos irmãos Dardenne e há ecos na situação de Sandra com a da garota Rosetta, protagonista do filme de mesmo nome dirigido pelos belgas em 1999. O emprego, para Sandra, não é só um meio de se sustentar financeiramente, mas uma forma de lutar contra a depressão e mostrar que ela é "alguém". O marido Manu (Fabrizio Rongione) a ama e quer ajudá-la, mas sua insistência em tirá-la de casa e ir falar com os companheiros, por vezes, mais atrapalha do que ajuda. (leia mais abaixo)


Os irmãos Dardenne (de "O Filho" e "O Garoto da Bicicleta") têm experiência em documentários e seu cinema é extremamente realista. Eles fazem poucos cortes com a câmera, que acompanha Marion Cotillard passo a passo conforme ela visita os outros trabalhadores. A sensação de se estar lá, junto com a personagem, faz com que o espectador tenha que passar pela mesma experiência dela, que alterna momentos de humilhação com outros de esperança. Os diretores mostram todo o trajeto de Sandra até a casa de cada uma das pessoas que ela tem que convencer, fazendo sempre o mesmo "discurso" e explicando o porquê dela precisar que eles abram mão do dinheiro para que ela mantenha seu emprego.

O filme, apesar da crescente angústia e do suspense quanto ao final, não me pareceu tão forte quanto os trabalhos anteriores dos Dardenne. O dilema moral apresentado pela trama é relevante, principalmente nesta época de crise mundial, mas a peregrinação de Sandra de casa em casa se torna repetitiva. Cotillard é ótima atriz e conseguiu uma indicação ao Oscar pelo papel de Sandra, muito embora sua interpretação de uma mulher depressiva era melhor ainda em "Ferrugem e Osso", papel pelo qual ela deveria ter sido indicada no ano passado. Mas é interessante ver como cada um dos companheiros de Sandra reage quando está frente a frente com ela. O que vale mais, o companheirismo ou dinheiro no banco? A insistência de Sandra é válida ou ela está importunando os companheiros com uma situação que não é culpa deles? Como ela reagiria se estivesse do outro lado?

João Solimeo
Câmera Escura

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Juiz

"O Juiz" é um drama; é também um filme sobre família, sobre divórcio, sobre voltar para casa, sobre amores antigos e sobre o atrito entre pais e filhos. Como se não bastasse, é também um suspense e um filme de tribunal. Tudo isso se desenrola de forma nem sempre harmoniosa em longos 141 minutos, mas o elenco é bom, a parte técnica é competente e o filme tem tão boas intenções que, no fim das contas, o saldo é positivo.

Hank Palmer (Robert Downey Jr, excelente) é um advogado bem sucedido e antiético. Ele está defendendo um crápula qualquer na cidade grande quando recebe um telefonema. Sua mãe faleceu e ele tem que abandonar tudo e partir para a cidade natal. Antes dele partir, porém, ficamos sabendo que ele tem uma filha que o ama muito e uma esposa de quem está se divorciando.

Palmer volta então para Carlinville, Indiana, onde o funeral da sua mãe o espera. Mas ele parece mais preocupado com o fato de que vai reencontrar o pai, o venerável Juiz Palmer (Robert Duvall, em interpretação que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante) do que com a morte da mãe. Os dois não se falam há anos por causa de problemas no passado. Hank tem um irmão mais velho, Glenn (Vincent D´Onofrio) e outro mais novo, Dale (Jeremy Strong), que tem deficiência intelectual e está sempre com uma câmera de Super-8 nas mãos. (leia mais abaixo)


Até este ponto imaginamos que vamos ver um típico filme de reunião de família. Hank passeia pela cidade natal, encontra uma ex-namorada (Vera Farmiga, de "Amor sem Escalas") e, com o corpo da mãe ainda quente, entra em discussões com o pai. É então que, em uma reviravolta, o filme familiar se transforma em um filme policial. Um ciclista é encontrado morto atropelado na estrada. Ele havia sido julgado pelo Juiz Palmer há mais de vinte anos em um caso complicado que terminou em assassinato. A polícia vai investigar e encontra o carro do Juiz todo amassado e com manchas de sangue. Entra então o filme de tribunal, em que tanto Hank quanto o pai têm que engolir o orgulho e trabalhar juntos para convencer o juri de que o Juiz não é culpado.

"O Juiz" é dirigido por David Dobkin com roteiro de Nick Schenk e Bill Dubuke. O filme tem uma aparência incrível, cortesia da direção de fotografia de Janusz Kaminski, tradicional colaborador de Steven Spielberg. Kaminski adora raios de luz que criam sombras dentro do tribunal, iluminam o rosto dos atores ou são lançados pelo projetor de Super-8 de Dale. A interpretação de todo o elenco é impecável; é bom ver Robert Downey Jr fora do uniforme do "Homem de Ferro" de vez em quando. Billy Bob Thornton faz uma participação como o advogado de acusação e vários coadjuvantes são conhecidos por quem é fã de cinema.

Pena que o roteiro queira abraçar o mundo. Há subtramas demais (inclusive um caso de paternidade que pode significar um incesto por parte de Hank) e momentos claramente construídos para tirar uma lágrima do espectador. É um mau filme? Longe disso. Basta não ter pressa, apreciar as interpretações e não levar a trama criminal muito a sério.

João Solimeo
Câmera Escura

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Conto da Princesa Kaguya

"O Conto da Princesa Kaguya" é o quinto filme dirigido por Isao Takahata para o estúdio Ghibli, gigante da animação japonesa fundado por ele e pelo mestre Hayao Miyazaki (de "Vidas ao Vento"). É também, provavelmente, o último longa do diretor, que vai completar 80 anos. "Kaguya" foi um dos indicados ao Oscar de "Melhor Animação", ao lado de filmes como "Operação Big Hero", "Como treinar seu dragão 2", "Os Boxtrolls" e "Song of the Sea".

A história é baseada em uma lenda japonesa do século 10 sobre um cortador de bambu que encontra na floresta uma linda princesa que, de tão pequena, cabe em sua mão. Ele leva a menina para casa e, junto com a esposa, a adota como filha. A animação é lindamente desenhada por Takahata e seus animadores, em uma técnica que parece feita com lápis de cor, carvão e aquarela. Em um mundo em que as animações tentam ser cada vez mais foto-realistas é um prazer ver a linda palheta de cores que Takahata pinta na tela.

As primeiras cenas que mostram a menina sendo adotada pelo velho casal e se transformando de princesa em um bebê são de grande beleza e sensibilidade. Note a habilidade dos animadores em desenhar a bebê se desenvolvendo e descobrindo o mundo em um ótima cena em que ela começa a engatinhar e seguir alguns animais da floresta, como sapos e insetos. Ela cresce como mágica, aprende a andar e a falar em pouco tempo e logo está correndo pela floresta na companhia de um grupo de garotos liderados por Sutemaru.

Eles levam uma vida feliz até que o pai da garota encontra ouro e roupas requintadas no mesmo bosque de bambus onde descobriu a filha. Ele acredita que os deuses da floresta estão lhe dizendo que a filha merece uma vida melhor e parte com a família para a capital, onde compra uma enorme mansão cheia de empregados e professores de etiqueta. A garota se transforma, a contragosto, na Princesa Kaguya (nome que significa "brilhante", "radiante") e tem que seguir uma série de regras em uma vida bem diferente da que ela levava na floresta. Sua beleza atrai um grande número de admiradores, mas Kaguya exige tarefas impossíveis de seus pretendentes, para desespero do pai, que a quer casada com algum príncipe. Até o Imperador do Japão tenta conquistar Kaguya, sem sucesso. Saudosa da liberdade, Kaguya se torna cada vez mais deprimida. (leia mais abaixo)


O ritmo do filme acompanha o estado de espírito de Kaguya. A primeira parte, passada na floresta e nas montanhas, é alegre e cheia de vida. A vida na corte, com suas obrigações e deveres, é mostrada de forma lenta e, por vezes, entediante. Como na maioria dos contos de fada originais, a história da Princesa Kaguya termina de forma agridoce. Sua melancolia cresce até a descoberta de que, de fato, ela não é deste mundo, levando a um final triste e trágico.

Vale lembrar que Isao Takahata dirigiu o que considero um dos filmes (animados ou não) mais trágicos de todos os tempos, "Cemitério de Vagalumes" (Hotaru no Haka, 1988), a história de um casal de irmãos durante a 2ª Guerra Mundial, que é implacável na descrição dos horrores da guerra. "O Conto da Princesa Kaguya" não está neste nível de dramaticidade, mas não tem o final feliz que geralmente se espera de um filme de princesas feito no ocidente.

Maravilhosamente desenhado e animado, com bela trilha sonora de Joe Hisaishi e direção de Takahata, "O Conto da Princesa Kaguya" é dos melhores animados do estúdio Ghibli. A indicação ao Oscar deve torná-lo mais acessível nos cinemas por aqui. Enquanto isso, você pode vê-lo na íntegra, com legendas em português, neste link.

João Solimeo

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Confira os indicados ao OSCAR 2015



Foram anunciados esta manhã em Los Angeles, Califórnia, os indicados ao prêmio máximo da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas, o Oscar.

"Birdman", de Alejandro G. Iñarritu e "O Grande Hotel Budapeste", de Wes Anderson, lideram as indicações com nove cada. "O Grande Hotel Budapeste" venceu o último Globo de Ouro como Melhor Filme de musical ou comédia. 

O ótimo "Boyhood: Da Infância à Juventude", está indicado a seis Oscars. O filme independente de Richard Linklater já recebeu vários prêmios por sua combinação de ousadia técnica (a produção levou 12 anos para ser filmada) e sensibilidade artística, vencendo inclusive o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático. 

O comediante Steve Carell recebeu uma indicação como Melhor Ator pelo papel dramático em "Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo". O favorito ao prêmio é Michael Keaton, muito elogiado em "Birdman", mas não se surpreenda se o prêmio for para Eddie Redmayne, que interpretou o astrofísico Stephen Hawking em "A Teoria de tudo". O grande esnobado foi Jake Gyllenhaal pela ótima interpretação no chocante "O Abutre" (que só tem uma indicação, a Melhor Roteiro Original, de Dan Gilroy). Bradley Cooper, de "Sniper Americano", acabou ficando com a vaga de Gyllenhaal.

Rosamund Pike recebeu a única indicação do ótimo "Garota Exemplar", de David Fincher (que foi esnobado até nos prêmios técnicos como fotografia, edição e trilha sonora). Jennifer Aniston, eternamente lembrada pelo seriado "Friends", não convenceu a Academia por seu papel dramático no filme "Cake" e ficou de fora das indicações. Já a onipresente Meryl Streep recebeu a 19ª indicação da carreira, já tendo vencido em três ocasiões anteriores. Esperemos que deixem alguma outra atriz levar o prêmio este ano. Entre os coadjuvantes homens, J.K. Simmons é aposta certa ao prêmio por sua excelente performance em "Whiplash: Em busca da perfeição", em que faz um exigente professor de música.

Falando em música, Alexandre Desplat concorre contra ele mesmo na categoria de Melhor Trilha Sonora. Ele concorre pelas trilhas de "O Grande Hotel Budapeste" e "O Jogo da Imitação".

A categoria "Melhor Animação" surpreendeu pela ausência de "Uma Aventura Lego", que foi muito elogiado durante todo o ano. Entre os indicados estão "Operação Big Hero", "Como treinar seu dragão 2", "Song of the sea", "Os Boxtrolls", além da animação japonesa "O Conto da Princesa Kaguya".

A cerimônia de entrega do Oscar 2015 acontece no dia 22 de fevereiro.

Confira a lista dos indicados:

Melhor filme
"Selma"

Melhor diretor
Alejandro Gonzáles Iñárritu ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
Bennett Miller ("Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo")
Wes Anderson ("O grande hotel Budapeste")
Morten Tyldum ("O jogo da imitação")

Melhor ator
Steve Carell ("Foxcatcher")
Bradley Cooper ("Sniper americano")
Benedict Cumbertatch ("O jogo da imitação")
Michael Keaton ("Birdman")
Eddie Redmayne ("A teoria de tudo")

Melhor atriz
Marion Cotillard ("Dois dias, uma noite")
Felicity Jones ("A teoria de tudo")
Julianne Moore ("Para sempre Alice")
Rosamund Pike ("Garota exemplar")
Reese Whiterspoon ("Livre")

Melhor ator coadjuvante
Robert Duvall ("O juiz")
Ethan Hawke ("Boyhood")
Edward Norton ("Birdman")
Mark Ruffalo ("Foxcatcher")

Melhor atriz coadjuvante
Patricia Arquette ("Boyhood")
Laura Dern ("Livre")
Keira Knightley ("O jogo da imitação")
Emma Stone ("Birdman")
Meryl Streep ("Caminhos da floresta")

Melhor roteiro original
Alejandro G. Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
E. Max Frye e Dan Futterman ("Foxcatcher")
Wes Anderson e Hugo Guinness ("O grande hotel Budapeste")
Dan Gilroy ("O abutre")

Melhor roteiro adaptado
Jason Hall ("Sniper americano")
Graham Moore ("O jogo da imitação")
Paul Thomas Anderson ("Vício inerente")
Anthony McCarten ("A teoria de tudo")

Melhor filme estrangeiro
"Ida" (Polônia)
"Leviatã" (Rússia)
"Tangerines" (Estônia)
"Timbuktu" (Mauritânia)
"Relatos selvagens" (Argentina)

Melhor documentário longa-metragem
"O sal da terra"
"CitizenFour"
"Finding Vivian Maier"
"Last days"
"Virunga"

Melhor documentário curta-metragem 
"Crisis Hotline: Veterans Press 1"
"Joanna"
"Our curse"
“The reaper (La Parka)"
"White earth"

Melhor animação longa metragem
"Song of the sea"

Melhor animação em curta-metragem
"The bigger picture"
"The dam keeper"
"Feast"
"Me and my moulton"
"A single life"

Melhor fotografia
Emmanuel Lubezki ("Birdman")
Robert Yeoman ("O grande hotel Budapeste")
Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski ("Ida")
Dick Pope ("Sr. Turner")
Roger Deakins ("Invencível")

Melhor edição
Joel Cox e Gary D. Roach ("Sniper americano")
Sandra Adair ("Boyhood")
Barney Pilling ("O grande hotel Budapeste")
William Goldenberg ("O jogo da imitação")

Melhor curta-metragem em 'live-action'
"Aya"
"Boogaloo and Graham"
"Butter lamp (La lampe au beurre de Yak)"
"Parvaneh"
"The phone call"

Melhor design de produção
"Caminhos da floresta"
"Sr. Turner"

Melhores efeitos visuais
Dan DeLeeuw, Russell Earl, Bryan Grill e Dan Sudick ("Capitão América 2: O soldado invernal")
Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett e Erik Winquist ("Planeta dos macacos: O confronto")
Stephane Ceretti, Nicolas Aithadi, Jonathan Fawkner e Paul Corbould ("Guardiões da Galáxia")
Paul Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter e Scott Fisher ("Interestelar")
Richard Stammers, Lou Pecora, Tim Crosbie e Cameron Waldbauer ("X-Men: Dias de um futuro esquecido")

Melhor figurino
Milena Canonero ("O grande hotel Budapeste")
Mark Bridges ("Vício inerente")
Colleen Atwood ("Caminhos da floresta")
Anna B. Sheppard e Jane Clive ("Malévola")
Jacqueline Durran ("Sr. Turner")

Melhor maquiagem e cabelo
Bill Corso e Dennis Liddiard ("Foxcatcher")
Frances Hannon e Mark Coulier ("O grande hotel Budapeste")
Elizabeth Yianni-Georgiou e David White ("Guardiões da Galáxia")


Melhor trilha sonora
Alexandre Desplat ("O grande hotel Budapeste")
Alexandre Desplat ("O jogo da imitação")
Hans Zimmer ("Interestelar")
Gary Yershon ("Sr. Turner")
Jóhann Jóhannsson ("A teoria de tudo")

Melhor canção
"Everything is awesome", de Shawn Patterson ("Uma aventura Lego")
"Glory", de John Stephens e Lonnie Lynn ("Selma")
"Grateful", de Diane Warren ("Além das luzes")
"I'm not gonna miss you", de Glen Campbell e Julian Raymond ("Glen Campbell…I'll be me")
"Lost Stars", de Gregg Alexander e Danielle Brisebois ("Mesmo se nada der certo")


Melhor edição de som
Alan Robert Murray e Bub Asman ("Sniper americano")
Martín Hernández e Aaron Glascock ("Birdman")
Brent Burge e Jason Canovas ("O hobbit: A batalha dos cinco exércitos")
Richard King ("Interestelar")
Becky Sullivan e Andrew DeCristofaro ("Invencível")


Melhor mixagem de som
John Reitz, Gregg Rudloff e Walt Martin ("Sniper americano")
Jon Taylor, Frank A. Montaño e Thomas Varga ("Birdman")
Gary A. Rizzo, Gregg Landaker e Mark Weingarten ("Interestelar")
Jon Taylor, Frank A. Montaño e David Lee ("Invencível")
Craig Mann, Ben Wilkins e Thomas Curley ("Whiplash: Em busca da perfeição")


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Boyhood (SPOILERS)

"Boyhood" poderia ter sido apenas um grande feito técnico, um filme feito por um mesmo diretor e equipe por um período de doze anos, mas é muito mais do que isso. É um dos filmes mais humanos e gostosos de se ver já feitos. 

Richard Linklater, o diretor, é produtor independente e verdadeiro filósofo do mundo contemporâneo. Seu primeiro grande sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que acompanhava um dia na vida de Ethan Hawke e Julie Delpy enquanto passeavam pelas ruas de Paris. A história do casal foi revisitada aproximadamente de dez em dez anos em "Antes do Pôr do Sol" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2013), e pudemos ver como os personagens envelheceram e mudaram durante este período de quase vinte anos.

Assim, o conceito por trás de "Boyhood" não é exatamente uma novidade para Linklater, mas a passagem dos anos fica mais evidente e fascinante de se ver no período relativamente curto de um único filme. O garoto Mason (Ellar Coltrane) começa o filme por volta dos 5 anos e termina com quase 18, ao entrar na faculdade. Vê-lo crescer na tela é como acompanhar a vida de um filho ou um sobrinho. Do olhar inocente e cabelos louros do menino até o rapaz de voz grossa, barba e cabelo comprido é um longo caminho.

O mesmo vale para os outros atores em cena, como a garota que faz a irmã de Mason, Sam (Lorelei Linklater, filha do diretor), Patricia Arquete (Olivia, a mãe) e o parceiro habitual de Linklater, Ethan Hawke (Mason Pai).

Apesar do título, "Boyhood" não é só um filme sobre a infância; é sobre a família moderna e os papéis que cada um tem que viver para se adequar a uma sociedade em constante mudança. Mason e Samantha são como nômades, mudando constantemente de casa e família conforme a mãe (muito bem interpretada por Patricia Arquette, vencedora de um Globo de Ouro no último domingo) tenta montar um novo lar ao lado de outro marido de tempos em tempos. Ela não consegue ficar sozinha ou acredita que o filhos precisam da figura constante de um pai? Ela não fica parada no tempo, volta a estudar e acaba se tornando professora universitária até descobrir a resposta.

O pai biológico (Ethan Hawke), aliás, está longe de ser um mau sujeito. Apesar de um tanto imaturo, Mason Pai se preocupa com os filhos e tenta estar presente o máximo possível, mesmo com as constantes mudanças de Olivia e as crianças pelo Texas. O filme mostra seu crescimento tanto quanto o dos filhos. Ele dirige um carro esportivo (o mesmo por várias fases do filme) e tem sonhos de se tornar um músico, mas a vida real, aos poucos, o coloca em um caminho mais "responsável". Ele se torna corretor de seguros e até começa uma família nova. A sequência em que ele leva os filhos para conhecer a nova família, aliás, é muito boa e mostra como é uma típica comunidade do Texas. No aniversário de Mason, por exemplo, a avó lhe presenteia com uma Bíblia enquanto que o avô lhe dá uma espingarda. (leia mais abaixo)


Há quem diga que "nada acontece de verdade" em "Boyhood", mas o fato é que Linklater não escreve como quem está fazendo um filme tradicional, com surpresas, tragédias e revelações para apimentar a trama. "Boyhood" é sobre a vida e apesar de haver pelo menos um momento bastante tenso no filme (quando o alcoolismo do primeiro marido de Olivia fica mais agudo), o resto do filme lida com as alegrias e tristezas da vida real.

O garoto Mason é o protagonista principal e Linklater teve muita sorte ao encontrar o ator Ellar Coltrane. Ele é bonito, sério e tem o olhar pensativo de alguém que guarda muito para si. Fica fácil confundir as coisas e achar que, na verdade, ele não é tão bom ator e só está interpretando a si mesmo, mas não deve ser tão simples.

Mason tem que lidar com as constantes mudanças de casa, a perda dos melhores amigos da escola, os primeiros flertes com as garotas, álcool, etc, como todo garoto normal, mas nada tem aquele tom exagerado e dramático de um filme tradicional. Há ótimas cenas (como a que Ethan Hawke tenta explicar sexo seguro para a filha adolescente) em que Mason fica só sentado por perto, observando tudo. Há, provavelmente, muito de Linklater no personagem do garoto, que acaba se interessando por fotografia e partindo, provavelmente, para uma carreira dedicada às imagens.

Com duas horas e quarenta e cinco minutos de duração, "Boyhood" passa como uma ótima viagem. Uma hora o filme tem que terminar e o destino de Mason, seus pais e a irmã ficam apenas na imaginação do espectador. A não ser que Linklater continue fazendo este filme pelos próximos 12 anos e tenhamos uma continuação lá por 2027. Eu não duvido que isto aconteça.

João Solimeo

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

VENCEDORES DO GLOBO DE OURO 2015

CINEMA

Melhor filme drama
vencedor: Boyhood

Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
O Jogo da Imitação
Selma
A Teoria de Tudo

Melhor atriz em filme drama
vencedora: Julianne Moore - Para Sempre Alice

Jennifer Aniston - Cake
Felicity Jones - A Teoria de Tudo
Rosamund Pike - Garota Exemplar
Resse Witherspoon - Livre

Melhor ator em filme drama
vencedor: Eddie Redmayne - A Teoria de Tudo

Steve Carell - Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
Benedict Cumberbatch - O Jogo da Imitação
Jake Gyllenhaal - O Abutre
David Oyelowo - Selma

Melhor filme cômico ou musical
vencedor: O Grande Hotel Budapeste

Birdman
Caminhos da Floresta
Pride
Um Santo Vizinho (St. Vincent)

Melhor atriz em filme cômico ou musical
vencedora: Amy Adams - Grandes Olhos

Emily Blunt - Caminhos da Floresta
Helen Mirren - A Cem Passos de um Sonho
Julianne Moore - Mapa para as Estrelas
Quvenzhané Wallis - Annie

Melhor ator em filme cômico ou musical
vencedor: Michael Keaton - Birdman

Ralph Fiennes - O Grande Budapeste Hotel
Bill Murray - Um Santo Vizinho (St. Vincent)
Joaquin Phoenix - Vício Inerente
Christoph Waltz - Grandes Olhos

Melhor atriz coadjuvante
vencedora: Patricia Arquette - Boyhood

Jessica Chastain - A Most Violent Year
Keira Knightley - O Jogo da Imitação
Emma Stone - Birdman
Meryl Streep - Caminhos da Floresta

Melhor ator coadjuvante
vencedor: J.K. Simmons, por Whiplash: Em Busca da Perfeição

Robert Duvall - O Juiz
Ethan Hawke - Boyhood
Edward Norton - Birdman
Mark Ruffalo - Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo


Melhor diretor
vencedor: Richard Linklater - Boyhood

Wes Anderson - O Grande Budapeste Hotel
Ava Duvernay - Selma
David Fincher - Garota Exemplar
Alejandro González Iñárritu - Birdman


Melhor roteiro
vencedores: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo - Birdman

Wes Anderson - O Grande Hotel Budapeste
Gillian Flynn - Garota Exemplar
Richard Linklater - Boyhood
Graham Moore - O Jogo da Imitação

Melhor filme em lingua estrangeira
vencedor: Leviatã (Rússia)

Tangerines (Estônia)
Força Maior (Suécia)
Gett (Israel)
Ida (Polônia)

Melhor longa de animação
vencedor: Como Treinar o Seu Dragão 2

Operação Big Hero
Festa no Céu
Os Boxtrolls
Uma Aventura LEGO

Melhor trilha sonora original em filme
vencedor: Jóhann Jóhannsson - A Teoria de Tudo

Alexandre Desplat - O Jogo da Imitação
Trent Reznor, Atticus Ross - Garota Exemplar
Antonio Sanchez - Birdman
Hans Zimmer - Interestelar

Melhor canção original em filme
vencedora: "Glory" - Selma por John Legend e Common

"Big Eyes" - Grandes Olhos por Lana Del Ray
"Mercy Is" - Noé por Patty Smith e Lenny Kaye
"Opportunity" - Annie por Greg Kurstin, Sia Furler, Will Gluck
"Yellow Flicker Beat" - Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1 por Lorde

Prêmio Cecil B. DeMille:
George Clooney


TV

Melhor série drama
vencedora: The Affair

Downton Abbey
Game of Thrones
The Good Wife
House of Cards

Melhor atriz em série drama
vencedora: Ruth Wilson - The Affair

Claire Danes - Homeland
Viola Davis - How to Get Away with Murder
Julianna Margulies - The Good Wife
Robin Wright - House of Cards

Melhor ator em série drama
vencedor: Kevin Spacey - House of Cards

Clive Owen - The Knick
Liev Schreiber - Ray Donovan
James Spader - The Blacklist
Dominic West - The Affair

Melhor série cômica ou musical
vencedora: Transparent

Girls
Jane the Virgin
Orange is the New Black
Silicon Valley


Melhor atriz em série cômica ou musical
vencedora: Gina Rodriguez - Jane the Virgin

Lena Dunham - Girls
Edie Falco - Nurse Jackie
Julia Louis-Dreyfus - Veep
Taylor Schilling - Orange is the New Black

Melhor ator em série cômica ou musical
vencedor: Jeffrey Tambor - Transparent

Louis C.K. - Louie
Don Cheadle - House of Lies
Ricky Gervais - Derek
William H. Macy - Shameless


Melhor minissérie ou telefilme
vencedor: FARGO

The Missing
The Normal Heart
Olive Kitteridge
True Detective

Melhor atriz em minissérie ou telefilme
vencedora: Maggie Gyllenhaal - The Honorable Woman

Jessica Lange - American Horror Story: Freak Show
Frances McDormand - Olive Kitteridge
Frances O'Connor - The Missing
Allison Tolman - Fargo

Melhor ator em minissérie ou telefilme
vencedor: Billy Bob Thornton - Fargo

Martin Freeman - Fargo
Woody Harrelson - True Detective
Matthew McConaughey - True Detective
Mark Ruffalo - The Normal Heart


Melhor atriz coadjuvante
vencedora: Joanne Froggat - Downton Abbey

Uzo Aduba - Orange is the New Black
Kathy Bates - American Horror Story: Freak Show
Allison Janney - Mom
Michelle Monaghan - True Detective

Melhor ator coadjuvante
vencedor: Matt Bomer - The Normal Heart

Alan Cumming - The Good Wife
Colin Hanks - Fargo
Bill Murray - Olive Kitteridge
Jon Voight - Ray Donovan

Câmera Escura

sábado, 10 de janeiro de 2015

Whiplash: Em Busca da Perfeição

"Não há duas palavras mais prejudiciais na nossa língua do que 'bom trabalho'", diz o professor ao aluno. Esta é a visão de Terence Fletcher (J.K. Simmons, extraordinário), o exigente professor de um conservatório de música de Nova York. Seu aluno é Andrew Neyman (Miles Teller, de "Divergente"), um garoto de 19 anos que colocou na cabeça que vai ser o melhor baterista de jazz do mundo. 

Nenhum dos dois é muito simpático, o que é um dos trunfos do filme, que não tenta fazer de Andrew um "coitadinho" nas mãos de Fletcher. Em um mundo ultra competitivo como o da música em Nova York, talento e força de vontade não são o suficiente. "Whiplash" mostra que é necessário treinar e treinar e treinar mais um pouco; e se aparecer a oportunidade de tomar o lugar de outro colega na banda do conservatório, não se deve pensar nem um segundo.

Há entre Fletcher e Andrew mais do que uma relação professor-aluno. O filme lembra mais histórias militares como "Nascido para Matar" (1987), de Stanley Kubrick, e "A força do destino" (1982), de Taylor Hackford, em que um sargento durão abusa física e verbalmente de algum pobre recruta, do que outros filmes sobre música (como "A competição", 1980). Damien Chazelle, o jovem roteirista e diretor, colocou o ator Miles Teller para treinar com um baterista de verdade (Nate Lang, que interpreta o rival de Andrew, Carl) por mais de dois meses, quatro horas por dia. O resultado é bastante convincente. (leia mais abaixo)


Apesar do jazz permear todo o filme, "Whiplash" é mais sobre obsessão e ambição do que música propriamente dita. Andrew chega a colocar um pote com gelo ao lado da bateria para, de tanto em tanto tempo, mergulhar as mãos ensanguentadas de tanto ensaiar. Filho de um escritor frustrado (Paul Reiser, da série "Mad about you", aparentando os 58 anos) e abandonado pela mãe quando criança, Andrew não tem amigos, é solitário e demora para criar coragem para chamar Nicole, que trabalha em um cinema, para sair. A doce cena em que os dois saem para jantar é dos poucos momentos calmos do filme. O resto é um infindável duelo entre a obsessão de Andrew em ser o "número um" e a determinação do professor Fletcher em destruí-lo por puro prazer. J.K. Simmons está excelente. Ele comanda cada cena com um olhar penetrante e um modo de se portar que mostra um homem controlado em cada movimento das mãos, cada virada de página da partitura.

(ATENÇÃO SPOILERS)

O final, apesar de emocionante e o ápice musical do filme, é um pouco contraditório. Ou, talvez, irônico. Fletcher, apesar de todos os seus métodos de tortura física e emocional (ou por causa deles) acaba conseguindo fazer com que Andrew atinja a perfeição. O duelo entre os dois por toda a sequência final é brilhantemente orquestrado pela direção de Chazelle e pela edição de Tom Cross. Inimigos declarados, professor e aluno acabam experimentando uma conexão quase cósmica através da música. Valeu a pena? É discutível. Se há algo que possa ser criticado quanto a "Whiplash" (sem dúvida um dos melhores filmes do ano) é sobre o quão pouco o filme parece gostar de música. Fletcher e Andrew não aparentam gostar do que fazem. A música, ao invés de arte, acaba parecendo mais uma daquelas competições de longa distância. O filme poderia ter sido sobre um professor de atletismo e um rapaz obcecado em atravessar o deserto do Saara a pé. Ao som de Duke Ellington, claro, fica melhor ainda.

ps: "Whiplash" foi indicado a cinco prêmios BAFTA (o "Oscar" britânico), e J.K. Simmons (também indicado a um Globo de Ouro) é grande candidato a uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante.

João Solimeo

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Idênticos (Netflix)

No dia em que Elvis faria 80 anos, mais uma dica para ver na Netflix.

A premissa de "Idênticos" é, infelizmente, bem melhor do que o produto final. Imagine se Elvis Presley tivesse tido um irmão gêmeo? Imagine que os dois cresceram separados e, enquanto um se tornou o "Rei do Rock" o outro, ironicamente, se tornou seu melhor imitador? A ideia é ótima, mas o filme, dirigido por Dustin Marcellino, não consegue escapar de ser apenas um bom telefilme.

Nos anos 1930 os Estados Unidos viviam a Grande Depressão. A família Hemsley acaba de ter gêmeos, para a alegria da mãe e desespero do pai, que está desempregado. Como ele vai conseguir sustentar a família? Desolado, ele vai assistir ao sermão de um pastor chamado Reece Wade (o grande Ray Liotta). Coincidentemente, o pastor Wade está falando justamente sobre a dor da sua esposa, que acabou de perder um bebê. "Rezem por um milagre", diz o pastor. Suas preces são respondidas, já que ele recebe a oferta de ficar com um dos gêmeos dos Hemsley. "Prometa só dizer a verdade a ele depois que nós morrermos", implora o pai ao pastor Wade.

O filme, então, passa a acompanhar a vida de Ryan Wade, o filho adotado do pastor; o pai quer  que ele também seja um pregador, mas a vocação do menino é claramente a música. Ele começa a frequentar bailes para escutar o que viria a se tornar o rock ´n roll. O pastor não aprova e manda o filho para o exército, tentando impedir seus sonhos de se tornar músico. (leia mais abaixo)


Eis que surge um astro do rock (claramente inspirado em Elvis Presley) chamado Drexel Hemsley, o irmão gêmeo de Ryan. Em uma era sem internet e com a televisão apenas engatinhando, nem mesmo Ryan consegue reconhecer o irmão famoso, apesar de muita gente dizer que os dois se parecem muito.

O filme tem algumas boas cenas e conta com a participação de coadjuvantes como Joey Pantoliano e Seth Green, mas não consegue se desenvolver. Há uma boa cena, que poderia ter sido o final do filme, em que Ryan ganha um concurso de música em que imita Drexel Hemsley com a presença do próprio entre os jurados. Seria uma ótima oportunidade de fechar o filme, mas ele se estica ainda por um longo tempo explorando o fato de que a vida de Ryan Wade é apenas uma pálida semelhança com o irmão famoso. Falta ao filme uma catarse final, mas o roteiro prefere partir para o melodrama e para cenas supostamente edificantes. Vale como curiosidade o fato de que o ator que interpreta Ryan e Drexel, Blake Rayne, também foi descoberto para o filme como um imitador de Elvis Presley. Ele realmente se parece com o "Rei", embora não seja grande ator.

A trilha sonora não utiliza sucessos conhecidos do rock (provavelmente por problemas com direitos autorais), mas sim várias canções compostas pelos produtores Jerry Marcellino e Yochanan Marcellino. "Idênticos" pode ser visto na Netflix.

João Solimeo

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O Abutre

Lou Bloon (Jake Gyllenhaal) é um trambiqueiro que vive de pequenos furtos em Los Angeles. Uma noite ele vê uma equipe de cinegrafistas gravando um acidente e tem uma inspiração. Com o dinheiro de uma bicicleta roubada ele compra um rádio de polícia, uma câmera de vídeo e passa as noites escutando os chamados de emergência, em busca de alguma ocorrência.

Uma de suas primeiras filmagens, um sangrento homicídio, chama a atenção de Nina (Rene Russo, por onde andava ela?) a editora de uma pequena rede de TV de Los Angeles. Ela é obcecada por audiência, como toda jornalista, mas sua falta de ética encontra eco nas imagens cruas de Lou. "Me traga mais material como este", ela diz ao rapaz.

Jake Gyllenhaal já provou ser bom ator em filmes como "Zodíaco", de David Fincher, e "O Homem Duplicado", de Denis Villeneuve, mas ele está irreconhecível na pele de Lou Bloon, desaparecendo em um personagem completamente sem escrúpulos. Lou não conhece limites éticos; seu objetivo é um só: chegar primeiro à ocorrência e conseguir as imagens mais chocantes. Com uma voz afetada, ele recita sem parar regras de negócios e frases de efeito que aprendeu online e, surpreendentemente, consegue até contratar um estagiário, Rick (Riz Ahmed); com um GPS na mão, Rick orienta Lou pelas ruas de Los Angeles, tentando encontrar o melhor caminho até uma ocorrência. As cenas noturnas que mostram Lou cruzando as ruas em um carro vermelho, aliás, lembram muito o visual do filme "Drive", de Nicolas Winding Refn. (leia mais abaixo)


Em um mundo cada vez mais interessado na imagem, qual o papel do jornalismo? Há uma ótima cena em que Lou, em um jantar, diz a Nina como ele é importante para a emissora; segundo ele, apenas uma pequena parte do jornal é dedicado às notícias de política e do mundo. O resto é preenchido com material sensacionalista sobre crimes e problemas da cidade. Observe como a cena começa como o que parece ser um encontro romântico (e até ingênuo) e termina com Lou chantageando Nina para que ela durma com ele em troca de imagens para seu telejornal.

"O Abutre" é o primeiro longa-metragem dirigido pelo roteirista Dan Gilroy (de "Gigantes de Aço" e "O Legado Bourne"). Ele é irmão de Tony Gilroy, diretor de "Conduta de Risco" e roteirista da trilogia "Bourne". O filme, quase todo noturno, é muito bem fotografado por Robert Elswit, colaborador habitual de Paul Thomas Anderson ("Magnólia", "Sangue Negro"). Há certo exagero (esperemos que sim) na capacidade maquiavélica de Lou em manipular as informações e até em criar situações que rendem boas imagens, mas "O Abutre" funciona muito bem como um alerta para a baixa qualidade do jornalismo atual. O filme ganhou muito elogios entre os críticos e é um dos candidatos sérios para o próximo Oscar.

João Solimeo

The Rover - A Caçada (Netflix)

Ele parece constantemente angustiado. Seco. Fechado. Um morto ambulante. Os olhos fundos e a barba por fazer completam o retrato de Eric (Guy Pearce), um homem vagando pela Austrália em um mundo pós-apocalíptico. "Já vi este filme antes", você pode pensar. "A Estrada" (John Hillcoat, 2009); "O Livro de Eli" (dos irmãos Hughes, 2010); "Mad Max" (George Miller, 1979); estes filmes são, de fato, invocados por "The Rover", mas há um desespero seco e cru neste filme que o faz ainda mais pungente. Nada parece ter sentido ou propósito, vamos todos morrer um dia.

Escrito e dirigido por David Michôd, "The Rover" ainda pode ser lembrado por apresentar uma bela interpretação de Robert Pattinson, bem distante de seu trabalho em sagas adolescentes de vampiros. O filme, porém, pertence a Guy Pearce. Ele é um homem sem nome que, no fantástico começo do filme, tem o carro roubado por três homens armados. Pearce sobe em uma van e sai no encalço deles, determinado a recuperar seu veículo. Por que? Não importa, na verdade. Pouco se sabe sobre o que aconteceu ao resto do mundo, mas claramente a civilização como a conhecemos acabou. Há apenas vastas paisagens desérticas habitadas por farrapos de homens e mulheres.


Pearce acaba cruzando com Rey (Robert Pattinson), um rapaz que foi abandonado para morrer pelo irmão depois de um tiroteio. Pattinson, como disse, está muito bem como um homem que parece uma criança grande. Ele não é muito inteligente e tem uma carência tão grande que acaba formando um laço com o personagem de Guy Pearce, que só quer encontrar seu carro e, provavelmente, matar o irmão de Pattinson. Vemos apenas relances do que sobrou de alguma civilização, como um trem que cruza o deserto, vozes chinesas tocando na rádio do carro e alguns soldados em uma missão inútil.

Destaque para a brilhante direção de fotografia de Natasha Braier. Nesta era digital, "The Rover" foi filmado em bom e velho filme Kodak, com imagem cristalina sob o sol escaldante do sul da Austrália. Repare também no ótimo contraste nas cenas noturnas. A trilha sonora dissonante de Antony Partos também é dos pontos altos do filme. "The Rover", pesado, cruel e marcante, está disponível pela Netflix.

João Solimeo

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Operação Big Hero

Parece que você está assistindo a dois filmes diferentes. "Operação Big Hero" (Big Hero 6) é, ao mesmo tempo, um terno filme sobre a amizade entre um garoto e um robô, por um lado, e um blockbuster de super-herói da Marvel, por outro.

Explica-se. A Disney comprou a Marvel há alguns anos e, precisando de conteúdo, pediu a seus executivos que vasculhassem o vasto arquivo da fábrica de heróis por alguma coisa que pudesse se transformar em um produto Disney. Encontraram "Big Hero 6", uma HQ produzida no final dos anos 1990 que só era conhecida pelos aficionados pelo gênero, o que dava carta branca para que a história original (que era adulta) pudesse ser mudada e adaptada para a sensibilidade dos espectadores dos estúdios Disney.

O resultado é um filme vibrante, vivo e colorido, com fartas doses de influência oriental. A história se passa na cidade de San Fransokyo, uma interessante mistura da cidade costeira americana com a capital do Japão. A famosa ponte Golden Gate, por exemplo, tem formas orientais, os neons estão escritos em japonês e até os personagens têm nomes japoneses, como Hiro Hamada, um garoto prodígio de 13 anos que gosta de competir em lutas clandestinas de robôs.

Um dia seu irmão mais velho, Tadashi, o leva até uma universidade que é o paraíso dos nerds, em que adolescentes de várias idades desenvolvem bicicletas flutuantes e outras coisas do gênero. O projeto de Tadashi é um robô médico chamado Baymax, que se parece com um marshmallow gigante. Tudo no robô inspira calma e tranquilidade e a função dele é tratar da saúde das pessoas. (leia mais abaixo)


Após um prólogo relativamente longo uma tragédia se abate sobre Hiro, que perde o irmão em um incêndio e herda dele o robô de fala tranquila. A relação entre os dois é muito interessante e tem influências claras de histórias como "E.T.", "Meu amigo Totorô", "Gigante de Ferro", "Como treinar seu dragão", entre outras. O filme provavelmente poderia ter sido apenas sobre isto, mas a partir de certo ponto o roteiro parece se lembrar que é também uma aventura da Marvel e o tom do filme muda radicalmente para a ação desenfreada.

O design japonês me lembrou muito Osamu Tezuka, criador de Astro Boy e dezenas de outros personagens de mangás e animês. "Operação Big Hero" tem um pouco de tudo e certamente vai agradar a diversas plateias, de crianças a adultos. Pessoalmente preferiria que o filme tivesse ficado mais no lado dos sentimentos e menos no lado aventura da Marvel, mas é questão de gosto (e de mercado). Também acho que teria sido melhor, do ponto de vista do estúdio, lançá-lo como um produto da Pixar (que já fez o ótimo "Os Incríveis") do que interromper a tradição dos "filmes de princesas" da Disney. É um bom filme, com visual impressionante (San Fransokyo parece viva e pulsante como uma cidade de verdade) e bons personagens. Sem dúvida haverá continuações em breve.

João Solimeo

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Homem Mais Procurado (Netflix)

Este é último filme a ter o grande Philip Seymour Hoffman no papel principal. Hoffman, infelizmente, morreu de overdose no início deste ano, deixando para trás uma carreira brilhante em papéis variados. Em "O Homem Mais Procurado" ele é Günther Bachmann, o chefe de um grupo de espionagem baseado em Hamburgo, Alemanha. O mundo vive a paranoia pós 11 de Setembro e as autoridades alemãs não querem que nenhum atentado atinja a cidade portuária.

Baseado em um livro de John Le Carré, o roteiro de Andrew Bovell é complicado na medida certa, com vários personagens e sem a preocupação de explicar tudo didaticamente ao espectador, o que é ótimo. Este é daqueles filmes que requerem atenção. Considerem o personagem de Issa Karpov (Grigoriy Dobrygin), um imigrante ilegal que chega a Hamburgo; filho de chechenos e russos, é muçulmano e atrai a atenção do grupo anti-terrorismo de Günther. Karpov alega que tem uma fortuna a receber da herança do pai militar e recebe a ajuda de uma jovem advogada especializada em refugiados, Annabel (Rachel McAdams). Ela encaminha Karpov a um banqueiro interpretado por Willem Dafoe. Quem é Karpov, afinal? É apenas um refugiado, como alega, ou é um terrorista disfarçado, arrecadando dinheiro para um grande atentado? (leia mais abaixo)


O filme é dirigido com muita competência por Anton Corbijn, que começou a carreira como um celebrado fotógrafo e diretor de videoclips para bandas como Joy Division e U2. No cinema, já dirigiu bons filmes como "Control", que contava a biografia do líder do Joy Division, Ian Curtis e "Um Homem Misterioso", com George Clooney. Corbijn conduz "O Homem Mais Procurado" sem pressa e é metódico em detalhar tanto os procedimentos policiais quanto o estado de espírito dos personagens.

Hoffman se despede do cinema com seu habitual brilhantismo. Günther é um homem muito inteligente, mas tem que lidar tanto com o combate ao terrorismo quanto com as politicagens internas do serviço de inteligência alemão. O elenco, que ainda conta com a ótima Robin Wright (de "House of Cards"), é tão bom que se dá ao luxo de ter um ator como Daniel Brühl ("Rush") como mero coadjuvante. "O Homem Mais Procurado" está disponível na Netflix.

João Solimeo
Câmera Escura

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

ATENÇÃO: Spoilers

O terceiro e último capítulo da trilogia "O Hobbit" traz um Peter Jackson cansado e, aparentemente, apressado em terminar o trabalho iniciado em "Uma Jornada Inesperada" (2012). "A Batalha dos Cinco Exércitos" começa exatamente onde "A Desolação de Smaug" (2013) terminou, com o ataque do gigantesco dragão Smaug a Escaroth, povoado humano aos pés da "Montanha Solitária". Smaug é derrotado rapidamente pelo arqueiro Bard (Luke Evans), que consegue atingir o único ponto fraco na armadura da gigantesca criatura, terminando também com a melhor sequência de todo filme. Como ainda estamos no seu início, imagine o tamanho do problema que Jackson e seus roteiristas tinham nas mãos para transformar as  menos de 100 páginas finais da obra de J.R.R. Tolkien em um filme de mais de duas horas e vinte de duração.

"A Batalha dos Cinco Exércitos" é tão frio e burocrático quanto os antecessores foram longos e exagerados. Com Smaug fora de cena, o roteiro fica sem nenhum grande dilema a ser resolvido, a não ser que você se preocupe com o destino de personagens sem muito brilho como Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) ou acredite no romance (inexistente no livro) platônico entre o anão Kili (Aidan Turner) e a elfa Tauriel (Evangeline Lilly). Não há um Anel do Poder a ser destruído, como no final da trilogia original de Tolkien, ou personagens realmente interessantes como Aragorn (Vigo Mortensen), Frodo (Elijah Wood) ou Gollun (Andy Serkis). Os únicos personagens ainda dignos de nota são Bilbo (interpretado muito bem por Martin Freeman) e Galdalf (Ian McKellen), mas os dois estão mais para espectadores do que para protagonistas neste capítulo final.

Assim, investe-se em uma exploração psicológica da "doença do ouro" que acometeu Thorin, obcecado em encontrar a "Pedra Arken" e em defender montanhas de ouro do ataque de vários exércitos compostos por humanos, elfos, orcs e outras criaturas, todas marchando em uma grande paisagem em computação gráfica. Armitage, como Thorin, se vê obrigado a fazer expressões faciais de "louco", além de um momento bastante vergonhoso em que ele tem a voz modificada para se parecer com o dragão Smaug, acompanhada de movimentos corporais e tudo. (leia mais abaixo)


Falando em momento vergonhoso (e em desperdiçar um vilão cedo demais), Galadriel (Cate Blanchett), Enrold (Hugo Weaving) e Saruman (Christopher Lee) têm uma cena apressada em que enfrentam Sauron, que é banido por Blanchett em uma exagerada cena de efeitos especiais (com direito a Galadriel transformada em uma espécie de entidade com voz distorcida por computador, reprisando cena da trilogia original). Nenhum dos personagens aparece novamente e fica no ar a pergunta: se Gandalf testemunhou o retorno de Sauron, por que é que ele parece ignorante deste fato no início de "O Senhor dos Anéis"?

O resto do filme, como sugere o título, não passa de uma longa série de cenas de batalha. Ao contrário dos filmes anteriores, ao menos neste a violência tem consequências sérias, resultando até na morte de alguns personagens importantes. O filme (e a Trilogia) terminam, porém, sem muita emoção ou brilho.

Uma questão técnica: Peter Jackson rodou os filmes da trilogia "O Hobbit" em um novo sistema chamado HFR (High Frame Rate) que grava a 48 quadros por segundo (ao contrário dos 24 quadros por segundo tradicionais do cinema). A técnica daria um visual mais "fluido" à imagem, mais "realista", lembrando videogames. A cópia que assisti estava em 3D e, aparentemente, com o framerate de 48 quadros por segundo, o que me causou enorme estranheza. Não parece cinema, parece TV de alta definição. A imagem, mais clara e nítida, se parece mais com o que estamos acostumados a ver em documentários, novelas e vídeos de making ofs do que de filmes de cinema. Foi o primeiro filme desta trilogia que vi com este sistema, mas não estou só em minha estranheza com a imagem, como mostra este artigo de 2012. Se puder escolher, eu recomendaria ver o filme no sistema normal, e não em HFR.

João Solimeo
Câmera Escura

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

25th Hour (A Última Noite) - Netflix

Se a vida como você a conhece fosse acabar amanhã, o que você faria? Monty Brogan (Edward Norton, de "O Grande Hotel Budapeste", sempre excelente) tem uma bela namorada, com o nome exótico de Naturelle Riviera (Rosario Dawson, "Sete Vidas"), tem dois amigos fiéis de longa data, Jake (Philip Seymour Hoffman) e Frank (Barry Pepper) e um pai amoroso (Brian Cox).

O problema é que Monty, um ex-traficante que tinha guardado no apartamento grande quantidade de dinheiro e entorpecentes, é visitado pela polícia uma noite. Eles encontram o material e Monty é condenado a sete anos de prisão. Ele ainda é jovem e, se sobreviver à prisão, ainda tem a vida pela frente, mas todos sabem que nada será como antes. Monty resolve passar sua última noite de liberdade farreando por Nova York com os amigos e com a namorada.

"25th Hour" (chamado no Brasil de "A Última Noite) é um filme feito pelo diretor americano Spike Lee em 2002 e está disponível agora no Brasil pela Netflix. O roteiro é baseado em um livro de David Benioff (um dos produtores de "Game of Thrones") e trata de amor, amizade, arrependimento e desconfiança. O filme foi feito pouco depois dos atentados às Torres Gêmeas de Nova York e Spike Lee usa a tragédia da cidade como pano de fundo para a tragédia pessoal de Monty. Os créditos iniciais se desenrolam sobre cenas dos destroços do World Trade Center, representado por fachos de luz. (leia mais abaixo)


Quem teria delatado Monty para a polícia? A culpa, muito provavelmente, é da namorada dele, mas por que ela teria feito isso? Seria ela uma simples interesseira? Como seus amigos estão lidando com a prisão dele? Barry Pepper, interpretando um corretor de Wall Street, mal consegue esconder a frustração com o amigo. Há uma longa cena, feita em um único plano, em que Pepper e Seymour Hoffman falam sobre a vida criminosa de Monty diante de uma janela que dá para os destroços do World Trade Center. "Eu o amo como amigo, mas ele é um traficante e merece ir para a cadeia", diz Frank. Hoffman interpreta um professor de literatura que é o protótipo do "virgem de 40 anos". Ele é incapaz de olhar diretamente nos olhos de outra pessoa e está fascinado com uma aluna de 16 anos que frequenta suas aulas (interpretada por Anna Paquin, da série "X-Men").

O filme tem belíssima direção de fotografia de Rodrigo Pietro ("O Lobo de Wall Street", "Argo") e ótima edição de Barry Alexander Brown, colaborador habitual de Spike Lee. Há cortes muito interessantes no filme, que repetem a ação dos personagens de um plano para outro ou quebram propositalmente o eixo de ação, desorientando o espectador. A trilha sonora de Terence Blanchard, apesar de muito boa, poderia ser menos presente, sendo exagerada em alguns momentos.

Há uma sensação palpável de tensão que cresce conforme vai chegando a hora de Monty ir para a prisão. Será que ele vai suportar sete anos atrás das grades? A namorada deve esperar por ele? Os amigos voltarão a vê-lo? Seria melhor, talvez, dar um tiro na cabeça e terminar com tudo antes?

Brilhante trabalho de direção e interpretação, "25th Hour" não deve ser perdido.

João Solimeo