sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Último Amor de Mr. Morgan

Para um filme que passa quase duas horas falando sobre como enfrentar a depressão, passar por cima do passado e voltar a viver, "O Último Amor de Mr. Morgan" tem um final completamente incoerente e inacreditável. É uma pena, porque durante a primeira hora assistimos a um filme charmoso e interessante.

Michael Caine, sempre ótimo, é Matthew Morgan, um professor aposentado de Filosofia que mora em Paris. Desde a morte da esposa Joan (a veterana Jane Alexander), que ele venerava, ele vagueia pela cidade imaginando a mulher ao seu lado, tendo conversas imaginárias com ela ou passeando de mãos dadas. Um dia, no ônibus, ele conhece uma jovem e doce francesa chamada Pauline (Clémence Poésy), que imediatamente simpatiza com ele. Os dois engatam uma amizade que é uma mistura de companheirismo, amor paternal e, talvez, algo mais. É interessante o modo como nenhum dos dois questiona ou discute o que está acontecendo; eles apenas gostam de estar juntos e passear por paisagens idílicas de Paris e arredores, acompanhados por uma trilha suave de Hans Zimmer. (leia mais abaixo)


É então que o personagem de Michael Caine acha que é hora de "voltar para casa", e ele tenta se suicidar tomando uma overdose de pílulas para dormir. Ele falha, e é visitado no hospital não apenas por Pauline (que lhe diz que "tomou uma decisão") mas pelos filhos que voaram dos Estados Unidos para a França para ver o pai. Eles são Miles (Justin Kirk), um rapaz extremamente ressentido (e chato) com o pai e Karen (uma surpreendente Gillian Anderson, a eterna Dana Scully da série "Arquivo X"). De repente, o filme sai totalmente dos trilhos. O que começou como uma bonita história de amor e redenção entre um viúvo e uma jovem se torna uma discussão interminável entre Matthew e seus filhos (principalmente Miles) que não têm motivos para achá-lo um grande pai. Pauline, colocada no meio de uma discussão de família, perde qualquer traço da personalidade que tinha até então. O tal "último amor do Sr. Morgan" dá lugar a cenas intermináveis em que Miles acusa o pai de tê-lo castrado quando criança,  discussões sobre quem vai herdar o dinheiro de uma casa de campo, problemas no casamento de Miles e outras coisas que, francamente, o espectador não está interessado.

O final, repito, vai contra tudo o que se construiu durante a narrativa. "O Último Amor de Mr. Morgan" é escrito e dirigido por Sandra Nettelbeck; o filme vale pela interpretação de Michael Caine e por algumas belas cenas durante a primeira hora. Quando os filhos entram em cena, porém, se torna um filme enfadonho e sem direção. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O lugar onde tudo termina

Este é daqueles filmes em que a inevitabilidade do destino parece ditar cada passo, cada respiro dos personagens. É, ao mesmo tempo, opressor e liberador. Sobreviver ou não depende do quanto se aceita ou se luta contra a própria sorte.

Luke (Ryan Gosling, de "Drive", em personagem estranhamente parecido) nasceu para pilotar motos. Ele tem o corpo todo tatuado e leva uma vida errante, acompanhando um parque de diversões como piloto no Globo da Morte. Ao retornar para a pequena cidade de Schenectady, Nova York, descobre que um caso passageiro que teve no ano anterior resultou em um filho, Jason. A mãe, Romina (Eva Mendes), trabalha como garçonete e está morando com um homem honesto e trabalhador, Kofi (Mahershala Ali, de "House of Cards"). Ao saber do filho, Luke sonha em reconquistar Romina e prover para o garoto, mas a única forma que ele consegue imaginar para fazê-lo é roubando bancos da região, dos quais foge, como raio, em sua motocicleta. (leia mais abaixo)


Avery Cross (Bradley Cooper, diferente dos papéis em "Trapaça" e "O Lado Bom da Vida") é um policial que é ferido ao trocar tiros com um bandido também na cidade de Schenectady. Os meses de recuperação colocam pressão sobre seu casamento e o expõem a um lado corrupto da polícia que ele não conhecia. É só a figura do grande ator Ray Liotta aparecer como policial para que o espectador saiba que há algo de muito errado na corporação. Avery tem que decidir se embarca nos esquemas de corrupção ou tenta sair deles. Quem sabe ele não poderia usar da oportunidade para se promover politicamente?

O filme acompanha também as vidas de dois adolescentes de 16 anos, Jason (Dane DeHaan, de "O Espetacular Homem-Aranha 2") e A.J. (Emory Cohen). Os dois frequentam a mesma escola, em Schenectady, e começam a se envolver com drogas e pequenos delitos. Jason não sabe quem é seu pai de verdade. A mãe diz que ele morreu em um acidente de carro.

Não vou revelar o modo como estas três histórias se ligam. O fato é que o roteiro do diretor Derek Cianfrance ("Namorados para Sempre") é ambicioso e não foge de grandes decisões. Causas nem sempre são acompanhadas por consequências de forma imediata. Um espaço de 15 anos separa a primeira cena (um ótimo plano sequência mostrando Ryan Gosling caminhando para o Globo da Morte) da última (outro personagem partindo em uma moto). Com 140 minutos de duração, "O lugar onde tudo termina" é grande cinema, para ser visto com atenção. Disponível na Netflix.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste

"O Grande Hotel Budapeste" é como uma daquelas bonecas russas, ricamente decoradas, que se abrem revelando outras bonecas dentro delas. A cada nova camada se descobre outra obra de arte ainda mais elaborada do que a anterior. É também uma declaração de amor à etiqueta, às boas maneiras, ao profissionalismo e uma Europa que, provavelmente, nunca existiu na verdade, a não ser como um ideal na cabeça de personagens como M. Gustave (Ralph Fiennes, extraordinário), concierge do "Grande Hotel Budapeste". Dizer que foi escrito e dirigido por Wes Anderson ("Moonrise Kingdom") se torna redundante a partir do primeiro frame do filme, que tem todas as características do estilo do diretor.

Anderson cria uma espécie de conto de fadas adulto, um roteiro francamente literário que começa com o busto de um "Autor" (interpretado por Tom Wilkinson quando velho e Jude Law quando mais moço). Ainda usando a imagem da boneca russa, a trama é contada em várias camadas, começando pelo Autor em 1985, passando por Jude Law na década de 1960 e finalmente retrocedendo até a década de 1930, no período entre guerras. Cada época é filmada em uma proporção diferente (2.35: 1, 1.85:1 e 1.37:1), em boa e velha película cinematográfica com ótima direção de fotografia de Robert Yeoman (habitual colaborador de Wes Anderson).


A parte principal da trama se passa nos anos 1930, quando o "Grande Hotel Budapeste" estava no auge do luxo e clientela. M. Gustave (Fiennes) é responsável não só por manter o hotel funcionando impecavelmente como também atende às hóspedes mais velhas com uma atenção especial; "Eu durmo com todas as minhas amigas", diz ele em dado momento. Uma das suas conquistas é a Madame D. (uma irreconhecível Tilda Swinton), que morre de forma misteriosa e deixa um quadro de valor inestimável a Gustave. Isso causa a ira do filho da Madame D., Dimitri (Adrien Brody), que conspira para enviar M. Gustave para uma prisão de segurança máxima, de onde ele vai tentar escapar com a ajuda de seu protegido, um mensageiro do hotel chamado Zero (o ótimo estreante Tony Revolori). É praticamente impossível falar muito sobre a trama, que envolve regras de etiqueta, o crescimento de uma nação fascista na Europa, honra entre ladrões, um elaborado plano de fuga e uma série incrível de personagens secundários. O elenco impressiona, com papéis coadjuvantes interpretados por nomes como F. Murray Abraham, Mathieu Almaric, Jeff Goldblum, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Edward Norton, Bill Murray, Bob Balaban, Saoirse Ronan, Léa Seydoux, Jason Swartzman, Owen Wilson e vários outros atores.

É um filme de Wes Anderson, o que significa qualidade técnica impecável, quase obsessiva. A direção de arte é brilhante, fazendo bom uso de locações reais (filmadas na Alemanha e Polônia), estúdio e cenas de efeitos especiais envolvendo miniaturas e animação. A trilha sonora de Alexandre Desplat vai mudando e se adaptando praticamente a cada plano, acompanhando a narração. Wes Anderson tem tanto admiradores quanto detratores, e com este filme não vai ser diferente. Para mim, "O Grande Hotel Budapeste" é seu melhor filme, impecavelmente bem feito, divertido e inventivo ao extremo.

Câmera Escura

domingo, 22 de junho de 2014

Como Treinar seu Dragão 2

Esta continuação do sucesso da DreamWorks Animation de 2010 segue a tradição de que, como em "Star Wars", o segundo filme de uma série deve ser mais sombrio do que o primeiro. "Como Treinar seu Dragão 2" faz isso e muito mais. Quando escrevi sobre o primeiro filme, há quatro anos, disse que "o fato de ser um filme infantil impede que a ameaça dos dragões seja levada muito a sério pelo espectador, já que ninguém morre ou mesmo fica muito ferido nos ataques". Isto não é mais verdade. "Dragão 2" ainda é um filme infantil, bastante colorido, com várias piadinhas e uma corrida aérea inicial que lembra os jogos de quadribol da série Harry Potter; mas o nível de realismo foi elevado, tanto técnica quanto narrativamente.

É um prazer ver o nível de detalhes empregado na criação dos personagens e na iluminação dos cenários. O diretor de fotografia Roger Deakins novamente aparece nos créditos como consultor, e a iluminação desta animação é das melhores já vistas em uma computação gráfica. O 3D é usado com sabedoria e, felizmente, para realmente ampliar a sensação do espectador, e não como um artifício forçado para cobrar um ingresso mais caro. (leia mais abaixo)


Há também um aprofundamento muito maior nos personagens. O diretor/roteirista Dean DeBlois traz Soluço como um jovem de 20 anos que, após revolucionar a relação entre homens e dragões no primeiro filme, agora enfrenta uma nova ameaça; um vilão chamado Drago pretende escravizar todos os dragões e atacar a vila de Berk, onde moram Soluço e seus companheiros. O pai de Soluço, o teimoso Estoico, quer enfrentar o problema da forma Viking, ou seja, partir para o ataque. O rapaz, como sempre, discorda do pai e parte com Banguela para tentar uma solução diplomática. Ele encontra pelo caminho muito mais do que esperava, na forma de uma figura do passado, uma mulher chamada Valka que, assim como ele, também é amiga dos dragões. Há uma pitada de Hayao Miyazaki, o mestre animador japonês por trás de clássicos como "Princesa Mononoke" e "Vidas ao Vento", na personagem de Valka. A cena em que ela surge através das nuvens, mascarada e montada em um dragão, é puro Miyazaki. Pode-se perceber também uma influência japonesa no tom ecológico do filme e no design de um "dragão alfa" que vive em um santuário no meio do gelo. E quem diria que um blockbuster infantil se daria ao trabalho de criar uma longa e calma sequência romântica entre dois amantes do passado?

Claro que tudo termina em uma grande cena de luta, mas DeBlois a conduz com muita competência. Há uma grande dose de ambição na sequência em que dois dragões alfa, gigantescos, lutam ao fundo do cenário enquanto pequenas figuras humanas combatem em primeiro plano. Uma cena de sacrifício pode chocar as crianças (e adultos) presentes, mas isso só mostra como esta série evoluiu.

Assim, "Como Treinar seu Dragão 2" é bastante superior ao primeiro filme e um grata surpresa. Para ser visto em 3D, na tela grande do cinema.

sábado, 14 de junho de 2014

No limite do amanhã

"No Limite do Amanhã" usa uma variação da mesma premissa da comédia "Feitiço do Tempo" (Harold Ramis, 1993) e a transporta para uma aventura de ficção-científica. O que aconteceria se uma pessoa, ao morrer, voltasse sempre para o mesmo momento no tempo? Ela poderia fazer algo diferente ou estaria fadada a repetir tudo? Esta é a situação em que se encontra o Major Cage (Tom Cruise, do inferior "Oblivion"), um assessor de imprensa do exército que é enviado para a linha de frente por um general cruel. Cage não tem treinamento militar e, bem ao estilo "Dia D" (a invasão da Normandia, no final da 2ª Guerra Mundial), é despejado em uma praia vestindo uma armadura robótica tendo que combater centenas de aliens que vieram conquistar o planeta. Despreparado, Cage morre em poucos minutos, apenas para se ver vivo novamente no dia anterior à invasão; o ciclo se repete infinitamente, para desespero do Major, que Tom Cruise interpreta muito bem.

Tudo muda quando ele interage com uma heroína de guerra chamada Rita (Emily Blunt, de "Looper"), que lhe revela que ela também havia passado por isso. Cruise passa a se encontrar com Rita a cada reset e, aos poucos, vai treinando para se transformar em um soldado experiente. Eles têm que descobrir onde é que o "cérebro" dos aliens está escondido, para destruí-lo e vencer a guerra. Assistir a "No limite do amanhã" acaba se tornando muito similar a se jogar videogame. Os personagens conseguem chegar até certo ponto da história, quando morrem e voltam na "jogada" seguinte, mais experientes e sabendo o que vão encontrar pela frente. O diretor Doug Liman (especialista em filmes de ação como "A Identidade Bourne") faz um bom trabalho em explicar a trama e em conseguir filmar as mesmas situações, repetidas dia após dia, de forma ligeiramente diferente. (leia mais abaixo)


Há momentos em que você acha que Cage está passando por uma experiência pela primeira vez, até que ele acaba revelando que já passou por aquilo antes. A relação dele com a personagem de Emily Blunt é delicada, porque ele passa a conhecê-la intimamente e querer protegê-la, enquanto que, para ela, Cage é um estranho a cada vez que ele volta. Outro filme de ficção-científica recente, "Contra o Tempo" (de Duncan Jones) também explorava esta situação.

Uma pena que as sequências finais sejam pouco inspiradas e, francamente, não fazem muito sentido. Um ataque final ao esconderijo dos aliens seria muito mais inteligente se fosse feito de surpresa; ao invés disso, preferiram fazer uma explosiva (e impossível) cena de ação. Apesar de tudo, "No limite do amanhã" é inventivo e inteligente. Tom Cruise, apesar de já aparentar ser um cinquentão, ainda consegue levar um filme de ação nas costas sem problemas.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

O novo filme dos "X-Men" tem um pouquinho de tudo: um futuro distópico e sombrio que lembra "O Exterminador do Futuro" e a série "Matrix"; viagens no tempo para tentar mudar a História; robôs gigantes em batalhas apocalípticas e muitas referências à cultura pop, como uma TV exibindo um episódio da série clássica "Jornada nas Estrelas" ou um mutante usando uma camiseta do Pink Floyd. É recomendável que o espectador faça uma retrospectiva da série "X-Men" e os filmes do Wolverine antes de entrar no cinema, com o risco de se perder tentando lembrar como é que o Professor Xavier (o grande ator britânico Patrick Stewart, quando velho, e James McAvoy quando novo) está vivo ou em que estágio de evolução estão as garras de Logan (Hugh Jackman, cada vez mais musculoso).

"X-Men: Dias de um Futuro Esquecido" traz de volta à  série o diretor Bryan Singer, que fez os primeiros dois filmes e saiu para fazer uma versão de Superman que foi desprezada pelos fãs ("Superman: O Retorno", 2006). "X-Men 3: O Confronto Final", dirigido por Brett Ratner, também não agradou muito, o que não impediu que a franquia continuasse lucrativa. "Dias de um Futuro Esquecido" é, ao mesmo tempo, empolgante e uma bagunça, juntando o elenco da série original com os atores novos vistos em "X-Men: Primeira Classe" (2011). A premissa: em um futuro indeterminado, humanos e mutantes se tornaram escravos dos Sentinelas, robôs gigantes que foram criados originalmente para destruir os mutantes, mas acabaram atacando toda a humanidade. O Professor Xavier (Patrick Stewart) se une ao vilão Magneto (Ian McKellen, de "O Hobbit") e, com a ajuda de uma mutante interpretada por Ellen Page, envia a mente de Wolverine para o ano de 1973; a missão dele é impedir que Mística (Jennifer Lawrence, de "Trapaça") mate o futuro criador dos sentinelas, Trask, interpretado por Peter Dinklage, o Tyrion Lannister de "Game of Thrones". Se você se lembrou da trama de "O Exterminador do Futuro", não foi o único. (leia mais abaixo)


Singer se diverte em recriar o início dos anos 1970, com sua moda cafona, músicas de "paz e amor", Richard Nixon, a Guerra do Vietnã, etc. O jovem Magneto (Michael Fassbender, de "12 Anos de Escravidão", "Shame"), acredite se quiser, está preso no subsolo do Pentágono por supostamente ter matado o presidente John Kennedy (de que outra maneira se poderia explicar aquela bala em ziguezague que matou o presidente?). Esta mistura entre fatos históricos e ficção funcionam melhor neste filme do que em "Primeira Classe", que lidava com a Guerra Fria e a crise dos mísseis em Cuba. Hugh Jackman, o único elo de ligação entre passado e futuro, tem que tentar lidar com um desiludido Charles Xavier (McAvoy), viciado em uma droga que permite que ele volte a andar, mas fique sem os poderes telepáticos. Fassbender está muito bem (como sempre) no papel do megalomaníaco Magneto, capaz de levantar até um estádio de beisebol com seus poderes.

O mote da viagem no tempo quase sempre gera boas histórias. É fascinante imaginar se seria possível mudar o passado ou a própria história (ou a História). O problema são os paradoxos temporais (um homem poderia voltar no tempo e impedir seu nascimento? Se sim, quem voltou ao passado para fazê-lo?), mas este filme não está tão preocupado com eles. O que fica claro é que Bryan Singer usou do artifício das mudanças temporais para, de forma não muito sutil, dizer que "X-Men 3" não aconteceu (o que é boa notícia para a maioria dos fãs). Não chega a ser um reboot, mas "Dias de um Futuro Esquecido", assim como os "Star Trek" de J.J. Abrams, cria uma linha do tempo alternativa em que tudo é possível (inclusive dizer que todos os outros filmes da série, exceto "Primeira Classe", não aconteceram). Há boas sequências que fazem um diálogo entre as duas épocas (como um ataque dos Sentinelas); outras, como o ataque no início do filme, são editadas de forma confusa. "Dias de um Futuro Esquecido" foi bem recebido nas bilheterias, o que significa que a série tem futuro garantido no cinema.

Câmera Escura

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O que os homens falam

Você, provavelmente, vai ver este filme por causa de Ricardo Darín, o incansável ator argentino de filmes como "O Segredo dos seus Olhos", "Um Conto Chinês", "Elefante Branco", entre outros. Apesar de Darín estar em destaque no pôster de "O que os homens falam" (e eu ter escolhido uma foto com ele para ilustrar este texto), esteja avisado que Darín aparece apenas em uma das várias histórias contadas por este filme episódico.

Dirigido por Cesc Gay e passado em Barcelona (embora longe dos pontos turísticos), o filme é composto por uma série de histórias independentes, todas tratando da condição masculina no século 21. Como todo filme episódico, há histórias que gostaríamos de ver melhor desenvolvidas e outras que poderiam ser mais curtas. O filme é de 2012 e chegou a passar na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas está estreando apenas agora. Nos episódios, homens quarentões tentam resolver seus problemas, geralmente envolvendo mulheres. Javier Cámara leva o filho de volta ao apartamento da ex-mulher e, aos poucos, tenta dizer a ela que se arrependeu da separação (ele a havia traído com uma enfermeira) e quer voltar. No episódio com Darín, um amigo o encontra sentado em um banco de praça, olhando para um prédio; ele havia seguido a mulher, Laura, que o está traindo. Ele sabe que o casamento está perdido mas ainda tem esperanças de reconquistar a mulher. Apresenta vários problemas físicos, como náuseas e dores de cabeça. "São os cornos", diz ele, filosófico. Em outro episódio, Eduardo Noriega, um homem casado, tenta conquistar uma companheira de trabalho e, a princípio, parece que ele está se dando bem. Até que ela o manda esperar no banheiro da firma. No episódio com Leonor Watling (que fez "Fale com Ela", de Pedro Almodóvar), duas esposas conversam com o melhor amigo do marido delas, fazendo revelações chocantes. A cena em que os dois finalmente se encontram é sutilmente engraçada. (leia mais abaixo)


É bem feito e bem interpretado, com toques corretos de humor e drama. Ser apenas "correto", no entanto, não é dos melhores elogios que se pode fazer a um filme. É muito superior ao horrendo e machista "Os Infiéis", outro filme episódico sobre o universo masculino estrelado por Jean Dujardin. "O que os homens falam" tem momentos bem observados tanto sobre homens quanto mulheres. Todos parecem viver à base de antidepressivos ou algum outro tipo de droga (cigarro, bebida). Fidelidade é um conceito bastante flutuante, e a carência é grande. Curiosamente, os homens não têm sequer nomes (o site do imdb os lista apenas com letras), enquanto que as mulheres, sim. A fila, como se diz, anda, e todos(as) estão assustados com isso. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

domingo, 18 de maio de 2014

Godzilla

O primeiro filme do monstro Godzilla foi lançado há 60 anos. O Japão havia sido devastado pela 2ª Guerra Mundial, tendo sofrido dois ataques nucleares, em 1945. Menos de dez anos depois o diretor Ishiro Honda lançou "Godzilla", que contava a história de um monstro acordado por um explosão nuclear. Ele fez tanto sucesso que gerou uma série de quase 30 filmes, inclusive uma versão americana (universalmente detestada) dirigida por Roland Emmerich ("Independence Day", "2012", "O Dia depois do Amanhã") em 1998.

Apesar do lagartão ter protagonizado alguns filmes japoneses neste novo milênio, era inevitável que Hollywood acabasse tentando novamente, o que aconteceu agora no aniversário de 60 anos do monstro. O responsável pelo filme é o diretor britânico Gareth Edwards, um garoto prodígio dos efeitos especiais que fez um longa metragem (chamado "Monstros"...claro) em 2010 em que foi diretor, produtor, roteirista e responsável pelos efeitos visuais. O novo "Godzilla", sem mais delongas, é uma decepção. Uma brilhante campanha publicitária criou trailers cheios de suspense em que pouca coisa era revelada; alguns usaram até a música do romeno Gyorgy Ligeti (usada em "2001 - Uma Odisseia no Espaço") e a narração de J. Robert Oppenheimer (o criador da Bomba Atômica) para da um ar mais "sério" ao filme. Pouco se via do próprio Godzilla ou detalhes do roteiro.

(Atenção, o texto abaixo contém SPOILERS sobre o filme. Caso não queira saber detalhes, leia somente depois de vê-lo)


O filme que chega aos cinemas, no entanto, está longe das boas sacadas da campanha publicitária. A começar pelo fato de que Bryan Cranston (famoso pela série "Breaking Bad", mas que também esteve em bons filmes como "Drive" e "Argo") não só não é o protagonista como "desaparece" rapidamente, deixando o filme nas costas de Aaron Taylor-Johnson (de "Anna Karenina"). O vazio deixado pela morte precoce de Cranston é enorme e o filme cai nos clichês de sempre. Johnson é um soldado americano que precisa "voltar para a família" e, convenientemente, é um especialista em bombas, o que já deixa implícito como é que o filme vai terminar. Dois monstros chamados  de "Muto" causam destruição por onde passam e o exército quer tentar matá-los usando bombas nucleares, mesmo tendo sido alertados pelo personagem interpretado pelo japonês Ken Watanabe de que eles se alimentam de radiação. Ele tenta também convencer os americanos de que o melhor é deixar a "Natureza encontrar seu equilíbrio" na forma de Godzilla, um lagarto de centenas de metros de altura que, neste filme, não é o vilão que fomos levados a acreditar. Além disso, o diretor fica brincando de esconde-esconde com Godzilla e os monstros e, estranhamente, deixa de mostrar quase todos os confrontos entre eles, preferindo cortar para os personagens humanos, ainda mais superficiais que os bichões digitais, ou para reportagens na TV. Se a proposta ao menos fosse como a do (tremendamente superior) "Cloverfield", produzido por J.J. Abrams, em que o monstro era visto propositalmente apenas de relance, ainda daria para entender. Do modo como foi feito por Edwards, a opção não faz sentido. E como explicar que a explosão de uma bomba nuclear na baía de São Francisco não cause a morte de toda a cidade?

Bons atores como David Strathairn, Ken Watanabe, Sally Hawkins (de "Blue Jasmine") e Juliette Binoche estão desperdiçados em personagens patéticos ou clichês, e Aaron Taylor-Johnson (que mantém a mesma expressão facial o filme todo) simplesmente não tem carisma para segurar a trama sozinho. O filme (ruim) de 1998, ao menos, sabia se divertir com as próprias falhas.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Praia do Futuro

"Praia do Futuro" é composto por uma série de belíssimas imagens e boas interpretações, mas resultando em um todo muito menor do que as partes. É um filme de momentos. De cenas estilizadamente masculinas mostrando um grupo de bombeiros treinando na praia. Ou de cenas tocantes de dois amigos/amantes enfrentando, como dois garotos, a arrebentação do mar em uma costa rochosa. Do contraste entre paisagens escaldantes, sob o Sol nordestino, e gélidas cidades alemãs.

Dirigido por Karin Aïnouz (de "O Céu de Suely", "Viajo porque preciso, volto porque te amo"), "Praia do Futuro" é melancólico e bem intencionado, embora caminhe bela e lentamente para...lugar nenhum. Vai ficar conhecido como o "filme gay do Wagner Moura" e, de fato, há várias cenas de sexo e nudez entre Moura e o ator alemão Clemens Schick ("Cassino Royale"), mas não se deve reduzir o filme só a este aspecto. Dividido em três capítulos, é uma co-produção entre Brasil e Alemanha. Na primeira parte, chamada "O Abraço do Afogado", Wagner Moura ("Elysium", "Tropa de Elite") é Donato, um salva-vidas que trabalha na "Praia do Futuro", no litoral cearense. Durante uma tentativa de resgate, ele não consegue salvar um estrangeiro de morrer afogado. O companheiro do morto, Conrad (Schick), não perde tempo e começa um tórrido relacionamento com Donato na mesma noite em que é comunicado do afogamento. (leia mais abaixo)



A segunda parte, chamada "Um herói partido ao meio", mostra Donato e Conrad sob o frio céu de Berlim, Alemanha. É a parte mais melancólica e, francamente, parada do filme. Há vários planos bem longos que mostram Wagner Moura sofrendo, quieto e olhando para o nada, em diversas paisagens da capital alemã. Conrad quer que ele largue tudo para trás e permaneça na Alemanha, mas Donato não sabe o que fazer. Isso é mostrado em meia dúzia de diálogos (o filme é bem silencioso) e muitas imagens contemplativas, em que Moura é visto pensando na vida, ou naquele tipo de cena bem clichê em que o protagonista é visto dançando loucamente em alguma casa noturna. É necessária paciência para passar por esta segunda parte.

O que nos leva à terceira, "Um fantasma que fala alemão", que, sob muitos aspectos, se parece mais com o começo real do filme. Por volta de dez anos depois dos acontecimentos da segunda parte, o irmão de Donato, Ayrton (Jesuíta Barbosa), chega à Berlim à procura dele. Há outra bela cena, visualmente falando, em que Ayrton vê Donato trabalhando dentro de um gigantesco aquário marítimo, e os dois têm um encontro explosivo no elevador. O conflito entre os dois irmãos é o momento mais realista e honesto do filme, e talvez até explique um pouco toda a letargia anterior. O que não significa que o filme consiga se resolver até o final. O que quer Donato? O que quer "Praia do Futuro"? Não sabemos. Enquanto isso, podemos desfrutar da bela fotografia de Ali Olay Gözkaya enquanto os personagens pilotam motos, na neblina, em direção do horizonte. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

sábado, 10 de maio de 2014

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro

O que a Marvel tem feito nos últimos anos, com esta longa série de filmes baseados em seus super-heróis, é aplicar uma mentalidade de quadrinhos em um meio cinematográfico. É bem comum no mundo das HQs que personagens vivam múltiplas linhas do tempo, com trajetórias diferentes, mortes, novos começos, realidades paralelas, etc. Os filmes de Sam Raimi sobre o Homem-Aranha nem haviam esfriado e o estúdio lançou um reboot há dois anos, substituindo o "chorão" Tobey Maguire por Andrew Garfield ("A Rede Social") e iniciando uma nova franquia. O filme não era ruim, mas era redundante, contando novamente a já batida história da origem do Homem-Aranha.

A continuação lançada agora, livre de ter que estabelecer novamente a origem do herói, começa com a ação em pleno vapor. Os efeitos especiais transformaram o aracnídeo em um verdadeiro acrobata, que voa por entre os prédios de Nova York fazendo piruetas, contando piadinhas para os pedestres e batendo papo com o vilão (um desperdiçado Paul Giamatti), ocupado em roubar uma carga de plutônio de um caminhão em movimento. Peter Parker chega atrasado à própria formatura (apesar de Garfield já ter 31 anos e aparentar a idade), onde é aguardado pela bela namorada Gwen Stacy (Emma Stone). Garfield e Stone são a melhor coisa nestes novos filmes dirigidos por Marc Webb ("500 Dias com Ela"). O casal é bem melhor do que a indecisa dupla Parker/MJ de Tobey Maguire e Kirsten Dunst dos filmes de Raimi. O problema é que os altos e baixos da relação entre os dois são muito abruptos e os problemas deles parecem mais uma invenção dos roteiristas do que algo a ser levado a sério. De qualquer forma, há cenas genuinamente tocantes entre Parker e Stacey, principalmente em um final surpreendente (para quem, como eu, não conhece a mitologia dos quadrinhos) e tocante. (leia mais abaixo)


E, claro, há os vilões. Jamie Foxx ("Django Live") é "Electro", um homem-elétrico criado (assim como o Aranha) acidentalmente pela maligna empresa "Oscorp". Foxx passa metade do filme com um penteado ridículo e a outra metade como um efeito especial, mas consegue fazer um bom trabalho. Quem está melhor é Dane DeHaan, que interpreta Harry Osborn, um rapaz de 20 anos que herdou do pai (uma aparição rápida de Chris Cooper) tanto as empresas "Oscorp" quanto uma doença degenerativa que pode ser fatal. Osborn acredita que sua cura pode ser encontrada no sangue do Homem-Aranha, que não está muito interessado em doá-lo. O filme tem pelo menos 30 minutos a mais que o necessário (o que aconteceu com os filmes de 90 a 120 minutos de antigamente?), tempo dedicado a vilões aleatórios e cenas criadas apenas para fazerem sentido nos próximos capítulos da "saga".

Confesso que esperava um filme muito pior e, talvez por isso, o tenha apreciado mais do que ele mereça. O fato é que há um filme muito melhor dentro deste, esperando a chance de aparecer mas enterrado em cenas descartáveis de ação e efeitos especiais.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Divergente

"Divergente" tem duas horas e vinte minutos de duração, tempo mais do que o suficiente para expor as premissas e desenvolvê-las. Então por que é que tudo tem que ser explicado à exaustão? Será que o público adolescente é assim tão incapaz de entender o que está se passando na tela sem que um narrador fique explicando tudo? Fora o fato de que o filme é baseado em mais uma franquia de livros juvenis, à exemplo de "Jogos Vorazes", o que torna estas explicações redundantes para a maioria da platéia.

Em um futuro não muito distante, Chicago foi devastada pela guerra e está separada do mundo exterior por um muro alto. A sociedade, para sobreviver, se dividiu em cinco facções, Erudição, Amizade, Abnegação, Audácia e Franqueza. Cada uma destas facções preza uma virtude e se dedica a uma atividade, como agricultura, judiciário, serviços sociais, defesa, etc. As crianças nascidas dentro de cada facção passam, aos 16 anos, por um teste que vai determinar se elas continuam na facção da família ou se mudam para outra (Grifinóia, Sonserina... opa, franquia errada). Beatrice Prior (Shailene Woodley, de "Os Descendentes") nasceu na Abnegação, mas seus olhos brilham quando ela vê os musculosos, vibrantes e alegres membros da Audácia correndo na rua. Sinceramente, é meio difícil imaginar qualquer adolescente que não gostaria de fazer parte da Audácia, levando uma vida de aventuras, ao invés de plantar batatas com o pessoal da Amizade. De qualquer forma, depois do teste os jovens ainda passam por uma cerimônia de Escolha, onde os escolhidos de cada facção vão lutar nos Jogos Vorazes...ou melhor...cada adolescente, independente do resultado do teste, escolhe a facção em que deseja passar o resto da vida. Mesmo em um mundo em que todas as pessoas que você conhece moram em uma única cidade e todos se beneficiariam de um contato maior, as leis deste mundo distópico ditam que os adolescentes fiquem privados da companhia da família e amigos para sempre, caso resolvam mudar de facção. (leia mais abaixo)



Beatrice, claro, é diferente dos outros, e seu teste mostra que ela é uma "Divergente", uma pessoa que não se encaixa perfeitamente em nenhuma das facções. Ou seja, ela é uma adolescente normal, mas neste mundo ser "divergente" pode ser um problema, já que os membros da Erudição vêem com maus olhos qualquer um que tenha um comportamento diferente. Ela escolhe a turma da Audácia, muda o nome para "Tris", e tem que lidar com os abusos do cruel líder da facção, Eric (Jai Courtney), e a atenção do misterioso e atraente "Quatro" (Theo James).

O filme é baseado na obra da escritora Veronica Roth e é o primeiro de uma nova série cinematográfica adolescente. A direção é de Neil Burger, que tem no currículo o interessante "O Ilusionista" (2006), mas que aqui se limita ao básico. "Divergente" tem um visual inventivo e efeitos especiais corretos. Os jovens atores, em especial Shailene Woodley, não fazem feio e têm algum carisma. A trilha sonora é tão genérica que os créditos dizem apenas que ela foi "supervisionada" por Hans Zimmer. O ritmo é desnecessariamente lento, resultado da necessidade do roteiro de explicar tudo dezenas de vezes. Kate Winslet faz uma participação especial (gravada em uma semana) em que ela se limita a andar pelo cenário com uma expressão fria e um sinal de "vilão" flutuando sobre a cabeça. Tudo resulta em um confronto final confuso e mal conduzido por Burger e equipe. Woodley tem uma boa cena de perda em que consegue expressar alguma emoção, mas logo tudo é engolido pela correria e explosões previsíveis. Como é uma obra em aberto, o final é genérico, com mais narrações e perguntas a serem respondidas nos próximos filmes, o que enfraquece ainda mais o roteiro. Onde é que estão os bons filmes com começo, meio e fim?

Câmera Escura

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Side by Side

Quando estava filmando "Zodíaco" com David Fincher, Robert Downey Jr. resolveu fazer um protesto. O fato do filme estar sendo captado em digital significava que não havia mais as pausas comuns em sets de filmagem para recarregar as câmeras com os rolos de filme, e Fincher fazia os atores trabalhar por 14 horas seguidas. Downey Jr. começou a urinar em potes de vidro e espalhar pelo set, para mostrar que ele precisava parar de vez em quando.

Esta é uma das boas histórias ouvidas no ótimo documentário "Side by Side" ("Lado a Lado", não lançado no Brasil), uma investigação feita pelo ator Keany Reeves sobre uma mudança de paradigma na produção cinematográfica, de película para digital. Por um século, filmes foram feitos usando a película cinematográfica de 35mm (ou, em algumas ocasiões, de 16mm ou 65mm), o que tinha vantagens e desvantagens. A película funciona através de um processo fotoquímico; a luz passa pelas lentes da câmera e impressionam uma tira de filme coberta com material sensível. O filme, depois de exposto, tem que ser revelado (em negativo) e impresso em uma cópia positiva, que era assistida pelo diretor e equipe apenas no dia seguinte às filmagens. A qualidade é excelente, mas o processo é caro e só o Diretor de Fotografia era responsável pela captação das imagens.

No digital a imagem é capturada por um chip eletrônico que, no início, tinha qualidade muito inferior à película cinematográfica, mas havia algumas vantagens; as câmeras digitais são menores, mais leves e portáteis que as pesadas câmera de cinema. Também é possível gravar tomadas com até quarenta minutos de duração (ao contrário dos dez minutos, no máximo, de uma câmera de cinema). Diretores como David Lynch e Danny Boyle contam como isso lhes deu enorme liberdade para lidar com os atores, que podiam interpretar longas cenas sem ter que ficar esperando que as câmeras de cinema fossem recarregadas. Já Christopher Nolan diz que os atores e a equipe não conseguem ficar concentrados por tanto tempo e precisam de uma pausa técnica de vez em quando.


Keanu Reeves explora esta mudança de película para digital não só na captação das imagens, mas também na edição e pós-produção. Até a década de 1990 os filmes eram montados manualmente; os editores trabalhavam diretamente com a película em grandes máquinas chamadas "moviolas". Martin Scorsese conta como as pontas dos dedos chegavam até a sangrar de tanto se cortar e colar pedaços de película com as mãos. Tudo mudou com a chegada de programas de edição como o Avid ou o Final Cut, que trabalham com uma versão digitalizada da película, que era escaneada e transferida para dentro do computador. Também os efeitos especiais, antes feitos com processos físicos caros e demorados, passaram a ser feitos digitalmente no computador. Com a captação das imagens feita em digital, todo este processo de digitalização da película não existe mais.

Scorsese levanta a questão de que, hoje, o espectador não sabe mais o que é "real" na tela. James Cameron, diretor de Avatar (que tem 3/4 das imagens criadas totalmente em computador) rebate dizendo que, no cinema, nunca se filmou a realidade. "O que é real?", pergunta ele a Keanu Reeves. "Há dezenas de pessoas em um set de filmagem, há um cara segurando o boom do microfone, há um técnico em cima da escada mostrando o traseiro. Nada disso é real". O surgimento de câmeras digitais especializadas em cinema, como a RED e a ARRI Alexa, aparentemente, enterraram de vez a película cinematográfica. "Eu tenho vontade de ligar para a película e dizer que conheci outra pessoa", diz Steven Soderbergh, que é um dos defensores do cinema digital. Há diretores como Steven Spielberg, Christopher Nolan, Zach Syder e Martin Scorsese, porém, que ainda trabalham com película, e vários filmes ainda são feitos em filme em Hollywood. Mas o fim da película é inevitável.

Tudo isso pode parecer técnico ou nerd demais para o espectador comum, mas o documentário levanta questões que interessam a todos. Esta mudança do analógico para digital não engloba só o cinema, mas praticamente tudo à nossa volta. Transações bancárias, divulgação de notícias, compartilhamento de música e várias outras coisas passaram por esta transformação e ainda não sabemos qual impacto isso terá no futuro. Um dos maiores problemas levantados por "Side by Side" é com relação à preservação desta enorme quantidade de material digital. Os filmes em película podem durar mais de um século. Qual a validade de um disco rígido de computador? O que vai acontecer com todos estes filmes digitais feitos nos últimos anos? Ou será que nada disso importa, e estamos vivendo em uma cultura descartável, que vai desaparecer em poucos anos? São questões importantes para entendermos o mundo de hoje.

Site oficial (o filme está disponível "on demand" apenas para os Estados Unidos, mas pode ser encontrado na internet)


domingo, 13 de abril de 2014

Capitão América 2 - O Soldado Invernal

Eis que o Capitão América, que teve um primeiro filme simpático e bastante tranquilo, retorna em uma aventura de ação de tirar o fôlego. Steve Rogers (Chris Evans), o soldado americano que ficou congelado desde a 2ª Guerra Mundial e é o protótipo do "bom moço", volta nesta continuação quase como um Jason Bourne vestido de vermelho, azul e branco. Rogers se tornou soldado durante a última guerra "justa" da Humanidade, a 2ª Guerra Mundial, em que derrotar os nazistas era sinônimo de integridade e luta pela liberdade. Já este segundo filme embarca de cabeça na mentalidade pós guerras do Iraque e atentado de 11 de setembro. Nada é preto e branco e os interesses militares dos americanos no mundo são bastante discutíveis.

A aventura abre com uma operação de resgate em que o Capitão América e um grupo de soldados especiais retomam o controle de um navio da agência SHIELD invadido por piratas. Rogers desce primeiro e, armado apenas com seu escudo inviolável e as habilidades de um ninja, neutraliza uma dúzia de piratas com golpes de artes marciais. Ele e os companheiros conseguem salvar os reféns, mas a Viúva Negra/Natasha Romanoff (Scarlett Johansson, que já interpretou o papel em "Homem de Ferro 2" e "Os Vingadores") quase põe tudo a perder durante uma operação de transferência de dados dos computadores do navio. O Capitão América tem uma grande discussão com o líder da SHIELD, Nick Fury (Samuel L. Jackson), sobre um plano fascista da agência de colocar em órbita grandes naves armadas que assassinariam qualquer pessoa considerada uma "possível ameaça" à Humanidade. "Antigamente a pena capital era aplicada somente depois do crime", diz o Capitão América. É então que tudo começa a acontecer muito rápido. Fury (em uma cena de ação espetacular) sofre um atentado e o Capitão América é considerado fugitivo depois de um "acontecimento" (que não vou revelar para não estregar a surpresa). O grande ator veterano Robert Redford (de "Até o fim") interpreta um conselheiro da SHIELD chamado Alexander Pierce, que tem um passado com Nick Fury e motivações discutíveis. (leia mais abaixo)



E o tal "Soldado Invernal"? Para quem tem o nome no título do filme, ele aparece bastante pouco. É um assassino profissional que usa uma máscara, tem um dos braços mecânicos e um passado que envolve o Capitão América. Para um filme supostamente infanto-juvenil, "Capitão América 2 - O Soldado Invernal" é bastante violento, com provavelmente a maior quantidade de mortes mostradas na tela de todos os filmes da Marvel. Há uma cena em que Robert Redford mata uma pessoa desarmada à queima roupa, e mesmo heroínas como a Viúva Negra tem uma quantidade de mortes impressionante. O grande problema do filme, a meu ver, é comum a todos os filmes de super heróis: quão vulnerável (ou invulnerável) é o herói? Steve Rogers é visto caindo de prédios altos, atravessando paredes e redomas de vidro e sobrevivendo a explosões. No entanto, em vários momentos os inimigos tentam matá-lo com armas comuns e até mesmo facas. Ele pode realmente morrer com uma simples facada ou tiro? A qualidade da maioria das cenas de ação e luta é bastante alta, o que é incomum nos filmes do gênero. Outro problema é a pergunta que não quer calar: onde estão os outros Vingadores enquanto tudo isso está acontecendo?

É o melhor filme da Marvel até o momento? É uma pergunta válida. É melhor que as continuações desnecessárias do "Homem de Ferro" e que qualquer filme de "Thor" e "Hulk". É menos divertido, no entanto, que "Os Vingadores". "Capitão América 2 - O Soldado Invernal" surpreende favoravelmente e termina com várias questões em aberto a serem resolvidas nos próximos filmes da franquia.

Câmera Escura

sábado, 12 de abril de 2014

House of Cards (1ª e 2ª Temporadas)

"House of Cards" é pioneira de várias formas. Foi a primeira série produzida pelo canal Netflix (provedor de conteúdo na internet que cresceu a ponto de desafiar gigantes como a HBO). Foi também pioneira na forma de exibição; tanto a primeira temporada (em 2013) quanto a segunda (em 2014) foram tornadas disponíveis na íntegra para os assinantes da Netflix. A decisão, ousada, veio da constatação de que a maioria dos fãs de seriados gosta de fazer "maratonas" de episódios das suas séries preferidas, ao invés de esperar pela próxima semana. A série foi também criada de forma nova, a partir da análise dos hábitos dos assinantes da Netflix. O canal descobriu que o público alvo gostava do diretor David Fincher (de "A Rede Social", "Zodíaco", "Se7en") e do ator Kevin Spacey ("Se7en", "Os Suspeitos", "Beleza Americana"), e assim nasceu "House of Cards". A série é baseada em uma produção britânica e em um livro de Michael Dobbs. Kevin Spacey, além de atuar, é um dos produtores; em entrevista a Jon Stewart ele disse que a Netflix gostou tando da ideia que sequer pediu a produção de um episódio piloto, encomendando logo 26 episódios a serem divididos em duas temporadas.

ATENÇÃO SPOILERS, esteja avisado.

A série acompanha a jornada do congressista Frank Underwood (Kevin Spacey), um político tão ambicioso quanto traiçoeiro. A primeira cena de Underwood já mostra seu modo de ser, quando ele mata com as próprias mãos um cachorro que está agonizando na rua após ter sido atropelado. O que pode parecer um gesto nobre, na verdade, só mostra o lado cruel e pragmático de Frank. É também um prenúncio dos crimes que Underwood irá cometer durante a série (embora, a bem da verdade, este lado assassino demore a aparecer).

Esqueça o idealismo e patriotismo de "The West Wing" (1999-2006), série de Aaron Sorkin que também mostrava os bastidores da Casa Branca e da política americana. Em "House of Cards" ninguém é inocente. Há uma multidão de personagens, todos competindo por um pedaço do poder de Washington. Frank Underwood, em uma das melhores sacadas da série, frequentemente quebra a "quarta parede" e fala diretamente com o espectador, explicando suas motivações e nos transformando em cúmplices. Depois de algum tempo, Spacey apenas lança olhares significativos para a câmera, como que querendo dizer: "Eu não disse?".

A jornalista Zoe Barnes (Kate Mara)
A primeira temporada (2013) trata, além das maquinações de Underwood para subir aos altos escalões de Washington, de outras duas tramas: uma segue a carreira da jovem e ambiciosa repórter Zoe Barnes (Kate Mara, irmã de Rooney Mara, que trabalhou com David Fincher em "A Rede Social" e em "Os homens que não amavam as mulheres"). Barnes começa como estagiária em um jornal tradicional de Washington mas, aos poucos,  consegue atrair a atenção de Frank Underwood, que lhe vaza informações conforme sua conveniência. Em troca (repito, não estamos no mundo nobre de "The West Wing"), Zoe Barnes começa um relacionamento sexual com Underwood, um homem casado e com o dobro da idade dela.

Outra trama segue os passos de Pete Russo (Corey Stoll), um deputado democrata alcoólatra que cai na teia de Frank Underwood ao ser parado pela polícia de Washington. Russo estava bêbado e acompanhado de uma prostituta, mas é solto por influência de Underwood apenas para se tornar mais um peão nos jogos de Frank. Um dos pontos altos da primeira temporada (atenção, SPOILERS) é o "suicídio" de Pete Russo, engendrado por Frank Underwood. Com a morte de Russo, o vice presidente renuncia para concorrer ao governo da Pensilvânia, deixando livre o caminho para que Underwood se torne o vice presidente dos Estados Unidos da América.

A segunda temporada (2014) começa com um dos melhores episódios de toda série. Tão bom, na verdade, que o resto da temporada acaba empalidecendo em comparação. É neste episódio que acontece a morte mais surpreendente e inesperada de "House of Cards", quando Frank Underwood elimina Zoe Barnes em uma estação de metrô. A personagem de Kate Mara era aparentemente tão importante para a trama que o espectador jamais imaginaria que ela seria descartada de forma tão rápida e chocante. O problem é que, como dito anteriormente, a força do episódio é tão grande que o resto da temporada, que culmina com a chegada de Underwood à presidência da república, perde um pouco do brilho. A segunda temporada é marcada por embates entre Underwood e o único homem capaz de ficar (temporariamente) em seu caminho, o bilionário Raymond Tusk (o ótimo Gerald McRaney). Há episódios um tanto maçantes sobre disputas comerciais, subsídios para empresas de energia e uma crise crescente com a China. O presidente Garret Walker (Michael Gill) se mostra extremamente incompetente em lidar com todos estes problemas e se torna presa fácil para o plano elaborado por Underwood. Tudo culmina com um pedido de impeachment e uma ótima cena final, em que Frank entra no Salão Oval da Casa Branca como o 46º presidente dos Estados Unidos (sem ter recebido um único voto). É uma cena forte e com uma mensagem assustadora, embora um tanto exagerada, sobre as fragilidades da democracia.

Claire Underwood (Robin Wright)

Dois grandes parênteses devem ser feitos para os personagens de Claire Underwood (Robin Wright), a esposa de Frank, e seu capataz, Doug Stamper (Michael Kelly). Claire, interpretada com enganadora fragilidade e frieza por Robin Wright, é o porto seguro por trás de Frank. Conforme a série progride ficamos sabendo que, em vários aspectos, ela é tão ou mais perigosa quanto o marido. Ela tem consciência dos casos extra-conjugais de Frank e uma trama importante envolve o caso dela com um fotógrafo famoso. Na segunda temporada, grande parte da trama é dedicada a um estupro que ela sofreu na juventude, com repercussões no presente.

Já Doug Stamper é como um cão de guarda de Frank, responsável por orquestrar os bastidores e, geralmente, lavar a roupa suja deixada pelo chefe. Alcoólatra como Pete Russo, Stamper é frio, quieto e eficiente. Seu único ponto fraco é Rachel Posner (Rachel Brosnahan), a prostituta que estava com Russo quando ele foi preso. Stamper se sente atraído pela moça, mas não necessariamente de forma sexual. Como ela tem informações que podem causar a queda de Underwood, seria mais fácil se ela "desaparecesse" convenientemente, assim como Russo e Barnes. Mas Stamper prefere protegê-la, ao mesmo tempo em que mantém um perigoso jogo de poder com ela. A interpretação de Michael Kelly é soberba e Stamper é um dos personagens mais interessantes da série.

Uma terceira temporada de "House of Cards" já foi anunciada pela Netflix, com estréia para 2015. Resta saber se os produtores e elenco vão conseguir manter o alto nível conseguido até aqui.



Câmera Escura

domingo, 6 de abril de 2014

Noé

Atenção, esta resenha contém SPOILERS. E se você acha estranho um aviso destes precedendo um texto sobre um filme bíblico, você tem razão, mas  isto só serve para mostrar o quanto o novo filme de Darren Aronofsky é...singular. Todo mundo conhece, em linhas gerais, a "trama" de Noé.  Desconsolado com a própria criação, Deus resolve matar todos os seus filhos em uma grande inundação que assolou a Terra do Velho Testamento. Apenas a família de Noé e um casal de cada animal do planeta seriam salvos pela construção de um gigantesco navio, ou Arca, que sobreviveria à tempestade. Após o dilúvio, Noé e família seriam responsáveis pelo repovoamento do planeta. Tudo muito bem.

Como contar esta história para espectadores de cinema do século 21? "Noé" poderia ter sido um filme bíblico tradicional, heterodoxo e (provavelmente), muito rentável financeiramente. Ao invés disso, os produtores resolveram ousar já na contratação do diretor Darren Aronofsky, que tem uma das carreiras mais estranhas de Hollywood. Ele começou com filmes independentes como "Pi" (1998), fez um pesado filme sobre drogas, "Réquiem para um Sonho" (2000), afundou nas bilheterias com "Fonte da Vida" (2006), realizou um "filme de luta" tradicional, "O Lutador" (2008) e alcançou Hollywood e o povão em "Cisne Negro" (2010).

Aronofsky tem um sentido visual apurado e "Noé", sem dúvida, é interessante de se ver. O planeta habitado por Noé (Russell Crowe, de "Os Miseráveis") e sua família existe em um tempo dão distante que o Universo ainda era novo, e estrelas podiam ser vistas durante o dia. Uma narração conta a história da queda do Homem após comer o "fruto proibido" no Jardim do Éden, seguida da expulsão do paraíso e o assassinato de Abel por Caim (filhos de Adão e Eva). Este então teria se separado da família e criado uma legião de seguidores frutos do pecado e da ambição. Como é que Caim conseguiu procriar sem que houvesse nenhuma outra mulher no planeta além da mãe, Eva, é algo que o filme (e a Bíblia), deixam de explicar. Mas esta é uma daquelas "falhas de roteiro" que já duram milênios e não sou eu que vou conseguir explicar. Mas Aronofsky parece querer fazer um filme "plausível", então a pergunta é válida. Noé sonha com o dilúvio e adivinha as intenções do "Criador" em destruir o planeta. Após consultar o avô, Matusalém (Anthony Hopkins, risivelmente parecido com o "Mestre dos Magos", da "Caverna do Dragão"), Noé começa a construção da Arca que salvaria os animais durante o "reboot" promovido pelo "Criador". (leia mais abaixo)


Há um detalhe que deixei para o final por ser, em minha opinião, a decisão criativa mais estranha (e errada) do filme. Noé é auxiliado tanto na construção da Arca quanto na sua proteção por criaturas chamadas de "Guardiões", que seriam anjos caídos na Terra e transformados em gigantes de pedra. Por mais fantasioso que o filme seja, fica difícil levá-lo a sério quando estes "Transformers de pedra" aparecem. Até a voz deles lembra os robôs dos (péssimos) filmes de Michael Bay. O que Aronofsky estava pensando? Ok, os "Guardiões" podem "explicar" como a Arca poderia ser construído; da mesma forma, quando os milhares de "filhos de Caim" (liderados por Ray Winstone) tentam invadir a Arca, os "Guardiões" têm a função de impedi-los. Tudo isso, no entanto, poderia ser explicado de outra forma, como o "poder de Deus", raios caindo do céu ou coisa parecida. Mas fica difícil segurar o riso ao ver "Samyasa" (até o nome parece de um robô japonês), um dos "Guardiões", pisando e despedaçando centenas de pobres coitados tentando chegar à Arca durante o dilúvio.

Há vários bons momentos (principalmente quando os "Guardiões" não estão visíveis), o elenco é sólido e Russell Crowe é imponente o suficiente para personificar um dos ancestrais míticos da Humanidade. As cenas que mostram os animais chegando à Arca são muito bem feitas (apesar do exagero nos efeitos digitais). E há uma maravilhosa sequência em que Russell Crowe conta aos filhos a história do "Genesis", ilustrada com visual deslumbrante, que merecia estar em um filme melhor.

Câmera Escura