quinta-feira, 22 de maio de 2014

O que os homens falam

Você, provavelmente, vai ver este filme por causa de Ricardo Darín, o incansável ator argentino de filmes como "O Segredo dos seus Olhos", "Um Conto Chinês", "Elefante Branco", entre outros. Apesar de Darín estar em destaque no pôster de "O que os homens falam" (e eu ter escolhido uma foto com ele para ilustrar este texto), esteja avisado que Darín aparece apenas em uma das várias histórias contadas por este filme episódico.

Dirigido por Cesc Gay e passado em Barcelona (embora longe dos pontos turísticos), o filme é composto por uma série de histórias independentes, todas tratando da condição masculina no século 21. Como todo filme episódico, há histórias que gostaríamos de ver melhor desenvolvidas e outras que poderiam ser mais curtas. O filme é de 2012 e chegou a passar na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas está estreando apenas agora. Nos episódios, homens quarentões tentam resolver seus problemas, geralmente envolvendo mulheres. Javier Cámara leva o filho de volta ao apartamento da ex-mulher e, aos poucos, tenta dizer a ela que se arrependeu da separação (ele a havia traído com uma enfermeira) e quer voltar. No episódio com Darín, um amigo o encontra sentado em um banco de praça, olhando para um prédio; ele havia seguido a mulher, Laura, que o está traindo. Ele sabe que o casamento está perdido mas ainda tem esperanças de reconquistar a mulher. Apresenta vários problemas físicos, como náuseas e dores de cabeça. "São os cornos", diz ele, filosófico. Em outro episódio, Eduardo Noriega, um homem casado, tenta conquistar uma companheira de trabalho e, a princípio, parece que ele está se dando bem. Até que ela o manda esperar no banheiro da firma. No episódio com Leonor Watling (que fez "Fale com Ela", de Pedro Almodóvar), duas esposas conversam com o melhor amigo do marido delas, fazendo revelações chocantes. A cena em que os dois finalmente se encontram é sutilmente engraçada. (leia mais abaixo)


É bem feito e bem interpretado, com toques corretos de humor e drama. Ser apenas "correto", no entanto, não é dos melhores elogios que se pode fazer a um filme. É muito superior ao horrendo e machista "Os Infiéis", outro filme episódico sobre o universo masculino estrelado por Jean Dujardin. "O que os homens falam" tem momentos bem observados tanto sobre homens quanto mulheres. Todos parecem viver à base de antidepressivos ou algum outro tipo de droga (cigarro, bebida). Fidelidade é um conceito bastante flutuante, e a carência é grande. Curiosamente, os homens não têm sequer nomes (o site do imdb os lista apenas com letras), enquanto que as mulheres, sim. A fila, como se diz, anda, e todos(as) estão assustados com isso. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

domingo, 18 de maio de 2014

Godzilla

O primeiro filme do monstro Godzilla foi lançado há 60 anos. O Japão havia sido devastado pela 2ª Guerra Mundial, tendo sofrido dois ataques nucleares, em 1945. Menos de dez anos depois o diretor Ishiro Honda lançou "Godzilla", que contava a história de um monstro acordado por um explosão nuclear. Ele fez tanto sucesso que gerou uma série de quase 30 filmes, inclusive uma versão americana (universalmente detestada) dirigida por Roland Emmerich ("Independence Day", "2012", "O Dia depois do Amanhã") em 1998.

Apesar do lagartão ter protagonizado alguns filmes japoneses neste novo milênio, era inevitável que Hollywood acabasse tentando novamente, o que aconteceu agora no aniversário de 60 anos do monstro. O responsável pelo filme é o diretor britânico Gareth Edwards, um garoto prodígio dos efeitos especiais que fez um longa metragem (chamado "Monstros"...claro) em 2010 em que foi diretor, produtor, roteirista e responsável pelos efeitos visuais. O novo "Godzilla", sem mais delongas, é uma decepção. Uma brilhante campanha publicitária criou trailers cheios de suspense em que pouca coisa era revelada; alguns usaram até a música do romeno Gyorgy Ligeti (usada em "2001 - Uma Odisseia no Espaço") e a narração de J. Robert Oppenheimer (o criador da Bomba Atômica) para da um ar mais "sério" ao filme. Pouco se via do próprio Godzilla ou detalhes do roteiro.

(Atenção, o texto abaixo contém SPOILERS sobre o filme. Caso não queira saber detalhes, leia somente depois de vê-lo)


O filme que chega aos cinemas, no entanto, está longe das boas sacadas da campanha publicitária. A começar pelo fato de que Bryan Cranston (famoso pela série "Breaking Bad", mas que também esteve em bons filmes como "Drive" e "Argo") não só não é o protagonista como "desaparece" rapidamente, deixando o filme nas costas de Aaron Taylor-Johnson (de "Anna Karenina"). O vazio deixado pela morte precoce de Cranston é enorme e o filme cai nos clichês de sempre. Johnson é um soldado americano que precisa "voltar para a família" e, convenientemente, é um especialista em bombas, o que já deixa implícito como é que o filme vai terminar. Dois monstros chamados  de "Muto" causam destruição por onde passam e o exército quer tentar matá-los usando bombas nucleares, mesmo tendo sido alertados pelo personagem interpretado pelo japonês Ken Watanabe de que eles se alimentam de radiação. Ele tenta também convencer os americanos de que o melhor é deixar a "Natureza encontrar seu equilíbrio" na forma de Godzilla, um lagarto de centenas de metros de altura que, neste filme, não é o vilão que fomos levados a acreditar. Além disso, o diretor fica brincando de esconde-esconde com Godzilla e os monstros e, estranhamente, deixa de mostrar quase todos os confrontos entre eles, preferindo cortar para os personagens humanos, ainda mais superficiais que os bichões digitais, ou para reportagens na TV. Se a proposta ao menos fosse como a do (tremendamente superior) "Cloverfield", produzido por J.J. Abrams, em que o monstro era visto propositalmente apenas de relance, ainda daria para entender. Do modo como foi feito por Edwards, a opção não faz sentido. E como explicar que a explosão de uma bomba nuclear na baía de São Francisco não cause a morte de toda a cidade?

Bons atores como David Strathairn, Ken Watanabe, Sally Hawkins (de "Blue Jasmine") e Juliette Binoche estão desperdiçados em personagens patéticos ou clichês, e Aaron Taylor-Johnson (que mantém a mesma expressão facial o filme todo) simplesmente não tem carisma para segurar a trama sozinho. O filme (ruim) de 1998, ao menos, sabia se divertir com as próprias falhas.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Praia do Futuro

"Praia do Futuro" é composto por uma série de belíssimas imagens e boas interpretações, mas resultando em um todo muito menor do que as partes. É um filme de momentos. De cenas estilizadamente masculinas mostrando um grupo de bombeiros treinando na praia. Ou de cenas tocantes de dois amigos/amantes enfrentando, como dois garotos, a arrebentação do mar em uma costa rochosa. Do contraste entre paisagens escaldantes, sob o Sol nordestino, e gélidas cidades alemãs.

Dirigido por Karin Aïnouz (de "O Céu de Suely", "Viajo porque preciso, volto porque te amo"), "Praia do Futuro" é melancólico e bem intencionado, embora caminhe bela e lentamente para...lugar nenhum. Vai ficar conhecido como o "filme gay do Wagner Moura" e, de fato, há várias cenas de sexo e nudez entre Moura e o ator alemão Clemens Schick ("Cassino Royale"), mas não se deve reduzir o filme só a este aspecto. Dividido em três capítulos, é uma co-produção entre Brasil e Alemanha. Na primeira parte, chamada "O Abraço do Afogado", Wagner Moura ("Elysium", "Tropa de Elite") é Donato, um salva-vidas que trabalha na "Praia do Futuro", no litoral cearense. Durante uma tentativa de resgate, ele não consegue salvar um estrangeiro de morrer afogado. O companheiro do morto, Conrad (Schick), não perde tempo e começa um tórrido relacionamento com Donato na mesma noite em que é comunicado do afogamento. (leia mais abaixo)



A segunda parte, chamada "Um herói partido ao meio", mostra Donato e Conrad sob o frio céu de Berlim, Alemanha. É a parte mais melancólica e, francamente, parada do filme. Há vários planos bem longos que mostram Wagner Moura sofrendo, quieto e olhando para o nada, em diversas paisagens da capital alemã. Conrad quer que ele largue tudo para trás e permaneça na Alemanha, mas Donato não sabe o que fazer. Isso é mostrado em meia dúzia de diálogos (o filme é bem silencioso) e muitas imagens contemplativas, em que Moura é visto pensando na vida, ou naquele tipo de cena bem clichê em que o protagonista é visto dançando loucamente em alguma casa noturna. É necessária paciência para passar por esta segunda parte.

O que nos leva à terceira, "Um fantasma que fala alemão", que, sob muitos aspectos, se parece mais com o começo real do filme. Por volta de dez anos depois dos acontecimentos da segunda parte, o irmão de Donato, Ayrton (Jesuíta Barbosa), chega à Berlim à procura dele. Há outra bela cena, visualmente falando, em que Ayrton vê Donato trabalhando dentro de um gigantesco aquário marítimo, e os dois têm um encontro explosivo no elevador. O conflito entre os dois irmãos é o momento mais realista e honesto do filme, e talvez até explique um pouco toda a letargia anterior. O que não significa que o filme consiga se resolver até o final. O que quer Donato? O que quer "Praia do Futuro"? Não sabemos. Enquanto isso, podemos desfrutar da bela fotografia de Ali Olay Gözkaya enquanto os personagens pilotam motos, na neblina, em direção do horizonte. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

sábado, 10 de maio de 2014

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro

O que a Marvel tem feito nos últimos anos, com esta longa série de filmes baseados em seus super-heróis, é aplicar uma mentalidade de quadrinhos em um meio cinematográfico. É bem comum no mundo das HQs que personagens vivam múltiplas linhas do tempo, com trajetórias diferentes, mortes, novos começos, realidades paralelas, etc. Os filmes de Sam Raimi sobre o Homem-Aranha nem haviam esfriado e o estúdio lançou um reboot há dois anos, substituindo o "chorão" Tobey Maguire por Andrew Garfield ("A Rede Social") e iniciando uma nova franquia. O filme não era ruim, mas era redundante, contando novamente a já batida história da origem do Homem-Aranha.

A continuação lançada agora, livre de ter que estabelecer novamente a origem do herói, começa com a ação em pleno vapor. Os efeitos especiais transformaram o aracnídeo em um verdadeiro acrobata, que voa por entre os prédios de Nova York fazendo piruetas, contando piadinhas para os pedestres e batendo papo com o vilão (um desperdiçado Paul Giamatti), ocupado em roubar uma carga de plutônio de um caminhão em movimento. Peter Parker chega atrasado à própria formatura (apesar de Garfield já ter 31 anos e aparentar a idade), onde é aguardado pela bela namorada Gwen Stacy (Emma Stone). Garfield e Stone são a melhor coisa nestes novos filmes dirigidos por Marc Webb ("500 Dias com Ela"). O casal é bem melhor do que a indecisa dupla Parker/MJ de Tobey Maguire e Kirsten Dunst dos filmes de Raimi. O problema é que os altos e baixos da relação entre os dois são muito abruptos e os problemas deles parecem mais uma invenção dos roteiristas do que algo a ser levado a sério. De qualquer forma, há cenas genuinamente tocantes entre Parker e Stacey, principalmente em um final surpreendente (para quem, como eu, não conhece a mitologia dos quadrinhos) e tocante. (leia mais abaixo)


E, claro, há os vilões. Jamie Foxx ("Django Live") é "Electro", um homem-elétrico criado (assim como o Aranha) acidentalmente pela maligna empresa "Oscorp". Foxx passa metade do filme com um penteado ridículo e a outra metade como um efeito especial, mas consegue fazer um bom trabalho. Quem está melhor é Dane DeHaan, que interpreta Harry Osborn, um rapaz de 20 anos que herdou do pai (uma aparição rápida de Chris Cooper) tanto as empresas "Oscorp" quanto uma doença degenerativa que pode ser fatal. Osborn acredita que sua cura pode ser encontrada no sangue do Homem-Aranha, que não está muito interessado em doá-lo. O filme tem pelo menos 30 minutos a mais que o necessário (o que aconteceu com os filmes de 90 a 120 minutos de antigamente?), tempo dedicado a vilões aleatórios e cenas criadas apenas para fazerem sentido nos próximos capítulos da "saga".

Confesso que esperava um filme muito pior e, talvez por isso, o tenha apreciado mais do que ele mereça. O fato é que há um filme muito melhor dentro deste, esperando a chance de aparecer mas enterrado em cenas descartáveis de ação e efeitos especiais.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Divergente

"Divergente" tem duas horas e vinte minutos de duração, tempo mais do que o suficiente para expor as premissas e desenvolvê-las. Então por que é que tudo tem que ser explicado à exaustão? Será que o público adolescente é assim tão incapaz de entender o que está se passando na tela sem que um narrador fique explicando tudo? Fora o fato de que o filme é baseado em mais uma franquia de livros juvenis, à exemplo de "Jogos Vorazes", o que torna estas explicações redundantes para a maioria da platéia.

Em um futuro não muito distante, Chicago foi devastada pela guerra e está separada do mundo exterior por um muro alto. A sociedade, para sobreviver, se dividiu em cinco facções, Erudição, Amizade, Abnegação, Audácia e Franqueza. Cada uma destas facções preza uma virtude e se dedica a uma atividade, como agricultura, judiciário, serviços sociais, defesa, etc. As crianças nascidas dentro de cada facção passam, aos 16 anos, por um teste que vai determinar se elas continuam na facção da família ou se mudam para outra (Grifinóia, Sonserina... opa, franquia errada). Beatrice Prior (Shailene Woodley, de "Os Descendentes") nasceu na Abnegação, mas seus olhos brilham quando ela vê os musculosos, vibrantes e alegres membros da Audácia correndo na rua. Sinceramente, é meio difícil imaginar qualquer adolescente que não gostaria de fazer parte da Audácia, levando uma vida de aventuras, ao invés de plantar batatas com o pessoal da Amizade. De qualquer forma, depois do teste os jovens ainda passam por uma cerimônia de Escolha, onde os escolhidos de cada facção vão lutar nos Jogos Vorazes...ou melhor...cada adolescente, independente do resultado do teste, escolhe a facção em que deseja passar o resto da vida. Mesmo em um mundo em que todas as pessoas que você conhece moram em uma única cidade e todos se beneficiariam de um contato maior, as leis deste mundo distópico ditam que os adolescentes fiquem privados da companhia da família e amigos para sempre, caso resolvam mudar de facção. (leia mais abaixo)



Beatrice, claro, é diferente dos outros, e seu teste mostra que ela é uma "Divergente", uma pessoa que não se encaixa perfeitamente em nenhuma das facções. Ou seja, ela é uma adolescente normal, mas neste mundo ser "divergente" pode ser um problema, já que os membros da Erudição vêem com maus olhos qualquer um que tenha um comportamento diferente. Ela escolhe a turma da Audácia, muda o nome para "Tris", e tem que lidar com os abusos do cruel líder da facção, Eric (Jai Courtney), e a atenção do misterioso e atraente "Quatro" (Theo James).

O filme é baseado na obra da escritora Veronica Roth e é o primeiro de uma nova série cinematográfica adolescente. A direção é de Neil Burger, que tem no currículo o interessante "O Ilusionista" (2006), mas que aqui se limita ao básico. "Divergente" tem um visual inventivo e efeitos especiais corretos. Os jovens atores, em especial Shailene Woodley, não fazem feio e têm algum carisma. A trilha sonora é tão genérica que os créditos dizem apenas que ela foi "supervisionada" por Hans Zimmer. O ritmo é desnecessariamente lento, resultado da necessidade do roteiro de explicar tudo dezenas de vezes. Kate Winslet faz uma participação especial (gravada em uma semana) em que ela se limita a andar pelo cenário com uma expressão fria e um sinal de "vilão" flutuando sobre a cabeça. Tudo resulta em um confronto final confuso e mal conduzido por Burger e equipe. Woodley tem uma boa cena de perda em que consegue expressar alguma emoção, mas logo tudo é engolido pela correria e explosões previsíveis. Como é uma obra em aberto, o final é genérico, com mais narrações e perguntas a serem respondidas nos próximos filmes, o que enfraquece ainda mais o roteiro. Onde é que estão os bons filmes com começo, meio e fim?

Câmera Escura

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Side by Side

Quando estava filmando "Zodíaco" com David Fincher, Robert Downey Jr. resolveu fazer um protesto. O fato do filme estar sendo captado em digital significava que não havia mais as pausas comuns em sets de filmagem para recarregar as câmeras com os rolos de filme, e Fincher fazia os atores trabalhar por 14 horas seguidas. Downey Jr. começou a urinar em potes de vidro e espalhar pelo set, para mostrar que ele precisava parar de vez em quando.

Esta é uma das boas histórias ouvidas no ótimo documentário "Side by Side" ("Lado a Lado", não lançado no Brasil), uma investigação feita pelo ator Keany Reeves sobre uma mudança de paradigma na produção cinematográfica, de película para digital. Por um século, filmes foram feitos usando a película cinematográfica de 35mm (ou, em algumas ocasiões, de 16mm ou 65mm), o que tinha vantagens e desvantagens. A película funciona através de um processo fotoquímico; a luz passa pelas lentes da câmera e impressionam uma tira de filme coberta com material sensível. O filme, depois de exposto, tem que ser revelado (em negativo) e impresso em uma cópia positiva, que era assistida pelo diretor e equipe apenas no dia seguinte às filmagens. A qualidade é excelente, mas o processo é caro e só o Diretor de Fotografia era responsável pela captação das imagens.

No digital a imagem é capturada por um chip eletrônico que, no início, tinha qualidade muito inferior à película cinematográfica, mas havia algumas vantagens; as câmeras digitais são menores, mais leves e portáteis que as pesadas câmera de cinema. Também é possível gravar tomadas com até quarenta minutos de duração (ao contrário dos dez minutos, no máximo, de uma câmera de cinema). Diretores como David Lynch e Danny Boyle contam como isso lhes deu enorme liberdade para lidar com os atores, que podiam interpretar longas cenas sem ter que ficar esperando que as câmeras de cinema fossem recarregadas. Já Christopher Nolan diz que os atores e a equipe não conseguem ficar concentrados por tanto tempo e precisam de uma pausa técnica de vez em quando.


Keanu Reeves explora esta mudança de película para digital não só na captação das imagens, mas também na edição e pós-produção. Até a década de 1990 os filmes eram montados manualmente; os editores trabalhavam diretamente com a película em grandes máquinas chamadas "moviolas". Martin Scorsese conta como as pontas dos dedos chegavam até a sangrar de tanto se cortar e colar pedaços de película com as mãos. Tudo mudou com a chegada de programas de edição como o Avid ou o Final Cut, que trabalham com uma versão digitalizada da película, que era escaneada e transferida para dentro do computador. Também os efeitos especiais, antes feitos com processos físicos caros e demorados, passaram a ser feitos digitalmente no computador. Com a captação das imagens feita em digital, todo este processo de digitalização da película não existe mais.

Scorsese levanta a questão de que, hoje, o espectador não sabe mais o que é "real" na tela. James Cameron, diretor de Avatar (que tem 3/4 das imagens criadas totalmente em computador) rebate dizendo que, no cinema, nunca se filmou a realidade. "O que é real?", pergunta ele a Keanu Reeves. "Há dezenas de pessoas em um set de filmagem, há um cara segurando o boom do microfone, há um técnico em cima da escada mostrando o traseiro. Nada disso é real". O surgimento de câmeras digitais especializadas em cinema, como a RED e a ARRI Alexa, aparentemente, enterraram de vez a película cinematográfica. "Eu tenho vontade de ligar para a película e dizer que conheci outra pessoa", diz Steven Soderbergh, que é um dos defensores do cinema digital. Há diretores como Steven Spielberg, Christopher Nolan, Zach Syder e Martin Scorsese, porém, que ainda trabalham com película, e vários filmes ainda são feitos em filme em Hollywood. Mas o fim da película é inevitável.

Tudo isso pode parecer técnico ou nerd demais para o espectador comum, mas o documentário levanta questões que interessam a todos. Esta mudança do analógico para digital não engloba só o cinema, mas praticamente tudo à nossa volta. Transações bancárias, divulgação de notícias, compartilhamento de música e várias outras coisas passaram por esta transformação e ainda não sabemos qual impacto isso terá no futuro. Um dos maiores problemas levantados por "Side by Side" é com relação à preservação desta enorme quantidade de material digital. Os filmes em película podem durar mais de um século. Qual a validade de um disco rígido de computador? O que vai acontecer com todos estes filmes digitais feitos nos últimos anos? Ou será que nada disso importa, e estamos vivendo em uma cultura descartável, que vai desaparecer em poucos anos? São questões importantes para entendermos o mundo de hoje.

Site oficial (o filme está disponível "on demand" apenas para os Estados Unidos, mas pode ser encontrado na internet)


domingo, 13 de abril de 2014

Capitão América 2 - O Soldado Invernal

Eis que o Capitão América, que teve um primeiro filme simpático e bastante tranquilo, retorna em uma aventura de ação de tirar o fôlego. Steve Rogers (Chris Evans), o soldado americano que ficou congelado desde a 2ª Guerra Mundial e é o protótipo do "bom moço", volta nesta continuação quase como um Jason Bourne vestido de vermelho, azul e branco. Rogers se tornou soldado durante a última guerra "justa" da Humanidade, a 2ª Guerra Mundial, em que derrotar os nazistas era sinônimo de integridade e luta pela liberdade. Já este segundo filme embarca de cabeça na mentalidade pós guerras do Iraque e atentado de 11 de setembro. Nada é preto e branco e os interesses militares dos americanos no mundo são bastante discutíveis.

A aventura abre com uma operação de resgate em que o Capitão América e um grupo de soldados especiais retomam o controle de um navio da agência SHIELD invadido por piratas. Rogers desce primeiro e, armado apenas com seu escudo inviolável e as habilidades de um ninja, neutraliza uma dúzia de piratas com golpes de artes marciais. Ele e os companheiros conseguem salvar os reféns, mas a Viúva Negra/Natasha Romanoff (Scarlett Johansson, que já interpretou o papel em "Homem de Ferro 2" e "Os Vingadores") quase põe tudo a perder durante uma operação de transferência de dados dos computadores do navio. O Capitão América tem uma grande discussão com o líder da SHIELD, Nick Fury (Samuel L. Jackson), sobre um plano fascista da agência de colocar em órbita grandes naves armadas que assassinariam qualquer pessoa considerada uma "possível ameaça" à Humanidade. "Antigamente a pena capital era aplicada somente depois do crime", diz o Capitão América. É então que tudo começa a acontecer muito rápido. Fury (em uma cena de ação espetacular) sofre um atentado e o Capitão América é considerado fugitivo depois de um "acontecimento" (que não vou revelar para não estregar a surpresa). O grande ator veterano Robert Redford (de "Até o fim") interpreta um conselheiro da SHIELD chamado Alexander Pierce, que tem um passado com Nick Fury e motivações discutíveis. (leia mais abaixo)



E o tal "Soldado Invernal"? Para quem tem o nome no título do filme, ele aparece bastante pouco. É um assassino profissional que usa uma máscara, tem um dos braços mecânicos e um passado que envolve o Capitão América. Para um filme supostamente infanto-juvenil, "Capitão América 2 - O Soldado Invernal" é bastante violento, com provavelmente a maior quantidade de mortes mostradas na tela de todos os filmes da Marvel. Há uma cena em que Robert Redford mata uma pessoa desarmada à queima roupa, e mesmo heroínas como a Viúva Negra tem uma quantidade de mortes impressionante. O grande problema do filme, a meu ver, é comum a todos os filmes de super heróis: quão vulnerável (ou invulnerável) é o herói? Steve Rogers é visto caindo de prédios altos, atravessando paredes e redomas de vidro e sobrevivendo a explosões. No entanto, em vários momentos os inimigos tentam matá-lo com armas comuns e até mesmo facas. Ele pode realmente morrer com uma simples facada ou tiro? A qualidade da maioria das cenas de ação e luta é bastante alta, o que é incomum nos filmes do gênero. Outro problema é a pergunta que não quer calar: onde estão os outros Vingadores enquanto tudo isso está acontecendo?

É o melhor filme da Marvel até o momento? É uma pergunta válida. É melhor que as continuações desnecessárias do "Homem de Ferro" e que qualquer filme de "Thor" e "Hulk". É menos divertido, no entanto, que "Os Vingadores". "Capitão América 2 - O Soldado Invernal" surpreende favoravelmente e termina com várias questões em aberto a serem resolvidas nos próximos filmes da franquia.

Câmera Escura

sábado, 12 de abril de 2014

House of Cards (1ª e 2ª Temporadas)

"House of Cards" é pioneira de várias formas. Foi a primeira série produzida pelo canal Netflix (provedor de conteúdo na internet que cresceu a ponto de desafiar gigantes como a HBO). Foi também pioneira na forma de exibição; tanto a primeira temporada (em 2013) quanto a segunda (em 2014) foram tornadas disponíveis na íntegra para os assinantes da Netflix. A decisão, ousada, veio da constatação de que a maioria dos fãs de seriados gosta de fazer "maratonas" de episódios das suas séries preferidas, ao invés de esperar pela próxima semana. A série foi também criada de forma nova, a partir da análise dos hábitos dos assinantes da Netflix. O canal descobriu que o público alvo gostava do diretor David Fincher (de "A Rede Social", "Zodíaco", "Se7en") e do ator Kevin Spacey ("Se7en", "Os Suspeitos", "Beleza Americana"), e assim nasceu "House of Cards". A série é baseada em uma produção britânica e em um livro de Michael Dobbs. Kevin Spacey, além de atuar, é um dos produtores; em entrevista a Jon Stewart ele disse que a Netflix gostou tando da ideia que sequer pediu a produção de um episódio piloto, encomendando logo 26 episódios a serem divididos em duas temporadas.

ATENÇÃO SPOILERS, esteja avisado.

A série acompanha a jornada do congressista Frank Underwood (Kevin Spacey), um político tão ambicioso quanto traiçoeiro. A primeira cena de Underwood já mostra seu modo de ser, quando ele mata com as próprias mãos um cachorro que está agonizando na rua após ter sido atropelado. O que pode parecer um gesto nobre, na verdade, só mostra o lado cruel e pragmático de Frank. É também um prenúncio dos crimes que Underwood irá cometer durante a série (embora, a bem da verdade, este lado assassino demore a aparecer).

Esqueça o idealismo e patriotismo de "The West Wing" (1999-2006), série de Aaron Sorkin que também mostrava os bastidores da Casa Branca e da política americana. Em "House of Cards" ninguém é inocente. Há uma multidão de personagens, todos competindo por um pedaço do poder de Washington. Frank Underwood, em uma das melhores sacadas da série, frequentemente quebra a "quarta parede" e fala diretamente com o espectador, explicando suas motivações e nos transformando em cúmplices. Depois de algum tempo, Spacey apenas lança olhares significativos para a câmera, como que querendo dizer: "Eu não disse?".

A jornalista Zoe Barnes (Kate Mara)
A primeira temporada (2013) trata, além das maquinações de Underwood para subir aos altos escalões de Washington, de outras duas tramas: uma segue a carreira da jovem e ambiciosa repórter Zoe Barnes (Kate Mara, irmã de Rooney Mara, que trabalhou com David Fincher em "A Rede Social" e em "Os homens que não amavam as mulheres"). Barnes começa como estagiária em um jornal tradicional de Washington mas, aos poucos,  consegue atrair a atenção de Frank Underwood, que lhe vaza informações conforme sua conveniência. Em troca (repito, não estamos no mundo nobre de "The West Wing"), Zoe Barnes começa um relacionamento sexual com Underwood, um homem casado e com o dobro da idade dela.

Outra trama segue os passos de Pete Russo (Corey Stoll), um deputado democrata alcoólatra que cai na teia de Frank Underwood ao ser parado pela polícia de Washington. Russo estava bêbado e acompanhado de uma prostituta, mas é solto por influência de Underwood apenas para se tornar mais um peão nos jogos de Frank. Um dos pontos altos da primeira temporada (atenção, SPOILERS) é o "suicídio" de Pete Russo, engendrado por Frank Underwood. Com a morte de Russo, o vice presidente renuncia para concorrer ao governo da Pensilvânia, deixando livre o caminho para que Underwood se torne o vice presidente dos Estados Unidos da América.

A segunda temporada (2014) começa com um dos melhores episódios de toda série. Tão bom, na verdade, que o resto da temporada acaba empalidecendo em comparação. É neste episódio que acontece a morte mais surpreendente e inesperada de "House of Cards", quando Frank Underwood elimina Zoe Barnes em uma estação de metrô. A personagem de Kate Mara era aparentemente tão importante para a trama que o espectador jamais imaginaria que ela seria descartada de forma tão rápida e chocante. O problem é que, como dito anteriormente, a força do episódio é tão grande que o resto da temporada, que culmina com a chegada de Underwood à presidência da república, perde um pouco do brilho. A segunda temporada é marcada por embates entre Underwood e o único homem capaz de ficar (temporariamente) em seu caminho, o bilionário Raymond Tusk (o ótimo Gerald McRaney). Há episódios um tanto maçantes sobre disputas comerciais, subsídios para empresas de energia e uma crise crescente com a China. O presidente Garret Walker (Michael Gill) se mostra extremamente incompetente em lidar com todos estes problemas e se torna presa fácil para o plano elaborado por Underwood. Tudo culmina com um pedido de impeachment e uma ótima cena final, em que Frank entra no Salão Oval da Casa Branca como o 46º presidente dos Estados Unidos (sem ter recebido um único voto). É uma cena forte e com uma mensagem assustadora, embora um tanto exagerada, sobre as fragilidades da democracia.

Claire Underwood (Robin Wright)

Dois grandes parênteses devem ser feitos para os personagens de Claire Underwood (Robin Wright), a esposa de Frank, e seu capataz, Doug Stamper (Michael Kelly). Claire, interpretada com enganadora fragilidade e frieza por Robin Wright, é o porto seguro por trás de Frank. Conforme a série progride ficamos sabendo que, em vários aspectos, ela é tão ou mais perigosa quanto o marido. Ela tem consciência dos casos extra-conjugais de Frank e uma trama importante envolve o caso dela com um fotógrafo famoso. Na segunda temporada, grande parte da trama é dedicada a um estupro que ela sofreu na juventude, com repercussões no presente.

Já Doug Stamper é como um cão de guarda de Frank, responsável por orquestrar os bastidores e, geralmente, lavar a roupa suja deixada pelo chefe. Alcoólatra como Pete Russo, Stamper é frio, quieto e eficiente. Seu único ponto fraco é Rachel Posner (Rachel Brosnahan), a prostituta que estava com Russo quando ele foi preso. Stamper se sente atraído pela moça, mas não necessariamente de forma sexual. Como ela tem informações que podem causar a queda de Underwood, seria mais fácil se ela "desaparecesse" convenientemente, assim como Russo e Barnes. Mas Stamper prefere protegê-la, ao mesmo tempo em que mantém um perigoso jogo de poder com ela. A interpretação de Michael Kelly é soberba e Stamper é um dos personagens mais interessantes da série.

Uma terceira temporada de "House of Cards" já foi anunciada pela Netflix, com estréia para 2015. Resta saber se os produtores e elenco vão conseguir manter o alto nível conseguido até aqui.



Câmera Escura

domingo, 6 de abril de 2014

Noé

Atenção, esta resenha contém SPOILERS. E se você acha estranho um aviso destes precedendo um texto sobre um filme bíblico, você tem razão, mas  isto só serve para mostrar o quanto o novo filme de Darren Aronofsky é...singular. Todo mundo conhece, em linhas gerais, a "trama" de Noé.  Desconsolado com a própria criação, Deus resolve matar todos os seus filhos em uma grande inundação que assolou a Terra do Velho Testamento. Apenas a família de Noé e um casal de cada animal do planeta seriam salvos pela construção de um gigantesco navio, ou Arca, que sobreviveria à tempestade. Após o dilúvio, Noé e família seriam responsáveis pelo repovoamento do planeta. Tudo muito bem.

Como contar esta história para espectadores de cinema do século 21? "Noé" poderia ter sido um filme bíblico tradicional, heterodoxo e (provavelmente), muito rentável financeiramente. Ao invés disso, os produtores resolveram ousar já na contratação do diretor Darren Aronofsky, que tem uma das carreiras mais estranhas de Hollywood. Ele começou com filmes independentes como "Pi" (1998), fez um pesado filme sobre drogas, "Réquiem para um Sonho" (2000), afundou nas bilheterias com "Fonte da Vida" (2006), realizou um "filme de luta" tradicional, "O Lutador" (2008) e alcançou Hollywood e o povão em "Cisne Negro" (2010).

Aronofsky tem um sentido visual apurado e "Noé", sem dúvida, é interessante de se ver. O planeta habitado por Noé (Russell Crowe, de "Os Miseráveis") e sua família existe em um tempo dão distante que o Universo ainda era novo, e estrelas podiam ser vistas durante o dia. Uma narração conta a história da queda do Homem após comer o "fruto proibido" no Jardim do Éden, seguida da expulsão do paraíso e o assassinato de Abel por Caim (filhos de Adão e Eva). Este então teria se separado da família e criado uma legião de seguidores frutos do pecado e da ambição. Como é que Caim conseguiu procriar sem que houvesse nenhuma outra mulher no planeta além da mãe, Eva, é algo que o filme (e a Bíblia), deixam de explicar. Mas esta é uma daquelas "falhas de roteiro" que já duram milênios e não sou eu que vou conseguir explicar. Mas Aronofsky parece querer fazer um filme "plausível", então a pergunta é válida. Noé sonha com o dilúvio e adivinha as intenções do "Criador" em destruir o planeta. Após consultar o avô, Matusalém (Anthony Hopkins, risivelmente parecido com o "Mestre dos Magos", da "Caverna do Dragão"), Noé começa a construção da Arca que salvaria os animais durante o "reboot" promovido pelo "Criador". (leia mais abaixo)


Há um detalhe que deixei para o final por ser, em minha opinião, a decisão criativa mais estranha (e errada) do filme. Noé é auxiliado tanto na construção da Arca quanto na sua proteção por criaturas chamadas de "Guardiões", que seriam anjos caídos na Terra e transformados em gigantes de pedra. Por mais fantasioso que o filme seja, fica difícil levá-lo a sério quando estes "Transformers de pedra" aparecem. Até a voz deles lembra os robôs dos (péssimos) filmes de Michael Bay. O que Aronofsky estava pensando? Ok, os "Guardiões" podem "explicar" como a Arca poderia ser construído; da mesma forma, quando os milhares de "filhos de Caim" (liderados por Ray Winstone) tentam invadir a Arca, os "Guardiões" têm a função de impedi-los. Tudo isso, no entanto, poderia ser explicado de outra forma, como o "poder de Deus", raios caindo do céu ou coisa parecida. Mas fica difícil segurar o riso ao ver "Samyasa" (até o nome parece de um robô japonês), um dos "Guardiões", pisando e despedaçando centenas de pobres coitados tentando chegar à Arca durante o dilúvio.

Há vários bons momentos (principalmente quando os "Guardiões" não estão visíveis), o elenco é sólido e Russell Crowe é imponente o suficiente para personificar um dos ancestrais míticos da Humanidade. As cenas que mostram os animais chegando à Arca são muito bem feitas (apesar do exagero nos efeitos digitais). E há uma maravilhosa sequência em que Russell Crowe conta aos filhos a história do "Genesis", ilustrada com visual deslumbrante, que merecia estar em um filme melhor.

Câmera Escura

segunda-feira, 17 de março de 2014

Walt nos bastidores de Mary Poppins

Há 50 anos, em 1964, os estúdios de Walt Disney lançaram "Mary Poppins", um musical estrelado por Julie Andrews e Dick Van Dyke. O filme rendeu mais de cem milhões de dólares, ganhou 5 Oscars e se transformou em um clássico infantil. Poucos sabem quem é a criadora original da personagem e o quão difícil foi para Disney conseguir os direitos para fazer o filme. Mary Poppins apareceu pela primeira vez em um 1934, fruto da imaginação da escritora P.L. Travers, uma mulher enigmática que se passava por inglesa mas, na verdade, era uma australiana chamada Helen Goff.

As filhas de Disney teriam se apaixonado pela história quando crianças e Walt passou os próximos 20 anos tentando convencer a escritora a lhe vender os direitos autorais. É preciso notar que Disney criou um império com animações baseadas em histórias de domínio público, como "Branca de Neve", "Cinderella" ou "A Bela Adormecida", e era um homem acostumado a ter controle sobre suas produções. P.L. Travers (interpretada muito bem por Emma Thompson) desprezava os desenhos animados de Disney (Tom Hanks, "Capitão Philips"), mas concordou em viajar para Los Angeles, em 1961, para se sentar com os roteiristas e tentar chegar a um acordo. Mas ninguém imaginaria com qual fúria Travers defenderia seu personagem. Segundo o filme, ela exigia que todas as reuniões fossem gravadas e implicava com tudo, do bigode usado pelo Sr. Banks até o uso da cor vermelha, que ela não permitia que fosse usada no filme; ela nem queria ouvir falar nas cenas com animações que Disney planejava fazer. (leia mais abaixo)


"Walt nos bastidores de Mary Poppins" (o título explicativo horroroso escolhido por aqui para "Saving Mr. Banks") é uma versão simpática (e bastante ficcional) do confronto entre estas duas mentes criativas e teimosas. O filme foi feito pelos próprios estúdios Disney, e era de se esperar que a trama fosse pintada com cores mais leves e otimistas do que deve ter sido a história real. O roteiro de Kelly Marcel e Sue Smith misturam, com diferentes graus de sucesso, a história da infância de Travers, na Austrália, com sua viagem para Hollywood. O pai da escritora (interpretado por um surpreendente Colin Farrell) era um homem sonhador que arrastou esposa e três filhas para uma zona rural nos confins da Austrália. Apesar de amoroso com as filhas, ele sofria com o alcoolismo, que destruiu sua vida. Estas cenas são intercaladas com cenas de Travers nos anos 1960, lutando por manter Mary Poppins intacta contra o que julgava ser uma "Disneyficação" da personagem. Após muitas discussões e uma boa dose de sacrifício do próprio Walt Disney, tudo termina em um obrigatório final feliz. Para este filme, funciona.

Quem pesquisar sobre a história real, no entanto, vai descobrir que não foi bem assim. A história de P.L. Travers renderia muito mais do que um problema freudiano com o pai alcoólatra. Em 1939, ela adotou um garoto de uma família irlandesa, mas não lhe contou a verdade. Segundo este bom documentário da BBC, quando P.L. Travers estava em Hollywood fazendo um filme sobre uma tradicional família inglesa, o filho adotivo estava preso na Inglaterra por dirigir embriagado. Há também rumores de que Travers era homossexual. Nada disso está no filme. A relação com Disney foi ainda mais complicada; Travers teria odiado "Mary Poppins" e, mesmo depois da première em Los Angeles, teria tentado fazer Disney tirar as sequências animadas. Por outro lado, o documentário conta que o contrato da escritora lhe dava direito a 5% da renda do filme, o que a deixou milionária para o resto da vida.

Como ficção, no entando, "Walt nos Bastidores de Mary Poppins" é agradável. O elenco é ótimo (apesar de Tom Hanks não parecer muito Walt Disney) e a recriação de época é bastante fiel. P.L. Travers,  no entanto, teria odiado este filme.

Câmera Escura

terça-feira, 11 de março de 2014

Amor Bandido

O fugitivo Mud (lama, em inglês) é tão escorregadio quanto seu nome. Para os garotos Ellis (Tye Sheridan, de "Árvore da Vida") e Neckbone (Jacob Lofland) ele representa tanto uma fascinação quanto uma ameaça. A cena em que os dois garotos encontram Mud (Matthew McConaughey, de "Clube de Compras Dallas") pela primeira vez parece saída de algum sonho, ou pesadelo. Mud surge do nada na praia de uma pequena ilha do rio Mississippi. Os garotos haviam ido até lá ver um barco que fora carregado pela água até a copa de uma árvore. Mud já havia tomado posse do barco e o transformado em uma morada temporária. Quem é ele? Como foi parar sozinho naquela ilha? Por que ele carrega uma arma na cintura? Neckbone, o mais desconfiado, não quer ter nada a ver com ele, mas Ellis lhe promete voltar com comida e mantimentos. (leia mais abaixo)


"Amor Bandido" ("Mud", 2012) tem roteiro e direção de Jeff Nichols e lembra filmes como "Conta Comigo" ("Stand by me", de Rob Reiner, 1986), clássico juvenil com River Phoenix, Will Wheaton e Corey Feldman. Até o visual dos garotos lembram Phoenix (que morreu em 1993) e o filme também lida com pré-adolescentes de forma adulta e séria. Ellis e Neckbone têm 14 anos mas enfrentam problemas adultos no dia a dia. Ellis mora com os pais (Sarah Paulson, de "12 Anos de Escravidão" e Ray Mckinnon), que estão à beira do divórcio. Neckbone mora com um tio (Michael Shannon, de "Foi apenas um sonho" e "Homem de Aço") que vive de resgatar coisas do fundo do rio. O ambiente familiar fragmentado faz com que os garotos vejam em Mud uma espécie de figura paterna. Ellis, particularmente, é afetado pela história contada por Mud, que diz que está tentando encontrar uma namorada de infância, Juniper (Reese Whiterspoon) e fugir com ela. Ele é obcecado pela garota e está sendo procurado pela polícia pelo assassinato de um antigo namorado dela.

Ellis e Neckbone passam a ajudar Mud de diversas formas, inclusive se arriscando, pois um grupo de caçadores de recompensa chega à cidade (liderados pelo veterano Joe Don Baker). Estas sequências, aliás, são pouco verossímeis, e o filme se arrasta um pouco durante a segunda metade. Há um vai e vem entre a cidade e a ilha, com os meninos servindo ora como protagonistas, ora como garotos de recados. Há também um romance agridoce entre Ellis e uma garota mais velha que rende boas cenas, mas também desvia um pouco a trama. O grande Sam Shepard faz uma participação especial importante, particularmente nas sequências finais. Falando em final, "Amor Bandido" termina de forma um tanto aleatória, como se o diretor/roteirista não soubesse como finalizar a trama. É um bom filme, porém. Matthew McConaughey está muito bem e este é um dos exemplos recentes da sua escolha por filmes de qualidade.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vidas ao Vento

Um dia, talvez, o Ocidente vai entender a diferença entre "animação" e "desenho animado". O termo geralmente traz embutida e ideia de um produto infantil, feito para distrair as crianças enquanto os adultos têm um pouco de paz. Não há nada de "errado" em se divertir com um bom desenho animado, com as diabruras do "Pica Pau", "Tom & Jerry", ou se maravilhar com histórias da Disney/Pixar. Uma animação, no entanto, pode ser chocante como "Pink Floyd - The Wall", ou fazer pensar como "Valsa com Bashir".

E há Hayao Miyazaki, lenda viva da animação japonesa, que comemorou 73 anos e anunciou (mais uma vez), sua aposentadoria após lançar "Vidas ao Vento" (Kaze Tachinu) ano passado. O fato de "Vidas ao Vento" ser feito em animação é, ao mesmo tempo, fundamental e um "detalhe". "Detalhe" porque ele tem a estrutura de um filme feito com atores, baseado levemente na vida real do designer de aviões Jiro Horikoshi. Ao mesmo tempo, a técnica da animação permite que Miyazaki construa planos fantásticos de uma beleza irretocável, mesmo em sequências trágicas como o devastador terremoto de 1923, que reduziu  a cidade de Tokyo (e arredores) a cinzas. Apesar deste ser o filme mais realista de Miyazaki, há lugar para vários voos da sua imaginação fértil, principalmente nas sequências de sonhos de jovem Jiro, um garoto míope que sonhava em ser piloto de aviões. É fácil perceber a ligação entre Jiro e o próprio Miyazaki. Os dois sonhavam em voar e em "construir coisas lindas", dedicando suas vidas a realizar seus sonhos a partir de linhas traçadas no papel. No filme, Jiro tem sonhos constantes com um designer italiano chamado Caproni, que lhe diz que aviões não deveriam ser usados em guerras, mas sim para serem máquinas maravilhosas que transportam pessoas. (leia mais abaixo)


Como na vida real, há várias contradições no personagem de Jiro Horikoshi e no filme de Hayao Miyazaki. A animação causou certa controvérsia por ter como herói um homem que, no fundo, construiu armas mortais, os famosos caças "Zero" japoneses, que causaram destruição e mortes na 2ª Guerra Mundial. Jiro sabia que suas "máquinas de sonhos" seriam usados para matar? Claro que sim, mas não é tão simples assim. Jiro era uma pessoa real, com sonhos e necessidades como qualquer um, que viveu em uma época extremamente conturbada da Humanidade, em um país em decadência que tentava se colocar em pé. Há várias cenas do filme em que vemos como a crise econômica está desolando o Japão, com centenas de desempregados vagando pelas linhas dos trens e multidões desesperadas tentando sacar dinheiro nos bancos em falência. Jiro e seus companheiros de trabalho na Mitsubishi eram homens práticos, dedicados à evolução das máquinas voadoras e, no fundo, um tanto espantados com a histeria militarista que tomava conta do Japão e da Alemanha, para onde Jiro é enviado para estudar os aviões da empresa Junkers. Há cenas em que Jiro e Honjo, seu colega de trabalho, ficam imaginando onde é que a Marinha pretende usar todos aqueles aviões que ele estão planejando construir. O próprio Miyazaki, em um comunicado, falou contra a atual onda militarista que estaria ocorrendo no Japão, com políticos tentando mudar a constituição e voltar a construir armas. E um olhar atento vai perceber como "Vidas ao Vento" é contrário à guerra, principalmente nas sequências finais.



Tecnicamente, o filme é um assombro. Hayao Miyazaki, além de roteirista, diretor e produtor, costuma desenhar pessoalmente várias das sequências animadas, com seu traço característico. Vale notar também o inventivo trabalho de som; quase todos os efeitos sonoros, dos motores dos aviões ao rugido do terremoto, foram feitos através de vozes humanas. A trilha sonora é do tradicional colaborador de Miyazaki, o ótimo Jou Hisaishi. É possível ver ecos e referências de vários trabalhos anteriores do mestre japonês, assumidamente fanático por máquinas voadoras. Há cenas que lembram "Nausicaa do Vale dos Ventos" (1984), "O Castelo no Céu" (1986) e "Porco Rosso" (1992). Alguns momentos são técnicos demais, como nas cenas em que vemos dezenas de jovens engenheiros vibrando por causa de um novo tipo de rebite usado nas asas, por exemplo. Estas cenas ficam bem longe da deliciosa fantasia de "Ponyo" (2008). Em meio a tudo isso, porém, há ainda espaço para uma delicada história de amor entre Jiro e Naoko, uma garota tuberculosa por quem ele é apaixonado. Workaholic convicto, porém, o relacionamento dos dois se resume às poucas oportunidades em que ele não está trabalhando. "Se houvesse uma competição para ver quem consegue usar usa régua de cálculo com uma mão só, eu ganharia", diz Jiro em uma cena tocante em que Naoko se recusa a soltar a mão do marido.

Se for mesmo o último trabalho de Hayao Miyazaki, será uma bela despedida. É um filme longo, contraditório e político que consegue ser, ao mesmo tempo, mágico. É um feito e tanto.

Câmera Escura

domingo, 2 de março de 2014

Vencedores do OSCAR 2014


"12 Anos de Escravidão" foi o vencedor de Melhor Filme da noite. "Gravidade", no entanto, foi o que mais ganhou prêmios, com sete Oscars, inclusive Melhor Diretor (Alfonso Cuarón). Matthew McConaughey e Cate Blanchett, como esperado, foram Melhor Ator e Melhor Atriz.

Confira abaixo a lista de vencedores do Oscar 2014, na ordem em que foram apresentados:

Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto, "Clube de Compras Dallas"

Melhor Figurino: "O Grande Gatsby" - Catherine Martin

Melhor Maquiagem: "Clube de Compras Dallas" - Adruitha Lee and Robin Mathews

Melhor Curta-Metragem de Animação: "Mr. Hublot" - Laurent Witz e Alexandre Espigares

Melhor Animação em Longa-Metragem: "Frozen - Uma Aventura Congelante"

Melhores Efeitos Especiais: "Gravidade"

Melhor Curta-Metragem: "Helium" - Anders Walter e Kim Magnusson

Melhor Documentário Curta-Metragem: "The Lady in Number 6: Music Saved My Life" - Malcolm Clarke e Nicholas Reed

Melhor Documentário Longa-Metragem: "20 Feet from Stardom"

Melhor Filme Estrangeiro: "A grande beleza" (Itália)

Melhor Mixagem de Som: "Gravidade" - Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead e Chris Munro

Melhor Edição de Som: "Gravidade" - Glenn Freemantle

Melhor Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong'o - "12 Anos de Escravidão"

Melhor Fotografia: "Gravidade" - Emmanuel Lubezki

Melhor Edição: "Gravidade" - Alfonso Cuarón e Mark Sanger

Melhor Desenho de Produção: "O Grande Gatsby" - Catherine Martin e Beverley Dunn

Melhor Trilha Sonora: "Gravidade" - Steven Price

Melhor Canção: “Let It Go” -  "Frozen - Uma Aventura Congelante" - Música e Letra de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez

Melhor Roteiro Adaptado: John Ridley - "12 Anos de Escravidão"

Melhor Roteiro Original: "Ela" - Spike Jonze

Melhor Diretor: Alfonso Cuarón - "Gravidade"

Melhor Atriz: Cate Blanchett - "Blue Jasmine"

Melhor Ator: Matthew McConaughey - "Clube de Compras Dallas"

MELHOR FILME: "12 Anos de Escravidão" - Steve McQueen

Philomena

Em 1951, uma jovem chamada Philomena Lee (Sophie Kennedy Clark) engravidou após um caso passageiro com um rapaz. De família católica, Philomena foi enviada pelo pai a um convento, onde teve um menino chamado Anthony. Philomena foi obrigada a trabalhar praticamente como escrava por quatro anos no convento, para "pagar" a estadia, e viu, desesperada, o filho ser tirado de suas mãos e ser entregue para adoção. Cinquenta anos depois, Philomena (interpretada pela maravilhosa Judi Dench), quebra o voto de silêncio e conta sua história a um jornalista chamado Martin Sixmith (Steve Coogan), que se propõe a ajudá-la a achar o filho perdido meio século antes.

"Philomena" é dirigido por Stephen Frears, bom diretor de "Ligações Perigosas" (1988), "Alta Fidelidade" (2000) e "A Rainha" (2006). O roteiro é co-escrito pelo ator Steve Coogan, que se interessou pela história ao ler o livro do jornalista Martin Sixmith. "Philomena" é o tipo de filme que cresce conforme vai se desenrolando, graças a um roteiro bem escrito e, claro, à ótima interpretação de Judi Dench, que foi indicada ao Oscar pelo papel. Esqueçam "M",  a mulher fria e inteligente que diz a James Bond o que fazer. Com Philomena, Dench cria uma personagem que, assim como o filme, é bem menos superficial do que parece. Fica difícil falar sobre a trama sem entregar muitos "segredos" da história, mas a busca de Philomena e Martin pelo garoto perdido os leva até os Estados Unidos, onde se descobre que o rapaz se transformou em um assessor político durante os governos de Reagan e Bush. (leia mais abaixo)


Grande parte do charme da fita reside na relação entre Philomena e Martin. Ela é a típica "velhinha", cheia de manias, ingênua, que gosta de ler romances baratos e de conversar com as pessoas. Já Martin é um jornalista calejado, cínico, profundamente ateu e naturalmente desconfiado. Ele não consegue entender como é que Philomena consegue manter a fé mesmo depois de tudo que as freiras (e, por tabela, a Igreja Católica) fizeram com ela. Em suas investigações, Martin descobre que o convento chegou a vender crianças filhas de mães solteiras para casais americanos, nos anos de 1950, por até mil libras.  Philomena, mesmo assim, tenta passar ao jornalista o conceito de "perdão". "Philomena", um filme relativamente pequeno e discreto, conseguiu quatro indicações ao Oscar, inclusive para melhor filme (além de atriz, roteiro adaptado e trilha sonora). Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Robocop

"Robocop" foi lançado em 1987 com direção do holandês Paul Verhoeven. Era uma ficção-científica passada em um futuro próximo, satírica e extremamente violenta. O sucesso gerou duas continuações (bastante inferiores) e até uma série de desenhos animados. O policial meio homem, meio máquina volta agora repaginado pelas mãos do brasileiro José Padilha, "quente" nos Estados Unidos depois do enorme sucesso de "Tropa de Elite". Levando-se em conta a crueza e violência dos filmes de Padilha, até que não era uma má escolha. O problema é que estamos no século 21 e, para os padrões do cinema atual, não cabe fazer um filme sobre um "herói" como Robocop da mesma forma violenta de Verhoeven. O cyborg retorna em um filme tão clean quanto vazio, o que é uma pena.

Os erros começam pela escalação do elenco. Há vários bons atores jovens por aí, mas Padilha escolheu para o papel principal o inexpressivo sueco Joel Kinnaman. O rapaz tem uma voz grave, o que é apropriado para Robocop, mas em um papel em que toda a interpretação depende das expressões faciais, Kinnaman é muito frio. E o que dizer dos vilões? O Robocop de 1987 trazia os ótimos Ronny Cox e Kurtwood Smith como os bandidos que aterrorizavam a cidade de Detroit. Na versão atual, fica até difícil saber quem são realmente os vilões da história. O grande Michael Keaton está desperdiçado como Raymond Sellars, o chefe da empresa que faz fortuna mundo afora com robôs de combate.  Gary Oldman é o Dr. Norton, o responsável pela criação do Robocop. Oldman é bom ator, mas os roteiristas não sabem o que fazer com o personagem dele. Em um momento ele é uma figura paterna para Alex Murphy, o policial transformado em Robocop. Em outro, porém, mexe no cérebro do rapaz para que ele não possa mais sentir emoções. Depois muda de ideia novamente. Há ainda um vilão chamado Antoine Vallon (Patrick Garrow), que entra mudo e sai calado, sendo praticamente irrelevante para a trama (que diferença de Clarence Boddicker). Samuel L. Jackson interpreta um jornalista de direita que, estranhamente, lembra muito o personagem Fortunato, de "Tropa de Elite 2". (leia mais abaixo)



Sem falar que, ao mudar a origem do personagem do Robocop, o filme de Padilha lhe tirou toda a motivação. Enquanto no filme original Alex Murphy (na época interpretado por Peter Weller) era brutalmente mutilado por Boddicker e sua gangue, na versão atual Murphy vai parar no hospital quando seu carro explode, em um impessoal atentado a bomba. Esta versão de Robocop é tão clean que as balas disparadas pela arma do cyborg são elétricas, ou seja, não matam (a não ser quando ele quer). Tudo parte do esforço em fazer um filme  "inofensivo" para pré-adolescentes (que encontram muito mais violência nos games que jogam em casa).

A sátira social presente no filme de Verhoeven se transformou, nesta versão, em um discurso vazio sobre o uso de drones pelos Estados Unidos mundo afora. José Padilha conseguiu levar seus habituais colaboradores, o fotógrafo Lula Carvalho e o editor Daniel Rezende para trabalhar com ele. Pena que o roteiro (escrito por Joshua Zetumer) seja tão fraco e pouco ousado.

Câmera Escura